quarta-feira, 25 de abril de 2012

ESCOLA DE MÚSICA EM FOCO



Três perguntas para Ana Neuza Araújo, pianista e professora da EMEM

Professora destaca papel da Escola de Música na formação cultural do estado e registra a desaprovação de pais, alunos e funcionários com a suspensão das atividades da EMEM.

A Escola de Música do Maranhão Lilah Lisboa - Emem, instituição estadual de ensino de instrumentos e canto, teve suas atividades suspensas no início deste ano após vistoria da Defesa Civil, que constatou risco de desabamento na sede da escola, um casarão localizado na Rua da Estrela no bairro da Praia Grande.

A paralisação das atividades da Emem compromete o ensino da música no estado, adiando a formação dos músicos matriculados e impedindo o ingresso de novos alunos nos cursos oferecidos pela instituição.


Diante deste contexto, um grupo de professores, alunos e pais de alunos está se mobilizando para tornar pública a indignação com a situação atual da escola. Foram agendados para hoje (25/04) dois momentos de manifestação com o ato público 'Abraçando a Escola de Música', primeiro às 9h30 e depois às 15h30 (fotos), em torno do prédio da Emem.

Ensaios em Foco entrevistou Ana Neuza Araújo, que fala sobre o movimento contra a suspensão das atividades da escola em virtude da interdição do prédio.
 
1) Gostaria que nos falasse sobre a importância do papel de formação musical da Escola de Música do Maranhão Lilah Lisboa em nosso estado. Por que a paralisação de suas atividades prejudica o cenário cultural e educacional do Maranhão?

A Escola de Música "Lilah Lisboa de Araujo" existe há 38 anos e é o único estabelecimento de ensino formal de música de São Luis e do nosso Estado,  de nível profissionalizante, que oferece cursos técnicos em várias modalidades de instrumento e canto. Durante todos esses anos, esta escola tem formado instrumentistas que hoje já estão no mercado de trabalho, são professores ou músicos profissionais atuantes no cenário cultural da nossa cidade.

A paralisação das atividades da EMEM tornou-se URGENTE, pois os problemas estruturais do prédio em que funciona agravaram-se no decorrer dos últimos anos, oferecendo riscos à seguranças de todos os que ali transitavam - professores, funcionários e alunos.

Com essa paralisação as perdas são incalculáveis. Interrompe-se um processo de formação do aluno, um trabalho de anos de investimento em aulas, material de estudo e instrumentos, muitos deles em  fase de conclusão de curso. Tudo isso é muito negativo tanto para o aluno em seu projeto pessoal de vida profissional, quanto para a escola que investiu nesse aluno durante vários anos.

Embora nossos gestores culturais ainda pensem diferente, o trabalho desenvolvido pela EMEM faz e sempre fará muita falta para a nossa comunidade. Música erudita e popular é cultura tanto quanto várias outras manifestações artísticas que têm sido deixadas de lado por nossos gestores culturais. Nos últimos anos, duas manifestações têm sido aclamadas como a grande herança cultural do Maranhão: as festas do carnaval e do São João.

É preciso que se esclareça que o Maranhão também se manifesta artisticamente de várias outras formas e que estas também precisam de incentivo e merecem ser contempladas pelas políticas culturais do nosso estado. 

2) Quais eram as principais dificuldades encontradas por professores, alunos e funcionários da Emem antes da interdição da sede da escola? Com a suspensão das aulas, o que mais preocupa vocês?

Antes da interdição, já trabalhávamos com uma séria de limitações. Uma das mais principais é a falta de professores no quadro docente. Nos últimos anos, a EMEM adquiriu um grau de visibilidade maior dentro da sociedade e a procura por parte da comunidade tem sido maior que a nossa possibilidade de atendimento. Infelizmente, o percentual de alunos que podemos absorver é pequeno em relação à demanda. Nosso quadro de professores está defasado por vários motivos: aposentadorias, demissões, falecimentos. Há um pedido de concurso para novos professores que ainda não tem previsão de ser realizado.

Com a suspensão das aulas, o que mais nos preocupa é a situação dos nossos alunos. Essa paralisação é motivo de desmotivação e pode mesmo levar esse aluno à desistência do curso, o que significa perda para ambos os lados: tanto para o aluno quanto para a EMEM. O fato de não termos sequer uma previsão de quando poderemos voltar às aulas, já é um desestímulo muito grande para os corpos docente e discente. 

3) A manifestação desta quarta-feira pretende chamar a atenção das autoridades e da comunidade para o estado a que chegou o funcionamento da Emem. Além do caráter de mobilização para a causa, quais as atitudes que os músicos, professores e alunos esperam que sejam tomadas em relação à Escola de Música do MA?

Esperamos que sejam encontradas alternativas para que não se perca todo o ano letivo de 2012, uma vez que o 1º semestre já está perdido. Isso significa a busca de outros locais onde possamos desenvolver nossas atividades até que a reforma seja concluída e possamos retornar ao prédio da EMEM. Até o momento não nos foi apresentada nenhuma proposta nesse sentido, o que nos deixa ainda mais preocupados.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

ILUSTRAÇÃO EM FOCO


O talento ilustrado pelas palavras da Mary



Uma moça discreta de sorriso reservado para as pausas certas, apesar do ar despojado em se vestir e expor com desenvoltura suas muitas ideias. Foi essa a primeira lembrança que me veio à mente assim que avistei Mariany Carvalho ao reencontrá-la para a entrevista que segue adiante. Conheço-a desde os bons tempos de eventos culturais no IFMA, antes mesmo de se tornar a blogueira do Badulaques, quando a mocinha era uma aluna promissora entre tantos garotos e garotas produtivos dos cursos técnicos em Design da instituição.

Numa certa tarde ensolarada de março deste ano, tomei um ônibus no Centro de São Luís rumo à praia. Apesar de morar em uma ilha, visito pouco a Avenida Litorânea, para onde estava indo naquela sexta-feira. O motivo, nobre, era visitar a Galeria Maggiorasca onde 18 ilustrações de Mariany compõem a exposição “O Feminino nos Traços da Arte” que segue aberta à visitação até 17/04, das 16h às 23h. Na oportunidade, conversei longamente com a jovem de 20 anos, Técnica em Design de Produto pelo IFMA e hoje graduanda do 5ª período de Design na UFMA. O registro desse papo infelizmente foi perdido após um problema em meu gravador (jornalistas deste mundo: quem nunca!? E que dor, gente!), mas a essência foi recuperada com a gentil disponibilidade de Mary em responder novamente por e-mail. E para nossa alegria (sem trocadilhos, por favor!), o resultado foi tão bom, ou melhor, porque nesse período novas boas notícias chegaram: a exposição foi prorrogada, Mary participou da I Mostra de Ilustração Temática do SESC e até produziu uma mini-exposição exclusiva para um evento em alusão aos dias Internacional (08/03) e Municipal (19/03) da Mulher da Secretaria Municipal de Administração.





Ilustrações expostas na Galeria Maggiorasca


Admiradora de René Magritte, Lygia Fagundes Telles, Celso Borges, Alceu Valença e Zé Ramalho, Mariany cultiva um gosto pela arte que aliado à sua formação em Design resulta em uma mente produtiva e desejosa de participar de um movimento de fortalecimento do cenário cultural de São Luís.


Na entrevista abaixo, nos conta mais sobre sua estreia como ilustradora, suas influências, inspirações e opina sobre o poder de comunicação da ilustração, arte cujo traço pretende consolidar. E apesar de toda a firmeza na articulação das ideias, lembro do que a gravação nem poderia registrar: a moça sorrindo humilde e declarando, já no fim da tarde, se considerar uma aprendiz de ilustração e design, pois crê ser presunção dar a si mesmo títulos precoces. Pode ser, mas no ritmo em que vem trabalhando, não será surpresa se o devido reconhecimento alcançá-la antes do que imagina.

1) Com quais artistas tu mais te identificas e crê serem tuas influências para ilustrar?
Busco sempre por muitas referências, mas sem dúvidas as pessoas com que mais me identifico quanto ao traço e à temática são a brasileira Camila do Rosário e a finlandesa Laura Laine. Ambas representam bastante a figura feminina, mas sobretudo se utilizam de traços leves e orgânicos pra construir suas composições.

2) O que exatamente costuma te inspirar a criar: situações, pensamentos, pessoas, objetos, cores... Com que frequência tu percebes que costuma produzir?

Geralmente idealizo as ilustrações em todos os detalhes possíveis antes de passar para o papel. Muitas vezes faço alguns rascunhos, e com frequência detalhes são adicionados no momento em que estou fazendo a ilustração definitiva. O que me inspira, em geral, são pensamentos, muitas vezes sonhos também, mas principalmente a exploração de alguma forma ou traço no papel e a possibilidade de misturar técnicas e cores livremente.

3) Quais técnicas costumas aplicar?

Em geral exploro bastante o desenho à mão, pois me identifico e gosto bastante dessa forma de expressar o que penso. Pra complementar essa técnica, utilizo marcadores e também colagens de recortes de catálogos e revistas, além de pintura com tinta acrílica e guache. Muitas vezes mesclo essas técnicas ou utilizo todas juntas, dependendo da composição.

4) Como você enxerga o poder de comunicação de uma ilustração? Isso te motivou a optar por este tipo de criação?
Entendo a ilustração como um meio de comunicar, mesmo que implicitamente, as intenções de quem a produziu ao observador. Apesar de tentar comunicar algo, em momento algum ela petrifica opiniões ou interpretações; o que me chama atenção é justamente essa capacidade de ser interpretada de múltiplas formas, muitas vezes diferentes da que imaginei inicialmente. Isso é um ótimo combustível até mesmo para criação.

5) Como tu te relacionas com as interpretações que tuas ilustrações podem gerar? Algumas tu intitulas, o que já direciona de certo modo para a mensagem que pretendes transmitir, mas mesmo assim, como você lida com a liberdade de expressão que esse tipo de arte possibilita?

Acho que toda interpretação é válida. Lidar com as diferentes maneiras de enxergar uma composição visual é algo que busco sempre vivenciar, e tento estimular os observadores a isso nas muitas vezes em que não intitulo algumas ilustrações. Entendo que cada um tem uma forma peculiar de ver as coisas, o que eu vejo pode não ser o mesmo que você e isso de maneira nenhuma deve ser refreado; pelo contrário, é uma oportunidade que damos à nossa criatividade para que ela atue.

6) "O Feminino nos Traços da Arte" é tua exposição de estreia que já nasce com uma temática em evidência no mês de março que é a mulher e as construções sociais em cima do universo feminino. Como surgiu a ideia de montar essa exposição - da criação à oportunidade de expor?

A ideia de montar a exposição foi surgindo aos poucos, uma vez que grande parte das ilustrações que eu já tinha produzido tinham a mulher em evidência. Após o convite de expor ter surgido, alguns trabalhos foram realizados já pensando na exposição, mas não fugiram muito da linha dos anteriormente criados. Tudo foi feito desde o início com a ideia de homenagear as mulheres, então o direcionamento da exposição sempre foi bem claro, até chegarmos aos 18 trabalhos que atualmente estão disponíveis à visitação do público e também à venda.

7) Como tem sido o processo de manter contato com público?

Super simples! As pessoas muitas vezes conversam diretamente comigo sobre o que acharam da exposição e dos trabalhos. Quando não pessoalmente, muitas vezes pela internet, comentando nos perfis online que tenho pra divulgação de trabalhos. No mais, não sou uma pessoa difícil de contactar.

8) Além dessa exposição, quais são tuas perspectivas em relação ao futuro: já pensas em novas exposições; tens produzido para eventos paralelos...

Durante esse período em que a exposição está em cartaz, continuei produzindo ilustrações também com temáticas variadas e outros formatos. Participei também da I Mostra de Ilustração Temática do Sesc, e tenho interesse em enviar trabalhos pro Salão de Artes da Func, pra ver se consigo participar, rs. Além disso, continuo ilustrando e comercializando os trabalhos e, se houver oportunidade de realizar outra exposição, participo com o maior prazer!

9) Como vês o cenário local nas áreas que te interessam seguir - tanto na arte quanto no design?

Tenho em mente, ao pensar nesse assunto, que São Luís tem um enorme potencial e capacidade de desenvolver um cenário cultural e artístico maduro, e vem trabalhando pra isso. Muitos projetos e eventos de Arte e Design tem acontecido nos últimos anos, e esse é um ótimo sinal de que a cidade caminha com os próprios pés quando o assunto é produção cultural. Eu acredito no potencial de São luís e tento participar disso da maneira que posso! 

Para conhecer mais:Portfólio no portal Zupi Fama
Galeria no Flickr