terça-feira, 15 de novembro de 2011

CINEMA EM FOCO


“O Palhaço”: porque a vida precisa encantar para fazer sentido

Ao final dos 90min de exibição de “O Palhaço” solidifiquei um pensamento que vem se formando a algumas semanas em minha mente: a vida não precisa de grandes explicações, mas precisa encantar para fazer sentido. Parece contraditório, mas não o é de todo. É que em algum momento da vida qualquer um de nós pode passar pela crise existencial que acomete Benjamim, o palhaço que fora do picadeiro é melancólico, pensativo, triste. O personagem não tem carteira de identidade, mas isso é só uma metáfora para a busca que Benjamim empreende a fim de conferir sentido a própria existência. E é nessa fase que nos damos [ou devemos dar] conta de que alguns significados em torno da vida são muito pessoais e cabem somente a nós conferi-los. Como uma combinação interna mesmo, isso de se acertar consigo mesmo.

No filme, Benjamim (Selton Mello) é o palhaço Pangaré, que viaja pelo país junto com a trupe do Circo Esperança e atua ao lado do pai Valdemar, o palhaço Puro Sangue (Paulo José). Aos poucos, a rotina de pendências do circo fora do picadeiro vai mexendo com Benjamim de modo que as dificuldades em manter o circo em atividade começam a pesar sob os ombros do palhaço. O questionamento que conduz o filme é silencioso e nos aparece através dos olhares que o personagem lança às pessoas, às coisas, ao que ouve e quando é incitado a falar, como um conflito interno que passa a habitar o peito de Benjamim e o leva a querer procurar outra forma de vida. Como se fosse necessário sair do universo que habitamos para enxergá-lo de longe e perceber o que realmente nos falta e nos é essencial.

É com um enredo simples, sem grandes embates entre os personagens, que “O Palhaço” comove, porque ao meu ver é uma singela pintura da vida, essa trama cheia de altos e baixos, risos e choro, certezas e incertezas e conexões das mais imprevisíveis. Nesse sentido, vale destacar a decisão acertada da direção de não promover no filme reviravoltas fantásticas em busca de arrematar a trama com um incrível final feliz alcançado por alguma lição de moral. Fora a produção do filme em si, com participações especiais que conferem ar de agradável surpresa às cenas que seriam triviais, como quando a trupe tem de ir à delegacia prestar esclarecimentos ao delegado e quem nos surge por trás da cadeira é um Moacyr Franco felinamente caracterizado para parecer com o gato Lincoln, cuja foto em cima da mesa compõe a cena de modo divertido. Ou quando o atendente da loja de eletrodomésticos é ninguém menos que Jorge Loredo, o eterno Zé Bonitinho. E assim, as sequências começam a arrancar risos não só mais pelo enredo, mas pelo precioso elenco que reúne e que faz parte significativamente da história do humor nacional.

E se até então falei pouco sobre o elenco é porque precisava guardar um parágrafo especialmente destinado aos atores que deram vida à essa história tão doce e comovente. A começar por Selton Mello, que dirige e protagoniza o longa dando ao Benjamim a expressão tocante de quem sorri como quem tenta espantar uma angústia muito íntima, difícil de compartilhar. Passando pelo Puro Sangue interpretado por ninguém menos que Paulo José, um dos atores brasileiros mais competentes na arte de comover, alterando a expressão do drama ao humor com muita sutileza. E a cativante trupe que reúne pessoas diferentes e que consegue pinçar da realidade personagens bem verossímeis como a mulher sedutora, mas pouco confiável, o casal leal que cria a filha com doçura, a senhora conselheira e amável, o casal jovem, cujo rapaz se deslumbra com aventuras amorosas pelas cidades em que passam e ainda os irmãos que estão sempre combinando um discurso para pedir adiantamento de salário, entre outros. O resultado é uma reunião de artistas que convivem quase como uma família e são capazes de se emocionar cada qual ao seu jeito, mas com as mesmas coisas: a partida de um dos integrantes do grupo, seu retorno e a estréia da mais nova artista.

Por tudo isso, creio que o mérito de “O Palhaço” está nos detalhes que remetem à vida real, como quando acompanhamos como as escolhas feitas por Benjamim alteram sua vida e o fazem enxergar quem ele realmente é, ensinando que o fato da vida por vezes nos escapar ao entendimento não passa de só mais um artifício para que descubramos outros olhares e significados. Porque cada um de nós traz consigo um pouco do espírito de Pangaré, esse sujeito que nasce para encantar as gentes, mas também merece ser encantado vez em quando.

Fotos retiradas do Google Images

Um comentário:

Eduardo Trindade disse...

"A vida não precisa de grandes explicações, mas precisa encantar para fazer sentido." Sim, minha amiga querida. Isso é fantástico, e o filme mostra isso bem. A vida só precisa de gente como tu, que sabe olhar, ver e reparar.
Abraços!