quarta-feira, 15 de agosto de 2012

MÚSICA EM FOCO


Sobre verdades: Tulipa Ruiz, uma potência

A música da paulistana Tulipa Ruiz tem sido bem recebida por público e crítica por onde toca. Desde o lançamento de “Efêmera” (2010), seu disco de estreia, a artista tem se apresentado pelo país e em turnês internacionais com uma repercussão bastante positiva. Não é à toa. “Efêmera” é um ótimo disco. Produzido por Gustavo Ruiz, irmão de Tulipa, o disco carrega uma sonoridade despretensiosamente original com letras que unem uma rara simplicidade sofisticada à poesia que fala diretamente aos anseios não exatamente de uma geração atual, mas de todos aqueles que vivem este tempo e o encontram muito bem cantado na voz de Tulipa. Com leveza, o disco embala um público para além da idade, porque toca a construção dos sentimentos na atualidade, que sofrem mudanças de algum modo sentidas por todos.

Tulipa e banda chegaram finalmente em São Luís já no apagar das luzes da turnê do “Efêmera”, com o segundo disco “Tudo Tanto” (2012) recém-disponibilizado para download gratuito no site da cantora e já na ponta da língua do público.

        O show realizado na noite da última terça-feira (14) no Teatro Artur Azevedo (TAA) sanou de vez toda a curiosidade em torno da potência que Tulipa Ruiz demonstra ser em seus dois discos. Acompanhada de uma excelente banda formada por Luiz Chagas (guitarra), Gustavo Ruiz (guitarra), Márcio Arantes (baixo) e Caio Lopes (bateria), Tulipa superou todas as minhas expectativas - que digam-se de passagem, já eram positivas - ao [en]cantar ao vivo. Uma artista nata, que domina o palco com uma performance completa: voz, carisma, bom humor e presença. O trunfo de Tulipa Ruiz é estar perfeitamente adequada ao tempo de sua música, bem à vontade no que faz com um talento grandioso e muito bem aproveitado. Ao vivo, é uma artista bonita de ver, ouvir e sentir, principalmente porque Tulipa transborda verdade mantendo a mesmíssima qualidade de seus discos: som limpo, verdadeiro, gostoso de ouvir. E a apresentação é carregada de diálogo com o público, proximidade, canções executadas de forma primorosa e interpretadas com uma graciosidade muito particular. As brincadeiras com a voz funcionam muitíssimo bem e todo o show está bem amarrado, em sintonia entre os músicos, que se divertem no palco de forma muito natural. Apesar da turnê estar na estrada há dois anos, já tendo encarado plateias na América Latina, Estados Unidos e Europa, a apresentação que chega a São Luís não soa mecanizada, repeteco do que já foi executado – talvez – à exaustão e que não precisa provar mais nada para ninguém. Muito pelo contrário, em um dos bons diálogos estabelecidos com o público durante o show, Tulipa conta que a cada apresentação ela e a banda aprendem algo novo sobre a própria música e o jeito de apresentá-la. Pelo conjunto que formam e os comentários elogiosos que deixam por onde passam, Tulipa e banda se transformam naquilo que a gente precisa ver para crer, tamanha a raridade de sua qualidade e verdade.

E aqui não se pode deixar de mencionar a excelente, apesar de rápida, abertura com o cantor e compositor maranhense Djalma Lúcio. Foram apenas quatro canções, mas que aqueceram em grande estilo para o show principal e serviram de convite para acompanhar o trabalho de Djalma com bastante atenção. Tal qual Tulipa, Djalma Lúcio constrói uma carreira sólida com músicas próprias e qualidade para além de uma gravação bem feita. Ao vivo, é realmente um grande cantor, dono de uma voz bonita e real.

Insisto em destacar a qualidade de apresentações ao vivo porque em tempos de altos recursos tecnológicos qualquer um pode ser afinado – e aqui é de fora para dentro mesmo – e parecer encantador em um disco bem produzido. Aliado a isso o uso exaustivo da internet para divulgar resultados de estúdio, a modernidade tem produzido bandas que constrangem em apresentações de palco. Felizmente, não é caso de Tulipa e Djalma, artistas que resgatam o sentido da expressão artística e mostram que talento ainda pode ser algo real, natural e intransferível. Depois de senti-los ao vivo, podemos acrescentar mais um adjetivo à afinação que vem de dentro: incontestável.

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