segunda-feira, 15 de outubro de 2012

MÚSICA EM FOCO - Entrevista com Luiza Sales



Teia musical


Todos os dias, um sem número de novos nomes da música surge na internet disponibilizando canções e vídeos a perder de vista. A oferta é grande. Resta-nos garimpar entre as tantas novidades, os nomes talentosos separando-os dos hits do momento.

Com um pouco de sorte, disposição para garimpar e boas indicações, conheci em menos de um ano cantores e cantoras de voz incrível e composições inspiradas, ótimos de ouvir. Descobrir, portanto, os mais promissores nomes da nova geração da música brasileira através da internet tem sido uma tarefa bem grata e generosa.

Para trazer ao blog um bom exemplo de como buscar por novos sons pode ser uma verdadeira teia de ótimas descobertas, elegi um disco em especial que muito bem produzido, traz um sopro de leveza e delicadeza à música atual e nos brinda com a voz de uma cantora que reúne em seu disco de estreia homenagem a grandes nomes da nossa música e composições originais com versos encantadores.

No início de 2012, conheci por indicação da minha irmã o Som na Sala. Idealizado pelo músico Vinícius Castro em parceria com Daniel Terra, o projeto consiste em a partir de um microfone e uma câmera, produzir na sala da casa de Vinícius um vídeo de um músico convidado e divulgar no canal do projeto no Youtube. Eis que a primeira cantora convidada foi a carioca Luiza Sales, que interpretou na estreia do projeto a canção “Linha do Tempo”, parceria sua com Vinícius Castro.

A partir daí, acompanhar cada edição do projeto foi natural, assim como buscar conhecer mais sobre o trabalho dos convidados e foi assim que descobri o disco “Breve Leveza”, que marca a estreia de Luiza Sales em carreira solo como um dos nomes atuais que mais merecem audição e atenção. Paralelamente ao trabalho de concepção e divulgação do disco, Luiza atua como professora de canto e integra o sexteto Ordinarius, interpretando ao lado dos músicos Augusto Ordine, Maíra Martins, Gustavo Campos, Fernanda Gabriela e André Miranda, um repertório de clássicos da música brasileira com direito a novas versões pensadas para a música vocal e algumas inusitadas e surpreendentes interpretações.ustavo Campos, Fernanda Gabriela e Andr ao lado dos m convidados e foi assim que descobri a carreira solo da Luiza

Em setembro, tive o prazer de assistir ao show de lançamento do primeiro disco dos Ordinarius no Centro Cultural Carioca e conversar com a simpática Luiza Sales. Na entrevista abaixo, gentilmente concedida por e-mail, Luiza fala da importância da formação musical, do trabalho como professora, das inspirações para compor, das referências musicais e da experiência com a música vocal.

01) Iniciaste na música cedo, estudando violino ainda na infância. Tua formação musical transita entre influências da música erudita e experiências com o samba, o forró e o jazz. O que essa bagagem representa para você hoje e como foi eleger a música popular brasileira como vertente a seguir?

Iniciar pela música erudita me deu uma base técnica muito importante. Aprendi a trabalhar em conjunto na experiência em corais e orquestras e o violino foi o primeiro instrumento a me ensinar o que era música. Mas, a partir da faculdade de música, a música brasileira estava ao meu redor o tempo todo e não pude fugir. Fico feliz em defender a música brasileira e espero poder defende-la também fora do país... 

02) Como é conciliar a carreira no canto com o magistério? Ser professora faz de você uma cantora mais exigente com o próprio desempenho ou as duas carreiras se complementam e ajudam mutuamente? 

Para muitos músicos, ser professor é um complemento para a estabilidade financeira. Afinal, fazer shows é bem mais incerto e instável do que ser professor de música em uma escola, tendo um emprego regular. Eu comecei a faculdade querendo ser professora e violinista e de lá saí querendo ser cantora. Confesso que tive muitas decepções com a carreira de professor no Brasil, devido aos baixíssimos salários e às péssimas condições de trabalho. Recentemente, deixei a escola onde trabalhava por estes motivos. Atualmente, sou apenas professora de canto, dando aulas particulares. E sinto que a cada aula de canto que dou, eu aprendo muito sobre a minha própria técnica vocal - e tenho certeza de que isso me faz uma cantora melhor. 

03) O que inspira a Luiza compositora? 

Muita coisa ou nada. Eu gosto muito de todas as formas de arte e da natureza. "Barco", por exemplo, veio na minha cabeça quando passei pela enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, e fazia um lindo domingo de sol, com céu azul. A paisagem cheia de barquinhos no mar me inspirou... Eu geralmente me sinto muito estimulada a compor, cantar, criar, quando leio ou vou a uma exposição de artes plásticas, por exemplo. Me sinto especialmente instigada pelas obras do pintor Jackson Pollock e pelos poemas de Pablo Neruda, minha maior referência na poesia. 

04) Em “Breve Leveza”, a faixa “Lei” foi composta por Djavan e integra o disco ao lado de belas canções compostas por você em parceria com músicos da nova geração de compositores brasileiros como Vinícius Castro, Yuri Villar entre outros. Como foi o processo de escolha do repertório para o disco de estreia e o que essas escolhas refletem para você ao ouvir o resultado final? Gostaria que comentasse também a experiência de gravar o disco com a banda Os Coringas. 

Algumas das músicas do disco já faziam parte do meu repertório antes do CD. Por exemplo, "Quebrupasso" e "Carcaça" são músicas que eu cantava desde os tempos de faculdade, quando nos apresentávamos ao final dos semestres... Todas as músicas são composições de amigos meus. Eu pedi que me enviassem músicas, fiz uma pesquisa profunda na obra de cada um. E a partir daí fui tentando montar um repertório que fosse variado (tem samba, baião, balada...) mas que ao mesmo tempo guardasse uma unidade. 

Sobre Os Coringas, fico muito feliz de ter trabalhado com eles. O processo de gravação foi ótimo, eles foram muito competentes e fizeram tudo exatamente como eu imaginava. Os meninos são ótimos músicos. Ao final dos shows eu ouço mais elogios pra eles do que pra mim! rs 

05) Quem são suas maiores referências musicais? 

Rosa Passos e Djavan aparecem no disco como as referências que eu quis homenagear neste primeiro trabalho. São dois músicos que levam a música brasileira a um nível internacional, com muita qualidade técnica e artística. Mas tenho referências que eu considero meio 'obrigatórias' pra todo mundo. Tipo Chico Buarque, Caetano e Gil. Também ouvi muitos grupos vocais, como Take6 e o brasileiro Boca Livre. Quanto as cantoras, admiro muito a Leny Andrade, Elis Regina, Ella Fitzgerald, Monica Salmaso... 

06) Paralelamente à carreira solo, você integra atualmente o sexteto Ordinarius. Como surgiu o trabalho com o grupo vocal que acaba de lançar o primeiro disco? 

Ordinarius (da esquerda para direita: Fernanda Gabriela, Maíra Martins,
Luiza Sales, Gustavo Campos, André Miranda e Augusto Ordine)
 em show de lançamento do primeiro disco, realizado 
no Centro Cultural Carioca (RJ) em setembro de 2012.
Os Ordinarius surgiram quando o Gustavo chamou Augusto e Maíra para formar um grupo vocal. Eles me chamaram para fazer um teste e eu passei. Depois entraram os outros integrantes, algumas alterações na formação e chegamos ao grupo de hoje. Eu sempre cantei em coral (junto com o violino, aos 8 anos entrei no coral do colégio onde estudava) e quando fiz 14 anos, já tinha um grupo vocal com cinco amigos. Depois fundei meu próprio grupo, onde era arranjadora (aos 18 anos!) e por fim, cheguei ao Ordinarius. Sou apaixonada pela música vocal e fico muito feliz com nosso trabalho! 

Para seguir a teia: links para escutar e conhecer mais!


Em tempo: Ensaios em Foco parabeniza todos os mestres no dia de hoje, em especial nossa entrevistada Luiza Sales, representando os professores de música! 

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