domingo, 14 de novembro de 2010

REFLEXÃO EM FOCO



“Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. O que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.”
(Chicó em O Auto da Compadecida, obra de Ariano Suassuna)

O que resta [ará] de nós?

Um dia você acorda e a primeira notícia que recebe é que alguém de quem gosta muito já não respira mais. Aí quem perde o ar é você, sufocado pela dúvida de como continuar vivo sabendo que alguém querido já não estará mais presente.

A morte caminha lado a lado com a vida e custamos muito a nos dar conta disso. Como se estivéssemos falando de um mal distante, tratamos a morte que vemos diariamente nos noticiários com a consciência de quem acredita que terá a chance de marcar a própria hora. Como se tivéssemos algum controle sobre o tempo que nos é dado... Isso para não falar do quanto desperdiçamos o convívio, do quanto sonhamos com futuros que podem não estar ao nosso alcance, do quanto dizemos não e empurramos para depois a vida que deve ser sentida a cada instante e não apenas planejada ano a ano. Volto ao início, à dúvida sufocante que surge quando vemos o tempo de alguém se esgotar irremediavelmente e me pergunto: estaremos vivendo muito mais em função de um tempo que ainda não nos foi dado? E o tempo que nos é dado de convivência com outros? O que nos resta quando pessoas que amamos vão embora antes de nós? “Somente seu enterro e rezar por sua alma”, como se resigna o personagem do genial livro do paraibano Suassuna? Haverá entre nós, a capacidade de deixar mais de si aos outros, aproveitar melhor o tempo presente? Como a tristeza que a morte traz pode se converter na consciência passageira de que não sentiremos mais o prazer da companhia gostosa da pessoa querida?

A morte lança mais perguntas sobre a existência do que a própria vida.

Esta semana perdi um tio. Há um ano e sete meses perdi minha avó. No mesmo período, a cultura perdeu Mestre Antônio Vieira. Falo em perder porque é esse o sentimento que surge quando alguém morre. Perdemos a presença, os sorrisos, os abraços, a voz, e a admiração ainda que silenciosa do jeito de ser das pessoas. Mas perdemos principalmente a chance de viver mais e melhor na companhia de quem se vai. Infelizmente, é a perda quem muitas vezes mostra o quanto alguém faz falta. Por isso a morte traz dor incalculável para a consciência. Choramos a ausência de uma segunda chance. Lamentamos o que não tem mais jeito. O que poderia ter sido e não foi. Culpamos a dinâmica da vida quando o erro é resultado das ações de quem vive.

Por tudo isso, não sou pessimista em relação à morte. Sou preocupada com os vivos. Com a forma como as pessoas vivem, as relações que estabelecem, as escolhas que fazem e que nunca dizem respeito apenas a elas. Afinal, as lições da humanidade não tem ensinado uma independência que possa planejar com absoluta certeza a hora de cada um deixar este mundo assegurando a felicidade de quem fica. Vivemos arriscando no escuro, no tempo que não temos. Ignoramos a margem de erro.

Na hora da morte é que vejo a importância da consciência em torno da vida. Quem morre, descansa. Quem vive, sofre. Mesmo sabendo que a morte é tão natural quanto o nascimento, sofremos a cada partida. Sendo assim, o que dizer para consolar alguém cuja dor parece mesmo incalculável? Coloquei-me diante desta questão a fim de resolvê-la. Sou altruísta. Não queria que a pessoa que ficou sofresse a dor inconsolável da perda. Queria poupá-la da inconformação, da revolta, da solidão. Conheci à perda da avó, a dor incalculável, revoltante, inconsolável e tive de buscar conforto sozinha. Não queria, desta vez, saber de alguém tendo reação parecida.

Penso que é a vida quem dignifica a morte. A mobilização diminui o sofrimento. O abraço conforta o corpo, o pensamento compartilhado, a alma.

Para tanto, precisei lembrar-me de apenas uma frase, sabiamente colocada por Antoine Saint-Exupery “Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.

Curiosamente, há pouco tempo, conversava com uma amiga sobre o que as pessoas significam depois que morrem. Comentávamos o que cada um de nós é capaz de deixar às pessoas que vivem conosco. Perguntávamos-nos, a título de reflexão, o que deixaríamos hoje ao mundo caso partíssemos. Pendências ou boas lembranças? A certeza dos grandes amigos que fomos para quem pode desfrutar de nossa amizade ou a imagem de jovens que planejavam feitos promissores para um futuro que nunca chegaria? Feitos que não passariam de promessas, no caso de uma partida, assim, aparentemente do nada.

Lembrando do trecho de “O Auto da Compadecida”, quando o Chicó (interpretado espetacularmente no filme por Selton Melo) diz que a morte é um mistério do qual ninguém escapa, irremediável, porque tudo que é vivo morre, penso com mais certeza que enquanto estamos vivos é que precisamos pensar mais na forma como vivemos e nas escolhas que fazemos sem deixar passar as chances, os momentos, enfim, a vida que merece ser vivida. Para que além de aproveitarmos cada segundo "como se não houvesse amanhã" sejamos capazes de partir na hora que a matéria tiver de morrer sim, mas sem que a alma, a essência da vida, se perca junto. Porque sempre há quem fique e sinta que um pedaço de si já não existe mais. Mas se nesse momento, quem ficar sentir que enquanto vivos, tivemos momentos que valeram a pena, talvez a dor dos vivos em relação a morte não seja mais tão devastadora.

Quem somos e o que fazemos hoje, agora? Olhemos então para o que já deixamos para trás, o que já marcou nosso tempo de vida até hoje. O que ainda há para fazer? Quantos abraços, sorrisos, palavras e vivências ainda temos para dar às pessoas? O que ainda nos falta aprender, ensinar? Não há como saber quanto tempo ainda teremos. Chego a conclusão que este sim é o mistério. O desafio que separa a graça da vida da dor da morte.

4 comentários:

Lucia Seixas disse...

Talita, você me achou no Twitter por conta do sorteio do meu livro e eu achei o seu blog. Não sei se você terá a sorte de ganhar meu livro, mas eu tive a sorte de encontrar seu maravilhoso texto. Parabéns, você tem um talento incrível. Parabéns mesmo, menina!

Talita Guimarães disse...

Olá, Lúcia!

nossa, muito obrigada mesmo pela visita e o comentário! Mesmo que não ganhe o livro no sorteio, fico imensamente feliz em descobrir jornalistas que servem de exemplo em causas tão nobres.

A maior satisfação que tive esse ano foi em me tornar doadora de sangue e medula. Na época, escrevi uma postagem sobre minha primeira doação:
http://ensaiosemfoco.blogspot.com/2010/07/vida-em-foco.html

Desde então, considero importante divulgar bastante esse tipo de informação.

Abraços e visite-nos sempre!

May-blog disse...

Pois é, Talita! Como fala o poema de Mário Quitana, Dos Hóspedes, "Esta vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E a nossa conta nunca está em dia...". A meu ver a vida é uma dádiva, mas é imprevisível, porém não teria graça se fosse previsível. Prefiro não pensar em morte, mas isto é necessário para que possamos dar cada vez mais valor ao privilégio de estar vivos.
Prefiro não pensar que alguém morreu, mas sim que esse alguém fez uma longa viagem onde está descansando depois de ter trabalhado e construído muita coisa para o próximo. Por isso, sempre relembro tudo o que foi realizado por uma pessoa que teve que partir, mas que deixou a fragrância nas coisas que fez, pelos lugares que passou, no ar onde respirou, enfim... ninguém morre. Elas continuam vivas em nosso pensamento, nas nossas lembranças e no nosso coração.
Desculpe o romantismo da minha reflexão!
Parabéns pelo texto!
may

Talita Guimarães disse...

Mayanne!

ah, obrigada por comentar e que bela forma de pensar, May! Suaviza qualquer sentimento de perda, encara a partida como o descanso e mantém vivo aquilo que a pessoa pode deixar de melhor.

Sabe, o que proponho não é exatamente que pensemos na morte, mas no que fazemos em vida que terá esta capacidade de viver além de nós, numa lembrança que conforte quem deixarmos por aqui.

Abraços!