sexta-feira, 18 de março de 2011

FUTEBOL EM FOCO


Da arte de pantufar

Não sei dizer com precisão quando meu lado torcedora nasceu. Na infância, lembro de ter ido algumas vezes com meu pai ao Castelão – estádio que hoje está interditado – assistir a jogos de times locais. A questão é que eu nunca sabia que times estavam jogando nem por qual tipo de campeonato. Meu pai é um torcedor discreto, que aprecia muito mais a partida do que a torcida apaixonada por determinado time. Talvez por conta disso somado ao fato de nossos times não figurarem por muito tempo em copas do Brasil ou séries A ou B do Brasileirão, não tínhamos muito que acompanhar. E como criança, eu ia muito mais pela festa, para ver a movimentação das torcidas, comer pipoca e guloseimas comercializadas no estádio e olhar para todos os cantos com ar de curiosidade.
Aqui cabe um parêntese sobre uma característica muito minha: gosto de observar tudo o que está ao redor. Acumulo causos de observações que se confundem com distração: já fui pega olhando para o teto do cinema em plena sessão, observando o projetor jogar o filme por cima de nós em um facho de luz branca em movimento; por volta dos cinco ou seis anos de idade, meu pai me levou ao circo para ver uma apresentação da Eliana (sim, a loira que era apresentadora infantil na década de 90) e segundo conta a lenda, digo, meu pai, analisei toda a estrutura do circo, da parte metálica à lona, passando pela disposição dos lugares e as cores do picadeiro. Nem ele nem eu nunca soubemos com clareza se prestei alguma atenção ao espetáculo em si. Pois lembro vagamente desta empreitada e o vago que lembro é justamente a parte que diz respeito ao ponto mais alto da lona.

Retomando a minha vida de torcedora, comecei a acompanhar um time específico há alguns anos, quando reparei no Internacional-RS graças à participação do time no mundial de clubes. Achei promissor e gostei da história do clube. Desde então, virei colorada. Diga-se de passagem, uma colorada meia boca, porque não conhecia mais nenhum torcedor do time e raramente acompanhava jogos com algum afinco. Mas tudo mudou quando fiquei amiga de Carol Rios, que estudava na mesma escola em que fiz o ensino médio e se mostrou uma colorada legítima e apaixonada por futebol. Passei a me inteirar do Inter através de Carol e a ouvir os jogos torcendo com ela, enquanto tecia comentários espirituosos sobre a minha forma de entender - leia-se não entender - o que estaria acontecendo em campo. Finalmente, ganhei ares de torcedora, com manias, tiques e medos.

É possível que antes de adquirir manias em relação à melhor forma de torcer, eu tenha brincado muito mais com o medo de atrair azar pro meu time do que qualquer coisa. Acontece que sendo eu uma torcedora iniciante no babado, atribuía todas as derrotas do time quando o acompanhava à possibilidade crescente de ser detentora de um infame pé frio. Meu complexo de azarada foi tanto que rendeu cômicas lamúrias e uma brincadeira que deu origem ao verbo “pantufar”. É que Carol – torcedora fanática, bem humorada e precavida - resolveu me presentear com um par de pantufas a fim de que eu esquentasse meus pés em dias de jogo. Desde então, a pantufa ganhou ares de amuleto e item indispensável para acompanhar as partidas. Torcer para mim se converteu em “pantufar” que significa ter os pés aquecidos a favor de algum time, o que acontece literalmente quando se calçam pantufas para acompanhar uma partida, principalmente em território maranhense. Temos de concordar que tal ideia tem toda a cara de mania de torcedor, afinal, pessoal não mantém por aí algum objeto que julga atrair sorte? Aquela camisa oficial autografada, as luvas suadas do goleiro herói daquela vitória inesquecível, a bandeira usada em um jogo decisivo ou ainda estabelecer um ritual para montar-se a fim de acompanhar o jogo sempre do mesmo jeito, acreditando que trará sorte.

Meu kit básico de pantufação: camisa do Inter, bandeira do Sampaio Corrêa (ganhei da torcida organizada Mancha), bruxinha colorada que Carol trouxe de Porto Alegre depois do primeiro jogo da semifinal da Libertadores 2010 (Inter 1 x 0 São Paulo) e pantufas da sorte.

Pois bem, se cada torcedor tem sua mania, a minha é de pantufar a favor do meu Inter, além é claro de calçar meu amuleto para o Sampaio Corrêa-MA, meu time no campeonato maranhense ou ainda quando temos um time maranhense – atenção! Qualquer time - classificado para defender o estado Brasil a fora. Porque antes de qualquer coisa, sou torcedora do futebol maranhense. Isso sim, desde criancinha.


Com agradecimentos a Carol Rios que leu este texto antes de ser postado e por ter paciência em me atualizar dos babados sobre futebol para eu não sair falando muita besteira por aí.

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