domingo, 4 de dezembro de 2011

I FESTIVAL DE MÚSICA BARROCA DE ALCÂNTARA EM FOCO

Em 2011, São Luís recebeu muitos eventos culturais com direito a festivais e shows de artistas que ou não costumavam incluir o estado em suas turnês ou há muito não nos visitavam. Houve música para todos os gostos em eventos de variadas proporções.

Com base nas experiências vividas durante esse ano, urge que todos nós - público, artistas e produções - pensemos sobre as condições que não só São Luís, mas outras cidades maranhenses, oferecem para a realização de eventos – da logística à qualificação de pessoal. Para que o estado finalmente consolide uma vida cultural – da qual tem fome - respeitando artistas e públicos e entre em definitivo no circuito que produz, expõe, atrai e exporta arte e conhecimento.

Neste contexto, Ensaios em Foco publica abaixo uma carta aberta divulgada por Saulo Galtri, jornalista e estudante de Canto Erudito na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa, em que relata sua experiência com o I Festival de Música Barroca de Alcântara e levanta questões importantes que não devem ser deixadas de lado ao fim de cada evento.

Porque arte é estado de espírito e respeito é fundamental.


_____________________________

São Luís, 04 de dezembro de 2011

A cidade de Alcântara recebe até segunda-feira (5), o I Festival de Música Barroca realizado pela empresa de consultoria cultural Equinox do Brasil por meio de recursos oriundos de apoiadores e grandes patrocinadores como o Banco do Nordeste e a Petrobrás. Foram convocados 30 artistas e músicos do Brasil e do exterior para fazer 14 apresentações e realizar ações didáticas durante o evento. Além da cidade histórica que batiza o evento, a igreja Imaculada Conceição em Bacabeira e a Catedral da Sé em São Luís foram escolhidas para abrir e encerrar as atividades do evento respectivamente.

Olhos afoitos, expectativa e curiosidade foram o que se viu expresso no rosto da população carente de Alcântara que por um curto espaço de tempo se viu menos distante pela baía que a separa de São Luís. Estou longe de querer fazer aqui um discurso assistencialista, mas naquele dia uma janela no tempo se abria pra um público que é rico de história, mas pobre de oportunidades como em muitos outros lugares do Maranhão. Porém embora eu tenha citado o aspecto positivo acima, o I Festival de Música Barroca de Alcântara me remeteu a muitas reflexões sobre gestão cultural.

A Equinox do Brasil atua com a promoção de algumas cidades históricas brasileiras estabelecendo roteiros de eventos musicais, atividades audiovisuais além do turismo histórico. Com o I Festival de Música Barroca de Alcântara, a empresa pretende inserir a cidade em sua vitrine de destinos culturais, entretanto, é necessário que exista a construção de uma estrutura organizacional local para a realização de um evento desta proporção.

Uma cidade que pretende se tornar roteiro cultural deve oferecer ao público que vai prestigiar um evento, bons serviços em hotelaria, gastronomia e todo tipo de serviço que envolve este tipo de atividade, ou seja, devem existir qualificação e capacitação profissional para garantir o sucesso do evento que pretende ser realizado.

Além de todos os requisitos elencados acima, faz-se necessário recrutar para a organização de um festival de música, uma equipe de produção (staff) que tenha conhecimento sobre música, para que enfim se possa ter uma linha de trabalho que vá garantir a integridade de instrumentos e principalmente dos músicos.

Como integrante de um grupo participante do festival tive que solicitar e enfatizar em vários momentos questões que já haviam sido asseguradas pela organização: horário para transporte, alimentação e hospedagem; durante todo o meu tempo de contato com a produção eu só enxergava dificuldades impostas pela organização. Cheguei ao cúmulo de ouvir que a água da hospedaria era de uso exclusivo dos hóspedes e que não era recomendado que nós, após uma manhã inteira de viagem, tomássemos banho.

Grupos masculino e feminino separados em quartos diferentes, era hora de se aprontar para a primeira apresentação. Chegando ao recinto percebo que já havia outra pessoa ocupando o espaço por conta da presença de vestidos e malas por todo canto. Iniciava então mais uma sessão de constrangimento: como lidar com um ambiente cheio de pertences alheios? Quem se responsabilizaria caso houvesse o sumiço de algum pertence do hóspede? A produção evidentemente despreparada, não soube responder e ainda entrava nos quartos sem respeitar a privacidade de quem tomava um banho ou se trocava.

Após alguns minutos na referida hospedaria, questionei ao mesmo staff onde eu e os demais integrantes do grupo poderíamos encontrar água, iniciava então mais um momento de justificativa; iniciei então o meu discurso de convencimento pra que todos pudessem ter acesso a água potável. Depois de certo tempo, foram cedidas algumas garrafas de água com um contragosto evidente no rosto do staff.

Depois de toda esta série de inconvenientes com a organização do evento eu, assim como muitos outros, me encontrava cansado físico e mentalmente; aquilo que era pra ser prazeroso havia se tornado um grande transtorno, mas ainda assim a tarefa foi cumprida, levamos música a quem realmente interessava: o público.

O retorno pra casa seria melhor – era o que todos pensavam otimistas - quando mais uma vez um membro da produção informou que em vez de retornar de ferry-boat conforme acordado anteriormente, retornaríamos em uma lancha atravessando a baía de São Marcos em um horário excepcional às 21h.

É de conhecimento de todos que utilizam embarcações que, todo tipo de movimentação na baía se encerra antes das 18h por questão de segurança; como é de conhecimento também de quem utiliza este transporte, a influência dos ventos na navegabilidade no período que corresponde aos meses com terminação em ‘BRO’ (setembro, outubro, novembro e dezembro); Por este motivo o clima de tensão era notório.

Como era de se esperar, todos foram obrigados a retornar nesta lancha caso quisessem voltar para São Luís ainda no sábado. Sem alternativa e não querendo recorrer ao serviço da hospedaria hostil, todos embarcaram. Foram aproximadamente 50 minutos de mar revolto, à noite em um horário, repito: incomum e inseguro para a viagem.

Fica aqui todas as minhas considerações pro Grupo Equinox e toda equipe executante do festival para que se qualifiquem e que busquem orientação qualificada e principalmente que sejam atenciosos de maneira igualitária com as atrações da terra, porque o respeito deve prevalecer sempre.

Atenciosamente,

Saulo Galtri
Jornalista e Estudante de Música

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

RECORTE EM FOCO

Achava aquele trabalho desgastante, como todo serviço o é sempre que a pessoa tem certeza de que não nasceu para aquilo. Mas a hora dela ia chegar, pensava esperançosa, entre uma tarefa e outra.

A vantagem do trabalho mecânico é que você não precisa pensar. Se você encara isso pelo ângulo de que não é obrigado a pensar muito no trabalho enquanto o executa, é mesmo uma vantagem.

A tal moça estava em horário de expediente. Parada na porta da loja de shopping, estrategicamente posicionada entre a vitrine – entendamos: sem tapar a visão dos produtos expostos – e o canto da porta de entrada da loja – sem atrapalhar o trânsito de clientes que entravam e saiam do estabelecimento.

Custei a entender que era uma funcionária. Acho que detive meu olhar na moça porque enquanto esperava na fila do quiosque de sorvete em frente a loja, notei que vestia roupas de corte quase infantil. Uma espécie de macacão jeans azul escuro com uma calça legue cor-de-rosa por baixo.

Já ia desviar o olhar quando a mágica aconteceu. Uma senhora com uma criança de colo se aproximou para espiar a vitrine. Os olhinhos do bebê encontraram os da moça de uniforme, até poucos instantes atrás perdidos entre passantes e sorvetes. O braço esquerdo da moça, até então oculto para mim, ergueu-se em direção ao bebê mostrando-lhe um grande balão cor-de-rosa. A criança sorriu e espalmou a mãozinha na bexiga. Por uma fração de segundo, o sorriso da moça teve a mesma cor que o da bebezinha.

Gosto de pensar que houve uma ligação ali, fugaz, mas seguramente doce. E no momento seguinte, a moça estava só novamente, parada no mesmo lugar, o olhar distante.

A fila do sorvete era devagar, mas eu quase apreciei que aquele momento passasse em câmera lenta. É que fixei o olhar na cena e assisti a uma sequência inestimável. A moça entrou na loja e voltou em silêncio, com outro balão na mão. Pouco depois entregava-o sorrindo a uma garotinha que arriscava os primeiros passos naquele corredor. Viu-a se afastar com o balão, o andar cambaleante, refletiu um pouco e tornou a entrar na loja. Retornou pouco depois com um balão azul, que dessa vez foi entregue a um menino grande o suficiente para se aproximar dela, pedir o balão com os olhos e um mover de sobrancelhas e soltar um obrigado entre risos, os olhinhos vidrados na bexiga de ar.

Aproximei-me de receber meu sorvete e a vi pela última vez: dois balões dessa vez, rosa em uma mão, laranja na outra.

Não cheguei a ver os sorrisos que geraram, pois a essa altura eu já seguia o sentido oposto, entretida com o sorvete, mas não o suficiente para deixar de pensar comigo sobre o que acabara de presenciar.

É que a vida é encanto e a mágica que nossos olhos são capazes de captar mora no segundo em que nosso coração se aquece.

Talvez a moça não tenha nascido para o comércio, mas sim para ser encantadora de balões coloridos que atraem crianças e sorrisos.

É que a gente custa a descobrir para que nasce e às vezes, quando não é levado a pensar muito, passa pela vida sem descobrir.

Por ora, torço para que a moça dos balões veja o próprio reflexo na vitrine da loja em frente e una ao olhar até então perdido, esse sorriso que colore o dia e encanta silenciosamente crianças.