sexta-feira, 17 de maio de 2013

CINEMA EM FOCO


E no oitavo dia, o cinema nos deu as lições de Stalone, Márcio, Aninha e Georges

Quando um personagem com síndrome de Down protagoniza um filme sobre a vida e não sobre a síndrome de Down, o cinema dá um passo a frente a favor da inclusão da melhor forma que há: desnaturalizando o foco na diferença e valorizando o talento oportunizado e bem aproveitado por uma boa história.

Sem levantar bandeiras, os premiados “Colegas” (Brasil, 2012. Melhor roteiro do Festival de Paulínia em 2008) e “O Oitavo Dia” (Bélgica, 1996.  Melhor ator para Daniel Auteuil e Pascal Duquenne no Festival de Cannes em 1996) são bons exemplos de filmes que apresentam o universo lúdico dos protagonistas com síndrome de Down em histórias divertidas e comoventes. Neste sentido, os dois filmes abordam aspectos comuns aos portadores do distúrbio genético com sutileza e inteligência.

Cena do filme "Colegas"

Tanto o longa brasileiro dirigido por Marcelo Galvão quanto o belga de Jaco Van Dormael colocam em foco a busca por satisfação e felicidade desejadas por qualquer ser humano. Em “Colegas”, Aninha (Rita Pokk), Márcio (Breno Viola) e Stallone (Ariel Goldenberg) fogem do instituto onde vivem para uma grande aventura no melhor estilo pé na estrada. Com muito humor, o filme conta a história dos três jovens que em um belo dia decidem ir atrás dos próprios sonhos e empreendem a busca com bastante determinação e companheirismo. Stalone, Aninha e Márcio trabalham na videoteca do instituto e inspirados pelos filmes que veem, planejam meticulosamente uma fuga. Em seguida à partida do instituto no carro roubado do zelador e disfarçados com máscaras e trajes de fugitivos - que lembram os assaltantes mascarados de “Caçadores de emoção”, clássico com Patrick Swayze e Keanu Reeves -, os três assaltam uma loja de conveniência levando suprimentos e revistas. Em um momento particularmente curioso, Stalone aponta a arma de brinquedo para um cliente da loja com uma criança e avisa: “não matamos crianças!”. Ao saírem do estabelecimento, o clássico “hasta la vista, baby” é lançado ao dono da loja. A ação inusitada vira notícia e os três são dados como procurados altamente perigosos. A partir desse ponto, toda a ação do filme se desenrola em torno de situações cômicas e poéticas vividas pelo trio protagonista, que começa a ser perseguido por uma atrapalhada dupla de policiais bem caricatos.

Aliás, falando em caricatura, “Colegas” vira o jogo e escolhe conferir ares caricaturais aos policiais e à mídia sensacionalista que acompanha o caso sem trégua, numa escolha que satiriza o despreparo das autoridades e da imprensa a respeito da diversidade. Enquanto isso, Stalone, Aninha e Márcio já estão longe, dando prosseguimento ao plano de realizar o sonho de cada um: primeiro levar Stalone para ver o mar, depois casar Aninha e por fim garantir que Márcio realize o desejo de voar. E nesse sentido os três conquistam o que se propõem com perspicácia, alguma sorte e muita sinceridade. O que é bonito de ver na tela, porque mostra três amigos compartilhando desejos e descobertas e mostrando que partir em busca do que se quer sempre pode ser uma escolha possível.

Sem se prender a discussões, “Colegas” cumpre seu papel como comédia que diverte, emociona e ainda lança luz sobre uma comunidade que ainda sofre discriminação por pura falta de conhecimento. Ariel Goldenberg, Rita Pokk e Breno Viola são atores que encantam na tela pela emoção legítima que transmitem e causam empatia, com destaque para a delicadeza da Rita, cuja personagem é cheia de gestos graciosos e falas delicadas. O resultado é um trio afinado em cena, garantindo sequências lindas.

Georges e Harry em "O Oitavo Dia"
Já “O Oitavo Dia” vale pela grande mensagem que transmite. Protagonizado por Georges (Pascal Duquenne), um rapaz com Síndrome de Down e Harry (Daniel Auteuil), um executivo que atua na área de palestras motivacionais, o filme conta como a forma de encarar a vida sofre (e deve mesmo sofrer) profundas transformações após a consolidação de uma amizade que rompe barreiras e ensina um novo olhar sob o mundo. Enquanto Harry é um cara infeliz, mal-resolvido familiarmente que ironicamente vive de motivar as pessoas, Georges é um garoto sensível e inocente que reage muito mal quando contrariado por problemas e rejeições afetivas.

Quando os caminhos de Harry e Georges se cruzam, as vidas dos dois são abaladas pelo universo de cada um. Opostos, ambos aprendem juntos a reequilibrar a forma de lidar com os sentimentos, ressignificando o olhar sob a vida, as relações humanas e a forma de lidar com o mundo.

O trunfo de “O Oitavo Dia” está em seu texto doce e seu arremate comovente. O  nome do filme faz referência às falas de Georges e Harry sobre cada dia da criação do mundo. No final, inspirado pela convivência com o amigo, Harry ensina às filhinhas como ele crê que foi a distribuição da criação do homem e da natureza por cada dia, acrescentando ainda um oitavo dia em que o criador do universo concebeu alguém como Georges e viu que era simplesmente lindo.

Diferentemente da comédia "Colegas", a história de Harry e Georges é um drama, mas profundamente belo e tocante. O que ambos tem em comum, no entanto é, sem dúvida, transformador.


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