Da arte de pantufar
Não sei dizer com precisão quando meu lado torcedora nasceu. Na infância, lembro de ter ido algumas vezes com meu pai ao Castelão – estádio que hoje está interditado – assistir a jogos de times locais. A questão é que eu nunca sabia que times estavam jogando nem por qual tipo de campeonato. Meu pai é um torcedor discreto, que aprecia muito mais a partida do que a torcida apaixonada por determinado time. Talvez por conta disso somado ao fato de nossos times não figurarem por muito tempo em copas do Brasil ou séries A ou B do Brasileirão, não tínhamos muito que acompanhar. E como criança, eu ia muito mais pela festa, para ver a movimentação das torcidas, comer pipoca e guloseimas comercializadas no estádio e olhar para todos os cantos com ar de curiosidade. Aqui cabe um parêntese sobre uma característica muito minha: gosto de observar tudo o que está ao redor. Acumulo causos de observações que se confundem com distração: já fui pega olhando para o teto do cinema em plena sessão, observando o projetor jogar o filme por cima de nós em um facho de luz branca em movimento; por volta dos cinco ou seis anos de idade, meu pai me levou ao circo para ver uma apresentação da Eliana (sim, a loira que era apresentadora infantil na década de 90) e segundo conta a lenda, digo, meu pai, analisei toda a estrutura do circo, da parte metálica à lona, passando pela disposição dos lugares e as cores do picadeiro. Nem ele nem eu nunca soubemos com clareza se prestei alguma atenção ao espetáculo em si. Pois lembro vagamente desta empreitada e o vago que lembro é justamente a parte que diz respeito ao ponto mais alto da lona.
Retomando a minha vida de torcedora, comecei a acompanhar um time específico há alguns anos, quando reparei no Internacional-RS graças à participação do time no mundial de clubes. Achei promissor e gostei da história do clube. Desde então, virei colorada. Diga-se de passagem, uma colorada meia boca, porque não conhecia mais nenhum torcedor do time e raramente acompanhava jogos com algum afinco. Mas tudo mudou quando fiquei amiga de Carol Rios, que estudava na mesma escola em que fiz o ensino médio e se mostrou uma colorada legítima e apaixonada por futebol. Passei a me inteirar do Inter através de Carol e a ouvir os jogos torcendo com ela, enquanto tecia comentários espirituosos sobre a minha forma de entender - leia-se não entender - o que estaria acontecendo em campo. Finalmente, ganhei ares de torcedora, com manias, tiques e medos.
É possível que antes de adquirir manias em relação à melhor forma de torcer, eu tenha brincado muito mais com o medo de atrair azar pro meu time do que qualquer coisa. Acontece que sendo eu uma torcedora iniciante no babado, atribuía todas as derrotas do time quando o acompanhava à possibilidade crescente de ser detentora de um infame pé frio. Meu complexo de azarada foi tanto que rendeu cômicas lamúrias e uma brincadeira que deu origem ao verbo “pantufar”. É que Carol – torcedora fanática, bem humorada e precavida - resolveu me presentear com um par de pantufas a fim de que eu esquentasse meus pés em dias de jogo. Desde então, a pantufa ganhou ares de amuleto e item indispensável para acompanhar as partidas. Torcer para mim se converteu em “pantufar” que significa ter os pés aquecidos a favor de algum time, o que acontece literalmente quando se calçam pantufas para acompanhar uma partida, principalmente em território maranhense. Temos de concordar que tal ideia tem toda a cara de mania de torcedor, afinal, pessoal não mantém por aí algum objeto que julga atrair sorte? Aquela camisa oficial autografada, as luvas suadas do goleiro herói daquela vitória inesquecível, a bandeira usada em um jogo decisivo ou ainda estabelecer um ritual para montar-se a fim de acompanhar o jogo sempre do mesmo jeito, acreditando que trará sorte.
Meu kit básico de pantufação: camisa do Inter, bandeira do Sampaio Corrêa (ganhei da torcida organizada Mancha), bruxinha colorada que Carol trouxe de Porto Alegre depois do primeiro jogo da semifinal da Libertadores 2010 (Inter 1 x 0 São Paulo) e pantufas da sorte.
Pois bem, se cada torcedor tem sua mania, a minha é de pantufar a favor do meu Inter, além é claro de calçar meu amuleto para o Sampaio Corrêa-MA, meu time no campeonato maranhense ou ainda quando temos um time maranhense – atenção! Qualquer time - classificado para defender o estado Brasil a fora. Porque antes de qualquer coisa, sou torcedora do futebol maranhense. Isso sim, desde criancinha.
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