sábado, 14 de agosto de 2010

CRÔNICA EM FOCO


Entre ser infeliz e indiferente, escolha a infelicidade!

Por Talita Guimarães

Não despertou. Foi acordada. Eram 6h da manhã e o despertador - que devia se chamar acordador - gritava aquele tique-taque inconveniente. Levantou-se sonolenta, desligou o aparelhinho e pôs os óculos. Enxergava o mundo relutantemente. Odiava acordar cedo e trabalhar. Odiava gente sorridente dizendo bom dia às 6h15, ao sentar-se a mesa de café. Odiava rádio ligado no noticiário cantando que estava na hora de ir embora. Odiava falar de manhã, quando queria estar dormindo ainda. Tinha raiva de não poder fazer o que queria, agradar as próprias vontades. Tinha consciência desse ódio silencioso que é a infelicidade. Sabia que era infeliz porque não via motivos em volta para ser feliz. E isso a inconformava. Silenciosamente, mas inconformava.

Cumpriu com o ritual matinal e seguiu para o trabalho. Antes disso, pelo menos dez minutos esperando o transporte coletivo e mais quarenta minutos dentro de um ônibus. Isso se tivessem sorte, se não parassem em algum engarrafamento pela cidade. Era nisso que ela lembrava assim que acordava. Dá pra ser feliz? Pois é. Mas isso era o que lembrava, da vivência cotidiana, prática diária.

Ao acordar, nem tudo era tão ruim. Porque ainda conseguia pensar além da vida imposta. Ao ser acordada, lembrava das atribuições do dia. Mas era ao pensar na vida que despertava. Acordava para o mundo, pensava em quem era e no que queria. E aí, cada passo dado era guiado por esses pensamentos, que não eram infelizes, mas resultados da inconformação com tanta imposição. Vivia naquele mundo que ditava todas as regras e sim, tinha que seguir algumas. Mas não porque quisesse de todo. Criticava, pensava contra e discordava, ainda que muitas vezes tivesse de se calar, fingir ser a favor e até concordar expressamente. Ía sendo levada quase que no vai da valsa. Mesmo que percebesse o ligeiro descompasso da banda, continuava lá no meio do salão, no dois-prá-lá, dois-prá-cá. Seria hipócrita? Talvez não. Hipócritas não sabem o peso do que dizem. Desconhecem a ação, a efetivação das palavras. São meros hipócritas. Ela não era bem assim. Estava lá no meio, vivendo aquilo que os outros queriam, mas ao mesmo tempo, morando longe, querendo reverter aquilo tudo.

A verdade é que tinha o pouco original desejo de mudar o mundo. E até nisso, era crítica de si mesma. Afinal, todos querem isso. E lamentava que poucos conseguissem. As falas misturadas de todos que diziam querer com a dos poucos que conseguiam confundia mais do que ajudava. E aí, perceber que estava sendo levada sem querer ir não mudava em nada a realidade que ainda tinha que ser vivida.

Foi quando surgiu a luz. Pensou nas palavras e no reflexo das ações. Em como estava isentando-se da ignorância dos que erram porque não sabem como é o certo. E isso era pior do que ser ignorante. Notar o descompasso e continuar dançando ao som de um ritmo imaginário é mais desonesto que errar os passos por ouvir a canção desafinada.

E foi assim que despertou naquele início de manhã. Pensou na vida, em quem era e no que queria. Enxergou detalhes. Procurou motivos para ser feliz naquele momento de infelicidade matinal e surpreendeu-se ao descobrir que ser feliz ainda não era possível. Foi quando percebeu que a infelicidade que sentia era apenas um estado, causado por uma inconformação angustiante. E o bom, para aquele contexto pessoal, era descobrir-se assim. Acordar para si e para o mundo. Pensar em si e se lembrar do mundo como consequência, afinal, esta a era sua casa e torná-la melhor era seu dever. Ser indiferente é desfavor de quem conhece o problema, mas teme a mudança gerada pela busca de solução. Sendo assim, preferia uma infelicidade passageira, combustível para querer mudar.

Foi assim que ela começou a mudar o mundo. Naquele início de manhã, agora dentro do ônibus. Para começar a mudar o que desagradava, abriu os braços e mediu o alcance da própria ação. Tocou uma idosa em pé e cedeu-lhe o lugar. Perdeu a ida confortável, mas ganhou um sorriso que talvez a muitos anos vivia adormecido em um rosto sofrido. E aí sorriu por dentro: o mundo já não é o mesmo. Esta senhora sorri.


Algumas dicas do Ensaios em Foco para ler, assistir e mudar o mundo!

- "O fabuloso destino de Amélie Poulain" (filme)
- "Os Miseráveis" - Victor Hugo (livro e filme)
- "As Valsas Invisíveis" - Eduardo Trindade (livro)
- "Até que ponto, de fato, nos comunicamos?" - Ciro Marcondes Filho (livro)
- "A cor da ternura" - Geni Guimarães (livro)
- "O sonho de um homem ridículo" - Fiódor Dostoiévski (livro)
- "Para tão longo amor" - Álvaro Cardoso Gomes (livro)

4 comentários:

Í.ta** disse...

esse da amélie poulain é lindo por demais! genial!

gosto dessas tuas escritas mais longas, em que vais desenvolvendo pensares em meio à narrativa.

beijos!

Talita Guimarães disse...

Olá, Ítalo!

obrigada pelo comentário! Que bom que gostas das crônicas!

De fato, "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" é genial! Faz pensar que a vida inspira quando reparamos na beleza dos detalhes. Muda o mundo porque ao abrir os olhos depois do filme, você já não o vê da mesma forma.

Acontece o mesmo quando leio Victor Hugo, Dostoievski e o amigo Eduardo Trindade.

abraços e continue conosco!

Anônimo disse...

podemos colocar no maranharte ???
Bis, bis, bis

Talita Guimarães disse...

Pessoal do Maranharte!!!!

claro que podem publicar! É sempre um prazer colaborar por lá também!

abraços e obrigada!