segunda-feira, 22 de novembro de 2010

4ª FEIRA DO LIVRO DE SÃO LUÍS EM FOCO


Uma feira para flutuar


Por Talita Guimarães

Quem nunca ouviu falar na coleção “Para gostar de ler” talvez seja um alguém que não goste ou simplesmente não tenha um incentivador literário por perto. E aí, talvez tenhamos nesse alguém, um desconhecedor do maravilhoso universo da crônica, um insensível à poesia contida no dia a dia, um estranho ao contato com escritores. Ou talvez seja só alguém que não conheça tal coleção e até goste de ler, vez por outra, de vez em quando. Falo destes livros em especial apenas porque o título me parece emblemático. Talvez também porque eu goste de ler, adore o universo da crônica, leia o mundo em versos e seja completamente fascinada com o contato com artistas das palavras.

Começo assim, flutuando entre extremos, para falar da quarta edição da Feira do Livro de São Luís, que este ano aconteceu entre os dias 12 e 21 de novembro e esteve muito adequada a esta premissa do gostar de ler e ter os livros como portais do conhecimento. Assim como dizia o slogan que a feira festejou durante dez dias, palavras do maranhense José Louzeiro, patrono desta edição: “O livro é guia e instrumento da sabedoria”.

Em 2010, a FELIS chegou ao público com uma programação feliz, que potencializou a proposta do slogan proporcionando o contato gratuito com o conhecimento, afinal, nem só de comércio de livros vive uma feira. E quem teve o cuidado de desfrutar da programação de palestras, oficinas, peças, cafés e lançamentos aproveitou o melhor do evento, no contato com o conhecimento vivo através da conversa com autores, pesquisadores, professores e artistas. Aliás, vale comentar que a programação contemplou autores maranhenses e nacionais. Trouxe gente que falou com propriedade sobre literatura, educação, jornalismo e artes.

Quem teve a oportunidade de passar pela Praça Maria Aragão e adentrar o portal da feira, viveu momentos de flutuação literária. Entre livros, autores, tocador de realejo, declamadores de poesia ao pé do ouvido e sim, personagens – Emília e Visconde de Sabugosa saíram das páginas do Sítio do Pica-pau Amarelo para caminhar pela feira, distribuindo sorrisos e alimentando a imaginação.

Acompanhei cinco palestras e um café literário. Flutuei com Celso Antunes e a educação contada com ar de história; Fabrício Carpinejar e a frenética exposição de sua cronicidade; Airton Ortiz e as fantásticas viagens aventurescas que renderam livros e inauguraram o Jornalismo de Aventura no Brasil; Márcio Vassallo e a poesia inspirada em Mário Quintana; José Maria Nascimento e o comovente relato do poeta que viveu junto com Nauro Machado o tempo da boemia ludovicense e por fim Jô Dantas e a análise da obra de José Louzeiro com a propriedade de quem é mestre em Crítica e Teoria literária.

Caminhei pelo Espaço Cultural, onde estavam os estandes de livreiros e editoras, e explorei muitas estantes, vendo livro por livro e lendo orelhas, prefácios e trechos quando interessada. Apesar da ausência de promoções para os títulos originalmente caros, descobri pérolas da literatura maranhense e levei pra casa vários títulos de bolso de conteúdo inestimável a preços legais. Rebati a quem reclamou dos preços para os livros óbvios, que a feira é para descobrir relíquias e se deixar surpreender pelo novo.

Aliás, quem procura liquidação de best-seller em feira do livro está perdendo tempo. Precisa ser convidado com urgência a assistir palestras em que a professora Dinacy Mendonça esteja presente. Como na palestra “A obra de José Louzeiro” realizada no Auditório Maria Aragão pela Profª. Msc Jô Dantas, quando após a exposição fascinante dos elementos de jornalismo e literatura contidos na obra do patrono, Dinacy pediu a palavra para ressaltar a importância de o maranhense conhecer e reconhecer a literatura de sua terra e envolveu o público em uma exposição rápida dos literatos que nasceram por aqui e de quem devemos nos orgulhar.

Porque feira do livro é isso: encontro com o conhecimento sabendo que o livro é o instrumento, mas o ser humano é quem o torna guia. Por fim, volto ao “Para gostar de ler” e digo que a feira é para todos. Uma oportunidade ímpar para fazer flutuar quem gosta de livros e para ensinar a flutuar quem precisa aprender a gostar.


Frases desta edição:

“A palavra do professor queima mais do que fogo, corta mais do que faca” (Celso Antunes)

“Escutar é ouvir com nuance, ouvir com sensibilidade” (Celso Antunes)

“Vivo de pensar na vida. Acho que esse é um pouco do trabalho do escritor” (Márcio Vassallo)

“A gente não precisa ser poeta para viver em estado de poesia” (Márcio Vassallo)

“As crianças tem a capacidade muito irresistível de gostar de partes. Aquela parte do filme, aquela parte da história...” (Márcio Vassallo)

“A poesia ilumina os caminhos” (José Maria Nascimento)

“Estou aqui por amor à poesia!” (José Maria Nascimento)

“Quando você entra na narrativa, entra nas teias da ficção” (Jô Dantas)

“Literatura não se faz de nomes que um cânon impõe” (Jô Dantas)

“Sou muito preocupado com a fome que os perdedores enfrentam” (José Louzeiro)

“Meu compromisso é com os perdedores” (José Louzeiro)

“Devo tudo que sou a Maria Freitas” (José Louzeiro)

“Sou da terra de Arlete Nogueira da Cruz, José Louzeiro, José Ewerton Neto, Nauro Machado...” (Dinacy Mendonça)


Com parabéns à organização do evento, que nesta edição encontrou o tom da gestão atual e não decepcionou. Falhas acontecem, mas a 4ª Feira do Livro de São Luís será lembrada pelo mérito de ter abraçado o tema proposto com a consistência merecida.

Fotos da 4ª Feira do Livro de São Luís no dia 21.11.2010

Café Literário com José Maria Nascimento; o poeta autografa Os Portais da Noite para Caroline Rios enquanto eu (azul) e Talissa Guimarães (atrás do poeta) o admiramos.



No intervalo do Café Literário, José Louzeiro (esquerda) e Herbeth de Jesus Santos autografam livros





Jô Dantas apresenta estudo sobre a obra do patrono da 4ª FELIS, José Louzeiro



Grupo de teatro Gamar, da Cidade Operária, apresenta encenação lúdica no encerramento da feira.

sábado, 20 de novembro de 2010

MAIS FEIRA DO LIVRO EM FOCO


Flutuação literária

A programação do auditório José Louzeiro na 4ª Feira do Livro de São Luís deu continuação na noite de sexta-feira, 19, ao estado de flutuação literária no qual esta blogueira vem vivendo desde o encontro com Celso Antunes e Fabrício Carpinejar e o passeio pelas muitas estantes do Espaço Cultural.

Guiado pelas histórias dos escritores e jornalistas Airton Ortiz (RS) e Márcio Vassallo (RJ), eu e o público flutuamos entre as viagens de aventura em meio à vida selvagem contadas através de fotos e histórias de Ortiz e em seguida pelo universo infantil inspirado em Mário Quintana segundo palavras de Vassallo.

Pioneiro no gênero Jornalismo de Aventura no Brasil, Airton Ortiz já percorreu mais de 50 países em expedições que renderam onze livros sobre as aventuras, dez livros de reportagens e um de crônicas, além do romance Cartas do Everest e o álbum de fotografias Retratos da Terra.

Durante a conversa na feira do livro, o escritor, jornalista e fotógrafo gaúcho exibiu uma colagem de matérias e reportagens sobre suas participações na Feira do Livro de Porto Alegre e ainda trechos de entrevistas sobre as viagens radicais que fizera. Em seguida, apresentou uma sequência de imagens feitas durante as viagens à África – que rendeu os livros “Aventura no Topo da África” e “Na Trilha da Humanidade”- e contou sobre a experiência de integrar expedições em busca do contato com a vida selvagem e a cultura dos mais diferentes povos.

Ortiz passa na voz o entusiasmo pela aventura e dá dicas para quem tem interesse e curiosidade em torno do universo das expedições: “A gente tem muito que aprender com os animais selvagens. Antes disso, precisamos saber que eles possuem um ponto forte e uma fraqueza. Assim, temos que nos conhecer para saber qual a nossa habilidade e usá-la a nosso favor. E é a informação a arma mais poderosa do homem”. Além disso, o jornalista falou sobre a importância da leitura de mundo como aliada da leitura proporcionada pelos livros. “A gente estuda para conhecer o mundo no qual vivemos”. Nos livros, as pessoas encontram as informações que precisam para aprender a ler o mundo e as viagens ensinam muito. “A vida selvagem é maravilhosa para fazer leitura do mundo”.

Como parte integrante do processo de autoconhecimento – meditar, enfrentar situações de risco e ler – Ortiz destacou que a leitura faz com que o leitor viva a história assumindo o papel dos protagonistas. “A gente ri, sofre, chora com os personagens”, afirmou.

Por fim, o escritor viajante deixou ao público boas histórias das viagens, retratadas em belas imagens e grandes ensinamentos. Finalizou a palestra ressaltando a beleza e os contrastes entre as culturas descobertas em cada viagem e ensinou que leitura e a informação que transformamos em conhecimento é o nos faz “olhar [o mundo] capaz de perceber além das aparências”.

Logo na sequência, foi a vez do carioca Márcio Vassallo, autor da biografia de Mário Quintana, comandar com palavras e histórias a flutuação da noite. Infância, simplicidade e poesia. Três ingredientes mágicos para a viagem ao universo infantil da obra do autor gaúcho.

O escritor e jornalista falou da beleza contida na vida cotidiana e facilmente percebida pelas crianças e poetas. Vassallo comentou a não-ruptura do universo infantil durante o amadurecimento do ser humano e a chegada na vida adulta, e sobre o fato de nem todos conservarem o olhar poético da criança, defendeu que “não precisa ser poeta para viver em estado de poesia” o que significa “viver o dia a dia em constante estado de beleza”.

Autor dos livros infantis “A princesa Tiana e o sapo Gazé” (1998), “O príncipe sem sonhos” (1999), “A fada afilhada” (2001), “O menino da chuva no cabelo” (2005), “Valentina” (2007), “Da minha praia até o Japão” (2010), Márcio Vassallo chamou a atenção para a vergonha que os adultos têm de assumir a poesia e o universo infantil.

Vamos olhar a lua até gastar! – O irresistível convite é de Gabriel, filho de Márcio Vassallo, e contém em poucas palavras a simplicidade e beleza da poesia infantil. O ponto alto da palestra do escritor carioca ficou por conta do relato das peripécias do menino de 10 anos.

Observador da infância do filho, Vassallo comentou o quanto apreende poesia nas palavras e movimentos de Gabriel. Divertiu o público com o episódio das “criaturas da unha na cabeça”, aventura contra os monstros que dominaram a Terra e estariam chamando para o combate na sala da casa do escritor, tudo fruto da imaginação do menino em uma madrugada fria do Rio de Janeiro e emocionou ao confidenciar o quanto o garoto o salva todas as vezes que o envolve nas aventuras de sua imaginação. “A criança traz poesia, fantasia na veia”, falou o escritor, acrescentando que começa a fazer parte do universo do filho quando “participa contemplando-o, recuperando a capacidade de bastar contemplar e se assombrar com o cotidiano”.

Para encerrar, Márcio Vassallo propôs ao público o reencantamento do cotidiano, afinal “a poesia está em volta e a gente tem que ter a capacidade de ver e trazer isso pra nossa vida”.
Para saber mais sobre os autores, visite as páginas de Airton Ortiz e Márcio Vassallo na internet.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

FEIRA DO LIVRO EM FOCO

Quarta-feira na noite do livro

Adentrar o universo do conhecimento por meio dos livros. Do papel ao e-book. Através de todos os sentidos, de corpo e alma. Essa é a proposta da 4ª edição da Feira do Livro de São Luís. Abraçar o ser humano transformando-o em um leitor do mundo. “O livro é guia e instrumento da sabedoria”, diz o slogan de autoria de José Louzeiro, patrono da feira.

Não há como passar pela Praça Maria Aragão e não sentir o coração de leitor apressar o compasso. Chegar ao portal da feira e ser recepcionado por livros gigantes. A praça transformada numa grande biblioteca. Andar entre os estandes e não se encantar com o fantástico mundo da literatura é impossível. Você pode escolher como quer serembalado: tocador de realejo ou poesia ao pé do ouvido (fotos)? Difícil não se deixar embalar por tudo ao mesmo tempo.

Na noite da quarta-feira, 17, a flutuação literária a que esta blogueira foi submetida no auditório José Louzeiro ficou por conta de Celso Antunes e Fabrício Carpinejar. O paulista Antunes falou sobre educação, mas foi além. Levou o público para passear na narração encantadora de quatro grandes exemplos de práticas educativas.Despertou a reflexão em torno da questão: quanto vale um professor? Encantou a mim e creio que ao público presente, com seu modo de refletir sobre a educação infantil através da experiência que valoriza o ser humano. Em especial, conferiu grandeza à figura do professor. Com poesia e precisão, Celso Antunes falou da influência que a fala de um educador exerce na vida de todos nós: “A palavra do professor queima mais do que fogo, corta mais do que faca”. E seguiu chamando a atenção para o ensinar a escutar, para a sensibilidade que deve ser a marca do mestre. Defendeu a expressão do ato de magia contido no ensinar e no encanto que a verdadeira professora tem guardado na própria forma de envolver os alunos. Antunes resgata em sua fala a necessidade de todos nós darmos aos professores o sentido de dignidade e para isso, dispensam-se equipamentos, recursos e tecnologia como muletas e desculpas. Precisa-se apenas e unicamente do conhecimento e da perspicácia digna de um verdadeiro mestre, humano.

Para finalizar, Celso Antunes deixou a reflexão em torno do que se pode fazer em dez minutos. O que dá pra fazer nesse espaço de tempo? Constatou junto ao público que dez minutos é pouquíssimo tempo para fazer coisas bem elaboradas. “Não se prepara nesse tempo um jantar romântico”, exemplificou. “Mas, se dedicares dez minutos diários a leitura, no fim de um ano serás uma nova pessoa. Dez minutos e se compra uma nova vida”, disse por fim e ganhou longas palmas de legitimação.

O encantamento das palavras do mestre Antunes ainda pairava sob nós quando uma figura completamente exótica cruzou o auditório e sentou-se silenciosamente na poltrona destinada ao palestrante. Era Fabrício Carpinejar diante do público. Burburinho durante a apresentação do novo palestrante. Em seguida a platéia, predominantemente jovem, prendeu a respiração ao ver e ouvir Carpinejar levantar-se de um salto em direção ao público encarnando suas considerações sobre o “ser canalha”.

Enérgico, provocativo, inteligente e bem humorado, o cronista, poeta e jornalista gaúcho (e colorado! Olé!) andou pelo auditório, interagiu com o público, sentou no colo da fã e apertou a bochecha da colorada Caroline Rios (minha amiga que ao fim gravou com o escritor a ola de apoio ao Internacional pelo mundial de clubes!).





Mas alguém pergunta: sobre o que falou Carpinejar? Sobre um mundo de coisas e relações, sobre amar e ser amado, sobre paixões, vícios, qualidades e defeitos. Mas com o ar completamente original, que sempre levava o público a ver a crônica-Carpinejar em carne-viva. Porque ele é isso. Fabrício Carpinejar ao vivo é a união de todos os textos de seu blog e seus livros falando alto e expressivamente. É irreverência e genialidade. Literatura e realidade. Não é palestra sobre como escrever, é palestra sobre a vida escrita. Mais vivo, impossível. Em território maranhense, a vida pulsou com sotaque gaúcho.

Enfim, tentar reportar a palestra do autor de “Canalha”, “Mulher Perdigueira” e “www.twitter.com/carpinejar” é pura perda. Melhor indicar o autor, assegurando que está vivíssimo e original no blog que mantém e nos livros que escreve. Porque vale conhecer: http://www.carpinejar.blogspot.com .

Vila Tulipa no Troca-troca Literário - A 4ª Feira do Livro de São Luís reedita o espaço troca-troca literário na Praça Maria Aragão. Trata-se do estande de troca de livros, uma ótima oportunidade para quem por algum motivo não poderá desembolsar uma grana esta semana nos estandes de livreiros e editoras, mas não quer passar pela feira de mãos abanando.

Livros e revistas podem ser levados a fim de trocar por vários títulos disponíveis. Uma ideia perspicaz para quem está com tempo para literatura esta semana é realizar a troca e ler a tempo de trocar por outro livro até o último dia do evento, 21. As pracinhas de vivência da feira são convidativas para a leitura!

Além disso, esta blogueira deixou sete exemplares autografados de Vila Tulipa, meu primeiro livro, no troca-troca literário na noite da quarta-feira, 17.

Vila Tulipa foi escrito em 2006, quando sua autora tinha 16 anos. No mesmo ano foi premiado pela Fundação Municipal de Cultura no XXX Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís. Em 2007, foi publicado pelo Instituto Federal do Maranhão, (antigo Cefet-MA) onde esta blogueira estudou entre 2004 e 2006.

O enredo se passa na vila que dá título ao livro e conta a história de amizade das crianças Paulo e Tatiana envolvendo o cotidiano dos moradores do lugar. Com bom humor, Vila Tulipa procura resgatar o gostinho de aventura da infância. Porque afinal de contas, todo grande começo tem que ter uma grande aventura.
Aproveitando a deixa, Ensaios em Foco faz campanha: DOE LIVROS!

domingo, 14 de novembro de 2010

REFLEXÃO EM FOCO



“Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. O que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.”
(Chicó em O Auto da Compadecida, obra de Ariano Suassuna)

O que resta [ará] de nós?

Um dia você acorda e a primeira notícia que recebe é que alguém de quem gosta muito já não respira mais. Aí quem perde o ar é você, sufocado pela dúvida de como continuar vivo sabendo que alguém querido já não estará mais presente.

A morte caminha lado a lado com a vida e custamos muito a nos dar conta disso. Como se estivéssemos falando de um mal distante, tratamos a morte que vemos diariamente nos noticiários com a consciência de quem acredita que terá a chance de marcar a própria hora. Como se tivéssemos algum controle sobre o tempo que nos é dado... Isso para não falar do quanto desperdiçamos o convívio, do quanto sonhamos com futuros que podem não estar ao nosso alcance, do quanto dizemos não e empurramos para depois a vida que deve ser sentida a cada instante e não apenas planejada ano a ano. Volto ao início, à dúvida sufocante que surge quando vemos o tempo de alguém se esgotar irremediavelmente e me pergunto: estaremos vivendo muito mais em função de um tempo que ainda não nos foi dado? E o tempo que nos é dado de convivência com outros? O que nos resta quando pessoas que amamos vão embora antes de nós? “Somente seu enterro e rezar por sua alma”, como se resigna o personagem do genial livro do paraibano Suassuna? Haverá entre nós, a capacidade de deixar mais de si aos outros, aproveitar melhor o tempo presente? Como a tristeza que a morte traz pode se converter na consciência passageira de que não sentiremos mais o prazer da companhia gostosa da pessoa querida?

A morte lança mais perguntas sobre a existência do que a própria vida.

Esta semana perdi um tio. Há um ano e sete meses perdi minha avó. No mesmo período, a cultura perdeu Mestre Antônio Vieira. Falo em perder porque é esse o sentimento que surge quando alguém morre. Perdemos a presença, os sorrisos, os abraços, a voz, e a admiração ainda que silenciosa do jeito de ser das pessoas. Mas perdemos principalmente a chance de viver mais e melhor na companhia de quem se vai. Infelizmente, é a perda quem muitas vezes mostra o quanto alguém faz falta. Por isso a morte traz dor incalculável para a consciência. Choramos a ausência de uma segunda chance. Lamentamos o que não tem mais jeito. O que poderia ter sido e não foi. Culpamos a dinâmica da vida quando o erro é resultado das ações de quem vive.

Por tudo isso, não sou pessimista em relação à morte. Sou preocupada com os vivos. Com a forma como as pessoas vivem, as relações que estabelecem, as escolhas que fazem e que nunca dizem respeito apenas a elas. Afinal, as lições da humanidade não tem ensinado uma independência que possa planejar com absoluta certeza a hora de cada um deixar este mundo assegurando a felicidade de quem fica. Vivemos arriscando no escuro, no tempo que não temos. Ignoramos a margem de erro.

Na hora da morte é que vejo a importância da consciência em torno da vida. Quem morre, descansa. Quem vive, sofre. Mesmo sabendo que a morte é tão natural quanto o nascimento, sofremos a cada partida. Sendo assim, o que dizer para consolar alguém cuja dor parece mesmo incalculável? Coloquei-me diante desta questão a fim de resolvê-la. Sou altruísta. Não queria que a pessoa que ficou sofresse a dor inconsolável da perda. Queria poupá-la da inconformação, da revolta, da solidão. Conheci à perda da avó, a dor incalculável, revoltante, inconsolável e tive de buscar conforto sozinha. Não queria, desta vez, saber de alguém tendo reação parecida.

Penso que é a vida quem dignifica a morte. A mobilização diminui o sofrimento. O abraço conforta o corpo, o pensamento compartilhado, a alma.

Para tanto, precisei lembrar-me de apenas uma frase, sabiamente colocada por Antoine Saint-Exupery “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Curiosamente, há pouco tempo, conversava com uma amiga sobre o que as pessoas significam depois que morrem. Comentávamos o que cada um de nós é capaz de deixar às pessoas que vivem conosco. Perguntávamos-nos, a título de reflexão, o que deixaríamos hoje ao mundo caso partíssemos. Pendências ou boas lembranças? A certeza dos grandes amigos que fomos para quem pode desfrutar de nossa amizade ou a imagem de jovens que planejavam feitos promissores para um futuro que nunca chegaria? Feitos que não passariam de promessas, no caso de uma partida, assim, aparentemente do nada.

Lembrando do trecho de “O Auto da Compadecida”, quando o Chicó (interpretado espetacularmente no filme por Selton Melo) diz que a morte é um mistério do qual ninguém escapa, irremediável, porque tudo que é vivo morre, penso com mais certeza que enquanto estamos vivos é que precisamos pensar mais na forma como vivemos e nas escolhas que fazemos sem deixar passar as chances, os momentos, enfim, a vida que merece ser vivida. Para que além de aproveitarmos cada segundo "como se não houvesse amanhã" sejamos capazes de partir na hora que a matéria tiver de morrer sim, mas sem que a alma, a essência da vida, se perca junto. Porque sempre há quem fique e sinta que um pedaço de si já não existe mais. Mas se nesse momento, quem ficar sentir que enquanto vivos, tivemos momentos que valeram a pena, talvez a dor dos vivos em relação a morte não seja mais tão devastadora.

Quem somos e o que fazemos hoje, agora? Olhemos então para o que já deixamos para trás, o que já marcou nosso tempo de vida até hoje. O que ainda há para fazer? Quantos abraços, sorrisos, palavras e vivências ainda temos para dar às pessoas? O que ainda nos falta aprender, ensinar? Não há como saber quanto tempo ainda teremos. Chego a conclusão que este sim é o mistério. O desafio que separa a graça da vida da dor da morte.