sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CONTO EM FOCO



A menininha se deitou e deixou que sua mãe a cobrisse. Estava ansiosa para adormecer logo. Queria muito sonhar. Quer que eu leia uma historinha?, a mãe perguntou. Hoje não, mamãe. Quero dormir logo, disse a menininha virando de lado na cama e puxando o cobertor mais pra cima. Como a mãe conhecia bem a menininha achou que ela estivesse com muito sono mesmo, porque em geral, ela não dormia enquanto a historinha contada não chegasse ao fim. Gostava mesmo de histórias, a menininha. Boa noite!, disse para a mãe, que em seguida saiu do quarto.

Ansiosa, a menininha não conseguia adormecer. Ficou se virando na cama pensando na rua e nas mil possibilidades que a chegada do sol traria. E nada do sono. Quando finalmente adormeceu, a menininha caminhou por outros lugares. Chegou na escola, onde contava da rua cinza para as outras crianças e se angustiava porque elas riam. Não acreditavam na menina que sonhava. E aí ela queria levar aquelas crianças sem sonho para conhecer a rua, mas ela também não sabia direito o caminho. Então caminhou com todas aquelas crianças em seu encalço por lugares que não davam aonde ela queria. Aí começou a tremedeira porque as crianças pressionavam, zangadas e começavam a chorar, chamando pelas mães. Até que a menininha olhava em volta sem saber onde estavam, afinal. E nisso, mais zanga, choro, gritos...

Nããããããoo!!!! A menininha gritou e se viu sentada na cama, em seu quarto escuro. Era noite ainda e a menininha não sonhara o que queria. Preciso dormir mais. E se deitou novamente. Olhou o teto escuro e se concentrou nele até não saber mais se estava de olho aberto ou fechado de tão negra que era aquela noite. Adormeceu. Enfim voltara a rua cinza. Sozinha, caminhou pela calçada pouco movimentada e reparou que o céu estava do mesmo jeito. A rua era a mesma. Prédios muito altos, pessoas andando de um lado para o outro, entrando e saindo de prédios e carros passando numa só direção. Numa só direção. A menininha parou para olhar de repente. Então já sei onde é o começo e onde é o fim. E sorriu. Mas ainda tinha algo para fazer ali e foi aí que lembrou do sol. Passou a mão na calça à procura do bolso e gelou, estava de pijama. Ah, não! Esqueci o sol em casa! E levou as mãos à cabeça. Preciso voltar correndo pra pegar minha mochila também! E como agora sabia para qual direção estava o começo da rua, começou a correr na direção contrária aos carros. E correu, correu, correu até que cansou. Parou um pouquinho e olhou adiante muita rua ainda. Mas onde acaba? Quer dizer, onde começa? Ou onde acaba o começo? E olhou em volta sentindo vontade de chorar, parecia mais cinza agora. A menininha levou as mãos ao rosto e fechou os olhos com força.

Quando a menininha os reabriu, era a mãe que via. Hora de ir para a escola de novo. Aaaah, ela choramingou e quis virar de lado para dormir de novo. Ah, mas o que é isso, filhinha! Está com preguiça de ir para a escola? Não, mãe, é que eu preciso da minha calça e da minha mochila. Ah, então levanta e se arruma. Vamos? Foi aí que a menininha abriu os olhos e entendeu. Preciso me vestir para ir à rua cinza! O que você disse? Preciso vestir minha calça e pegar minha mochila, está tudo nos bolsos! Ah, sim, está, querida. Agora levanta, vamos! E a menininha deixou-se conduzir ao banho pela mãe.
O sonho do dia transformava-se em missão.
(continua)

1 comentários:

Rafael disse...

Nunca sonhei que estava de pijama na rua, mas que sonhei que estava pelado! haUhAUhAdis
bjs