quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

CRÔNICA EM FOCO


Do que aprendi com amigos e ipês*


Certa vez, na companhia de uma grande amiga parei à sombra de meu ipê preferido e fotografei-o captando todo o seu frágil esplendor primaveril.

Apaixono-me por coisas simples e costumo cobri-las de um afeto que as deixam grandiosas.

A fotografia era especial. O enquadramento não exatamente planejado saiu melhor do que eu seria capaz de captar caso tivesse aspirações de fotógrafa. Aliás, caso me propusessem uma carreira de glória e fortuna na fotografia, eu a teria trocado apenas pela oportunidade de viver o registro despretensioso de meu ipê com sua floração inspiradora na companhia de gente querida. E isto teria valido uma foto para vida inteira. Tal qual valeu.

Meu carinho por ipês não é exatamente novidade, mas estas árvores, assim como toda a natureza, estão sempre dispostas a ensinar-nos sobre a vida. Então nunca é tarde para deixar-se encantar por elas, tampouco aprender a ler suas lições.

Amizades, cujas conversas se prolongam por miudezas do cotidiano levemente compartilhadas, podem render belas conclusões sobre os recortes vividos. Contando a um querido amigo sobre minha predileção por ipês, ocorreram-me bonitas observações sobre conceitos como beleza, fragilidade, exuberância e tempo.

Árvores de floração efêmera, os ipês de São Luís geralmente me encantam entre junho e setembro, quando começam finalmente a colorir os caminhos. Admiro curiosa a dinâmica de floração, que não acontece simultaneamente entre todas as árvores por onde passo, mas aos poucos, como em um respeitoso ritual onde cada ipê possui seu próprio tempo de expressar seu esplendor, permitindo-se partir aqui para que outro floresça acolá. 

Observadora leiga, acreditava serem os ipês lilases (ou roxos) os mais fugazes. Enquanto dançam ao sabor do vento, deixam em mim a impressão de que ensaiam o balé da queda, do desabrochar efêmero que logo - e esse "logo" quer dizer "muito em breve" - cederá aos apelos de um cavalheiro feito de brisa que levará as flores para longe. Preocupam-me os ipês lilases. Não me permito passar alheia por eles, temerosa de que a qualquer momento despeçam-se sem cerimônia.

Enquanto isso, em outros pontos da cidade, exuberantes árvores de floração amarela surgem colorindo a paisagem com um contraste incomum: caule negro tomado por uma farta floração cor de ouro. Dotados de uma beleza inabalável, uma fartura incontestável, os ipês amarelos preenchem a gente de uma sensação de eternidade, de fortaleza resistente a temporais. A presença luminosa dispensa o olhar detido, que busca captar todo o esplendor antes que ele se desfaça. Permite-nos portanto, admirá-los de canto de olho, dedicando-lhes o relance motivado pela certeza de que por muito tempo o teremos ali.

Assim, durante uma feliz primavera, ando pela cidade contando mentalmente pés de flor e elegendo favoritos. Permito-me perder a conta assim que o primeiro ipê se despede e dá espaço para que outro surja, nem que seja somente na minha imaginação, nem que seja no renascimento do mesmo ipê nas minhas lembranças ressignificadas.

Até que certo dia, contudo, me chega a lição em forma de dor. Não consigo evitar o choque provocado por uma mudança repentina. Meu recém-eleito ipê amarelo preferido está nu. Não havia completado uma semana desde que o descobrira colorir meu trajeto quando de repente o vi sem uma flor sequer. Duvidei de mim. Teria errado o lugar em que vi o ipê? 

Imaginei a ventania que o teria descabelado de uma só vez e lamentei que nem tenha podido ver tal cena - triste, mas certamente bela.

Pondo tal decepção em palavras que me deparei com a lição de tais ipês: os aparentemente frágeis, que inspiram cuidados e nos mantém alertas para a mudança de sua estação a qualquer momento são aqueles cuja cor mais tempo permanece entre nós, talvez em respeito aos observadores atenciosos, temerosos da partida de suas flores. Enquanto isso, os exuberantes ipês amarelos, cuja força e grandiosidade tão óbvias aos olhos de qualquer passante que os aviste, são aqueles que mal podem lidar com o fardo de tanta beleza. Sem aviso prévio, deixam-se embalar por uma brisa sortuda. Como quem vive intensamente toda a expressão de seu potencial esplendor e parte sem precisar olhar para trás, assim que sente não ser mais possível sustentar seu fardo pessoal.

Sobram-me perguntas sobre as quais refletir continuamente: quantas vezes a vida não se apresenta para nós como uma constante mudança de estação? Quanta gente não há que aparentemente frágil, encaram a vida com uma força inextricavelmente complexa e por inspirar que cuidemos delas, que fiquemos sempre perto, nos dão as melhores lições. São aquelas pessoas que quando se permitem partir, deixam-nos com a sensação de tempo vivido por inteiro, na medida em que lhes coube viver para brindar os amigos com tudo o que eles precisavam aprender para viver ainda mais e melhor.

Ah, e quantos de nós já não foram surpreendidos com a partida repentina dos fortes, que dispensavam nossa preocupação e nos permitiam relaxar crentes de sua longa permanência entre nós?

A vida, através da natureza, oferece-nos questões a todo instante. Basta permitir-se, como os ipês, florescer, despetalar-se, tomar chuva e reencantar-se.

Afinal, deve ser como canta Beto Guedes: "a lição sabemos de cor, só nos resta aprender".

*Para Carol, Márcio e Rita.