quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CINEMA EM FOCO

"Melancolia", o filme: quando a lucidez fica insuportável

Quando um filme ou uma peça de teatro conseguem mexer com o estado de espírito do espectador, é curioso constatar como a arte tem um poder incrível de construção de conhecimento e por incrível que pareça, choque de realidade.

O longa-metragem “Melancolia” do diretor dinamarquês Lars Von Trier é um filme instigante, que já bastante comentado pela crítica desperta curiosidade pela repercussão – das polêmicas que envolvem a obra e as declarações públicas do diretor até as premiações que tem conquistado desde seu lançamento em 2011.

Acontece, porém, que o filme somente chegou a São Luís no início deste ano, graças a Lume Filmes – administradora do Cine Praia Grande – cujo esforço crescente em exibir uma boa safra de filmes que dificilmente entrariam em exibição no circuito comercial, pelo menos nos dois grandes cinemas da cidade, é visível e louvável.

Quando pude finalmente assistir, já tinha inúmeros comentários sobre a película em mente, uma vez que já havia lido toda a sorte de críticas e notícias sobre a produção. Contudo, por mais que tenhamos de reconhecer que isso atrapalha um pouco porque cria antecipadamente um conceito sobre a história, é interessante constatar que “Melancolia” é o tipo de filme cujo desenrolar atinge individualmente cada sujeito na plateia, daí que qualquer comentário que se traga de casa, fica suscetível à desconstrução durante a projeção do longa.

Diante desse contexto, concordo que se trata sim de um grande filme que deixa mesmo uma sensação de moleza – e por que não dizer melancolia? - ao término da exibição, o que a princípio, me deixou em dúvida sobre o que pensar a respeito do filme. Ainda que tenha assistido ciente do final, não pude deixar de questionar alguns exageros em alguns comentários já feitos e refletir sobre a forma como o roteiro foi construído e as personagens apresentadas.

Lançando sutilmente a eminência de que o mundo vai acabar ao se colidir com o planeta que dá nome ao filme, a história segue centrada numa teia de complexas reações humanas que ganham muito mais verossimilhança com a sociedade existente para além do cinema do que qualquer filme apocalíptico cujo fim venha da autodestruição do planeta ou de alguma invasão alienígena.

O contraponto criado entre as personagens principais, as irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), diante do fim do mundo, expõe aspectos incrivelmente previsíveis existentes na vida em sociedade construída sob o frágil alicerce das convenções sociais. Enquanto Justine não consegue lidar com as pressões, alternando momentos de insuportável lucidez com profunda melancolia e se reconforta que em breve tudo vá pelos ares, Claire, que construiu grande patrimônio, entra em desespero com a possibilidade de ter se esforçado em vão.

O que mais me chamou atenção no filme foi que com esse contraponto criado entre irmãs fica ainda mais interessante perceber como a ordem social alcança diferentemente cada indivíduo. Enquanto Claire está perfeitamente integrada às convenções, com um casamento financeiramente bem-sucedido e uma tensão evidente para que tudo saia de acordo com o planejado, Justine se sente sufocada com as expectativas que as pessoas próximas criam em torno dela, da reconhecida competência profissional à necessidade de corresponder ao casamento, compartilhando sentido com o marido e sorrindo a todos sua obrigatória eterna felicidade.

Ao mesmo tempo em que o comportamento de Justine gera estranhamento por parecer loucura, a personagem alterna a melancolia profunda com um senso de realidade muito aguçado. E é nesse contexto que o filme começa a passear por uma sequência de rupturas que a personagem de Kirsten Dunst empreende, com comportamentos que vão desde o isolamento e desejo de fuga até o enfrentamento daquilo que a atormenta, como na excelente cena em que finalmente diz ao patrão tudo o que realmente pensa dele e se demite durante o casamento, instantes depois do anúncio público de sua promoção durante a cerimônia.

O que mais instiga em “Melancolia” é que não fica claro se o comportamento instável da personagem seria algum efeito causado pela aproximação do planeta Melancolia ou uma reação possível de quem está cansado de ser pressionado por uma sociedade hipócrita e superficial. Afinal quantos de nós não buscam se desvincular de amarras sociais sufocantes ao mesmo tempo em que almejam uma vida confortável e mentalmente equilibrada?

Quando a luz da projeção se apaga e a vida volta a ofuscar nosso estado de contemplação, percebemos que o desafio da vida real está em conciliar acertadamente a vida social com nossas capacidades e limitações, objetivos e anseios mais íntimos. As opções que sobram não são animadoras: entregar-se à melancolia ou se esforçar em vão. E quem quer mesmo ficar com um desses contrapontos? Sempre cabe tornar a refletir sobre o equilíbrio necessário. Até porque até onde fomos informados, o mundo ainda não vai acabar de uma só vez para todos.