Com base nas experiências vividas durante esse ano, urge que todos nós - público, artistas e produções - pensemos sobre as condições que não só São Luís, mas outras cidades maranhenses, oferecem para a realização de eventos – da logística à qualificação de pessoal. Para que o estado finalmente consolide uma vida cultural – da qual tem fome - respeitando artistas e públicos e entre em definitivo no circuito que produz, expõe, atrai e exporta arte e conhecimento.
Neste contexto, Ensaios em Foco publica abaixo uma carta aberta divulgada por Saulo Galtri, jornalista e estudante de Canto Erudito na Escola de Música do Estado do Maranhão Lilah Lisboa, em que relata sua experiência com o I Festival de Música Barroca de Alcântara e levanta questões importantes que não devem ser deixadas de lado ao fim de cada evento.
Porque arte é estado de espírito e respeito é fundamental.
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São Luís, 04 de dezembro de 2011
A cidade de Alcântara recebe até segunda-feira (5), o I Festival de Música Barroca realizado pela empresa de consultoria cultural Equinox do Brasil por meio de recursos oriundos de apoiadores e grandes patrocinadores como o Banco do Nordeste e a Petrobrás. Foram convocados 30 artistas e músicos do Brasil e do exterior para fazer 14 apresentações e realizar ações didáticas durante o evento. Além da cidade histórica que batiza o evento, a igreja Imaculada Conceição em Bacabeira e a Catedral da Sé em São Luís foram escolhidas para abrir e encerrar as atividades do evento respectivamente.
Olhos afoitos, expectativa e curiosidade foram o que se viu expresso no rosto da população carente de Alcântara que por um curto espaço de tempo se viu menos distante pela baía que a separa de São Luís. Estou longe de querer fazer aqui um discurso assistencialista, mas naquele dia uma janela no tempo se abria pra um público que é rico de história, mas pobre de oportunidades como em muitos outros lugares do Maranhão. Porém embora eu tenha citado o aspecto positivo acima, o I Festival de Música Barroca de Alcântara me remeteu a muitas reflexões sobre gestão cultural.
A Equinox do Brasil atua com a promoção de algumas cidades históricas brasileiras estabelecendo roteiros de eventos musicais, atividades audiovisuais além do turismo histórico. Com o I Festival de Música Barroca de Alcântara, a empresa pretende inserir a cidade em sua vitrine de destinos culturais, entretanto, é necessário que exista a construção de uma estrutura organizacional local para a realização de um evento desta proporção.
Uma cidade que pretende se tornar roteiro cultural deve oferecer ao público que vai prestigiar um evento, bons serviços em hotelaria, gastronomia e todo tipo de serviço que envolve este tipo de atividade, ou seja, devem existir qualificação e capacitação profissional para garantir o sucesso do evento que pretende ser realizado.
Além de todos os requisitos elencados acima, faz-se necessário recrutar para a organização de um festival de música, uma equipe de produção (staff) que tenha conhecimento sobre música, para que enfim se possa ter uma linha de trabalho que vá garantir a integridade de instrumentos e principalmente dos músicos.
Como integrante de um grupo participante do festival tive que solicitar e enfatizar em vários momentos questões que já haviam sido asseguradas pela organização: horário para transporte, alimentação e hospedagem; durante todo o meu tempo de contato com a produção eu só enxergava dificuldades impostas pela organização. Cheguei ao cúmulo de ouvir que a água da hospedaria era de uso exclusivo dos hóspedes e que não era recomendado que nós, após uma manhã inteira de viagem, tomássemos banho.
Grupos masculino e feminino separados em quartos diferentes, era hora de se aprontar para a primeira apresentação. Chegando ao recinto percebo que já havia outra pessoa ocupando o espaço por conta da presença de vestidos e malas por todo canto. Iniciava então mais uma sessão de constrangimento: como lidar com um ambiente cheio de pertences alheios? Quem se responsabilizaria caso houvesse o sumiço de algum pertence do hóspede? A produção evidentemente despreparada, não soube responder e ainda entrava nos quartos sem respeitar a privacidade de quem tomava um banho ou se trocava.
Após alguns minutos na referida hospedaria, questionei ao mesmo staff onde eu e os demais integrantes do grupo poderíamos encontrar água, iniciava então mais um momento de justificativa; iniciei então o meu discurso de convencimento pra que todos pudessem ter acesso a água potável. Depois de certo tempo, foram cedidas algumas garrafas de água com um contragosto evidente no rosto do staff.
Depois de toda esta série de inconvenientes com a organização do evento eu, assim como muitos outros, me encontrava cansado físico e mentalmente; aquilo que era pra ser prazeroso havia se tornado um grande transtorno, mas ainda assim a tarefa foi cumprida, levamos música a quem realmente interessava: o público.
O retorno pra casa seria melhor – era o que todos pensavam otimistas - quando mais uma vez um membro da produção informou que em vez de retornar de ferry-boat conforme acordado anteriormente, retornaríamos em uma lancha atravessando a baía de São Marcos em um horário excepcional às 21h.
É de conhecimento de todos que utilizam embarcações que, todo tipo de movimentação na baía se encerra antes das 18h por questão de segurança; como é de conhecimento também de quem utiliza este transporte, a influência dos ventos na navegabilidade no período que corresponde aos meses com terminação em ‘BRO’ (setembro, outubro, novembro e dezembro); Por este motivo o clima de tensão era notório.
Como era de se esperar, todos foram obrigados a retornar nesta lancha caso quisessem voltar para São Luís ainda no sábado. Sem alternativa e não querendo recorrer ao serviço da hospedaria hostil, todos embarcaram. Foram aproximadamente 50 minutos de mar revolto, à noite em um horário, repito: incomum e inseguro para a viagem.
Fica aqui todas as minhas considerações pro Grupo Equinox e toda equipe executante do festival para que se qualifiquem e que busquem orientação qualificada e principalmente que sejam atenciosos de maneira igualitária com as atrações da terra, porque o respeito deve prevalecer sempre.
Atenciosamente,
Saulo Galtri
Jornalista e Estudante de Música