quarta-feira, 30 de março de 2011

NOVIDADE EM FOCO

Quando o Ensaios em Foco nasceu, em setembro de 2008, a ideia era que o espaço fosse usado por estudantes interessados em expor o material produzido tanto nas faculdades de comunicação e letras quanto fora delas. Quem se arriscasse pela literatura também estaria convidado a pintar por aqui. Não raro, recebemos mesmo colaborações de estudantes de jornalismo, professores e amigos afinados com produção literária. Taí nossa última postagem que não deixa mentir.

Mas agora chega a vez do Ensaios em Foco ganhar uma colaboradora fixa. E é com alegria que convidamos os leitores a conhecerem Carol Rios, 18, estudante de Direito da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e completa apaixonada por futebol. Carol aparecerá por aqui com frequência e para falar de um assunto divertido e até então pouco abordado no blog: futebol. Colorada até o último fio de cabelo, nossa colaboradora nos contará impressões da vida de torcedora com paixão, bom humor e respeito pelo esporte. Mas deixemos que ela mesma se apresente. Com vocês, a nova (e primeira!) colunista do Ensaios em Foco!


Da paixão desmedida à convocação para o blog

por Carol Rios


17 de dezembro de 2006. O audacioso Internacional de Porto Alegre enfrenta o perigoso Barcelona numa partida definida por muitos como um duelo entre Davi e Golias. Para o assombro dos incrédulos, o ocorrido na passagem bíblica se repete. O destemido Davi lança uma só pedrinha e derruba o gigante: Inter 1 x 0 Barcelona com gol do até então odiado Adriano Gabiru. Sport Club Internacional: Campeão Mundial de Clubes da FIFA 2006.

Foi assim, queridos leitores, que “nasceu” a colorada que vos escreve, num misto de admiração e surpresa pelo feito do clube gaúcho (o maior do Sul, diga-se de passagem).

“Ah, mas é fácil torcer pelo Campeão de Tudo”, o leitor pode sentenciar. É, não posso negar que o Colorado costuma figurar entre os favoritos pelo título nas competições que disputa, porém, mesmo esse meu sentimento tendo nascido em meio a uma grande conquista, não são apenas estes momentos que estão na minha memória. Também vivi e continuei torcedora fanática nas derrotas e decepções, a última delas em frente ao “poderoso” Mazembe (lembrando aos “tiradores de sarro” de plantão que só pode dizer que perdeu para o time africano quem antes conquistou seu continente).

E por que continuar a vestir a camisa do clube depois de um vexame dentro de campo? Porque o futebol desafia a razão, está além das quatro linhas, é ser cúmplice de um amor quase sem explicação, acreditar no impossível (como contar com a colaboração do seu arqui-rival na conquista de um título; vide final do Brasileirão 2009, quando o Grêmio por alguns instantes virou co-irmão), é ver a fé extrapolar todos os limites, é a redenção e a consagração de uns (a exemplo de Gabiru), a condenação de outros, a união de familiares e amigos, a segregação e rivalidade sadias, a prece no vestiário, a promessa vinda da arquibancada, a lembrança de momentos épicos, a descrença nos episódios não tão gloriosos, a superação, é sentir-se parte de uma nação, é rouquidão após noventa minutos de muita gritaria, é não ter pena da mãe do juiz, falar palavrões sem remorso, reclamar faltas inexistentes, comemorar gols impedidos, ridicularizar “frangos” e “furadas”, suportar qualquer condição climática na arquibancada, é pular, coreografar com as mãos como incentivo ao time, é criatividade, é arte!

E é por isso tudo que sou amante do futebol e uma verdadeira apaixonada pelo Rolo Compressor (intermaníaca, já disseram alguns). Sou a Carol Rios e fui convocada pelo Ensaios em Foco para partilhar um pouco dessa paixão com vocês (vai ver a amiga Talita Guimarães cansou de ter os ouvidos alugados com meus devaneios e resolveu dividir com os leitores esse martírio). Que este seja um espaço assim como são os noventa minutos dentro de um estádio ou mesmo em casa ou num bar em frente à televisão, em que conseguimos esquecer os problemas e nos entregamos à diversão e, por vezes, somos agraciados pela felicidade.

Saudações Coloradas :D


*Na foto, Carol após rolar no gramado do Beira Rio em Porto Alegre-RS.

quarta-feira, 23 de março de 2011

POESIA EM FOCO


O Ensaios em Foco tem a honra de receber a colaboração de Gildson Souza, 19, estudante do Curso de Formação de Oficiais da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Gildson já esteve por aqui antes, em uma postagem sobre a capacidade da tecnologia de aproximar e distanciar as pessoas. Colaborador ainda do blog Badulaques por cerca de um ano, Gildson Souza nos chega desta vez através de versos. Seja bem vindo de volta, Gil e sinta-se a vontade para deixar por aqui um pouco de si.

Despedida
(Gildson Souza)

Os braços vibram
As mãos se abraçam
Os corpos dançam
As cores e os sons se misturam
A melodia some
Fica a letra
De versos curtos, abafados
Entrecortados
E quando a boca cala
Os olhos conversam
Ou quando não isso
Parecem ourives
Ou críticos da arte
E passeiam-se
Observando cada detalhe
Cada marca
Cada sinal
Decifrando (ou tentando)
O abstracionismo da obra à frente
Querendo desvendar a intenção de cada pincelada
Enfim, cansados, repousam debruçados sobre os outros
E o corpo, cansado, também debruça-se sobre outro
E se aquecem
E se abraçam

E a chuva cai.

sexta-feira, 18 de março de 2011

FUTEBOL EM FOCO


Da arte de pantufar

Não sei dizer com precisão quando meu lado torcedora nasceu. Na infância, lembro de ter ido algumas vezes com meu pai ao Castelão – estádio que hoje está interditado – assistir a jogos de times locais. A questão é que eu nunca sabia que times estavam jogando nem por qual tipo de campeonato. Meu pai é um torcedor discreto, que aprecia muito mais a partida do que a torcida apaixonada por determinado time. Talvez por conta disso somado ao fato de nossos times não figurarem por muito tempo em copas do Brasil ou séries A ou B do Brasileirão, não tínhamos muito que acompanhar. E como criança, eu ia muito mais pela festa, para ver a movimentação das torcidas, comer pipoca e guloseimas comercializadas no estádio e olhar para todos os cantos com ar de curiosidade.
Aqui cabe um parêntese sobre uma característica muito minha: gosto de observar tudo o que está ao redor. Acumulo causos de observações que se confundem com distração: já fui pega olhando para o teto do cinema em plena sessão, observando o projetor jogar o filme por cima de nós em um facho de luz branca em movimento; por volta dos cinco ou seis anos de idade, meu pai me levou ao circo para ver uma apresentação da Eliana (sim, a loira que era apresentadora infantil na década de 90) e segundo conta a lenda, digo, meu pai, analisei toda a estrutura do circo, da parte metálica à lona, passando pela disposição dos lugares e as cores do picadeiro. Nem ele nem eu nunca soubemos com clareza se prestei alguma atenção ao espetáculo em si. Pois lembro vagamente desta empreitada e o vago que lembro é justamente a parte que diz respeito ao ponto mais alto da lona.

Retomando a minha vida de torcedora, comecei a acompanhar um time específico há alguns anos, quando reparei no Internacional-RS graças à participação do time no mundial de clubes. Achei promissor e gostei da história do clube. Desde então, virei colorada. Diga-se de passagem, uma colorada meia boca, porque não conhecia mais nenhum torcedor do time e raramente acompanhava jogos com algum afinco. Mas tudo mudou quando fiquei amiga de Carol Rios, que estudava na mesma escola em que fiz o ensino médio e se mostrou uma colorada legítima e apaixonada por futebol. Passei a me inteirar do Inter através de Carol e a ouvir os jogos torcendo com ela, enquanto tecia comentários espirituosos sobre a minha forma de entender - leia-se não entender - o que estaria acontecendo em campo. Finalmente, ganhei ares de torcedora, com manias, tiques e medos.

É possível que antes de adquirir manias em relação à melhor forma de torcer, eu tenha brincado muito mais com o medo de atrair azar pro meu time do que qualquer coisa. Acontece que sendo eu uma torcedora iniciante no babado, atribuía todas as derrotas do time quando o acompanhava à possibilidade crescente de ser detentora de um infame pé frio. Meu complexo de azarada foi tanto que rendeu cômicas lamúrias e uma brincadeira que deu origem ao verbo “pantufar”. É que Carol – torcedora fanática, bem humorada e precavida - resolveu me presentear com um par de pantufas a fim de que eu esquentasse meus pés em dias de jogo. Desde então, a pantufa ganhou ares de amuleto e item indispensável para acompanhar as partidas. Torcer para mim se converteu em “pantufar” que significa ter os pés aquecidos a favor de algum time, o que acontece literalmente quando se calçam pantufas para acompanhar uma partida, principalmente em território maranhense. Temos de concordar que tal ideia tem toda a cara de mania de torcedor, afinal, pessoal não mantém por aí algum objeto que julga atrair sorte? Aquela camisa oficial autografada, as luvas suadas do goleiro herói daquela vitória inesquecível, a bandeira usada em um jogo decisivo ou ainda estabelecer um ritual para montar-se a fim de acompanhar o jogo sempre do mesmo jeito, acreditando que trará sorte.

Meu kit básico de pantufação: camisa do Inter, bandeira do Sampaio Corrêa (ganhei da torcida organizada Mancha), bruxinha colorada que Carol trouxe de Porto Alegre depois do primeiro jogo da semifinal da Libertadores 2010 (Inter 1 x 0 São Paulo) e pantufas da sorte.

Pois bem, se cada torcedor tem sua mania, a minha é de pantufar a favor do meu Inter, além é claro de calçar meu amuleto para o Sampaio Corrêa-MA, meu time no campeonato maranhense ou ainda quando temos um time maranhense – atenção! Qualquer time - classificado para defender o estado Brasil a fora. Porque antes de qualquer coisa, sou torcedora do futebol maranhense. Isso sim, desde criancinha.


Com agradecimentos a Carol Rios que leu este texto antes de ser postado e por ter paciência em me atualizar dos babados sobre futebol para eu não sair falando muita besteira por aí.