quinta-feira, 21 de abril de 2011

JORNALISMO EM FOCO

Sobre o que realmente deixamos a desejar

- Considerações sobre uma crítica midiática que sinaliza o exercício que falta aos estudantes de jornalismo.

por Talita Guimarães

Não raro esbarramos em pessoas que mesmo nunca tendo cursado faculdades de comunicação, afirmam-se críticas da mídia, sobretudo do jornalismo. Acusam veículos de comunicação de manipuladores da realidade, julgam as reportagens tendenciosas, chamam jornalistas de seres despidos de ética profissional. Ao lançarem suas críticas à imprensa, mostram-se pessimistas em relação aos meios. Não crêem em jornalismo-verdade.

Tudo bem. O mundo não é mesmo um amor e o jornalismo tampouco merece ser inquestionável. Concordemos que a crítica seja necessária. Mas tenhamos calma. Alguns críticos simplesmente apelam para os mesmos argumentos. Batem numa tecla que o jornalista e sociólogo Perseu Abramo no ensaio “Padrões de manipulação na grande imprensa” advertia: “Não é todo material que toda a imprensa manipula sempre” (2003, p. 25). Com razão, não é. E pessoalmente, não aplaudo criticidade quando consigo perceber que não passa de uma desconfiança apoiada em argumentos de senso comum. Apoio sim que a população seja mais crítica com o conteúdo que recebe, mas com bom senso. E convenhamos que taxar toda uma classe profissional de sem ética não tem nada a ver com ter bom senso.

Apesar disso tudo, vislumbro o motivo que impulsiona algumas dessas pessoas a olharem com tanta desconfiança para a imprensa. E desde já esclareço que não embarco na onda de pôr todos os jornalistas no mesmo barco dos sem ética, mas reconheço que há uma turma que nem sempre se porta com humildade. E aqui cabe explicar o porquê. Desde meados do curso de Jornalismo - cujo período regular de aulas concluí em dezembro passado e agora trabalho “apenas” na monografia - senti falta de um exercício que testasse minha capacidade de atuar como jornalista e me desse alguma segurança em começar a trabalhar. Tudo porque falava-se muito em especialista de generalidades e isso tinha o perigoso potencial de incutir nas cabeças dos estudantes que éramos à época que podíamos mesmo falar sobre tudo. Uma vez jornalistas detentores de um arsenal de técnicas de produção estaríamos gabaritados para passear por qualquer área do conhecimento. Teríamos o poder de reelaborar discursos científicos tornando-os compreensíveis, acessíveis a toda a população. Cumpriríamos a nobre função de esclarecedores da realidade. O ideal iluminista de esclarecimento dos fatos estava no papo.

Salvo o alerta sutil de que teríamos que pesquisar sobre alguns assuntos antes de discorrer sobre os mesmos, o que realmente parecia fixar do discurso todo era a parte de que ainda podíamos tudo.

Não por acaso, fui uma estudante encucada com essa facilidade em percorrer todo tipo de assunto. Mais por medo de não dar conta do que por detectar uma falha grave na grade curricular do curso, comecei a questionar se a formação que recebia realmente me assegurava o título de especialista de generalidades, porque pessoalmente não conseguia acreditar que fosse realmente conseguir trabalhar com desenvoltura em algumas áreas. Fora que tinha interesse em aprimorar as habilidades que possuía em um campo com que me identificasse, delimitando uma única área de conhecimento para explorar o máximo que pudesse.

Quando minha monografia finalmente ganhou forma e o raciocínio estabelecido se desenhou claro à minha frente, enxerguei um exercício que faltou a mim e aos meus colegas de curso. Nunca fomos questionados quanto à forma como apreendíamos o mundo. Quem éramos, quais as referências, vivências e experiências que carregávamos conosco, que interesses e anseios tínhamos em relação à profissão. Questões que hoje saltam claras como saberes necessários à prática docente – que entendi graças às leituras de algumas obras de Paulo Freire – e que mais do que lançados sob nós, podiam ter surgido na sala de aula ou na fala dos professores ou ainda como estalo nosso para indagar durante os incontáveis debates travados em aula, quando os aspirantes a especialistas de generalidades divagavam por argumentos rasos apoiados na concepção de que podiam opinar sobre tudo.

Na prática, não cabe reclamar a falta de quem questionasse a nossa capacidade de falar sobre tudo, quem tivesse a ousadia de desafiar nossa frágil apreensão jovem, ainda em formação. Talvez tivéssemos nós mesmos que chegar a essa conclusão. Afinal, muitas de nossas leituras nas aulas teóricas alertavam pra isso na tentativa de abrir nossos olhos quanto a nossa forma própria de apreender o mundo, perceber o que estava ao redor e sair contando por aí. Além de sabermos que nunca, sob hipótese alguma, podíamos desprezar contextos e referências que envolvessem os fatos que tivéssemos de noticiar.

Em todo caso, gostaria sinceramente que estudantes de jornalismo fossem alertados de seus limites por mensagens garrafais de boas vindas, debates acalorados durante todo o curso e discursos inflamados em congressos de platéias lotadas de focas. Nossa aptidão para o curso devia ser submetida a uma roda em que uma cadeira disposta a nossa frente exigiria que cada um de nós a descrevesse do ponto em que a via, como nas faculdades de arquitetura, quando os futuros profissionais estudam objetos sobre vários ângulos e suas capacidades de reproduzi-los são postas a prova. Porque precisamos de uma dinâmica que nos fizesse sentir o arrepio dos múltiplos olhares, do entender diferente de fulano ou de sicrano e por isso noticiar sob outro ângulo. Discutiríamos o que é verdade, afinal. Presenciaríamos o terreno minado do caminhar sobre tudo.

Porque nisso, a desconfiança dos críticos do começo do texto tem fundamento: jornalistas não podem tudo. E precisam ser alertados disso.


ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

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