segunda-feira, 17 de setembro de 2012

TOM JOBIM PLURAL EM FOCO


Marcelo Bratke e Camerata Brasil retornam ao TAA com espetáculo em homenagem a Tom Jobim

Um campo verdejante surge e logo o movimento do trem avisa que a viagem está começando. No ritmo da locomotiva, acompanhamos a paisagem passar devagar. A trilha sonora: um “Trenzinho do Caipira” (Heitor Villa-Lobos) guiado pelo pianista Marcelo Bratke e a Camerata Brasil. Assim é o embarque no concerto da nova turnê do grupo, iniciada em julho e que passará por dez cidades brasileiras, chegando em São Luís-MA na próxima quarta-feira (19/09) às 20h no Teatro Arthur Azevedo (TAA), com retirada de ingressos uma hora antes na bilheteria do teatro. 

“Tom Jobim Plural” é a terceira turnê de Bratke em companhia dos jovens instrumentistas da Camerata Brasil (nova formação da  Camerata Vale Música) em homenagem a grandes compositores brasileiros e que dialoga com as duas séries de concertos anteriores – “Alma Brasileira” (2008) em homenagem a Heitor Villa-Lobos e “Nazareth – Brasileirinho” (2009/2010) com um programa dedicado a Ernesto Nazareth. Homenagear Villa-Lobos, Nazareth e Jobim integra o projeto que Bratke chama de “Trilogia da Música Brasileira”.

Confira o vídeo de divulgação da turnê
O concerto em homenagem a Tom Jobim, idealizado por Marcelo Bratke e a artista plástica Mariannita Luzzati, é um passeio sensorial pela influência musical de Tom e suas produções mais preciosas como “Garota de Ipanema”, “Inútil Paisagem”,” Sabiá”, “Luiza”, “Wave”, entre tantas outras músicas que encantam o público. O mérito deste concerto em especial é a forma como o ambiente foi pensado para envolver as pessoas na apreciação da música: o filme-cenário de Luzzati projeta imagens de paisagens naturais do Brasil sob os músicos Marcelo Bratke (piano), Lucas de Oliveira (violoncelo), Lucas Anízio (violino), Jean Michel de Freitas (clarinete), Ariel Alves (flauta) e Leonardo Miranda de Paula (percussão) enquanto executam com primor um programa que traz ainda uma intervenção percussiva que apresenta o congo capixaba e passeia pela pluralidade do país.

Assisti a apresentação realizada na noite de 30 de agosto no imponente Theatro da Paz em Belém-PA. O concerto emociona pela delicadeza com que traz interpretações de clássicos conferindo-lhes uma nova leitura, como em “Garota de Ipanema”, guardada para o final e apresentada de uma nova forma. Ao público, há uma mistura positiva de surpresa, empatia e originalidade reservada para a execução do programa. O que se vê no palco é um grupo afinado que une energia e sentimento às interpretações. A platéia de Belém, por exemplo, correspondeu com sensibilidade, em um coro que embora tímido, sussurrava as letras das canções acompanhando de mansinho o piano de Bratke e os rapazes da Camerata Brasil em um belíssimo espetáculo sonoro, visual e sensorial.

Conhecendo a Camerata Brasil – Originalmente fundada por Marcelo Bratke com o objetivo de profissionalizar jovens músicos de concerto em Vitória-ES, a Camerata Brasil nasceu em 2007 como Camerata Vale Música por conta do vínculo com a patrocinadora do projeto, a mineradora Vale.

Após a gravação do DVD e a turnê "Alma Brasileira", o vínculo com o projeto Vale Música se desfez e o grupo passou a apresentar-se como Camerata Brasil. A partir deste ano, o grupo representado pelo pianista Marcelo Bratke oficializou uma parceria com a Faculdade de Música do Espírito Santo – Fames,  atual instituição de onde saem os músicos que compõem o projeto.

Flutuação - Conheci o trabalho dos jovens instrumentistas da Camerata Brasil na ocasião da passagem da turnê “Nazareth – Brasileirinho” por São Luís em agosto de 2010. Na época, decidi ir ao concerto de última hora e tive uma gratíssima surpresa ao assistir a um espetáculo primoroso com o repertório do compositor brasileiro Ernesto Nazareth executado com graça e qualidade pelo grupo. Clássicos como "Brejeiro", "Odeon", "Fon Fon" e "Batuque" integraram o concerto que possui um registro em disco gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera e comercializado pelo selo Biscoito Fino.

Desde então passei a acompanhar o trabalho oriundo das turnês idealizadas pelo paulista Marcelo Bratke ao lado da Camerata. Tive a honra de ganhar o disco "Nazareth - Brasileirinho" das mãos do maestro e guardo com carinho o presente de poder reviver, de olhos fechados, a passagem do concerto por aqui a cada audição do belo registro fonográfico. Pesquisando um pouco consegui encontrar o DVD do concerto “Alma Brasileira”, registro audiovisual da primeira turnê realizada em 2009 com repertório em homenagem a Heitor Villa-Lobos, uma apresentação fantástica que também gerou um registro em DVD comercializado pela Biscoito Fino.

Finalmente, após dois anos da última turnê nacional, Bratke e a Camerata Brasil – em nova formação: com os talentosos Jean Michel assumindo o clarinete e Lucas de Oliveira o violoncelo - retornam aos palcos com uma homenagem a Tom Jobim, o maestro maior da nossa música popular e autor ao lado de Vinícius de Moraes do clássico da Bossa Nova “Garota de Ipanema”.

Para já ir dando uma ideia do que Bratke e a Camerata reservam ao público de São Luís, Ensaios em Foco conversou mais uma vez com Léo de Paula, percussionista de 24 anos cujas principais influências vem dos instrumentos típicos da música brasileira, o repertório e os solistas contemporâneos de marimba, música cênica para percussão e instrumentos “étnicos” (oriente e áfrica).  Na breve entrevista abaixo, Léo nos conta um pouco desta nova turnê e das experiências vividas nos últimos anos, desde a última passagem do grupo por terras maranhenses.

1) “Tom Jobim Plural” é a tua quarta turnê como integrante da Camerata Brasil. Entraste no grupo em 2009 e participaste das turnês “Nazareth – Brasileirinho” (2009 - 2010) e Brasil Plural (2011). O que o público pode esperar de novidades quanto às intervenções percussivas neste concerto em especial?

Léo de Paula: A proposta do espetáculo multimídia “Tom Jobim Plural” está intimamente ligada à natureza brasileira. Isso influenciou a concepção do instrumental e um pouco da linguagem de percussão deste repertório.

Surgem tipos brasileiros distintos, como se passeássemos pelo carnaval e pela tradição do princípio do século XX, passando por regiões do sudeste e nordeste brasileiro e encontrando ritmos, e gêneros como Samba-Batucado, Choro, Frevo, Marcha-Rancho, Maxixe, Capoeira, Baião, Xaxado, e Congo capixaba dentre outros; até a contemporaneidade com uma pitada ecológica, valendo-me de instrumentos artesanais, exóticos, sons da mata, apitos de pássaros e outras cores a somar na realização do concerto interagindo com o vídeo.

2) A importância e a recepção do público em turnês nacionais e internacionais tem sentidos diferentes. Gostaria que comentasse a importância da realização de concertos que levam o repertório de compositores brasileiros de produção relevante tanto para cidades brasileiras de regiões e referências culturais tão diferentes quanto para fora do país. O que foi mais marcante para você até hoje?

Léo de Paula: É válido descortinar aspectos determinados da cultura brasileira, tanto para os nativos (que muitas vezes desconhecem até mesmo o que está bem próximo) quanto para os estrangeiros (vários ainda guardam conceitos “tupiniquins”, a nação do futebol, o exotismo, etc...) valorizando o que temos de melhor em nossa composição absolutamente miscigenada. Ocorre difusão da música midiática brasileira, mas compositores, como os referenciais adotados, não são devidamente divulgados.

São muitas experiências marcantes. Seguramente, a receptividade do público sérvio, bem como a interação com os músicos professores do conservatório de Belgrado foi inesquecível.

3)  Em dezembro de 2011 você foi premiado no IV Concurso Jovens Músicos – Música no Museu, obtendo a terceira colocação no prêmio, cujas semifinais e finais da competição foram realizadas na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O que este reconhecimento significa para você?

Léo de Paula: Significou a abertura de uma absoluta e real expansão das fronteiras para minha prática artística.

Começar nas baterias das escolas de samba do carnaval carioca, passar por estéticas múltiplas como big bands de Jazz, regionais de choro, formações populares, bandas sinfônicas, orquestras sinfônicas, e culminar com a premiação em uma competição nacional de solistas mistos (todos os instrumentos competem entre si) revelou a possibilidade de ir mais além... Afinal, o solista não pode contar com o amparo ofertado no gesto ou olhar do colega da prática camerística. Enfrenta-se a tensão e o desafio de estar por conta própria. A busca artístico-musical segue incessantemente.

domingo, 9 de setembro de 2012

MÚSICA EM FOCO


Por ocasião das comemorações do quarto centenário de São Luís-MA, a cidade tem recebido uma programação cultural mais intensa, patrocinada por órgãos públicos e a iniciativa privada. Na última quinta-feira (06), foi a vez a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) apresentar ao público na Lagoa da Jansen um concerto especial com a participação de artistas maranhenses e um programa inspirado nos ritmos locais. 

Considerando, contudo, o cenário real da música no Maranhão com escolas de música fechadas por tempo indeterminado prejudicando a formação musical de futuros profissionais entre outros descasos, o violoncelista Rogério Chaves expressou sua indignação com o oportunista espetáculo motivado pelo aniversário da cidade por meio do texto que segue abaixo. Uma reflexão crítica, sensata e necessária.

Vale ler, compartilhar e analisar o contexto local para pesar o que vale mesmo comemorar em mais um 8 de setembro.


Boi de Orquestra....ou Orquestra do Boi?

por Rogério Chaves

Fiquei impressionado com a criatividade dos organizadores e produtores musicais da programação cultural da Festa dos 400 anos de São Luís. Falo mais especificamente, do concerto “São Luís: 400 anos de ritmo”, que teve a participação da Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro – OSB e de artistas maranhenses.

Nessa ocasião, a OSB apresentou um programa com “sotaque” exclusivamente maranhense, composições de Ubiratan Sousa, Turíbio Santos, entre outros, acompanhada por percussionistas e cantores locais. A exceção foi a peça de abertura, “Parabéns São Luís”, de autoria do maestro Mateus Araújo (RJ), mas que também, teve “inspiração” maranhense.

Um repertório desse gabarito é de impressionar e de encher de orgulho a nós, maranhenses, por ver “nossa música” sendo executada por uma das orquestras mais importantes do país.

Bem, seria isso mesmo que eu também sentiria se não fosse o fato de que o Maranhão não possui uma orquestra sinfônica. Explico.

Uma orquestra é a formação instrumental, por excelência, para democratizar a música dita universal, obras de compositores de vários lugares, épocas e estilos, que por seu valor histórico, artístico e cultural, tornaram-se um patrimônio universal, a que todos deveriam ter acesso. Entretanto, este é um direito, o qual vem sendo (e ouso dizer, por 400 anos!) sistematicamente negligenciado ao povo maranhense. Direto que é negado, não só pelo fato da inexistência de uma orquestra sinfônica no Maranhão, mas também pela “ditadura” da cultura popular como única expressão artística com validade real em nosso Estado.

O Povo Maranhense vive e faz música popular 365 dias por ano. A música folclórica do Bumba-meu-boi, do Tambor de Crioula, entre outros tipos maranhenses já ultrapassaram os limites espaço-temporais do Carnaval e do São João, acontecendo durante todo o ano e também, já gozam de reconhecimento nacional e até internacional. Por tudo isso, consolidou-se como uma expressão legítima e visceral da cultura maranhense, o que muito nos alegra. Mas será que este mesmo Povo não merece conhecer Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Wagner, Tchaikovsky, Carlos Gomes, Villa-Lobos, Ernani Aguiar, Francisco Mignoni, (certamente, todos fazem parte do repertório da OSB), e mais Antônio Rayol, Elpídio Pereira, Pedro Growell entre outros, artistas igualmente legítimos e viscerais da cultura universal, que expressam/despertam as mais diversas emoções por meio da arte musical?

A música popular maranhense NÃO precisa da OSB para se projetar para o resto do mundo, coisa que os grupos e artistas locais já o fazem, e diga-se de passagem, muito melhor, com toda a sua criatividade e originalidade e a despeitos das adversidades. No entanto, o Povo Maranhense ainda precisa SIM da OSB para ter acesso ao patrimônio da música universal.

Trazer uma orquestra sinfônica para São Luís, para que ela se apresente, entre músicos, cantores e performances de dançarinos, é colocar a música sinfônica em segundo plano, pois todos havemos de concordar que nesse contexto, a orquestra foi apenas o suporte, o acompanhamento dos cantores, dos dançarinos e dos “nomes pseudomaranhenses” que estiveram no palco da Lagoa da Jansen, no dia 6 de setembro de 2012.

Por que será que a organização e os produtores da Festa, não solicitaram a Gilberto Gil, a Zezé de Camargo e Luciano, a Ivete Sangalo, a Alcione, a Zeca Pagodinho ou a Roberto Carlos que também fizessem os seus shows exclusivamente com músicas maranhenses?

No entanto, tal “concepção artística” sobrou para a OSB (atração que, como já dissemos, é a única porta-voz da música universal) e que, politicamente, aceitou tal incumbência, a pedido da organização e da produção da Festa dos 400 Anos e, obviamente, de seus patrocinadores oficiais.

Perdemos mais uma raríssima chance de ouvirmos obras, compositores, estilos musicais que fazem sim, parte de nossa cultura e que somente (e infelizmente!) poucos, aqui em São Luís, tem acesso.

Este desabafo não é, de maneira alguma, um ataque à música, ou à OSB, ou aos artistas locais que participaram do concerto. Mas, um ATO DE REPÚDIO às circunstâncias e às instâncias que tal programa foi concebido. E isso inclui, uma não representatividade legítima de artistas, profissionais e instituições que efetivamente trabalham com música e que sabem o valor da música universal para a formação de qualquer ser humano.

Completamos 400 anos. 400 anos de muitas alegrias e conquistas. Mas também, de tristezas, de descasos, como a que observamos nesta oportunidade em que o Povo Maranhense continua a ser subestimado, onde os nossos líderes ainda impõem as ordens, ditam e rasgam regras, concedem privilégios particulares e execram direitos coletivos.

Contagiado pela euforia deste momento festivo, mas também, envolvido por um sentimento de pesar, é que lhe desejo: PARABÉNS, SÃO LUÍS!