segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

MÚSICA EM FOCO


Música para flutuar

Quando a música atravessa o tempo, aproxima gerações e culturas. Toca a alma da humanidade. Nesta postagem, Ensaios em Foco apresenta Léo de Paula, percussionista integrante da camerata que em 2010 celebrou a obra do pianista e compositor brasileiro Ernesto Nazareth pelo mundo.

Por Talita Guimarães

São Luís recebeu em agosto deste ano um dos melhores pianistas do mundo. Mas ele não veio só. Apresentou-se em São Luís na companhia de cinco jovens músicos, integrantes da orquestra idealizada pelo pianista e patrocinada pela mineradora Vale. O pianista: o paulista Marcelo Bratke. Os jovens músicos: Lucas Anízio de Melo (violino), Rodrigo de Oliveira Rodrigues (clarinete), Ariel da Silva Alves (flauta), Leonardo Miranda de Paula (percussão) e Wagner de Jesus Nascimento (percussão). Juntos (foto), compõem a formação atual da Camerata Brasil/Vale Música, que desde 2006 acompanha Bratke em turnês nacionais e internacionais que levam a música de compositores brasileiros mundo a fora.

Para se ter uma ideia da bagagem que estes músicos carregam, basta passear rapidamente pelo histórico da iniciativa. Em 2007, Bratke dirigiu a turnê nacional “Alma Brasileira” em que a Camerata celebrou os 120 anos de Heitor Villa-Lobos – turnê que teve passagem por oito cidades brasileiras, incluindo São Luís. Um ano depois, registraram o concerto de encerramento da turnê em DVD gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera em São Paulo e estrearam internacionalmente levando a música de Villa-Lobos para as mais prestigiadas salas de concerto do Japão.

Ano passado, deram início a uma nova turnê, desta vez em homenagem ao compositor carioca Ernesto Nazareth, de quem a obra mescla elementos do popular ao erudito de forma muito peculiar e sonora. O resultado da turnê “Nazareth – Brasileirinho” pode ser conferido em São Luís em agosto de 2010 no Teatro Arthur Azevedo e está registrado em CD de mesmo título do concerto, gravado em agosto de 2009 no Auditório Ibirapuera.
Carioca, nascido em março, cuja relação com a música passa pelo interesse nas baterias das escolas de samba do Rio de Janeiro. A iniciação musical se deu aos 14 anos. Poderia estar falando de Ernesto Nazareth, carioca, nascido em 20 de março de 1863, que compôs sua primeira peça no décimo quarto ano de vida. Sim, poderia, já que Nazareth é o compositor homenageado pela atual turnê da Camerata Brasil/Vale Música e não é por menos. Autor de 211 peças confirmadas, entre valsas, polcas, hinos, sambas e marchas, Nazareth é considerado o rei do tango brasileiro, o nosso querido Choro. Contudo, esta matéria vai adiante e fala da curiosa e fascinante linha que liga uma vida a outra para além do tempo: a música.

Assim como Nazareth, o percussionista Léo de Paula, também nasceu no Rio de Janeiro, só que no décimo sexto dia de março de 1988. O jovem instrumentista em questão começou a estudar música aos 14 anos. E mais, além do interesse pelas baterias das escolas de samba cariocas, Léo integra atualmente, a Camerata que desde 2009 executa peças da obra do conterrâneo Nazareth pelo Brasil e pelo mundo.

Ensaios em Foco teve a oportunidade de entrevistar Leonardo Miranda de Paula, o Léo de Paula (foto), por e-mail e descobrir para além das semelhanças entre o percussionista e o compositor homenageado na atual turnê do grupo, Ernesto Nazareth. Dois nomes de talento aproximados pela música.


Gostaria que nos contasse um pouco como foi o despertar para a música, quando escolheste estudar percussão e quais são os estilos musicais que mais te chamam a atenção em termos de inspiração para seguir carreira na música.

Léo de Paula - O despertar para a música se deu pelas baterias das escolas de samba do carnaval carioca. A partir disso, o contato com a percussão foi se acentuando e consolidando gradualmente. Os gêneros musicais com notável influência em minha formação são: Samba, choro e outros gêneros da música tipicamente carioca (bossa nova, maxixe), Samba reggae, Axé e derivações do samba desenvolvido na Bahia, além da música cubana (bolero, mambo, merengue), do jazz latino, da estética Big-Band (Jazz) e mais recentemente, música clássica e contemporânea. Há vários instrumentistas, compositores, maestros e professores que podem ser citados como referência.

Como surgiu a oportunidade para integrar a Camerata Brasil/Vale Música?

Léo de Paula - A minha inserção na Camerata Vale Música se deu na turnê “Nazareth- Brasileirinho” realizada em agosto de 2009. Em que foi gravado (ao vivo) o disco “Ernesto Nazareth” lançado pela gravadora Biscoito Fino. A Camerata foi reduzida na quantidade de integrantes. Em função disso, o perfil do trabalho mudou um pouco. Neste contexto fui indicado para o pianista e maestro Marcelo Bratke.

Qual a importância de estudar um instrumento musical? O que você pode nos contar da experiência com o estudo de um instrumento como a percussão?

Léo de Paula - Estudar música é decisivo na formação do ser humano. Potencializa seu raciocínio lógico, aguça a audição, trabalha a memória, dentre outras benesses. Estudar percussão, especificamente, é maravilhoso. Dependendo do seu direcionamento, pode-se desenvolver uma boa coordenação motora; pode-se passear por diversas culturas do mundo todo, por meio dos seus instrumentos peculiares; e até mesmo usufruir como elemento de inserção social (conhecer bons amigos em meio a uma divertida batucada). Além disso, expande bastante as fronteiras de qualquer músico ter um bom conhecimento da percussão.

No cenário da música clássica, qual o espaço para o percussionista?

Léo de Paula - Em relação à música de concerto (música clássica), o mercado para o percussionista é diversificado. Pode-se integrar uma orquestra profissional (ou ainda atuar como contratado por temporadas específicas), uma Banda Sinfônica profissional (grupo com caráter semelhante ao de uma orquestra, mas sem cordas em geral, com exceção do contrabaixo), atuar como solista em repertório camerístico, ou mesmo orquestral. Até mesmo devido ao desenvolvimento significativo do repertório e da linguagem da percussão contemporânea a partir do século XX.

Diferentemente de São Luís, o Espírito Santo possui a Orquestra Filarmônica e projetos como o da Fundação Vale que investe na profissionalização de jovens músicos. Como você vê o ambiente musical no Espírito Santo para a música clássica? Como é a receptividade do público? Existe uma tradição capixaba para a música clássica?

Léo de Paula - O ambiente da música de concerto no ES tem se desenvolvido significativamente. A Orquestra Filarmônica do ES (OFES) tem uma agenda regular com maestros e solistas de projeção nacional e internacional como convidados. Além de projetos que levam a música ao interior do estado e às escolas da região metropolitana da grande Vitória.

Além da OFES, o trabalho desenvolvido na Faculdade de Música do ES tem uma projeção considerável. Com alunos adentrando o mercado nacional, vencendo concursos, além dos eventos fomentados pela instituição. Vale citar, ainda, a Orquestra Camerata SESI no cenário da música clássica capixaba. Ou seja, o público tem aplaudido, e criado um interesse gradual, devido a efervescência da música clássica no estado.

Qual o sentimento de percorrer tanto o território nacional quanto o exterior apresentando a obra de um compositor brasileiro? Como foi a preparação para a turnê?

Léo de Paula - Novamente, em relação à turnê “Nazareth- Brasileirinho” 2010, é um prazer percorrer o Brasil. Conhecer culturas distintas com um conjunto de valores, culinária, infra-estrutura tão peculiares é uma grande oportunidade gerada a partir do trabalho com Marcelo Bratke e a Camerata. A expectativa de realizar os concertos agendados para novembro nos Estados Unidos e na Europa foi muito grande. Nazareth tem de ser conhecido mundo afora.

Vale citar que a preparação é intensa. Períodos longos de ensaio na companhia do Marcelo (ora sem ele em virtude da agenda intensa) são direcionados para um grande trabalho. Horas e horas em busca de um resultado sonoro bem particular.

E quais os planos para o futuro na música?

Léo de Paula - Por fim, meus planos para o futuro são muitos. Continuar desenvolvendo um grande trabalho com a Camerata Vale, consolidar-me no mercado estadual e nacional, concluir uma boa formação acadêmica e, quem sabe, desenvolver uma carreira internacional.

No segundo semestre de 2010, Marcelo Bratke e a Camerata Brasil/Vale Música apresentaram o concerto “Nazareth – Brasileirinho” no Carnegie Hall em Nova York (EUA) e ainda pelas cidades européias Haia (Holanda) e Belgrado (Sérvia). “Foi, realmente, uma oportunidade muito especial pra gente. Definitivamente, inesquecível!”, afirma Léo de Paula.

O reconhecimento internacional pelo trabalho foi expresso nas críticas de jornais como The New York Times, New York Post e ainda no site ConcertoNet.

Para conhecer mais e ouvir a percussão de Léo de Paula, acesse o Myspace do músico.

domingo, 19 de dezembro de 2010

FIM DE ANO EM FOCO

Retrô da foca – Troféu Flutuação

Apesar de não demonstrar muito nos textos e de – pessoalmente - não ter uma cara lá muito engraçada, costumo ser uma pessoa bem humorada. Meus amigos que o digam. Pois bem, assim sendo, resolvo aproveitar um pouco da veia e escrever uma postagem que inaugure neste blog, minha faceta blogueira sorridente. :)

Chegamos ao fim de mais um ano. Tempo de reflexão sobre o que foi feito durante os últimos doze meses e o que se deseja fazer, ou não, nos meses que virão. Em resumo, todos os anos fazemos a mesma coisa em dezembro e este blog já postou por dois natais, mensagens em defesa da reflexão crítica em nome da campanha pelo fim da confraternização hipócrita e enfadonha que toma conta do mês de dezembro e sem a qual passaríamos muito bem, obrigada. Nesse sentido, hipócrita e enfadonho seria empurrar aos caros leitores uma terceira mensagem com o mesmo teor das anteriores. O mundo não avançou tanto desde o último natal então minha reflexão do ano passado ainda está valendo.

Sendo assim, este ano farei diferente. Resolvi olhar para trás e considerar que 2010 foi um ano intenso, de muita produção acadêmica e grandes momentos de enriquecimento pessoal e profissional. Aceitei a ideia da retrospectiva e trouxe para o blog os momentos de 2010 que mais fizeram flutuar esta pessoa que aqui escreve. Momentos esses que renderam mais conhecimento em música e literatura, por exemplo, e ficam de sugestão para os queridos leitores neste fim de ano.

Antes disso, uma pequena reflexão sobre o que 2010 ensinou e foi compartilhado por aqui através de pequenas crônicas. Tenho gostado de pensar na felicidade como um momento em que pairamos ao gosto daquilo que nos faz bem. Flutuação mesmo. Claro que cada um é quem sabe de seus motivos para ser feliz, mas em alguns pontos devemos todos concordar: a felicidade não costuma ser facilmente alcançada, ou ainda, mostra-se fugaz para que possamos desfrutar aos poucos e estejamos sempre tentados a correr atrás do que nos faz felizes. Pois bem, assim sendo, costumo dizer que são coisas simples que me fazem flutuar. Mas nem por isso fáceis de reunir.

O mais legal de 2010 foi descobrir uma nova forma de buscar o que é simples no dia a dia. Cultivei a ideia do recorte e passei a andar pela rotina recortando aquilo que achava de bom, bonito e inspirador nos lugares por onde passava diariamente e nas pessoas que via com freqüência. Aprendi que é possível guardar recortes de todos os dias do ano. Basta estar atento, de olhos e ouvidos bem ligados a tudo. Passei a trocar recortes com o poeta Eduardo Trindade, que tem olhos bons para reunir material pra esse tipo de álbum pessoal. Vimos ainda mais poesia no cotidiano. Fui mais feliz.

Outro mérito da felicidade contida nos últimos doze meses esteve ligado às surpresas boas que tive. Flutuações que me fez conhecer novos escritores, blogueiros e músicos. Arte é naturalmente flutuante, mas em 2010, tive muita sorte nesse campo, por isso, recordo com gosto dos nomes que me fizeram flutuar, além, é claro, dos bons momentos vividos graças à vida acadêmica. Ficam aqui, então, as dicas:

1) Flutuação Literária:

“As Valsas Invisíveis” de Eduardo Trindade;
“Até que ponto, de fato, nos comunicamos” de Ciro Marcondes Filho;
“A Educação para o Trabalho” e “Pedagogia do Bom Senso” de Célestin Freinet – nestes dois adoráveis livros, o educador francês Célestin Freinet aborda a importância do ambiente escolar ser construído por professores sensíveis a percepção da criança e a capacidade de desenvolver um raciocínio com autonomia e sensatez por meio da construção do conhecimento.
“Alcântara – Negociação do Azul ou A Castração dos Anjos” de José Chagas reúne de forma fascinante a história da cidade maranhense que intitula o livro. Cantada em versos, Alcântara ganha o olhar poético do talentoso Chagas.
“Noel Rosa – Uma biografia” de João Máximo e Carlos Didier é considerada a mais completa reunião de material sobre a vida e a obra do sambista carioca que completaria em 2010 seu centenário de nascimento.

2) Flutuação Musical:

Concerto Nazareth - Brasileirinho, com peças do compositor carioca Ernesto Nazareth executadas pelo pianista Marcelo Bratke na excelente companhia da Camerata Vale Música (ou Camerata Brasil, como se apresentam no exterior). Troféu Flutuação Musical para o momento em que o pianista me presenteou com o cd da turnê. E não há como cansar de ouvir, muito bom mesmo. Em seguida, devo conceder menção honrosa à banda Scracho pela fofíssima versão de A Menina Dança, originalmente composta por Novos Baianos. Embalou meu 2010 e também não canso de ouvir.

3) Flutuação Acadêmica:

Conferência de abertura do Intercom Nordeste em Campina Grande-PB com o prof. Dr. Ismar de Oliveira Soares do Núcleo de Comunicação e Educação da ECA/USP. Uma verdadeira aula sobre educomunicação e o uso das tecnologias da informação em sala de aula. Fora que Ismar é um dos nomes que mais demos conta durante o ano, devido às pesquisas sobre educom, tema de meu tcc.

4) Flutuação Esportiva:

Como boa colorada, não poderia deixar de lembrar do dia em que o campeão de tudo, Sport Club Internacional, conquistou o bicampeonato na Copa Libertadores da América. Troféu Flutuação para o vídeo que eu fiz de Carol Rios e o escritor Fabrício Carpinejar juntos, fazendo a ola do mundial em plena feira do livro de São Luís. Impagável!

5) Flutuação viajante:

Para o mochilão feito até a cidade de Pinheiro na companhia dos amigos Saara Sousa e Max de Medeiros e retratado aqui no blog em março. Foi uma excelente oportunidade de desestressar estando perto de gente querida e aprendendo a dar mais valor ao contato com a natureza e a simplicidade das boas e velhas amizades.

Por tudo isso e mais um pouco, 2010 foi um ano de muitas realizações, ainda que tenhamos passado também por momentos difíceis, de insegurança com o término do curso superior e a perda de um ente querido. Algumas coisas desandaram, fugiram ao controle, mas ainda assim não diminuíram nem tiraram o mérito das tantas coisas boas que este ano trouxe distribuído por seus meses.

E uma delas é dívida desta blogueira. Em agosto, na ocasião do concerto Nazareth – Brasileirinho, publiquei uma crônica sobre a flutuação musical que as mãos habilidosas do pianista Marcelo Bratke e o talento irresistível dos garotos da Camerata Vale Música são capazes de gerar em um público. Som de primeiríssima qualidade. Na mesma época, mantive contato com o simpático percussionista Léo de Paula, integrante da Camerata, que me concedeu gentilmente uma entrevista por email. Entrevista essa que a correria do último semestre de faculdade atrasou a publicação. Pois pago agora a dívida, publicando a matéria e deixando a dica musical: ouçam Bratke e a Camerata Vale Música e conheçam a excelente música produzida em nosso país por quem é conhecedor de causa das nossas riquezas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

SAUDADE EM FOCO


“Do tempo passado não se recupera senão o recado do que fica à espera...” (José Chagas)

Falar de saudade é como falar de felicidade. Relativas, vivem em cada um de nós sob formas, tons, tamanhos e motivações completamente diferentes e pessoais. Cada um guarda em si e para si, as lembranças que foram capazes de emocionar e nem sempre isso pode ser colocado em palavras, nem sempre pode ser facilmente compartilhado. Talvez eu já tivesse aprendido isso, mas ontem (10/12), durante a chamada Aula da Saudade da turma de Jornalismo da qual fiz parte durante os últimos quatro anos, percebi com maior nitidez, como a saudade une as pessoas, ainda que seja para chorar por motivos, momentos e pessoas diferentes.

Convencionada entre turmas de formandos, essa última aula procura ser um momento de nostalgia do tempo passado junto e funciona como uma aula de encerramento do curso, para confraternizar o término de um ciclo e recordar o que se viveu até ali.

A aula da saudade, que reuniu a turma de formandos em Jornalismo da turma 305 da Faculdade São Luís ontem, foi surpreendentemente divertida. Ministrada pela querida professora Jô Dantas, que esteve conosco por dois períodos a frente da disciplina Jornalismo On line, teve um tom muito adequado ao momento. Jô falou de saudade e chamou a turma para reflexão sobre o contexto da modernidade e da pós-modernidade. Falou da turma, confidenciou o que significou ter sido nossa professora e emocionou ao nos dar versos de Carlos Drummond de Andrade e Renato Russo, para refletir. Afinal, do que sentiremos falta? De que tamanho e intensidade será a saudade destes anos e destas pessoas em cada um de nós? Porque como disse nosso caro colega Chico Poeta, “Não sentiremos saudade disso aqui amanhã. Sentiremos daqui a um mês, um ano...”, com o passar do tempo.

E o que não foi dito, o que não foi feito, o que não foi vivido? E a saudade do que não aconteceu? Também falamos do que poderia ter sido e não foi. Colegas derramaram lágrimas ao perceber que aquela era a última oportunidade de pedir uma desculpa, de trocar um oi com quem por algum motivo qualquer - desleixo, falta de afinidade ou mesmo timidez - nunca falamos.

Houve bom humor, também. Boas risadas com as lembranças puxadas por um quiz que testou nossa memória e trouxe de volta imagens de trabalhos apresentados nos primeiros períodos, falas características de alguns professores, ensinamentos de outros. Lembramos com carinho do que foi bom. Como reunir amigos na sala de casa para abrir o álbum de fotos da família, reunimos nossa turma ontem para descobrir que tivemos em comum, mais do que a opção pela mesma profissão. Fizemos parte, um da história do outro. Ainda que muitos de nós não tenham sido melhores amigos. Ainda que tenhamos trocado farpas, algumas vezes. Ainda que tenhamos construído, desconstruído e reconstruído nem sempre acertadamente a percepção pessoal do que cada um ali representa. Chego à conclusão que uma coisa é certa, como nos disse a querida amiga Saara: “Somos todos personagens”. Sim, todos personagens desta mesma história, vivida entre 2007 e 2010 na sala 305 do terceiro piso da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas de São Luís. Compartilhamos a vontade de daqui a alguns anos, ao nos depararmos com trabalhos assinados por colegas soltarmos saudosos, “é, eu conheci essa figura!”.

E quando chegou minha vez de falar, já entre os últimos – como de costume, preferi ouvir os colegas, pra daí sim dar minha colaboração – a voz quase embargou, já tomada pela emoção da fala dos que já tinham se rendido ao choro. Segurei e segui, aproveitando aquele último momento para dizer à turma do quanto aprendi a gostar especialmente de cada um. Falei do quanto foi importante aprender a observar cada colega e tirar desta observação algo especial para gostar e lembrar. Porque este é o meu modo de gostar também das pessoas com quem não troco palavras: bebendo gestos espontâneos, falas e olhares voluntários, nem sempre direcionados necessariamente para mim.

Por fim, nos despedimos em tom de até logo, já que a partir de agora nos encontraremos em redações, assessorias, eventos e coberturas. Nos falaremos por e-mails institucionais e telefonemas de pauta, às vezes demorados, outras vezes na batida acelerada de um deadline. Assistiremos, leremos e escutaremos uns aos outros nas tevês, nos jornais, sites e rádios. Entrevistaremos os que seguirem vida acadêmica na cobertura de seminários e congressos. Estaremos no mercado, nos esbarrando pelos mesmos furos.

Hoje, um dia depois, ainda não acordamos "os jornalistas", que isso é coisa que virá com o tempo de exercício e os aprendizados que faculdade não nos ensinou. Mas certamente, acordamos conscientes de que o que pode ser aprendido neste período, com professores, colegas e até mesmo com a consciência do que faltou, já faz muita diferença nos profissionais que seremos.

De todo modo, está assegurada a pontada de saudade que sentiremos - daqui a algum tempo, quando este tempo de hoje for tempo para sentir saudade. Olharemos nossa foto e brincaremos de lembrar os nomes e os jeitos de cada colega. Sentiremos, enfim, vontade de ter notícias de quem estudou conosco para o ofício de noticiar.


Nós, calouros de Jornalismo. Esta foto foi tirada no nosso primeiro dia de aula. No canto esquerdo, de jaleco, nossa primeira professora, Jakeline Bogéa.

Por tudo isso e pelo que fica à espera, fica aqui, meu abraço e minha, desde já saudade, a todos que fizeram parte deste pedaço da minha história, no capítulo Vida de aspirante à Foca, do livro da minha vida.