sábado, 6 de julho de 2013

MÚSICA EM FOCO

Uma noite "feliz pra cachorro"

por Talita Guimarães

                A imponência do Teatro Arthur Azevedo - TAA costuma encantar tanto os artistas que tem a chance de se apresentar no quase bicentenário palco maranhense quanto o público em geral, que além de assistir aos espetáculos, pode visitar a construção histórica que abriga o segundo mais antigo teatro do Brasil.


Quando pisa o palco, o artista tem esta visão!
               Por conta da história que carrega, costumo pensar que artistas de talento inegável merecem um Arthur Azevedo, caso venham expor sua arte ao público local. Primeiro porque certos espetáculos ficam ainda mais bonitos quando apresentados/representados em um teatro de história tão rica e segundo porque um espetáculo no palco de um teatro como o Arthur (assim como o Theatro da Paz em Belém, Municipal do Rio, Santa Isabel em Recife, entre outros) é para artistas - músicos ou atores - maduros, pois assim como o espaço encanta, pode inibir também e roubar a cena. Então para um artista merecer o TAA, precisa reunir algumas qualidades que honrem a aura mágica, histórica e grandiosa de um teatro desse porte. Mas não falo em qualidades técnicas ou fruto de muito ensaio. Quando falamos de arte, pressupomos qualidades que vão muito além. Teatros como o Arthur Azevedo exigem obrigatoriamente presença que preencha corações, carisma que arrebate plateias, talento que conquiste respeito, em uma relação de cumplicidade mútua – por que não dizer sagrada? - entre artista, público e templo. Acho que por pensar assim, gosto de considerar que existem artistas que merecem a chance de tocar/encenar no TAA, assim como o TAA merece artistas que honrem a arte.

Phill Veras e banda
                É com este preâmbulo que creio poder afirmar que o show do maranhense Phill Veras e do quinteto paulista 5 a Seco, realizado na noite da última sexta-feira (05) no Teatro Arthur Azevedo, em São Luís, não poderia ter acontecido em outro lugar. Phill Veras, que vem ganhando visibilidade nacional desde o lançamento do EP Valsa e Vapor (2012) no site Musicoteca com direito a shows no eixo Rio - São Paulo, fez uma justa estreia no TAA demonstrando mais maturidade e segurança no palco. Acompanhado da sua competente banda formada por André Luiz Carvalho Araújo (guitarra), Marlon Silva (baixo), Memel Nogueira (guitarra), Dney Justino (teclado) e André Grolli (bateria), Phill presenteou o público com uma performance segura, dosando as interpretações na medida dos elementos que formam seu repertório autoral: doçura e vigor. Quem conferiu o show de lançamento do seu EP em dezembro de 2012 no Teatro da Cidade de São Luís (com repertório semelhante ao do apresentado no TAA), pode constatar a evolução na presença de palco do jovem músico. O Phill aparentemente nervoso de dezembro, que tocou sentado, quase tímido foi deixado para trás. Em seu lugar, o TAA recebeu um Phill emocionado, que cantou em pé, pulou, dançou, brincou, curtindo as próprias canções, se divertindo com a banda. Foi particularmente bonito ver Phill Veras completamente à vontade, merecedor do palco do Teatro Arthur Azevedo. Mais bonito constatar, com a execução de canções novas, que o talento de letrista e intérprete de Phill permanece incontestável, com o mérito de que agora um pouco mais experiente, o músico cresce na carreira promissora e passa a merecer preencher o Arthur Azevedo com sua bela música.

                Diferentemente do que poderia parecer, Phill Veras não fez a abertura para o 5 a Seco, mas dividiu a noite com o quinteto de violonistas (e não violinistas, como muitos releases divulgaram na imprensa local), que não se intitula banda, mas um projeto do coletivo de compositores formado por Tó Brandileone, Pedro Altério, Leo Bianchini, Pedro Viáfora e Vini Calderoni. Tanto ao Phill quanto ao 5 a Seco, foi dado tempo de apresentar show completo, com um intervalo para que a banda do Phill, que subiu ao palco primeiro, fosse desmontada dando espaço para a formação horizontal de microfones com a qual o 5 a Seco se apresenta.

                Pois bem, após uma enérgica apresentação do maranhense, que já justificaria a ida ao teatro, o 5 a Seco subiu ao palco trazendo o show do DVD homônimo, gravado ao vivo no Auditório Ibirapuera (SP), em 2012. E não deixou a animação do público esmorecer. Antes mesmo que as cortinas revelassem novamente o palco, o grupo já entoava “Gargalhadas”, primeira faixa do disco, e arrancava aplausos do público por finalmente mostrar ao vivo o repertório predominantemente difundido pela internet (assim como o EP Valsa e Vapor de Phill Veras, o disco 5 a Seco Ao Vivo no Ibirapuera está disponível para download no site da Musicoteca).

5 a Seco (da esquerda para direita): Vini Calderoni, Pedro Altério, Tó Brandileone, Pedro Viáfora, Leo Bianchini (na bateria, ao fundo)
                O espetáculo que seguiu apresentou uma mistura respeitável de carisma e talento. Os rapazes dominam vozes e instrumentos – não há a figura de um líder, mas cinco músicos alternando-se entre vozes, violão, guitarra, baixo, bateria e percussão - com desenvoltura, dando ao público um show de alegria contagiante, muito dançante, divertido, bonito e emocionante, como nos momentos em que a plateia surpreendeu o grupo cantando afinada, acompanhando Vini Calderoni ao recitar o início da canção “Ou não” ou ainda durante o bis, quando o grupo interpretou belamente "Vida de Artista" de Itamar Assumpção.

                Para ter uma ideia da poesia que o 5 a Seco leva ao palco, basta prestar atenção na letra de “Abrindo a Porta” (Pedro Altério/Pedro Viáfora), que diz tudo o que  muita gente quer e o grupo estende como quem oferece uma flor:

“Quero uma lua cheia
O sol que se incendeia lá no mar
Quero o baque do batuque
Eu quero o tom que desencadeia
O som que põe meu povo pra dançar
Quero a chuva lavadeira da seca do sertão
Quero a luz atormentando à toa a tumba da paixão
Quero ares de criança - coração!
Quero uma odisseia
Meu conto que seja um canto pros leais
O advento do alento
Eu quero o tempo que reateia
Aquele primeiro amor dos casais
Quero ver virar fumaça a trapaça e a traição
Se a dor se torna raiva nunca passa a aflição
Estou farto de vinganças - coração!
Quero andar sem direção
Ter motivo pra soltar um grito altivo
E saltar sem razão
Quero um rito do prazer
Um agito pra vencer a solidão
Quero uma lua cheia
O sol que se incendeia lá no mar
Quero abrir a porta inteira
Coração!”

                Simpáticos e humildes, os músicos conversaram com a plateia entre uma música e outra, elogiaram o teatro e agradeceram a recepção calorosa, mencionando ainda o respeito pela apresentação do Phill e desejando corresponder à expectativa do público.

                Pela beleza do conjunto, a noite foi de expectativas superadas tanto pelo amadurecimento do jovem músico maranhense quanto pela constatação de que o projeto 5 a Seco reúne cinco compositores competentes, carismáticos e talentosos. Todos merecedores de uma noite no TAA, feliz pra cachorro!


Nenhum comentário: