quarta-feira, 25 de julho de 2012

LITERATURA EM FOCO


Ensaios em Foco indica: “O Código dos Cavaleiros”

SCHABBACH, Leonardo. O Código dos Cavaleiros. Rio de Janeiro: Mutuus, 2011.

Um conto de cavalaria que para além da sátira aos clássicos, revela uma grande crítica à organização social pautada por aparência e construída sob o alicerce de conceitos socialmente aceitos. "O Código dos Cavaleiros", do autor carioca Leonardo Schabbach, apresenta através de uma narrativa crescente um enredo que desconstrói mitos e aponta que até mesmo na ficção a fantasia pode morar só na imaginação de um personagem mais sonhador.

Com um texto enxuto que propicia uma leitura fluente, "O Código dos Cavaleiros" rapidamente leva o leitor a embarcar na aventura de Lino, um rapazinho de família camponesa que sonha se tornar um grande cavaleiro e entrar para a história dos torneios. Impossível não sentir empatia pela ansiedade juvenil do personagem, que tem todo um plano traçado em sua mente para escapar ao destino da lida no campo vivido por sua família na roça e sair em busca de uma outra vida, cheia de glória e heroísmo. No fundo, o que Lino deseja é construir seu próprio futuro, rompendo com as imposições sociais e obtendo êxito nessa empreitada.

Para isso, a saída que o personagem encontra é a fuga de casa, ainda que com aperto no coração por deixar para trás a família que sempre lhe garantiu um lar afetuoso, mas esse sentimento de ruptura na vida de Lino não é aleatório. A partir desse ponto, é possível notar com o decorrer da história que cada passo dado pelo jovem personagem remete à vida, aos sonhos, iniciativas e escolhas que cada um de nós precisa fazer para crescer. Lino representa a passagem da ingenuidade para a maturidade conquistada via dificuldades, descobertas, desafios, decepções, mas também reafirmação de valores como perseverança e lealdade.

O mérito de “O Código dos Cavaleiros” está no excelente elo criado pelo autor entre a ficção e a realidade, amparado em um texto quase cinematográfico, dada a riqueza com que as cenas estão descritas promovendo com facilidade a visualização da história. As aventuras de Lino podem ser lidas como um conto de cavalaria com todos os ingredientes necessários para a ficção: cavaleiros, nobres, batalhas, heróis, salteadores, vitórias e derrotas, mas acima disso se estabelece como uma inteligente metáfora da sociedade fora das páginas e sua organização alimentadora de anseios ao mesmo tempo individuais e coletivos, gerados pelas histórias reproduzidas por cada geração e perseguidas como ideais que sempre estarão [e deverão estar] sujeitos a desconstruções e mudanças de olhar. Nesse ponto, sem dúvida, a história se mantém bem verdadeira e atual: os conceitos formulados desde a infância influenciam fortemente na forma como o jovem lidará com as surpresas do caminho e reconstruirá seus sonhos e conquistas. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

LITERATURA EM FOCO


Ensaios em Foco indica: “A amiga doidinha”

TADIELLO, Maria Resende. A Amiga Doidinha. Belo Horizonte: Ed. do Autor, 2011.

A infância é uma das fases mais inspiradoras da vida, tanto para a criança que tem uma tendência natural para enxergar tudo com olhos de poesia quanto para pessoas sensíveis que crescem em idade, mas conseguem manter um carinho especial pelo ser criança e os pensamentos de infância. Nesse sentido, alimentar a fantasia transbordante desta fase estimulando a criatividade e a livre expressão é uma atitude importantíssima no processo de apreensão de mundo dos indivíduos em formação e deve desejavelmente partir de uma ação conjunta da família com a escola.

Em meio ao contexto brasileiro de eterna discussão acerca de como estimular a leitura e formar leitores desde cedo, encontro uma iniciativa louvável vinda de Minas Gerais e que serve de exemplo para pais e educadores. Há poucos meses ganhei um livro chamado “A amiga doidinha” e qual não foi minha alegria ao descobrir por intermédio de Ana Paula, tia da autora, que a mesma era ainda uma criança.

Maria Resende Tadiello nasceu em Belo Horizonte em novembro de 2003 e aos sete anos publicou, com incentivo dos pais, seu primeiro livro. “A Amiga Doidinha” é uma publicação de 24 páginas que conta a história de Aitác, uma garotinha que adora fazer tudo ao contrário, a começar por seu próprio nome. Com frases curtas que apresentam as manias da amiga doidinha seguidas de ilustrações feitas pela própria autora, o livro é um exercício lúdico de conteúdo aparentemente simples, mas bastante significativo ao abordar as diferenças entre as pessoas e a importância de respeitar os gostos de cada um. Sendo uma história criada por uma menina de sete anos, só reafirma que a criança ao usar livremente a imaginação para reformular os conceitos que apreende da família, mídia, escola e todos os espaços que vai ocupando, é capaz de produzir ideias que não devem ser desprezadas. Ao encontrar espaço para compartilhar o que pensa com os pais, Maria Tadiello sensibilizou-os não somente para enriquecer o diálogo familiar, mas para levar adiante suas “palavras e pinceladas de cor”, como define Marita Fonseca Rodrigues Gastin, primeira professora da Maria que escreve o prefácio do livro.

Assim, quando Maria apresentou aos pais as aventuras de Aitác já decidida que ali tinha um livro, Sara Pimenta Resende e Cláudio Tadiello Dias viram mesmo um livro. E o produziram com primor, contando com designers, revisores e professores amigos de Sara. De fato, a diagramação é uma diversão a parte: colorida, dialoga com os desenhos de Maria e ainda traz pequenas brincadeiras que interagem com a história - os números de algumas páginas vêm dispostos de cabeça para baixo em pontos diferentes das folhas, bem ao estilo Aitác. 


Na entrevista abaixo, Sara Resende conta um pouco do processo de envolvimento da Maria com a literatura e a criação do livro.

1) É possível recordar como foi o primeiro contato da Maria com a literatura, que histórias ela mais gostava e com quais personagens mais se identificava?

Sara: Maria sempre gostou de escutar histórias, de todos os tipos. Quando era bem novinha se identificava muito com os contos de fadas, com as princesas, como todas as meninas...

2) Como as visitas à Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa contribuíram para potencializar a criatividade da Maria?

Sara: Ler é sempre muito importante. Na biblioteca Maria lia, em companhia do avô, na maioria das vezes e pegava livros para levar para a casa. Participava também de oficinas de contação de histórias e de artes. Tudo isso parece ter potencializado o gosto pela leitura.

3) A partir de que momento foi possível perceber que a Maria tinha necessidade de criar suas próprias histórias e personagens?

Sara: Maria sempre gostou muito de desenhar. Quando aprendeu a escrever, os desenhos viraram histórias... 

4) Como surgiu a ideia de publicar as aventuras d'Amiga Doidinha?

Sara: Certo dia, quando chegamos em casa, Maria nos mostrou a história da Amiga Doidinha. Ela disse que era um livro. Tinha escrito o texto e feito alguns desenhos. Nós lemos e dissemos "dá mesmo um livro, Maria!". Eu sou professora na PUC Minas e tenho colegas professores de literatura, designers gráficos e revisores de texto. Mostrei a história para esse grupo e todos se empolgaram. A idéia foi ganhando corpo até se tornar realidade!

5) Como a Maria se relaciona com as histórias e personagens que ela mesma cria?

Sara: Com muito orgulho! Ela adora nos mostrar as histórias e desenhos, e sempre valorizamos muito tudo isso!

6) Por fim, gostaria que nos contassem o que vocês enxergam como positivo no rendimento escolar, no comportamento da criança e sua forma de ver o mundo e se relacionar com as pessoas que podem atribuir ao envolvimento da Maria com a expressão livre de suas ideias através das letras e desenhos. 

Sara: Maria é uma menina estudiosa. Adora descobrir coisas novas, gosta de estudar, tem prazer com o novo. É uma menina criativa, desenvolta e muito popular! É também de expressão muito livre! Não sabemos bem se isso é causa ou consequência do prazer pela leitura e pela escrita... é uma menina muito feliz, e isso é o que realmente importa!!