segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

MÚSICA EM FOCO

Arte é também estranhamento. Apreciar é também superar o que nos transtorna

Capa - EP "Instante"
Da primeira vez que ouvi “Instante”, EP da cantora maranhense Nathalia Ferro, não gostei. Estranhei-o da capa à voz da moça e confesso que ocupada com tal estranhamento, mal dediquei atenção às letras. Tampouco adicionei o arquivo à lista de reprodução para ouvi-lo novamente, com quem sabe melhor humor. Ocupei-me rapidamente de outros álbuns e o esqueci.

Acontece porém, que o som de Nathalia sorrateiramente tornou a me alcançar os ouvidos e eu, desarmada, aceitei-o surpresa, como se nunca o tivesse escutado antes. Assisti-a ao vivo pela primeira vez na participação especial que a cantora fez no show de lançamento do disco da Pedeginja, em novembro. Ao interpretar “Grilos”, música de seu EP composta por Paulo César Linhares (Pedeginja), tão segura chamou-me a atenção positivamente. A moça de voz incomum e interpretação cênica tem presença de palco e vivacidade no olhar. Prende a atenção. Por isso, considerei sua participação muito acertada no show da Pedeginja. Mas logo em seguida, esqueci-a novamente.

Atraída mais uma vez pela Pedeginja, vi Nathalia ao vivo pela segunda vez na dobradinha que a cantora fez com a trupe na Praça Nauro Machado pelo Projeto Praia Grande Cultural, na noite da quarta-feira 11/12. Dessa vez, para cantar músicas de seu disco, Nathalia Ferro subiu ao palco depois da Pedeginja. E novamente seu desempenho no palco me prendeu a atenção.

Resultado: depois de ouvir “Grilos” ao vivo duas vezes fiquei o que? Isso mesmo: fiquei grilada. No dia seguinte mesmo fui até o soundcloud para ouvir o disco com calma. E: gostei. Baixei-o na Musicoteca e tenho ouvido sem parar desde então, curiosa comigo mesma e a relação que podemos estabelecer com a apreciação daquilo que nos escapa a um entendimento fácil.

Não tenho certeza sobre o que exatamente me fez desgostar para em seguida, após um novo contato com a música, mudar de ideia sobre o trabalho de Nathalia Ferro, mas creio que a empatia gerada pela apresentação ao vivo tem grande parte nisso. E ter dado uma segunda chance à audição, com calma e atenção, também fez bem. Porque a arte não é só o que nos conforta ou consola através de palavras, sons e imagens belas ou suaves, muito embora eu curta muito a suavidade. Arte é também o que nos confronta, tira do eixo, mostra outro jeito de ser/pensar/agir/sentir/estar no mundo. O efeito que as expressões artísticas provocam em nós envolve muitos fatores, entre eles nossa capacidade de lidar com o estranhamento com o que por algum motivo é diferente do esperado ou se vale de códigos cujos sentidos não fazem parte do nosso repertório. E pensar que a arte transborda justamente para nos ampliar olhar e repertório. Vencida essa fase, vale apreciar o trabalho artístico ao seu modo e identificar o que agrada ou não, o que entra para a lista de preferências ou não. Com respeito, crítica e uma justificativa que faça sentido, nem que seja só para você.

Graças a possibilidade de fazer esse movimento, ressignifiquei minha relação com a música de Nathalia Ferro apresentada em seu EP “Instante” e nos shows que a moça tem feito pela cidade e agora posso comentar minha impressão de seu trabalho com mais dignidade.

“Instante” (2013) reúne cinco canções, duas delas de autoria da própria Nathalia, uma de Paulo César Linhares e duas em parceria com Rommel Ribeiro e André Grolli, respectivamente. Como compositora, Nathalia Ferro canta versos carregados de sutileza (“No instante infinito/em que eu te dei a minha mão/ construí um esconderijo/ pra onde fujo desde então” – Jardim), mas também de duras decisões (“E me satisfaz/ te negar o que em mim nasceu/ Unicamente pra ser teu./ Porque eu sou má/ E você aprendiz/ Eu escolho não ser sua/ Pra gente ser feliz.”Entre os dedos). Em parceria, explora metáforas perspicazes (“Enfeita de dourado meu dedo/ jura que é meu homem/ Que é sangue do meu sangue/ que é meu dono, que é feliz/ mas não me prende assim,/como se eu não fosse/ já mais parte de mim,/ faz parte de mim./ Não me rouba assim,/ de graça nem de leve/ Não me tira de mim” – Sangue do meu sangue, parceria com André Grolli) e constrói reflexões (“Sinto que o instante/ e toda a espera/ não me levam a nada,/ nada, não. /Apenas ardem como eu e você./ A gente já não passa de um instante,/ a gente já não passa de um instante...” – Instante, parceria com Rommel Ribeiro).

Musicalmente, o EP conta com uma banda bastante competente capaz de executar arranjos arrojados que estão bem conciliados com a voz ora empregada de forma meiga, ora agressiva de Nathalia Ferro, cuja interpretação bastante sincera pulsa em cada faixa e pouco se distancia de suas apresentações ao vivo, o que foi um ponto que me conquistou.

Promissora, talentosa e intensa, Nathalia Ferro reúne atributos interessantes ao não fornecer um som de fácil digestão, pelo menos não a uma primeira visualização/audição (para alguns). Porque arte é também provocar, testar capacidades de transpor aparências e fazer leituras que desvelam a capa da superficialidade.

A partir dessa minha pequena experiência, fica perceptível que se não há como nos mantermos inteiramente atentos aos sinais captados por pura impossibilidade de estar permanentemente atento a tudo, pelo menos é interessante não descartarmos o que o estranhamento nos impedir de apreender mais detidamente em um primeiro contato. Até porque pode ser que nem sempre nos seja concedida a sorte de esbarrar de novo com algo potencialmente interessante.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

MÚSICA EM FOCO

Marcos Lamy lança "Eu Tô é Tu" no Sesc Som Poente

O movimento de se pôr diariamente do sol evoca muitas interpretações. Demarca a passagem do dia para a noite, o fim do expediente de trabalho (para alguns), o convite para um happy hour. Poeticamente, sugere o término de um ciclo para o começo de outro.  E é por um começo solar para os novos artistas maranhenses que o "Sesc Som Poente", projeto de difusão de música autoral do Serviço Social do Comércio - Sesc/MA, realiza uma vez por mês show's de entrada gratuita no Sesc Deodoro. Música nascente no sol poente.

A última edição 2013 do projeto lança na sexta-feira (20/12) a partir das 18h, o EP "Eu Tô é Tu" do maranhense Marcos Lamy em show com participação especial do conterrâneo Tiago Máci. Disponibilizado para download no segundo semestre desse ano, o disco com seis faixas é o primeiro registro de estúdio de Lamy, que integrou a extinta banda Nova Bossa ao lado de músicos como Phill Veras, Hermes Castro e André Queiroz. 

Na entrevista abaixo, Marcos Lamy fala um pouco sobre sua experiência musical, a fase solo, o processo de composição e produção do disco, além da sua relação com o cenário musical local.

1) "Eu Tô é Tu" é teu primeiro registro de estúdio após a dissolução da Nova Bossa, que não chegou a lançar discos. Como você avalia a experiência musical adquirida com o quarteto e complementada agora na tua fase solo?

Marcos Lamy: A Nova Bossa foi onde eu descobri o que eu queria fazer, e também o que significa fazer música, com todos os prós e contras. Apesar de não termos lançado nenhum CD completo tivemos muita experiência em estúdio, pois além das 6 músicas que lançamos na internet, começamos a gravar um CD de 17 músicas que nos tomou muito tempo, mas nunca foi concluído. Já na fase solo eu tive a experiência de mudança de ares, pois apesar de ter gravado metade com Adnon Soares (que gravava a Nova Bossa) gravei a outra metade com Memel Nogueira e Os Mingongos o que foi uma experiência totalmente nova pra mim.

Lado A - Vermelho (Ilustrações por Jéssica Góis; 
Foto referência por Taciano Brito)
2) O EP apresentado com lados Vermelho e Azul lembra uma concepção comum aos discos de vinil, que traz lados A e B. Em "Eu Tô é Tu", a divisão se justifica por agrupar composições de duas fases diferentes da tua carreira, produzidas em estúdios diferentes também. O lado Vermelho traz uma pegada mais regional, com "Baião da Rosa" enquanto o lado Azul é mais intimista com "O que não é de mim", parceria com Hermes Castro. Tratam-se perceptivelmente de dois estados de espírito diferentes. Você sente, avaliando teu processo de composição, que essas fases se alternam ou que houve uma substituição de uma pela outra?

Lado B - Azul (Ilustrações por Gabriel Hislla)
M.L.: Acho que o processo de composição é uma eterna caminhada, você nunca chega a um fim, nunca fica pronto, e nem necessariamente se trata de uma evolução, mas de seguir em frente. Não diria que eu me alterno entre as propostas até porque até certo ponto elas são as mesmas, o que acontece é que a vida continua e a gente acaba ouvindo coisas novas, conhecendo novas pessoas, e isso vai se transmitir na composição. Uma constante na minha carreira como músico por exemplo é o Hermes Castro, que era meu parceiro de banda na Nova Bossa, e participou da gravação do meu disco intensamente tanto no lado A como B, e agora me acompanha na guitarra nos meus shows, além de que eu participei um pouco do projeto solo dele e pretendo continuar participando. E pra 2014 nós temos algumas outras coisas em conjunto engatilhadas.

3) Tuas letras possuem alguma inquietação, mesmo quando poetizam o afeto ("chega um pouco mais pra perto/ que hoje eu tô com aquela paz/ que tem ânsia de carinho" - E Tem Mais), cantam o amor ("...mas se prestar atenção/ vai ver que eu sou tão grato/ que sinto como se devesse um grande amor" - E Tem Mais), abordam a religiosidade ("... eu sei já é/ um deus daqui que vem/ pra abençoar o povo todo a pé/ que ninguém da tua prole poupou fé" - Boto Fé) ou refletem sobre a vida ("seguro seria se sempre você ficasse no mesmo lugar" - Minhas Mãos). Mas existe também uma busca por paz nas canções ("um beijo e a noite inteira brilha/ estrela e a noite inteira brilha/ que você iluminou" - Baião da Rosa; "e se eu descobrir/sem querer ir/ só pra sentir paz" - Me Leva Longe). O que o inquieta e tranquiliza, nesse movimento contínuo de se expressar através da arte, comunicando-se com o mundo pela música?

M.L.: O que me inquieta é a possibilidade das coisas não darem certo. Apesar de nós (artistas ludovicenses) vivermos num estado de luta constante pelo nosso espaço, e por respeito, vivemos também um momento de grande esperança de que a gente tem poder pra mudar as coisas. O que me deixa angustiado são os muitos momentos em que a gente percebe o quão desestruturada é a nossa classe, e também o quão desrespeitada. Já o que me traz tranquilidade é ver que existe uma quantidade razoável de pessoas envolvidas nisso até o ultimo fio de cabelo, e ver que essas pessoas estão em extrema sintonia. Perceber o quanto os artistas daqui tem estado dispostos a ajudar uns aos outros tem me deixado muito feliz.

4) Na edição de setembro do Sesc Som Poente, você fez uma participação especial no show do Tiago Máci e em novembro vocês fizeram um show no Amsterdam Pub. Como tem sido o diálogo/parceria com o trabalho do Máci, que volta ao Som Poente em dezembro, desta vez como participação especial no teu show? Gostaria que você comentasse também a relação musical com Os Mingongos e os músicos que participaram da gravação/produção do EP.

M.L.: Máci é um artista sensacional, e o que tenho por ele é uma enorme admiração. A gente teve um contato maior depois que ele gravou uma música com João Simas, e passou a ser acompanhado pelos Mingongos. Nós estamos escrevendo uma música juntos e temos trocado ideia com muita frequência. É muito massa sentir os artistas daqui crescendo, e ver quanta coisa boa pode ser produzida se as pessoas derem uma chance. Máci é um caso de um cara que cresceu muito em pouco tempo, as músicas dele estão cada vez melhores. Quanto aos músicos que gravaram comigo, no lado B foi só o Adnon, eu e Hermes. No lado A foi onde surgiram Os Mingongos, que a princípio eram [André] Grolli [bateria], Simas [guitarra], e Marlon Silva [baixo], que depois foi substituído por Eduardo Monteiro, além da participação de Darkliwson Brandão na percussão, Hermes Castro e Jessica Góis nas vozes e da produção de Memel Nogueira.

5) Por fim, o que o público pode esperar do show de lançamento do disco "Eu Tô é Tu"?

M.L.: Arranjos bem diferentes do disco. Além de ter a diferença do ao vivo, eu e Os Mingongos gostamos muito de brincar e improvisar nos ensaios, alguns desses improvisos foram adotados, além de músicas que não estão no disco e eu já venho tocando em outros shows. E tem a participação de Tiago Máci.

SERVIÇO:
O quê? "Sesc Som Poente" apresenta Marcos Lamy e Os Mingongos, lançando o disco "Eu Tô é Tu". Participação especial de Tiago Máci
QUANDO? 20/12, a partir das 18h
ONDE? Área de Vivência do SESC Deodoro (Centro)
QUANTO? Entrada Franca