sexta-feira, 29 de junho de 2012

REFLEXÃO EM FOCO


Do que aprendi com tintas, pincéis e algumas telas em branco

Na virada do ano pensei: “2012 é um ano que nasce em branco, todo por fazer” e me pus a refletir sobre as coisas que gostaria de fazer durante o tempo livre dos meses que brotariam à minha frente. Finalmente teria um ano aparentemente livre de obrigações estudantis, uma vez que já havia concluído a graduação e não teria horários já determinados e uma agenda de trabalhos e provas a cumprir. Formada e trabalhando em um turno só, poderia buscar novas atividades de crescimento pessoal e profissional, focando em novos caminhos.

Daí que entre as atividades que iniciei em 2012, incluindo um curso de especialização lato sensu, decidi fazer algo que desde a infância muito me atraía: um curso de pintura em tela. E aqui é preciso explicar que durante toda a infância e até metade da adolescência alimentei a ideia de que seria pintora e no futuro optaria por estudar artes plásticas a nível superior. Tudo porque via matérias sobre desenhos e pintores em alguns programas infantis da TV Brasil quando criança. Somente no ensino médio mudei de ideia achando que por gostar de geometria, desenho e artes poderia estudar arquitetura. Andei me decepcionando com minha pouca habilidade na área até descobrir que gostava mesmo, entre outras coisas, era de escrever e depois da premiação e publicação de Vila Tulipa, descobri o Jornalismo, curso no qual me formei há um ano.

Eis que a possibilidade de finalmente pintar surgiu quando certo dia, em janeiro, estava à procura de um quadro de mural e esbarrei em uma estante cheia de telas numa loja do centro. Foi aí que prestei atenção no setor de pintura e descobri toda a sorte de tintas, pincéis, paletas e telas a preços acessíveis. Saí da loja tomando nota de tudo e alguns dias depois retornei e comprei telas pequenas e algumas tintas e pincéis. Comecei a pintar sem pretensão, desenhos que há muito eram rascunhos mentais. Dias depois um amigo me lembrou do curso de pintura em tela oferecido no Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho (sim, tem a vírgula no nome) e assim que soube da abertura de vagas, matriculei-me.

Os primeiros passos não são nada fáceis. Da compra de materiais específicos ao exercício com pincéis e tintas. Comecei tropeçando: comprei tinta acrílica em vez de óleo e tive de logo no primeiro dia de aula voltar à loja e fazer a troca. Mais tarde, na aula, cometi erros grosseiros como jogar fora o querosene que o professor pôs em um copo para eu limpar os pincéis substituindo-o por água. Tenho problemas respiratórios e não identifico direito cheiros. Como não vi o professor enchendo o copo de querosene, que não estava na lista e por isso não comprei, não percebi a diferença. E que bom que ele não colocou numa garrafinha d’água, porque juntando-se a isso minha lerdeza, sabe Deus o que teria acontecido.

Seguindo... No curso, começamos escolhendo quadros em revistas para reproduzir em telas grandes. O professor sugeriu uma paisagem com casinha, vaquinha, morros e vegetação. Acatei a ideia convencida de que aprenderia muitas coisas: misturar cores, fazer efeitos, vegetação, etc. Nas primeiras pinceladas descobri que reproduzir o quadro tal qual era não seria nada simples, apesar dos esclarecimentos do professor de que se tratava de uma referência que poderia ser modificada. Depois de um mês tendo aula duas vezes por semana, o quadro estava quase terminado, mas senti que tinha avançado pouquíssimo nas habilidades necessárias. A cada aula, achava meu traço cada vez mais torto e sempre era capaz de borrar tudo o que havia acabado de aparentemente acertar. Comecei a ficar impaciente com meu desempenho, irritada com a tinta óleo que demora a secar tornando bem maior minha chance de estragar tudo a cada cor adicionada. Fora o jeito de bater o pincel no quadro e na tela em si, que quase achei ser resistente às minhas tintas. Certo é que depois de um tempo, é bem fácil implicar com o fato de que a cada pincelada você consegue mais empurrar a tinta deixando rastros feios pela tela do que tingir o tecido.

Uma colega comentou certa vez que gostaria de pintar algo da própria cabeça e não queria mais tentar reproduzir quadros de outros artistas, ao que o professor argumentou que assim ela não aprenderia a misturar cores com base em uma referência porque a cor que a mente dela imaginasse ela estaria livre para criar e ele não poderia conferir acertos ou erros. Entendi as duas partes, mas me senti como a colega, desejosa de criar e assim sim encontrar minha tranquilidade nos momentos em que me dedicava a uma expressão artística.

Por fora, em casa, cismei com uma foto particularmente especial que tirei de uma árvore delicadamente florida e me pus a tentar reproduzi-la. Descobri que é bem mais fácil desenhar e pintar com lápis de cor e papel do que com pinceis e tintas numa tela. Nessa brincadeira, gastei três telas tentando pintar a mesma paisagem porque quando me cansava, passava tinta por cima e deixava de lado. Ainda estou longe de alcançar um resultado que me agrade, mas tenho a ideia fixa de transformar a foto que tirei em quadro e devo seguir tentando.

Com o tempo, fui percebendo que a forma como a gente encara a pintura pode não ser necessariamente uma terapia, porque é muito mais fácil se entristecer ou se irritar por não conseguir alcançar reproduções satisfatórias do que se sentir leve em simplesmente produzir imagens passando toda a sorte de tintas numa tela em branco. E daí tirei o maior ensinamento dos meses em que me ocupei com o curso de pintura: quando desejamos algo para nossas vidas geralmente temos dois caminhos: imaginar algo completamente novo, que só existe e faz sentido para nós mesmos ou tomar experiências de sucesso como referências. Nos dois caminhos, nossas escolhas estão suscetíveis ao fracasso ou ao êxito. No primeiro, podemos sofrer ao sermos incompreendidos, ao não conseguirmos transpor a barreira das imposições sociais e pôr em prática nossas aspirações. Por outro lado, podemos alcançar a felicidade ao nos mantermos fiéis aos nossos desejos e sonhos quando os realizamos, logicamente. No segundo caso, podemos obter um bocado de êxito ao seguirmos caminhos já traçados, por margens seguras, correspondendo a expectativas previsíveis vindas de todos os lados. Mas também podemos viver um dilema ao nos sentirmos pressionados a seguir o que já foi traçado e alcançar resultados esperados. A pior parte dessa situação é perceber que mesmo ao tentar reproduzir, podemos não obter o mesmo resultado porque nosso interior deseja trilhar por outros rumos. O mais interessante de conseguir visualizar esses dois caminhos é perceber a chance de equilibrar nossas escolhas buscando referências que nos mostram ser possível dar forma aos nossos desejos pessoais. Estabelecer um diálogo produtivo entre o que pensamos e o que tomamos por referência é a base para um aprendizado efetivo, em todos os campos da vida.

Na pintura, corpo e mente também precisam estar alinhados para que as mãos sejam capazes de reproduzir o que os olhos gostariam de ver, enviando ao coração a satisfação que só alcança quem faz o que gosta e por sua vez, gosta do que faz. Por tudo isso, aprendi que a pintura é acima de tudo um silencioso exercício de paciência e autoconhecimento. Na relação entre pintor e tela tem-se a chance de conhecer melhor a si mesmo e aprender sobre quem somos com base nas nossas habilidades, dificuldades e capacidade de lidar com ambas. Perceber que nosso jeito de dar forma àquilo que imaginamos nem sempre é simples e exige muito mais do que só sonhos ou só técnica.

Convite!

O Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho expõe até o fim de julho os trabalhos dos alunos dos cursos de Pintura em Tela e Fotografia do primeiro semestre. Duas telas que pintei fazem parte da Mostra Coletiva 2012. São elas "Fazendinha", reprodução de um quadro do artista plástico André Luís da Silva e "Violeiro II", reprodução de um quadro do artista plástico Valdonês Ribeiro.  

















Nenhum comentário: