segunda-feira, 2 de maio de 2011

CAFÉ LITERÁRIO EM FOCO

"O riacho da infância corre ainda
pelo chão da memória e nele banho
uma saudade que me vem infinda [...]"



(Versos do livro "De lavra e de palavra ou Campoemas" de José Chagas)





Na última terça-feira de abril (26), o Café Literário promovido pelo Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho homenageou o poeta José Chagas. A ocasião, nobre pela iniciativa, contou com a presença do homenageado, os comentários de Sebastião Moreira Duarte que analisou a produção poética de Chagas e toda a expressão de Leda Nascimento que declamou poemas do livro “Os Canhões do Silêncio” (1979).

Quando foi convidado a falar, o poeta que assistia a tudo atentamente, soltou uma das frases que mais repercutiu nos dias que seguiram ao Café. Chagas avisou ao público que a versificação não o interessava mais e que por isso não publicaria mais poemas. Aproveitou então a oportunidade de estar em público para declamar poemas inéditos, cujo interesse em vê-los publicados não pareceu mais ser prioridade.

Eu, que gosto bastante de sua obra, entendi o que o poeta quis nos dizer: o poema não é importante, mais vale viver a poesia. Eis aqui justamente um dos motivos que me fez gostar de Chagas desde a primeira vez que o li. Suas crônicas carregam histórias cuja percepção que as concebe é poesia pura e a palavra ali é – pra mim – a forma que o poeta encontra de compartilhar a poesia que capta no ar e sente transbordar. E se na prosa, já é possível sentir a veia poética de José Chagas, quando conhecemos seus versos, percebemos se tratar de um poeta nato, cuja obra comove e inspira.

Hoje, aos 86 anos, Chagas avisa não querer mais o poema e é voltando à infância que ele tem o cuidado de se justificar, contando ao público presente no Café Literário, que quando criança costumava viver a poesia muito antes de conhecer a palavra. Pois bem, agora o poeta volta a viver a poesia e somente a poesia. Ensina com isso que é preciso retornar ao momento de admiração com o mundo, permitir-se sentir as emoções da vida, observar o luar, as estrelas, o pôr-do-sol e tudo aquilo que sabemos alimentar os bons e velhos poetas.

Aplaudimos sua fala, sorrindo para sua sinceridade e constatando que seu ar sereno deseja contemplar a poesia. Concordamos até. O poeta vive e isso basta. Ainda assim penso que agradecer não é demais, àquele que não só vive a poesia como dedicou boa parte da vida em compartilhá-la, usando a palavra que hoje dispensa, mas que graças a ela os une à sua percepção poética, sensível, certeira.

Porque mesmo que todos possamos viver a poesia, nunca será demais, muito menos dispensável, sentir a vida que pulsa nos poemas de José Chagas.



"Ninguém ouvia/ o pedido das pedras/ o clamor das ruínas/ no silêncio magoado dos dias [...]"



"Ninguém é futuro/ tudo já é passado/ e o tempo é um muro/ que só dá para um lado [...]"



"[...] está só sentindo/ a emoção interna/ de um cantar infindo/ que jamais se externa [...]"



"Talvez um sonho grave/ essa voz de prece/ que de tão suave/ no ar se esvanece [...]"



"E o silêncio exerce/ seu papel de mito/ servir de alicerce/ ao que não foi dito [...]"



"Cada um atravessa a si mesmo/ para o outro lado do tempo/ pois toda pessoa é uma travessia/ entre o hoje e o ontem [...]"



" [...] que olho sem memória/ não avista senão/ a forma ilusória/ da própria visão [...]"



"Nunca se sabe/ onde se acha/ o vento/ quando ele não se acha/ no seu ofício/ de soprar [...]"



"Quando tudo está em silêncio/ é difícil dizer se o tempo/ é feito de som ou se o som/ é que é feito de tempo"



"[...] porque o silêncio é em si mesmo/ a pura harmonia da vida/ e o pior cego/ é o que jamais/ percebe isso [...]"



"Ver é ouvir/ olhar é sentir a orquestração/ do que nos contorna [...]"



(Versos do livro "Alcântara - Negociação do Azul ou A castração dos anjos")