sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

RECORTE EM FOCO

Achava aquele trabalho desgastante, como todo serviço o é sempre que a pessoa tem certeza de que não nasceu para aquilo. Mas a hora dela ia chegar, pensava esperançosa, entre uma tarefa e outra.

A vantagem do trabalho mecânico é que você não precisa pensar. Se você encara isso pelo ângulo de que não é obrigado a pensar muito no trabalho enquanto o executa, é mesmo uma vantagem.

A tal moça estava em horário de expediente. Parada na porta da loja de shopping, estrategicamente posicionada entre a vitrine – entendamos: sem tapar a visão dos produtos expostos – e o canto da porta de entrada da loja – sem atrapalhar o trânsito de clientes que entravam e saiam do estabelecimento.

Custei a entender que era uma funcionária. Acho que detive meu olhar na moça porque enquanto esperava na fila do quiosque de sorvete em frente a loja, notei que vestia roupas de corte quase infantil. Uma espécie de macacão jeans azul escuro com uma calça legue cor-de-rosa por baixo.

Já ia desviar o olhar quando a mágica aconteceu. Uma senhora com uma criança de colo se aproximou para espiar a vitrine. Os olhinhos do bebê encontraram os da moça de uniforme, até poucos instantes atrás perdidos entre passantes e sorvetes. O braço esquerdo da moça, até então oculto para mim, ergueu-se em direção ao bebê mostrando-lhe um grande balão cor-de-rosa. A criança sorriu e espalmou a mãozinha na bexiga. Por uma fração de segundo, o sorriso da moça teve a mesma cor que o da bebezinha.

Gosto de pensar que houve uma ligação ali, fugaz, mas seguramente doce. E no momento seguinte, a moça estava só novamente, parada no mesmo lugar, o olhar distante.

A fila do sorvete era devagar, mas eu quase apreciei que aquele momento passasse em câmera lenta. É que fixei o olhar na cena e assisti a uma sequência inestimável. A moça entrou na loja e voltou em silêncio, com outro balão na mão. Pouco depois entregava-o sorrindo a uma garotinha que arriscava os primeiros passos naquele corredor. Viu-a se afastar com o balão, o andar cambaleante, refletiu um pouco e tornou a entrar na loja. Retornou pouco depois com um balão azul, que dessa vez foi entregue a um menino grande o suficiente para se aproximar dela, pedir o balão com os olhos e um mover de sobrancelhas e soltar um obrigado entre risos, os olhinhos vidrados na bexiga de ar.

Aproximei-me de receber meu sorvete e a vi pela última vez: dois balões dessa vez, rosa em uma mão, laranja na outra.

Não cheguei a ver os sorrisos que geraram, pois a essa altura eu já seguia o sentido oposto, entretida com o sorvete, mas não o suficiente para deixar de pensar comigo sobre o que acabara de presenciar.

É que a vida é encanto e a mágica que nossos olhos são capazes de captar mora no segundo em que nosso coração se aquece.

Talvez a moça não tenha nascido para o comércio, mas sim para ser encantadora de balões coloridos que atraem crianças e sorrisos.

É que a gente custa a descobrir para que nasce e às vezes, quando não é levado a pensar muito, passa pela vida sem descobrir.

Por ora, torço para que a moça dos balões veja o próprio reflexo na vitrine da loja em frente e una ao olhar até então perdido, esse sorriso que colore o dia e encanta silenciosamente crianças.

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