segunda-feira, 11 de abril de 2011

CULTURA EM FOCO


Ensaios em Foco recebe mais uma vez a colaboração de Gildson Souza, que retorna ao blog para falar sobre o caráter subjetivo da interpretação da produção cultural. Citando a famosa produção de Chico Buarque como exemplo, Gildson lança questionamentos sobre a capacidade que os múltiplos olhares lançados sob uma mesma obra têm de transformá-la em várias obras diferentes.


Isto ou aquilo?


por Gildson Souza


"A música é como uma filha que caiu no mundo". Essa foi a resposta do cantor e compositor Chico Buarque na ocasião em que lhe foi perguntado qual era sua intenção por trás da letra de determinada música. Uso essa pequena história para ilustrar para vocês, leitores, o que venho tratar nesse post. Muitos de vocês provavelmente já discutiram com algum amigo com o intuito de descobrir o real significado da letra de alguma música (quase sempre daquelas recheadas de metáforas e referências obscuras =P). E é sobre isso que venho tratar, desse leque de opções que algumas obras, e isso inclui não somente músicas, mas também quadros, poemas, atuações teatrais etc, causam nas pessoas que tem um contato com elas.


Sem dúvida, uma obra que causa certa "polêmica", como a que ocorre nessa discussão, chama muito mais a atenção e interesse do espectador do que algumas cujo objeto de interesse já está mais exposto, com suas devidas exceções, é claro. No entanto, o que pode vir a acontecer com uma música cujo tema foi deturpado e usado de maneira imprópria, para outros fins? (O que aconteceu com muitas músicas do Chico). Que consequências uma peça que foi interpretada de forma errônea pelo público e pela crítica pode causar? (Como o que aconteceu no caso do peça "Roda-Viva"). Com o passar do tempo e do interesse de algumas classes sociais que dominam boa parte das informações que circulam e chegam aos ouvidos da população, coisa que aconteceu de maneira muito maciça tempos atrás, essa crítica, exaltação, ode ou observação feita pelo artista que produziu tal expressão artística pode vir a se perder definitivamente.


Por outro lado, uma ambiguidade ou uma lacuna deixada pelo autor e que pode vir a ser preenchida pelo subjetivo do espectador é uma experiência que pode vir a fazer essa pessoa a formular novos pensamentos acerca da realidade. Claro que ele pode seguir a mesma lógica do autor, mas até que isso ocorra, várias e várias ideias sondaram sua cabeça de modo que, ou ele vai ampliar seu conhecimento ao ser atingido em cheio pelo raciocínio do criador da obra ou vai expandir seu conhecimento a partir das novas ideias geradas pela dúvida que a música, peça ou quadro lhe causou.


Enfim... se tratando de conhecimento e produção cultural, até errando se acerta.

3 comentários:

May-blog disse...

Legal tratar sobre esse efeito "polissêmico" da expressão.
Ainda bem que há essa multiplicidade de sentidos na arte de se expressar, e fica até mais interessante quando ela é involutária, porque a gente vê/escuta/lê, pensa um pouco e depois descobre que existe.

abraços blogosféricos! ^^
mayanne serra

Queiroz, Fernanda disse...

Concordando com vcs. Qualquer forma de interpretação,já é uma forma válida desde que não descaracterize por completo a obra original. Por vezes, essa permissão à subjetividade acaba enriquecendo o trabalho.
Parabéns Gil! Ótimo post ;)

Carol Rios disse...

Parabéns pelo texto, Gildson!
Vivemos adequando o que apreendemos da realidade às nossas "verdades"; sendo a interpretação algo muito subjetivo, natural é que existam inúmeras e diversas interpretações das músicas, obras de arte e etc.

Saudações Coloradas :D