terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

BOSSA NOVA EM FOCO

Da personificação do anseio


“Uma busca constante que nunca encontra de fato o que procura, porque o único e verdadeiro anseio é aquele que ecoa eternamente no espaço infinito” (Marc Fischer)


Um artista cuja genialidade modificou a forma de cantar e tocar violão, mas que comumente incompreendido, escolheu viver longe de tudo o que o aborrece. E isso incluiu modificar a rotina de quem o ama/admira sua obra, ainda que não compreenda seu comportamento recluso. Inclui também restringir o acesso a ele, seja para quem for: fãs, jornalistas, curiosos, conhecidos, velhos amigos...

Um jornalista alemão admirador da música brasileira intrigado com o personagem acima decide partir em busca do que considera o “coração da beleza”: a batida inconfundível do violão marca da bossa nova.

O anseio pelo encontro entre o músico brasileiro João Gilberto e o jornalista alemão Marc Fischer dá o tom a “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” (Companhia das Letras, 2011), livro em que Fischer, na qualidade de admirador incontestável da obra de João, narra as peripécias que empreende no encalço do bossa-novista pelo Rio de Janeiro.

O livro de Fischer escapa completamente ao óbvio livro-reportagem que busca através de entrevistas com músicos e amigos próximos de um ícone da música, com quem não se consegue contato, construir seu perfil. O autor usa sim este artifício, mas com uma narrativa carregada de emoção, motivação pessoal e reflexões que enriquecem a busca por João e conferem sentido ao fato de um alemão sair de Berlim acompanhado de um violão centenário somente pelo desejo de ouvir o artista que mais admira cantar uma única música para ele.

Uma vez acomodado em Copacabana, no Rio, o alemão se une à uma brasileira que identifica como Watson, numa brincadeira de detetive onde os dois caçarão informações sobre como se aproximar de João sem lhe parecer invasivo, ou ainda: como convencer João a recebê-lo não para uma entrevista a um jornalista estrangeiro, mas para uma visita de um grande admirador que entende seu desejo de isolamento e anseia ouvi-lo em sua performance mais madura e natural.

Ao longo de sua estadia no Brasil, Fischer refaz os passos do João jovem através das informações que obtém nas conversas com pessoas relacionadas à história da Bossa Nova. Músicos, familiares, amigos, conhecidos. Todas as pessoas que se encontram com Marc para conversas descontraídas fornecem suas impressões do músico com base na relação que mantém ou mantiveram com João. O resultado que vai se formando a cada página é um mosaico de informações que constroem um perfil ora fantasioso ora bastante humano do mítico João Gilberto. Para alguns, trata-se de um sujeito pouco respeitoso com os violões pegos emprestados e nunca devolvidos e as canções que depois de cantadas por João, deixam de pertencer aos donos originais tal a singularidade de uma interpretação joão-gilbertiana. Há quem o ache excêntrico por dormir durante o dia, quase não sair de casa e se ocupar de tocar violão por horas a fio ou telefonar inesperadamente para as pessoas. Para outros, no entanto, trata-se de “um homem suave, amoroso e interessado”, como para o cozinheiro Garrincha que durante cinco anos atendeu João por telefone todas as noites, quando o músico esticava a conversa por cerca de 40 minutos e sempre acabava pedindo o mesmo prato. Garrincha declara ainda que João Gilberto é “o melhor amigo virtual que já tive”, lembrando que nunca esteve pessoalmente com o músico.

Mas por que tudo isso é necessário? Por que Fischer não se contenta em assistir a um show ou ouvir a discografia de João? Porque o artista em questão não é exatamente um astro da música comum, se é que se pode colocar a situação nesses termos. João Gilberto Prado Pereira de Oliveira é um baiano de Juazeiro que ganhou o mundo cantando baixinho e tocando um violão cuja batida modificou muito do que se pretendia à época (déc. 1950) com o instrumento. Fruto de um perfeccionismo que para muitos beira a excentricidade, enquanto outros entendem como uma busca inesgotável por um som límpido e novo, os resultados de João ao violão são lenda por todo o mundo. Tanto quanto suas aparições públicas, raríssimas. Show então, já não faz com frequência, tendo o último acontecido em 2008 - a turnê em comemoração aos seus 80 anos somente foi anunciada após o lançamento de “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” tendo o agravante de que Marc Fischer faleceu em abril de 2011, antes mesmo de ver seu livro ser lançado.

Considerando esse cenário, há todo um imaginário que circunda a vida de João Gilberto e intriga Marc Fischer. E o diferencial do livro está justamente na forma como autor se põe a escrevê-lo. Não se trata de uma biografia convencional, mas sim uma grande reportagem repleta de referências pinçadas da cultura mundial – o autor cita constantemente discos, filmes e livros e faz associações com a cultura de seu país - tudo cuidadosamente colocado no texto por Fischer para aproximar o leitor de seus pensamentos e intenções com a busca por João. Em outras palavras: Fischer nos confessa que anseia mostrar a João que o entende e respeita enquanto ser humano e artista incomparável, ainda que o perfil construído pelas investigações leve o autor a brincar com a ideia de que seu personagem é na verdade um vampiro inalcançável. Um vampiro que também tem anseios, tão grandes, profundos e incompreensíveis aos meros mortais, que o levaram ao abismo do isolamento social.

“Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” talvez não pareça um livro sensacional à primeira leitura, primeiro porque o início do livro incomoda um pouco por conter trechos que quase sempre endeusam João Gilberto; segundo porque “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” não se firma como um clássico fundamental para compreender finalmente o pai da Bossa Nova, pois apesar de todas as entrevistas e informações ligadas a vida pessoal de João Gilberto, é bastante provável que o leitor passe todo o livro mudando de humor tal qual o autor, bastante honesto, inclusive, em relatar seu emocional a cada passo dado – esteja intrigado, confuso, eufórico ou decepcionado. Se o leitor traz, então, como referência “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1990), quando Ruy Castro destrincha deliciosamente a história e as histórias da bossa nova com faro jornalístico, pode crer que Fischer merece entrar para a estante de livros sobre bossa nova mais pela abordagem completamente original do que pelas informações que expõe.

Assim, desde já é bom alertar: “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto” não merece uma leitura racional que busque grandes novidades ou respostas para a legião de intrigados com o comportamento de João, pois o mérito no empenho de Marc Fischer
sem dúvida é a capacidade de seu texto negar o jornalismo frio no cruzamento de informações que gerem compreensão sobre fatos, principalmente porque todo o livro é um relato apaixonado e sincero que comprova que o jornalismo literário é um caminho honesto para todo repórter que assume ter coração. E Fischer foi desses que não se contentou em somente sentir pulsar o próprio coração ao som de bons discos, cruzou oceano em busca de fazê-lo bater no ritmo – quem sabe ao vivo - daquilo que considerava mais bonito.

Um comentário:

Márcio disse...

vem gente...