terça-feira, 18 de janeiro de 2011

OPINIÃO EM FOCO


SiSu e a dança de notas fora do ritmo

Por Talita Guimarães

O ingresso dos estudantes brasileiros na maioria das universidades públicas do país está em xeque. O resultado da grandiosa – e desastrosa – mudança no sistema que admite estudantes ao curso superior só será de fato notado daqui a alguns anos, quando os primeiros profissionais formados entrarem em definitivo no mercado de trabalho.

Investimentos em educação costumam mostrar seus resultados a longo prazo, mas neste caso, o saldo pode não ser positivo para o desenvolvimento do país. Falo isso porque acompanho desde o anúncio do novo sistema o andamento da história e antecipo com olhos de preocupação a possibilidade de um futuro trágico.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que dava exemplo pelo interessante formato proposto e indicava uma tendência ao ensino interdisciplinar, protagoniza atualmente um fiasco nacional. Avalia nossos estudantes, mas não apresenta um mapeamento do ensino brasileiro capaz de levantar e implementar melhorias notórias onde as deficiências limitam-se aos títulos de pior ensino do país. E apesar de não se restringir mais a oportunidade de submeter uma boa pontuação para seleção de bolsas em universidades privadas, o Enem como etapa única para o ingresso em universidades públicas, tem mostrado a fragilidade do governo em desenvolver um sistema eficaz e comprometido com a formação profissional de qualidade a que todos os cidadãos têm direito.

Primeiro que a abertura do Sistema de Seleção Unificada (SiSu) é aguardada com ansiedade pelos candidatos, o que justificaria a sobrecarga de acessos na página e uma eventual saída do ar, mas as falhas que vemos vão além e atravessam a gestão do sistema que não responde aos próprios comandos e estressa ainda mais os estudantes que não conseguem se inscrever. Entendo esse tipo de falha como falta de respeito com os jovens que já apreensivos com o ingresso na universidade, acabam submetidos a um estresse desnecessário com a lentidão do processo de inscrição e a falta de confiança no sistema.

Segundo que a submissão de nota não significa uma simples inscrição, mas o monitoramento angustiante da lista de candidatos por curso e da nota de corte estabelecida pela pontuação dos inscritos dentro do número de vagas ofertadas. Nesse processo, o sistema muda a todo o momento e a nota de corte oscila. Não é raro ver estudante trocar de curso por não estar mais dentro do número de vagas por conta da mudança na nota de corte. Seria uma simples desclassificação se não fosse pela margem que dá aos estudantes de submeter a nota em um curso qualquer, que pode nem ser mais da sua área de inclinação.

E por que isso acontece? Porque os valores que ditam a necessidade de um curso superior no Brasil são invertidos. Pensamentos como “inscreva-se pra qualquer curso que é melhor que nenhum” desconsideram o fator vocação e negligenciam que assim como esse estudante ingressante pela sorte com a nota de corte pode descobrir uma carreira nova, pode também, e com mais probabilidade, largar o curso pela metade, desistindo de vez de prestar um novo vestibular para a área anteriormente desejada. Ou pior, ainda que o tal estudante sobreviva ao martírio acadêmico em um curso com o qual não se identifica, consiga vestir a beca e pregar o diploma na parede da sala, o destino desse recém-formado - e da profissão, por consequência imediata - consegue ser mais incerto que o de quem se forma consciente da vocação.

Por tudo isso, fica a questão: em um país que desvaloriza o diploma para o exercício de profissões como o Jornalismo e não percebe a importância de uma reforma no sistema desde o ensino básico, que cultura de formação profissional terá consolidado para daqui a quinze, vinte anos?

Temo que o noticiário produzido por jornalistas – provavelmente sem diploma – daqui a algum tempo abafe as bizarras revoltas de enfermeiros que não passaram pra engenharia, administradores que não se formaram médicos e dos tantos profissionais frustrados que um dia, dançaram o samba do crioulo doido no SiSu.