sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

MÚSICA EM FOCO


Às vésperas de mais um fim de ano (e não de mundo como muitos alardearam e outros tantos acreditaram e/ou torceram), o blog despede-se deste 2012 intenso presenteando os leitores com um dos temas que mais foram abordados por aqui nos últimos tempos: música.

Listo onze discos de artistas de épocas e estilos diferentes, mas que tem em comum uma indiscutível qualidade musical. De mestres como Baden Powell, Tom Jobim e Leila Pinheiro aos nomes promissores de uma talentosa geração atual, como Vinícius Castro, Tibério Azul e Phill Veras. De presente, alguns discos com links disponíveis para download autorizado ou audição on line. Afinal, Papai Noel tarda, mas não falha! ;)

Um ótimo fim de ano a todos os leitores e um 2013 de menos elucubrações caóticas e mais vida simples.

Continuem conosco!

Talita Guimarães

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“À Vontade” (1963) – Baden Powell

Um dos maiores mestres do violão na música brasileira, Baden Powell derrama, muito à vontade - como o título do álbum destaca - todo o seu talento sob as cordas do instrumento neste disco de 1963. Pérolas como “Berimbau”, “Consolação”, “Garota de Ipanema” e “O Astronauta” em versões que privilegiam o registro instrumental compõem  este precioso terceiro álbum de uma discografia de quase cinco dezenas de discos do mestre Baden. Para ouvir como se não houvesse amanhã.

“Tom canta Vinícius” (1990) – Tom Jobim

Grande disco gravado a vivo no Centro Cultural Banco do Brasil (RJ) em janeiro de 1990, reúne a música e a poesia do Poetinha interpretadas por ninguém menos que Tom Jobim muitíssimo bem acompanhado da voz de Paula Morelenbaum, o cello de Jacques Morelenbaum, voz e violão de Paulo Jobim e ainda voz e flauta de Danilo Caymmi. Entre os registros, “Modinha”, “Derradeira Primavera”, “Soneto de Separação”, “Você e eu”, “Eu sei que vou te amar”, entre outros. Entre uma faixa e outra, o disco conserva as intervenções poéticas de Tom no show, declamando poemas que não foram musicados. Disco para a estante dos fundamentais.

“Sem Poupar Coração” (2009) – Nana Caymmi

Dona de uma das vozes mais bonitas da música brasileira e extensa discografia, Nana Caymmi encanta mais uma vez com seu canto pungente e sentimental em seu mais recente disco: “Sem Poupar Coração”. Com a marca inconfundível de sua sofisticação, Nana percorre um repertório repleto de poesia formado por canções como “Caju em Flor”, “Sem poupar coração”, “Senhorinha”, “Diamante Rubi”, “Bons momentos”, entre outras. Emocionante.

“Aquele Amor Nem Me Fale” (2010) – Mariano Marovatto 

Mariano Marovatto tem um jeito sutil de cantar. A voz sussurrada, que confere alguma fragilidade à música com toques bossa-novistas que permeiam todo o disco, sopra de leve a poesia deste carioca doutorado em Literatura Brasileira pela PUC - Rio e apresentador ao lado de Maurício Pacheco do programa “Segue o Som”, exibido nas madrugadas de sábado para domingo na TV Brasil. Em “Aquele Amor Nem Me Fale”, Marovatto expõe sua veia musical com composições que mesclam o canto sussurrado dos mestres da Bossa Nova aos anseios da geração atual em um movimento de aparente resgate que nada mais é que a expressão de um modo de vida que nunca deixou de existir – comum à zona sul carioca - e poder ser cantado, tanto pelos cariocas da gênese do movimento bossa-novista quanto pelos músicos contemporâneos. Um disco, contudo, para ouvir devagar e aprender a apreciar.  

Para ouvir online e/ou baixar "Aquele Amor Nem Me Fale" clique aqui

“Raízes” (2011) – Leila Pinheiro

Disco afetivo e significativo para a carreira da paraense Leila Pinheiro, “Raízes” (2011) nasce da necessidade da artista retornar à sua região natal para cantar a poesia dos compositores amazônicos. As composições reunidas no disco são preciosidades musicais de uma região marcada pela natureza exuberante e inspiradora, executado com primor pela sempre excelente intérprete Leila acompanhada de grandes músicos como Marco Bosco (percussão, efeitos e programações), Paulo Calasans (teclados e programações), Petch Calasans (baixo elétrico e silent bass) e Júnior Meireles (guitarra, violões e cavaquinho). O mérito do disco está no importante registro para a música do norte do país, com a captura de sons da floresta, rituais indígenas gravados na comunidade ribeirinha Nossa Senhora do Livramento em Manaus-AM e ainda o canto de Zeneida Lima gravado ao ar livre, aos pés de uma árvore em pleno município de Soure, na Ilha de Marajó (PA). Um grande disco para a música brasileira e uma justa homenagem à cultura amazônica.

“Boa Parte de Mim Vai Embora” (2011) – Vanguart

Aguardado segundo disco da banda cuiabana Vanguart, “Boa Parte de Mim Vai Embora” extrai dos términos de relacionamentos amorosos a poesia contida na dor de precisar seguir em frente, só que desta vez sozinho. Avassalador pelo conjunto poético, o álbum foi concebido pela banda em meio às experiências pessoais do vocalista Hélio Flanders e do baixista Reginaldo Lincoln, ambos em processo de separação em seus respectivos relacionamentos. Por conta disso, as letras estão fortemente carregadas de experiências genuínas, vividas pelos músicos e muito bem interpretadas pela voz arrastada de Hélio que alonga as sílabas conferindo alguma dor aos versos, acompanhado dos competentes Douglas Godoy (bateria), David Dafré (guitarra e vocais), Luiz Lazzaroto (piano, teclados, rhodes e vocais), Reginaldo Lincoln (voz, baixo e vocais) e ainda o violino de Fernanda Kostchak. Um grande disco sobre, como intenciona a banda e cumpre com louvor, recomeços.

“Bandarra” (2011) – Tibério Azul 

Tibério Azul respira poesia. Seu primeiro disco solo comprova isso. Cantado inteiramente com o irresistível sotaque do músico pernambucano, “Bandarra” é um álbum que passeia graciosamente por temas caros ao artista, como virtudes e princípios norteadores da vida de Tibério. Ao fim de uma audição atenta, “Bandarra” – que quer dizer “caminho que vai dar no sol” – joga luz sobre ensinamentos inestimáveis acerca do amor, do trabalho, da forma de sentir a vida e a poesia pulsante ao redor. Um raro disco para iluminar caminhos.

"Bandarra" disponível para download aqui

“Jogo de Palavras” – Vinícius Castro 

Inteligente, divertido e crítico. Assim é o disco de estreia de Vinícius Castro, recifense radicado no Rio de Janeiro, que vem se destacando pelos interessantes projetos que desenvolve nas áreas de produção musical, audiovisual e literária. Co-idealizador ao lado do cineasta Daniel Terra do “Som na Sala” – canal no youtube que mensalmente apresenta um convidado especial cantando músicas inéditas em vídeos gravados na sala de estar do recifense – Vinícius é um artista versátil que compõe, canta, toca, produz e arranja. Em “Jogo de Palavras” apresenta 13 canções inéditas que brincam com os sentidos e significados de forma poética e perspicaz. Um nome para conhecer e acompanhar!

"Jogo de Palavras" disponível para download aqui.

“Breve Leveza” (2012) – Luiza Sales 

Disco de estreia da carioca Luiza Sales, “Breve Leveza” é, como o nome propõe em parte, um disco para flutuar. Mas há de se pensar sobre a brevidade do efeito da voz de Luiza sobre os ouvintes. Efeito esse que leva mais tempo do que o título do disco sugere, para se dissipar. Artista escolhida para inaugurar o selo Radio Hill Rio do produtor norte-americano Dan Garcia, Luiza Sales percorre um belo repertório composto por músicas de sua autoria e de parceiros da nova geração de músicos como Vinícius Castro e Yuri Villar, além de incluir no disco músicas em homenagem aos compositores Rosa Passos e Djavan. “Breve Leveza” é um grato lançamento do ano que finda e um grande começo para uma artista talentosa que deve crescer muito no cenário musical brasileiro nos próximos anos.

Para ouvir o disco on line e conferir vídeos de Luzia Sales, clique aqui.

“Ordinarius” (2012) – Ordinarius 

Fundado em 2008, “Ordinarius” é um sexteto vocal que se propõe, neste disco de estreia, a interpretar clássicos da música brasileira com versões devidamente pensadas para a música vocal. O resultado é um disco homônimo primoroso que privilegia grandes composições do cancioneiro brasileiro com interpretações de altíssimo nível. Entre as músicas deste primeiro disco estão “Brejeiro”, “Canto de Ossanha”, Todo Sentimento”, “Balada do Louco”, entre outros. Vale destacar que o grupo, formado por Augusto Ordine, André Miranda, Fernanda Gabriela, Gustavo Campos, Luiza Sales e Maíra Martins, foi o segundo colocado no Concurso Nacional de Grupos Vocais do Brasil Vocal, no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB/RJ. Trata-se portanto, de um dos reconhecidamente melhores grupos vocais do país.

Para ouvir o disco on line, clique aqui.

“Valsa e Vapor” (2012) - Phill Veras 

Primeiro EP do maranhense Phill Veras, “Valsa e Vapor”, produzido e disponibilizado pelo portal Musicoteca, dá uma pequena amostra do potencial deste rapaz de 21 anos – sim, pequena, diante do talento do jovem músico já demonstrado em shows solo ou acompanhado de sua antiga banda, a também talentosa Nova Bossa. Com apenas cinco canções registradas em disco, Phill desponta como bom letrista e um intérprete na medida certa das próprias composições – sabe conferir doçura e vigor às músicas como poucos nomes da nova geração. Temos aqui um artista promissor que merece a devida atenção.

Download disponível do EP "Valsa e Vapor" na Musicoteca.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

CRÔNICA EM FOCO


“A vida é cheia de versos livres. Pode aparecer uma palavra que a gente menos espera aí." (M.B.)
Do reencontro
Retornar a um lugar depois de muitos anos é um exercício interessante que mexe com nossa memória e convida à reflexão. E se nesse lugar são encontradas pessoas conhecidas do passado, as impressões que surgem podem render alguma história, ressignificada pelo nosso novo lugar no tempo e no espaço.
Estive no teatro da escola que cursei o ensino médio para assistir a um recital de piano. Passaram-se alguns anos desde a última vez que sentei naquela plateia. Logo em seguida o teatro entrou em reforma e somente foi reinaugurado agora.
Foi um reencontro curioso, pelas circunstâncias e a forma como me comoveu. Sentada nas novas poltronas acolchoadas, repousei a cabeça no encosto do assento a fim de olhar o novo teto e tudo em volta. Não era mais o teatro que frequentei em meus tempos de estudante. É hoje um bonito e moderno anfiteatro, embora a sensação de que a capacidade de público tenha sido reduzida se misture à impressão de que aos quatorze anos, tudo devia me parecer muito maior do que realmente era.
Sozinha e em silêncio, acompanho com os olhos o movimento da geração atual de estudantes que frequenta o espaço. Adolescentes são engraçados, reparo. Falam e sorriem com ares de gente certa de si, dona do mundo, mas não escapam aos traços e gestos ora infantis ora maduros daqueles cujas vidas estão em uma intensa fase de transformação. E é nesse desequilíbrio que mora a leveza da adolescência. No querer se lançar, mesmo comentando entre risos que ter chegado às onze da noite no dia anterior rendeu alguma espinafração em casa.
Enquanto aguardo o recital, sigo observando aquele teatro que um dia abrigara assembleias estudantis inflamadas, algumas raras montagens teatrais de textos literários para obtenção de notas, uma ou outra premiação de feira de ciências e me ponho a lembrar das coisas sutilmente deliciosas vividas por ali. Momentos vividos sem a pretensão do inesquecível e que adormecem dentro de nós para serem despertados de repente, ganhando o carinho da lembrança que por muito pouco poderia estar fadada ao esquecimento.
Sorrio para o professor de música que apressado ajusta os últimos detalhes no palco e com a iluminação. É um ex-aluno mais ou menos da mesma época que eu. E de repente me ocorre como é bonita a renovação da vida, que vai fluindo parecendo distanciar momentos e pessoas no tempo para de repente reuni-las em um local que se renova sem se desconectar totalmente de seu passado. Pode até ser uma forma afetuosa minha de enxergar as coisas, nos detalhes que quase mínimos demais não deixam de revelar a forma mais encantadora de enxergar o que realmente vale a pena. É que esse jeito de viver com alguma poesia, nada mais é que um jeito de flutuar.
A vida é uma grande teia de conexões das mais inimagináveis possíveis. Talvez por isso saiba ser tão fantástica, tanto para o que é bom quanto para o que não o é. A forma de sentir como uma conexão pode estar revestida de entrelinhas cabe à nossa capacidade de jogar a cabeça para trás por alguns instantes, fechar os olhos de fora e abrir os de dentro, nesse enxergar que sobrepõem as imagens de antes às de hoje, gerando um mundo - por ora - muito mais bonito de ver.

domingo, 25 de novembro de 2012

REFLEXÃO EM FOCO


“Um texto não existe até que seja lido...”
 (Jean-Do, “O Escafandro e a Borboleta”)

Quem de nós não sente por vezes carregar um escafandro dentro de si, numa vida sufocada pelos próprios atos, sentimentos e pressões externas? Quantos de nós não sentem que parte da vida que gostariam de levar segue aprisionada às obrigações e por que não dizer também aos medos, que a realidade lhes impõem e proporciona?
Como o avesso de um Guimarães Rosa, que dizia existir um sertão dentro de si e o mundo no qual vivia ser também o sertão, quem sente um escafandro dentro de si não precisa necessariamente ter a sufocante vestimenta como mundo – e aqui o sentido de escafandro está para além daquilo que simplesmente veste e arrasta para o fundo, mas sim como uma camada interna, que nos reveste de algo que pesa e só é possível sentir de dentro para fora. É mais ou menos isso que Jean Dominique Bauby descobre e ensina em “O Escafandro e a Borboleta”.
Enquanto vivemos nossa rotina aparentemente implacável, nos distraímos de nós mesmos. Corremos o risco de não pensarmos nossos dias, não repararmos nossos atos, não nos distrairmos do mundo para voltarmos nosso olhar para dentro de nós mesmos. Somente quando nossos desejos, construídos muitas vezes num dia-a-dia atropelado, são postos na corda bamba e nos fazem temer o amanhã que ou já não será a projeção do que parecia ter sido construído até ali ou nos surge como uma assustadora projeção daquilo que foi exatamente construído, é que percebemos para o quão fundo deixamos nosso escafandro interno nos arrastar. Esse parece ser o sentimento de Jean-Do, que ao se ver paralisado por um acidente vascular cerebral, mas com a lucidez preservada, empreende uma luta para voltar à superfície e encontrar um meio de reparar tudo o que o empurrou para tão fundo.
A metáfora proposta pelo filme, baseado no livro que narra a história real de Jean Dominique Bauby, é uma bela e pungente forma de conferir poesia aos dois pólos opostos que habitam cada um de nós. Afinal, ninguém é só escafandro ou só borboleta. Nem a vida nos obriga a ser somente um lado, muito embora nossas escolhas pareçam conseguir nos encaminhar para um resultado só.
Após conhecer a história de Jean-Do e ver como ele foi capaz – apesar de todas as suas limitações e culpas – descobrir leveza onde antes havia só o peso e a autopiedade, nos colocamos diante de um exemplo de superação que nos sopra um novo ar e impulsiona para onde só as asas de uma borboleta seriam mesmo capazes de levar. E nem se tratam de atos de coragem ou ousadia, mas de ser preenchido por um novo ânimo em sentir, finalmente, que nem tudo está perdido e todas as respostas sobre quem de fato somos estão dentro de nós e o que é mais bonito: não somente em nós, afinal é ao lado de outras pessoas que ajudamos a construir quem somos. O problema, no entanto, ainda está no pouco tempo que passamos em nossa própria companhia, aprendendo a saber sobre nossa própria essência, nosso jeito mais adequado de sermos nós mesmos e agirmos com confiança e sinceridade, honrando quem verdadeiramente somos e sentimos.
Por conta disso e inspirada na passagem em que Jean-Do diz que um texto só existe se for lido, me pergunto como devemos lidar com os sentimentos que existem apesar de conterem uma carga indizível. Como mostrar ao outro que nos importamos, que sentimos sua falta, que o bem que sua companhia nos faz é o que nos torna pessoas melhores, antes que seja tarde demais, antes que "o medo nos arranque nossa própria consciência"*?
Então desculpe contrariá-lo caro Jean-Do, mas talvez um texto exista mesmo que não tenha sido lido. Assim como sentimentos habitam nossos corações, muito embora não saibamos como dizê-los.
O que nos resta de caminho a pavimentar entre o escafandro e a borboleta é a forma como superaremos o medo dos gestos que dizem aquilo que palavras e cartas algumas estarão preparadas para dizer, simplesmente porque nossa linguagem não contêm palavras cujos significados comportem o que sentimos e somos capazes de compreender de todo.
Se Jean-Do chegou a descobrir essa resposta não saberemos. Talvez a pergunta permaneça de legado para que cada um descubra, ao seu tempo, sua resposta pessoal e cujo processo de descoberta sim, é intransferível. Afinal, o "futuro é que não existe, mas somente se não o fizermos"** ou ainda, de quanto tempo precisamos para "saber que o futuro tem um coração antigo"***?
*Frase inspirada no filme "Persépolis"
** Frase inspirada no filme "O Exterminador do Futuro"
***Trecho inspirado em verso do poema "O futuro tem o coração antigo", de Celso Borges

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MÚSICA EM FOCO - Entrevista com Luiza Sales



Teia musical


Todos os dias, um sem número de novos nomes da música surge na internet disponibilizando canções e vídeos a perder de vista. A oferta é grande. Resta-nos garimpar entre as tantas novidades, os nomes talentosos separando-os dos hits do momento.

Com um pouco de sorte, disposição para garimpar e boas indicações, conheci em menos de um ano cantores e cantoras de voz incrível e composições inspiradas, ótimos de ouvir. Descobrir, portanto, os mais promissores nomes da nova geração da música brasileira através da internet tem sido uma tarefa bem grata e generosa.

Para trazer ao blog um bom exemplo de como buscar por novos sons pode ser uma verdadeira teia de ótimas descobertas, elegi um disco em especial que muito bem produzido, traz um sopro de leveza e delicadeza à música atual e nos brinda com a voz de uma cantora que reúne em seu disco de estreia homenagem a grandes nomes da nossa música e composições originais com versos encantadores.

No início de 2012, conheci por indicação da minha irmã o Som na Sala. Idealizado pelo músico Vinícius Castro em parceria com Daniel Terra, o projeto consiste em a partir de um microfone e uma câmera, produzir na sala da casa de Vinícius um vídeo de um músico convidado e divulgar no canal do projeto no Youtube. Eis que a primeira cantora convidada foi a carioca Luiza Sales, que interpretou na estreia do projeto a canção “Linha do Tempo”, parceria sua com Vinícius Castro.

A partir daí, acompanhar cada edição do projeto foi natural, assim como buscar conhecer mais sobre o trabalho dos convidados e foi assim que descobri o disco “Breve Leveza”, que marca a estreia de Luiza Sales em carreira solo como um dos nomes atuais que mais merecem audição e atenção. Paralelamente ao trabalho de concepção e divulgação do disco, Luiza atua como professora de canto e integra o sexteto Ordinarius, interpretando ao lado dos músicos Augusto Ordine, Maíra Martins, Gustavo Campos, Fernanda Gabriela e André Miranda, um repertório de clássicos da música brasileira com direito a novas versões pensadas para a música vocal e algumas inusitadas e surpreendentes interpretações.ustavo Campos, Fernanda Gabriela e Andr ao lado dos m convidados e foi assim que descobri a carreira solo da Luiza

Em setembro, tive o prazer de assistir ao show de lançamento do primeiro disco dos Ordinarius no Centro Cultural Carioca e conversar com a simpática Luiza Sales. Na entrevista abaixo, gentilmente concedida por e-mail, Luiza fala da importância da formação musical, do trabalho como professora, das inspirações para compor, das referências musicais e da experiência com a música vocal.

01) Iniciaste na música cedo, estudando violino ainda na infância. Tua formação musical transita entre influências da música erudita e experiências com o samba, o forró e o jazz. O que essa bagagem representa para você hoje e como foi eleger a música popular brasileira como vertente a seguir?

Iniciar pela música erudita me deu uma base técnica muito importante. Aprendi a trabalhar em conjunto na experiência em corais e orquestras e o violino foi o primeiro instrumento a me ensinar o que era música. Mas, a partir da faculdade de música, a música brasileira estava ao meu redor o tempo todo e não pude fugir. Fico feliz em defender a música brasileira e espero poder defende-la também fora do país... 

02) Como é conciliar a carreira no canto com o magistério? Ser professora faz de você uma cantora mais exigente com o próprio desempenho ou as duas carreiras se complementam e ajudam mutuamente? 

Para muitos músicos, ser professor é um complemento para a estabilidade financeira. Afinal, fazer shows é bem mais incerto e instável do que ser professor de música em uma escola, tendo um emprego regular. Eu comecei a faculdade querendo ser professora e violinista e de lá saí querendo ser cantora. Confesso que tive muitas decepções com a carreira de professor no Brasil, devido aos baixíssimos salários e às péssimas condições de trabalho. Recentemente, deixei a escola onde trabalhava por estes motivos. Atualmente, sou apenas professora de canto, dando aulas particulares. E sinto que a cada aula de canto que dou, eu aprendo muito sobre a minha própria técnica vocal - e tenho certeza de que isso me faz uma cantora melhor. 

03) O que inspira a Luiza compositora? 

Muita coisa ou nada. Eu gosto muito de todas as formas de arte e da natureza. "Barco", por exemplo, veio na minha cabeça quando passei pela enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, e fazia um lindo domingo de sol, com céu azul. A paisagem cheia de barquinhos no mar me inspirou... Eu geralmente me sinto muito estimulada a compor, cantar, criar, quando leio ou vou a uma exposição de artes plásticas, por exemplo. Me sinto especialmente instigada pelas obras do pintor Jackson Pollock e pelos poemas de Pablo Neruda, minha maior referência na poesia. 

04) Em “Breve Leveza”, a faixa “Lei” foi composta por Djavan e integra o disco ao lado de belas canções compostas por você em parceria com músicos da nova geração de compositores brasileiros como Vinícius Castro, Yuri Villar entre outros. Como foi o processo de escolha do repertório para o disco de estreia e o que essas escolhas refletem para você ao ouvir o resultado final? Gostaria que comentasse também a experiência de gravar o disco com a banda Os Coringas. 

Algumas das músicas do disco já faziam parte do meu repertório antes do CD. Por exemplo, "Quebrupasso" e "Carcaça" são músicas que eu cantava desde os tempos de faculdade, quando nos apresentávamos ao final dos semestres... Todas as músicas são composições de amigos meus. Eu pedi que me enviassem músicas, fiz uma pesquisa profunda na obra de cada um. E a partir daí fui tentando montar um repertório que fosse variado (tem samba, baião, balada...) mas que ao mesmo tempo guardasse uma unidade. 

Sobre Os Coringas, fico muito feliz de ter trabalhado com eles. O processo de gravação foi ótimo, eles foram muito competentes e fizeram tudo exatamente como eu imaginava. Os meninos são ótimos músicos. Ao final dos shows eu ouço mais elogios pra eles do que pra mim! rs 

05) Quem são suas maiores referências musicais? 

Rosa Passos e Djavan aparecem no disco como as referências que eu quis homenagear neste primeiro trabalho. São dois músicos que levam a música brasileira a um nível internacional, com muita qualidade técnica e artística. Mas tenho referências que eu considero meio 'obrigatórias' pra todo mundo. Tipo Chico Buarque, Caetano e Gil. Também ouvi muitos grupos vocais, como Take6 e o brasileiro Boca Livre. Quanto as cantoras, admiro muito a Leny Andrade, Elis Regina, Ella Fitzgerald, Monica Salmaso... 

06) Paralelamente à carreira solo, você integra atualmente o sexteto Ordinarius. Como surgiu o trabalho com o grupo vocal que acaba de lançar o primeiro disco? 

Ordinarius (da esquerda para direita: Fernanda Gabriela, Maíra Martins,
Luiza Sales, Gustavo Campos, André Miranda e Augusto Ordine)
 em show de lançamento do primeiro disco, realizado 
no Centro Cultural Carioca (RJ) em setembro de 2012.
Os Ordinarius surgiram quando o Gustavo chamou Augusto e Maíra para formar um grupo vocal. Eles me chamaram para fazer um teste e eu passei. Depois entraram os outros integrantes, algumas alterações na formação e chegamos ao grupo de hoje. Eu sempre cantei em coral (junto com o violino, aos 8 anos entrei no coral do colégio onde estudava) e quando fiz 14 anos, já tinha um grupo vocal com cinco amigos. Depois fundei meu próprio grupo, onde era arranjadora (aos 18 anos!) e por fim, cheguei ao Ordinarius. Sou apaixonada pela música vocal e fico muito feliz com nosso trabalho! 

Para seguir a teia: links para escutar e conhecer mais!


Em tempo: Ensaios em Foco parabeniza todos os mestres no dia de hoje, em especial nossa entrevistada Luiza Sales, representando os professores de música! 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

LITERATURA EM FOCO


Aurora da Graça

Aurora da Graça
Há cerca de um ano descobri, através de uma resenha, uma escritora maranhense de nome poético e uma obra delicada e arrebatadora. Resenhas bem escritas tem o poder de envolver o leitor instigando-o a procurar pela obra resenhada. Comigo não foi diferente. Após ler o que Alex Sens escreveu sobre "O Tempo Guardado das Pequenas Felicidades" fiquei encantada pelos versos de uma poetisa chamada Aurora da Graça.  

Algum tempo depois, tive a honra de conhecer a autora pessoalmente e ganhar um exemplar de sua obra mais recente, a coletânea "O Tempo Guardado das Pequenas Felicidades" (2009) que reúne os três primeiros livros de Aurora - “Cavalo Dourado” (1977), "Nó de Brilho" (1981) e "Memória da Paixão" (1987) - às suas poesias mais recentes. 

Com a leitura dos versos distribuídos pelas mais de 300 páginas, percebi que a indicação encantada de Sens, que me despertara a vontade de ler o livro, era mais que uma ótima resenha, pois captara toda a poesia de Aurora compartilhando o sentimento que merece ser guardado através dos tempos.

Na entrevista abaixo, Aurora da Graça nos conta um pouco de suas inspirações e relação com a literatura e nos brinda com um conto originalmente escrito para a Revista Mescla.

1) Como foi o despertar para a produção literária? 

Desde o ginasial gostava de ler e copiava em um caderno os sonetos do livro de português da escola que trazia poesia. Mais tarde, escrevia um poema inspirada na paisagem da baía de São Marcos (São Luís), onde os barcos navegavam com suas velas coloridas. Bem depois, “ouvia vozes” que me ditavam versos. Achava que aquilo era uma coisa diferente e comecei a escrever o que me vinha à mente. Mostrei para o poeta José Chagas e com seu incentivo publiquei pelo SIOGE o primeiro livro – Cavalo Dourado. Com esse aval e, posteriormente, um cartão do grande Carlos Drummond de Andrade me deu “garantia” de poeta.

2) "O Tempo Guardado das Pequenas Felicidades" (2009) reúne poemas de três livros seus - "Memória da Paixão" (1987), "Nó de Brilho" (1981) e "Cavalo Dourado" (1977). Como surgiu a ideia de publicar um livro que fizesse um passeio poético pela sua produção?

Dois dos 3 livros publicados não me agradavam na forma. Editados de forma precária, sem os recursos de hoje. Como solução fiz uma leitura com o amadurecimento atual para reuni-los em um único volume. Uma espécie de testamento poético.

3) Tua poesia se alimenta da vida, extraindo detalhes do cotidiano que podem compor um belo álbum de recortes - tanto pela beleza com que retratas sentimentos quanto pela inquietude tão verdadeira e presente no viver. O quanto há de Aurora da Graça nos versos e o que busca a poeta ao versificar o que a inspira? Quais seriam os sentimentos que mais a comovem e inspiram para escrever?

As coisas e pessoas ao nosso redor sem que vejamos tem algo que nos atrai. Por exemplo, porta retratos empoeirados, uma cadeira, o chão, uma parede molhada, a sala escura, uma palmeira ceifada, enfim, o ambiente que nos acolhe oferece os elementos. As palavras que temos armazenadas se encarregam de expressar o que essas coisas e pessoas me dizem. Por isso que eu acho – ler é tudo. Nunca escrevi na alegria.

4) Como é teu momento de criação? Existe uma rotina estabelecida ou escreves de acordo com as ideias e inspirações que vão surgindo?

Sempre há uma palavra, uma situação que me comoveu, e muitas vezes a decisão de escrever, deliberadamente, como exercício.

5) Quanto ao conto “Caco de Espelho”, que publicamos no fim desta postagem, como foi criá-lo?

Uma noite, em 2009, eu me sentei para exercitar a escrita e puxei pela memória. Um devaneio, praticamente.

CONTO

“CACO DE ESPELHO”
(Aurora da Graça) 

Uma porta e todas as janelas fechadas. Nada de vento. Alguma fresta de luz somente. Vontade de voar. Chegar onde te encontras e arrancar todas as agulhas que te rasgam as entranhas, arrancar de teus pulsos, as agulhas. Sarar as feridas que tua alma abriu em teu corpo e te obrigam a dormir de dor. Chegar onde te encontras e abrir teus olhos fartos de sonhar, livrá-los da vertigem, livrá-los do que te ofusca. Mais que aprisionado pelas paredes, mais que aprisionado entre as portas fechadas, eu mesmo me aprisiono no desejo, mesmo que passageiro, de abrir tuas veias com um sopro emprestado de Deus e da Virgem de Guadalupe, para que renasças e me digas que já é hora de mudar as rédeas da vida. Esvaziar mais e mais o oco. Tratar a vida com os brilhos que se convertem em rumos de sonhos.

Abre-se o dia toldado pelas nuvens pesadas de ontem. Impossível saber o que pesa mais. Se a agrura que as palavras absurdas provocam ou este céu carregado e escuro. Desvio meu pensar para longe do agora. Outro tempo de festiva contemplação. Quando teus cabelos dourados brilhavam mais que ouro. Leves mais que plumas. Lisos mais que chuva pelos beirais. Outro tempo.

Dormes, talvez. Reviro os escombros do que hoje se revela tênue e difuso. Cavo o que se viveu. Revolver a memória de nossa vida feliz, no tempo das manhãs de sol e passeios nas barcas floridas pelos 180 km de canais que sobraram do lago Texcoco, soterrado para a construção da Cidade do México. A música original dos “mariachis”. Nossa felicidade era viver ao acaso das horas premiadas. Entre as águas e a ilusão. Tempo irreversível.
Ainda jovem arriei a bagagem do desencanto e procurei outra linha para contornar a vida. Foi difícil abrir os umbrais da minha alma. Dobradiças enferrujadas, trinco sem utilidade. As brechas de sua urdidura eram invisíveis. Achei as ferramentas e enfrentei o oficio de redescobrir o brilho dos olhos e o ânimo de enxergar o que era real e me desvencilhar do sonho imaginário e impossível.

Percebo que tudo não passou da invenção. Sonhei com “meus olhos costurados”, no dizer do jovem poeta. Estar só é chamar fantasmas, passado perdido. Preciso descansar o corpo. De olhos fechados por horas, muitas horas. O inesperado corte da luz elétrica escureceu mais o que em mim já era o breu. O corpo estirado pressente o quanto teria que esperar pelo dia. Talvez uma espera inútil. O desassossego se instala em mim. Na quietude da madrugada, a ausência de apelos é palco perfeito ao surgimento de ideias, sonhos. Nada acontece. O breu impede. Há o redemoinho na alma. Não há desejo. As imagens se sucedem no meu pensamento. Imagens retalhadas, confusas, quase obscuras. Movem-se. Torvelinho. Meu espírito não suportará por muito tempo a movimentação pictórica de meus pensamentos, mas eu não ouso impedir. Permaneço estático à mercê do que poderá vir e que não sei nem posso imaginar. Enganei-me. Tudo o que imaginei sobre esta nova vida para nós não passou de ilusão. Permaneces absorta e mais alheia ao que eu presumia ser normal e possível. Viver o dia e a noite enfrentando os acontecimentos com normalidade. Preciso entender o que meu pensamento fustiga. As lembranças, vivências e fantasias. Há em mim o desejo de estimular os recônditos da memória, espaços construídos de silêncio. E depois? Se eu tiver medo e não souber o que fazer com os segredos descobertos? Pensamento, voz, esquecimento, lembrança ou nada.

Logo será dia. Abrirei a porta e as janelas. Escancaradas para o sol. Liberdade para a inundação da claridade. O vento, nos quintais, dará voltas nos lençóis dos varais. Diante da janela a paisagem. A paisagem não indaga, tampouco quer ouvir qualquer palavra ou história de amor ou ódio que eu possa ou queira relatar. Qualquer história de medo ou de aventura. Qualquer história de tédio ou benevolência. Os acontecimentos do passado escapam da memória. Tomam corpo e desfilam na passarela desta recordação. Há um hiato entre nós. Eu também separado de mim. Ser feliz, às vezes, é só lembrar.

Aurora da Graça Almeida é poeta e professora, natural de Rosário-MA. Mantém ainda o blog “Nó de Brilho” (http://debrilho.blogspot.com.br/) com poemas, fotografias e recortes poéticos. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

TOM JOBIM PLURAL EM FOCO


Marcelo Bratke e Camerata Brasil retornam ao TAA com espetáculo em homenagem a Tom Jobim

Um campo verdejante surge e logo o movimento do trem avisa que a viagem está começando. No ritmo da locomotiva, acompanhamos a paisagem passar devagar. A trilha sonora: um “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos) guiado pelo pianista Marcelo Bratke e a Camerata Brasil. Assim é o embarque no concerto da nova turnê do grupo, iniciada em julho e que passará por dez cidades brasileiras, chegando em São Luís-MA na próxima quarta-feira (19/09) às 20h no Teatro Arthur Azevedo (TAA), com retirada de ingressos uma hora antes na bilheteria do teatro. 

“Tom Jobim Plural” é a terceira turnê de Bratke em companhia dos jovens instrumentistas da Camerata Brasil (nova formação da  Camerata Vale Música) em homenagem a grandes compositores brasileiros e que dialoga com as duas séries de concertos anteriores – “Alma Brasileira” (2008) em homenagem a Heitor Villa-Lobos e “Nazareth – Brasileirinho” (2009/2010) com um programa dedicado a Ernesto Nazareth. Homenagear Villa-Lobos, Nazareth e Jobim integra o projeto que Bratke chama de “Trilogia da Música Brasileira”.

Confira o vídeo de divulgação da turnê
O concerto em homenagem a Tom Jobim, idealizado por Marcelo Bratke e a artista plástica Mariannita Luzzati, é um passeio sensorial pela influência musical de Tom e suas produções mais preciosas como “Garota de Ipanema”, “Inútil Paisagem”,” Sabiá”, “Luiza”, “Wave”, entre tantas outras músicas que encantam o público. O mérito deste concerto em especial é a forma como o ambiente foi pensado para envolver as pessoas na apreciação da música: o filme-cenário de Luzzati projeta imagens de paisagens naturais do Brasil sob os músicos Marcelo Bratke (piano), Lucas de Oliveira (violoncelo), Lucas Anízio (violino), Jean Michel de Freitas (clarinete), Ariel Alves (flauta) e Leonardo Miranda de Paula (percussão) enquanto executam com primor um programa que traz ainda uma intervenção percussiva que apresenta o congo capixaba e passeia pela pluralidade do país.

Assisti a apresentação realizada na noite de 30 de agosto no imponente Theatro da Paz em Belém-PA. O concerto emociona pela delicadeza com que traz interpretações de clássicos conferindo-lhes uma nova leitura, como em “Garota de Ipanema”, guardada para o final e apresentada de uma nova forma. Ao público, há uma mistura positiva de surpresa, empatia e originalidade reservada para a execução do programa. O que se vê no palco é um grupo afinado que une energia e sentimento às interpretações. A platéia de Belém, por exemplo, correspondeu com sensibilidade, em um coro que embora tímido, sussurrava as letras das canções acompanhando de mansinho o piano de Bratke e os rapazes da Camerata Brasil em um belíssimo espetáculo sonoro, visual e sensorial.

Conhecendo a Camerata Brasil – Originalmente fundada por Marcelo Bratke com o objetivo de profissionalizar jovens músicos de concerto em Vitória-ES, a Camerata Brasil nasceu em 2007 como Camerata Vale Música por conta do vínculo com a patrocinadora do projeto, a mineradora Vale.

Após a gravação do DVD e a turnê "Alma Brasileira", o vínculo com o projeto Vale Música se desfez e o grupo passou a apresentar-se como Camerata Brasil. A partir deste ano, o grupo representado pelo pianista Marcelo Bratke oficializou uma parceria com a Faculdade de Música do Espírito Santo – Fames,  atual instituição de onde saem os músicos que compõem o projeto.

Flutuação - Conheci o trabalho dos jovens instrumentistas da Camerata Brasil na ocasião da passagem da turnê “Nazareth – Brasileirinho” por São Luís em agosto de 2010. Na época, decidi ir ao concerto de última hora e tive uma gratíssima surpresa ao assistir a um espetáculo primoroso com o repertório do compositor brasileiro Ernesto Nazareth executado com graça e qualidade pelo grupo. Clássicos como "Brejeiro", "Odeon", "Fon Fon" e "Batuque" integraram o concerto que possui um registro em disco gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera e comercializado pelo selo Biscoito Fino.

Desde então passei a acompanhar o trabalho oriundo das turnês idealizadas pelo paulista Marcelo Bratke ao lado da Camerata. Tive a honra de ganhar o disco "Nazareth - Brasileirinho" das mãos do maestro e guardo com carinho o presente de poder reviver, de olhos fechados, a passagem do concerto por aqui a cada audição do belo registro fonográfico. Pesquisando um pouco consegui encontrar o DVD do concerto “Alma Brasileira”, registro audiovisual da primeira turnê realizada em 2009 com repertório em homenagem a Heitor Villa-Lobos, uma apresentação fantástica que também gerou um registro em DVD comercializado pela Biscoito Fino.

Finalmente, após dois anos da última turnê nacional, Bratke e a Camerata Brasil – em nova formação: com os talentosos Jean Michel assumindo o clarinete e Lucas de Oliveira o violoncelo - retornam aos palcos com uma homenagem a Tom Jobim, o maestro maior da nossa música popular e autor ao lado de Vinícius de Moraes do clássico da Bossa Nova “Garota de Ipanema”.

Para já ir dando uma ideia do que Bratke e a Camerata reservam ao público de São Luís, Ensaios em Foco conversou mais uma vez com Léo de Paula, percussionista de 24 anos cujas principais influências vem dos instrumentos típicos da música brasileira, o repertório e os solistas contemporâneos de marimba, música cênica para percussão e instrumentos “étnicos” (oriente e áfrica).  Na breve entrevista abaixo, Léo nos conta um pouco desta nova turnê e das experiências vividas nos últimos anos, desde a última passagem do grupo por terras maranhenses.

1) “Tom Jobim Plural” é a tua quarta turnê como integrante da Camerata Brasil. Entraste no grupo em 2009 e participaste das turnês “Nazareth – Brasileirinho” (2009 - 2010) e Brasil Plural (2011). O que o público pode esperar de novidades quanto às intervenções percussivas neste concerto em especial?

Léo de Paula: A proposta do espetáculo multimídia “Tom Jobim Plural” está intimamente ligada à natureza brasileira. Isso influenciou a concepção do instrumental e um pouco da linguagem de percussão deste repertório.

Surgem tipos brasileiros distintos, como se passeássemos pelo carnaval e pela tradição do princípio do século XX, passando por regiões do sudeste e nordeste brasileiro e encontrando ritmos, e gêneros como Samba-Batucado, Choro, Frevo, Marcha-Rancho, Maxixe, Capoeira, Baião, Xaxado, e Congo capixaba dentre outros; até a contemporaneidade com uma pitada ecológica, valendo-me de instrumentos artesanais, exóticos, sons da mata, apitos de pássaros e outras cores a somar na realização do concerto interagindo com o vídeo.

2) A importância e a recepção do público em turnês nacionais e internacionais tem sentidos diferentes. Gostaria que comentasse a importância da realização de concertos que levam o repertório de compositores brasileiros de produção relevante tanto para cidades brasileiras de regiões e referências culturais tão diferentes quanto para fora do país. O que foi mais marcante para você até hoje?

Léo de Paula: É válido descortinar aspectos determinados da cultura brasileira, tanto para os nativos (que muitas vezes desconhecem até mesmo o que está bem próximo) quanto para os estrangeiros (vários ainda guardam conceitos “tupiniquins”, a nação do futebol, o exotismo, etc...) valorizando o que temos de melhor em nossa composição absolutamente miscigenada. Ocorre difusão da música midiática brasileira, mas compositores, como os referenciais adotados, não são devidamente divulgados.

São muitas experiências marcantes. Seguramente, a receptividade do público sérvio, bem como a interação com os músicos professores do conservatório de Belgrado foi inesquecível.

3)  Em dezembro de 2011 você foi premiado no IV Concurso Jovens Músicos – Música no Museu, obtendo a terceira colocação no prêmio, cujas semifinais e finais da competição foram realizadas na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O que este reconhecimento significa para você?

Léo de Paula: Significou a abertura de uma absoluta e real expansão das fronteiras para minha prática artística.

Começar nas baterias das escolas de samba do carnaval carioca, passar por estéticas múltiplas como big bands de Jazz, regionais de choro, formações populares, bandas sinfônicas, orquestras sinfônicas, e culminar com a premiação em uma competição nacional de solistas mistos (todos os instrumentos competem entre si) revelou a possibilidade de ir mais além... Afinal, o solista não pode contar com o amparo ofertado no gesto ou olhar do colega da prática camerística. Enfrenta-se a tensão e o desafio de estar por conta própria. A busca artístico-musical segue incessantemente.

domingo, 9 de setembro de 2012

MÚSICA EM FOCO


Por ocasião das comemorações do quarto centenário de São Luís-MA, a cidade tem recebido uma programação cultural mais intensa, patrocinada por órgãos públicos e a iniciativa privada. Na última quinta-feira (06), foi a vez a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) apresentar ao público na Lagoa da Jansen um concerto especial com a participação de artistas maranhenses e um programa inspirado nos ritmos locais. 

Considerando, contudo, o cenário real da música no Maranhão com escolas de música fechadas por tempo indeterminado prejudicando a formação musical de futuros profissionais entre outros descasos, o violoncelista Rogério Chaves expressou sua indignação com o oportunista espetáculo motivado pelo aniversário da cidade por meio do texto que segue abaixo. Uma reflexão crítica, sensata e necessária.

Vale ler, compartilhar e analisar o contexto local para pesar o que vale mesmo comemorar em mais um 8 de setembro.


Boi de Orquestra....ou Orquestra do Boi?

por Rogério Chaves

Fiquei impressionado com a criatividade dos organizadores e produtores musicais da programação cultural da Festa dos 400 anos de São Luís. Falo mais especificamente, do concerto “São Luís: 400 anos de ritmo”, que teve a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro – OSB e de artistas maranhenses.

Nessa ocasião, a OSB apresentou um programa com “sotaque” exclusivamente maranhense, composições de Ubiratan Sousa, Turíbio Santos, entre outros, acompanhada por percussionistas e cantores locais. A exceção foi a peça de abertura, “Parabéns São Luís”, de autoria do maestro Mateus Araújo (RJ), mas que também, teve “inspiração” maranhense.

Um repertório desse gabarito é de impressionar e de encher de orgulho a nós, maranhenses, por ver “nossa música” sendo executada por uma das orquestras mais importantes do país.

Bem, seria isso mesmo que eu também sentiria se não fosse o fato de que o Maranhão não possui uma orquestra sinfônica. Explico.

Uma orquestra é a formação instrumental, por excelência, para democratizar a música dita universal, obras de compositores de vários lugares, épocas e estilos, que por seu valor histórico, artístico e cultural, tornaram-se um patrimônio universal, a que todos deveriam ter acesso. Entretanto, este é um direito, o qual vem sendo (e ouso dizer, por 400 anos!) sistematicamente negligenciado ao povo maranhense. Direto que é negado, não só pelo fato da inexistência de uma orquestra sinfônica no Maranhão, mas também pela “ditadura” da cultura popular como única expressão artística com validade real em nosso Estado.

O Povo Maranhense vive e faz música popular 365 dias por ano. A música folclórica do Bumba-meu-boi, do Tambor de Crioula, entre outros tipos maranhenses já ultrapassaram os limites espaço-temporais do Carnaval e do São João, acontecendo durante todo o ano e também, já gozam de reconhecimento nacional e até internacional. Por tudo isso, consolidou-se como uma expressão legítima e visceral da cultura maranhense, o que muito nos alegra. Mas será que este mesmo Povo não merece conhecer Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Wagner, Tchaikovsky, Carlos Gomes, Villa-Lobos, Ernani Aguiar, Francisco Mignoni, (certamente, todos fazem parte do repertório da OSB), e mais Antônio Rayol, Elpídio Pereira, Pedro Growell entre outros, artistas igualmente legítimos e viscerais da cultura universal, que expressam/despertam as mais diversas emoções por meio da arte musical?

A música popular maranhense NÃO precisa da OSB para se projetar para o resto do mundo, coisa que os grupos e artistas locais já o fazem, e diga-se de passagem, muito melhor, com toda a sua criatividade e originalidade e a despeitos das adversidades. No entanto, o Povo Maranhense ainda precisa SIM da OSB para ter acesso ao patrimônio da música universal.

Trazer uma orquestra sinfônica para São Luís, para que ela se apresente, entre músicos, cantores e performances de dançarinos, é colocar a música sinfônica em segundo plano, pois todos havemos de concordar que nesse contexto, a orquestra foi apenas o suporte, o acompanhamento dos cantores, dos dançarinos e dos “nomes pseudomaranhenses” que estiveram no palco da Lagoa da Jansen, no dia 6 de setembro de 2012.

Por que será que a organização e os produtores da Festa, não solicitaram a Gilberto Gil, a Zezé de Camargo e Luciano, a Ivete Sangalo, a Alcione, a Zeca Pagodinho ou a Roberto Carlos que também fizessem os seus shows exclusivamente com músicas maranhenses?

No entanto, tal “concepção artística” sobrou para a OSB (atração que, como já dissemos, é a única porta-voz da música universal) e que, politicamente, aceitou tal incumbência, a pedido da organização e da produção da Festa dos 400 Anos e, obviamente, de seus patrocinadores oficiais.

Perdemos mais uma raríssima chance de ouvirmos obras, compositores, estilos musicais que fazem sim, parte de nossa cultura e que somente (e infelizmente!) poucos, aqui em São Luís, tem acesso.

Este desabafo não é, de maneira alguma, um ataque à música, ou à OSB, ou aos artistas locais que participaram do concerto. Mas, um ATO DE REPÚDIO às circunstâncias e às instâncias que tal programa foi concebido. E isso inclui, uma não representatividade legítima de artistas, profissionais e instituições que efetivamente trabalham com música e que sabem o valor da música universal para a formação de qualquer ser humano.

Completamos 400 anos. 400 anos de muitas alegrias e conquistas. Mas também, de tristezas, de descasos, como a que observamos nesta oportunidade em que o Povo Maranhense continua a ser subestimado, onde os nossos líderes ainda impõem as ordens, ditam e rasgam regras, concedem privilégios particulares e execram direitos coletivos.

Contagiado pela euforia deste momento festivo, mas também, envolvido por um sentimento de pesar, é que lhe desejo: PARABÉNS, SÃO LUÍS!