quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Mais Crônica em Foco


Lugar de ser feliz

por Talita Guimarães

Todos corremos atrás daquele sentimento grande e interminável que um dia, sonhamos, nos encherá de plenitude e fará nossos pés não sentirem o peso do corpo sob o chão. Ensinam a nós que este pode ser um dos tantos conceitos para felicidade.
Os motivos, variados, resultados de realizações. Pessoais, profissionais. Conquistas, concretização de grandes planos, realização de sonhos, ganhos inesperados, sentimentos compartilhados. Assim, cada um de nós, ao seu modo, junta resultados e credita ao todo formado o conceito de felicidade plena.

Muitos de nós conquistam sonhos aos poucos, curtindo pedaços de felicidade. Uma boa colocação profissional pode ser motivo de felicidade, mas se a pessoa ainda deseja uma família, a felicidade não está completa, pois falta o ser feliz no sonho pessoal.

E assim vamos seguindo, dizendo-nos infelizes, inconformados, insatisfeitos. Sempre há algo fora do lugar. Sempre há um pedaço de felicidade que falta para nossos pés finalmente soltarem o chão.

Também sou assim. Mas gosto de pensar além. Contra fatos, além fatos. Despertar para respirar cheiro de felicidade. Vislumbrar possibilidade. Aos poucos, amplio a visão que tenho de mim mesma para encontrar meu lugar de ser feliz. E nisso descubro o mundo. Preciso de tão pouco!...

Um passeio despretensioso, que se descobre passeio depois, por ter sido agradável. Um sorvete no fim do dia. Uma caminhada surpreendida por chuva fina. Se for temporal, que eu possa me abrigar em um lugar que dê pra ver a chuva juntar-se ao mar. Poderia ser rio. Tomar água de coco na parada de ônibus, vontade inesperada. Ler e ter tempo para refletir sobre a história ainda abraçada ao livro. Ouvir música no caminho para o trabalho e em meio a programação da rádio fechar os olhos para cantar mentalmente a canção preferida que toca de surpresa.

Coisas simples. Felicidade clandestina, dessa que surge como verdade interior e não pede explicação nem precisa ser gritada a plenos pulmões. Felicidade emocionada, que lava o rosto de lágrimas silenciosas. Minha felicidade pode vir da música ou da literatura. Emociono-me com escritores. Escrevo também e vivo meus personagens aprendendo com eles a ser um pouco mais de mim. Choro em palestras de autores queridos. Ouço suas palavras e fico feliz.

O mesmo se aplica a música. Gosto de ver quem descubra talentos nos outros e os ensine a manter o que tem de melhor para crescer com isso. Gosto de me encantar vendo e ouvindo esses talentos. Escrevo este texto no saguão de entrada do Teatro Artur Azevedo em São Luís-MA. Ouço secretamente o ensaio da Camerata Vale Música que vem de dentro do teatro. E aqui preciso contar que passei o dia com preocupações cotidianas, dessas que cegam a vista para detalhes e me faz mais infeliz ao me lamentar que uma apresentação musical dessas aconteça no horário de outros compromissos meus. Respiro fundo e brigo comigo amaldiçoando meu azar com programações culturais. Paro e me pergunto o que estou fazendo, pensando. Por que não?

Eis que surge a oportunidade. Ingressos na mão, chego ao saguão do TAA e sento-me uma hora e meia antes do concerto para aguardar. Puxo um livro da bolsa e tento ler aproveitando o silêncio da sala de entrada do teatro. Mas aí chega aos meus ouvidos o ensaio da flauta. Fecho os olhos e me chega junto ao som um ar novo para respirar. Encher os pulmões daquilo que parece grande e interminável e que nem em sonho, seria capaz de encher-me de tanta plenitude a ponto de fazer meus pés não sentirem mais o peso de meu corpo sob o chão.

Enfim, assistiria Marcelo Bratke acompanhado dos jovens talentos capixabas da Camerata Vale Música. Imaginem, vocês, se ainda no saguão, ao som do ensaio, eu já não sentia o chão, quem seria capaz de duvidar que minha volta para casa não seria flutuante, cantarolada brasileirissimamente pelas canções de Ernesto Nazareth?

Dito e feito. Ou melhor, sonhado e sentido. A apresentação supera o esperado. Ao fim, o presente: ganho das mãos do maestro Marcelo Bratke o cd da turnê, gravado ao vivo em 2009 no Auditório Ibirapuera em São Paulo. Ando pelo palco cumprimentando todos os músicos e desejando sucesso ao já lindo trabalho que desempenham. São Luís e eu aguardaremos o retorno para novas sessões de felicidade plena, em meios de semana, em meio a vida cotidiana.


Para saber mais sobre o maestro Marcelo Bratke acesse:

Notinha colorada: Ao chegar em casa, mais felicidade! Meu Inter é bicampeão da taça Libertadores da América! Parabéns, Inter! Como cantaria minha amiga coloradíssima Carol Rios "Abu Dhabi nos espera para começar a festa!".

2 comentários:

Mary Carvalho disse...

Falar de felicidade é sempre muito relativo, mas é quase certo que ela se encontra nas pequenas coisas. Basta uma mudança de olhar, não é verdade?
Gostei da crônica. ^^
Até!

Talita Guimarães disse...

Olá, Mary!

sim, é relativo porque cabe a cada um descobrir onde mora a própria felicidade. Por vezes, mudar a forma de olhar o mundo ajuda bastante.

Nessa crônica em especial, falo por mim. Enquanto aguardava pelo concerto, fiquei pensando no dia que tive e em como uma pausa para um teatro poderia salvar das preocupações cotidianas. É como deixar em suspenso mesmo.Parar para pensar que a vida não é só responsabilidades e cobranças e assim, desfrutar das oportunidades que surgem de repente.

Existe felicidade além realizações. Existem esses "lugarejos" de ser feliz em meio tanta correria. Basta estar atento para enxergar a "plaquinha" e seguir pela nova estrada que se abre.

Obrigada pela visita e pelo comentário!

abração!