quarta-feira, 6 de junho de 2012

PERSONAGEM EM FOCO



Música no ônibus para chegar mais longe

por Talita Guimarães

Após uma longa e tenebrosa greve de ônibus, nossa cidade retoma sua rotina de lotações, atrasos e engarrafamentos. Passageiros divididos entre a satisfação com o retorno dos ônibus às ruas e a insatisfação que o serviço continue longe do desejável. A dúvida sobre o real contentamento dos rodoviários em retornar ao trabalho após o acordo trabalhista ainda paira sob os usuários do transporte coletivo, que se já sofrem com o serviço sendo prestado com 100% da frota, ficam completamente desamparados durante um período de greve geral.

E se as rotinas de milhares de pessoas ficam comprometidas durante um recesso forçado, a poesia que pulsa nas veias da cidade também declina. Digo isso porque também ando de ônibus e viajo observando personagens e seus causos. Longe de querer minimizar os problemas de nosso transporte público, que sei não serem poucos ou simples, este texto põe-se a refletir sobre outros aspectos, tão importantes quanto, me arriscaria a dizer: a vida carregada pelas pessoas que por sua vez são levadas para todos os cantos pelos ônibus.

Curiosamente, na semana em que a greve cessou e os ônibus voltaram a circular, descobri personagens interessantes nos ônibus que peguei. Um deles entrou no coletivo pela porta do meio e podia ser só mais um pedinte a chamar a atenção dos passageiros para seu dilema pessoal. Felizmente, não era. E é um recorte de sua história que conto abaixo.

Sexta-feira, 01 de junho de 2012, por volta das 15h. Tarde quente em São Luís-MA. Voltando para casa em um ônibus azul, contemplo a cidade embalada pela música que toca em meus fones de ouvido. Numa parada qualquer, sobem de repente pela porta do meio do ônibus dois rapazinhos, um deles segurando um violão. O mais alto faz a apresentação pelos dois e chama atenção pelo inusitado: cantará acompanhado do violão algumas canções para as pessoas, mas se elas não gostarem podem pedir para parar. Promete que em seguida explicará o motivo de estar ali e engata com uma voz razoavelmente afinada “Meu erro”, sucesso dos Paralamas. Embalado pela atenção que os passageiros agora lhe dedicam, canta mais duas músicas.

O cantor atende por Gerrard (na foto, com o violão) e seu amigo, Moisés (na foto, de camisa escura à direita). Os dois estão ali porque Gerrard precisa arrecadar fundos para uma viagem urgente. Há alguns meses, o jovem cantor se inscrevera no seletivo para o programa Ídolos da TV Record e chegou a obter contatos para alguns patrocínios caso fosse selecionado e precisasse viajar para participar do programa. Como a resposta pela aceitação de seu material nunca chegara, os possíveis patrocínios escaparam e Gerrard desencanou de esperar. Contudo, há duas semanas, um e-mail surpreendeu o rapaz com a confirmação de sua inscrição acompanhada da convocação para participar da audição para o programa, a ser realizada no dia 09 de junho no Estádio Barradão, em Salvador.

Com pouco mais de uma semana para providenciar a viagem e sem a chance de reaver os patrocínios, Gerrard aderiu à criatividade de um amigo que sugeriu que ele levasse sua música aos ônibus da cidade e contasse sua história para as pessoas. Afinal, mesmo em tempos de internet, o verso "Todo artista tem de ir aonde o povo está" cantada em "Os Bailes da Vida" (Milton Nascimento e Fernando Brant) ainda vale muito. Gerrard que o diga.
 
Enquanto o ônibus seguia seu curso, o cantor de apenas 17 anos, se equilibrava com o violão entre os passageiros em pé para conversar com uma moça que se interessou em ajudá-lo divulgando alguns vídeos no site Facebook. Na oportunidade, também lhe fiz algumas perguntas.

1) Gostaria que nos contasse como surgiu teu interesse pela música e o que a arte significa para você. 

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 Ah, meu interesse pela música surgiu desde quando eu vi as dificuldades dos meus pais para conseguir o conforto para minha família. E eu sempre pensei em dar uma boa casa, em um lugar agradável onde eu pudesse realmente olhar pra eles e ver eles satisfeitos com tudo isso. E com o passar do tempo, muita gente pedia pra que eu ingressasse nessa carreira, e mesmo sendo difícil eu resolvi que o amor pela arte supera qualquer dificuldade fácil fácil. E pra mim o que a arte significa? Ah, é o meu contraponto! É a minha virtude irrevogável.
2) Com qual gênero musical tu mais te identificas e traz para teu repertório - tanto para compor quanto para escolher músicas para interpretar?

 - Bom, sempre fui amante de um bom samba de raiz e samba de roda, gosto dessa levada. E como todo um bom brasileiro, tenho a satisfação em compor coisas sobre os sentimentos, dificuldades, e mulheres. E em ritmo de samba fica bem mais gostoso de se escutar.  Pois quero deixar bem claro que eu sou isso aí: pagode, futebol e batucada.  

3) Por fim, quem são teus ídolos, artistas que te inspiram a seguir carreira?

- Thiaguinho, Cartola, Péricles, Martinho da vila.  Mais eu falo do Thiaguinho porque ele representa em letras musicais a alegria de ser jovem e a ousadia de ser homem, e eu gosto do jeito em que ele lida com a carreira. E isso é inspirador.

Há alguns dias, Gerrard me escreveu informando que a jornada conseguiu arrecadar o suficiente para bancar a viagem e ainda o aproximou do público de forma incomum. Só tenho que agradecer, porque foi pelo esforço deles [os passageiros que fizeram doações] que eu pude nacionalizar o meu trabalho. Espero poder honrá-los e tenho a certeza de que Deus estará comigo nessa caminhada”, agradece.

O rapaz embarcará para Salvador levando além da esperança em conquistar um posto entre os selecionados para a próxima etapa do Ídolos, a torcida de algumas centenas de pessoas que o inspiraram e ajudaram para que ele chegasse até ali. Consegui o meu objetivo que no caso foi arrecadar esse dinheiro. E tô muito feliz, agora é só mostrar pra esse Brasil, que em São Luis tem muita gente talentosa”, comemora. Curiosamente, Gerrard nasceu em Fortaleza, mas foi registrado em São Luís no quarto dia de vida. Então me sinto um Ludovicense, declara.

Como não pude resistir em falar da greve, perguntei ainda qual o sentimento do rapaz em lembrar que até poucos dias atrás percorrer os ônibus não teria sido possível por conta da situação de greve geral. Nesse sentido, Gerrard não hesitou em demonstrar sua fé: É a prova de que Deus está realmente no controle! Ele sabe de tudo como ninguém, e permitiu que os ônibus voltassem para que eu pudesse estar arrecadando esse dinheiro e assim dando continuidade no meu sonho.”

Um comentário:

Ahtange disse...

Lindíssima matéria, parabéns pelo olhar diferenciado que você demonstra em suas palavras. Percebe-se e sente-se algo diferente nelas.
Tenho certeza que um lindo caminho há de trilhar esta promissora jornalista. Que Deus a ilumine sempre!
Bjos!