terça-feira, 27 de novembro de 2012

CRÔNICA EM FOCO


“A vida é cheia de versos livres. Pode aparecer uma palavra que a gente menos espera aí." (M.B.)
Do reencontro
Retornar a um lugar depois de muitos anos é um exercício interessante que mexe com nossa memória e convida à reflexão. E se nesse lugar são encontradas pessoas conhecidas do passado, as impressões que surgem podem render alguma história, ressignificada pelo nosso novo lugar no tempo e no espaço.
Estive no teatro da escola que cursei o ensino médio para assistir a um recital de piano. Passaram-se alguns anos desde a última vez que sentei naquela plateia. Logo em seguida o teatro entrou em reforma e somente foi reinaugurado agora.
Foi um reencontro curioso, pelas circunstâncias e a forma como me comoveu. Sentada nas novas poltronas acolchoadas, repousei a cabeça no encosto do assento a fim de olhar o novo teto e tudo em volta. Não era mais o teatro que frequentei em meus tempos de estudante. É hoje um bonito e moderno anfiteatro, embora a sensação de que a capacidade de público tenha sido reduzida se misture à impressão de que aos quatorze anos, tudo devia me parecer muito maior do que realmente era.
Sozinha e em silêncio, acompanho com os olhos o movimento da geração atual de estudantes que frequenta o espaço. Adolescentes são engraçados, reparo. Falam e sorriem com ares de gente certa de si, dona do mundo, mas não escapam aos traços e gestos ora infantis ora maduros daqueles cujas vidas estão em uma intensa fase de transformação. E é nesse desequilíbrio que mora a leveza da adolescência. No querer se lançar, mesmo comentando entre risos que ter chegado às onze da noite no dia anterior rendeu alguma espinafração em casa.
Enquanto aguardo o recital, sigo observando aquele teatro que um dia abrigara assembleias estudantis inflamadas, algumas raras montagens teatrais de textos literários para obtenção de notas, uma ou outra premiação de feira de ciências e me ponho a lembrar das coisas sutilmente deliciosas vividas por ali. Momentos vividos sem a pretensão do inesquecível e que adormecem dentro de nós para serem despertados de repente, ganhando o carinho da lembrança que por muito pouco poderia estar fadada ao esquecimento.
Sorrio para o professor de música que apressado ajusta os últimos detalhes no palco e com a iluminação. É um ex-aluno mais ou menos da mesma época que eu. E de repente me ocorre como é bonita a renovação da vida, que vai fluindo parecendo distanciar momentos e pessoas no tempo para de repente reuni-las em um local que se renova sem se desconectar totalmente de seu passado. Pode até ser uma forma afetuosa minha de enxergar as coisas, nos detalhes que quase mínimos demais não deixam de revelar a forma mais encantadora de enxergar o que realmente vale a pena. É que esse jeito de viver com alguma poesia, nada mais é que um jeito de flutuar.
A vida é uma grande teia de conexões das mais inimagináveis possíveis. Talvez por isso saiba ser tão fantástica, tanto para o que é bom quanto para o que não o é. A forma de sentir como uma conexão pode estar revestida de entrelinhas cabe à nossa capacidade de jogar a cabeça para trás por alguns instantes, fechar os olhos de fora e abrir os de dentro, nesse enxergar que sobrepõem as imagens de antes às de hoje, gerando um mundo - por ora - muito mais bonito de ver.

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