segunda-feira, 6 de outubro de 2014

MÚSICA EM FOCO


Partiu, "Esfera"!

por Talita Guimarães

Até pouco tempo, ele era uma presença discreta na música paulistana. Das serenatas ainda na infância entre cantores mirins às participações especiais em shows até virar um prestigiado nome entre parênteses. É, entre parênteses. Nos encartes de discos de artistas como Pedro Altério e Bruno Piazza, Bruna Caram, Luiza Possi, Juca Novaes, Lucila Novaes e Thais Bonizzi. 

Se você escuta essa turma então talvez até o conheça. De versos como os inspiradores “Tente permitir que cada novo ato de amor/ Floresça e espalhe gratidão por nossa esfera” na graciosa interpretação de Bruna Caram (“Esfera”. Será bem vindo qualquer sorriso, 2012). Ou quem sabe dos acalentadores “Eu vim pra clarear/ Pra esquecer tudo que faz pesar teu olhar/ Te ver chorar só por alívio ou alegria” na voz de abraço de Pedro Altério (“Paz interior”. Música dos dois, 2013). Pode ser dos reflexivos “Vem ser milagre para os que prezam/ Por acreditar que o seu destino lava a alma/ Vem ser tragédia para os que vivem sem poder olhar/ Pro céu fechando e lá vem água” com Lucila Novaes (“Semi-lágrima”. É, 2012). Ou ainda dos inquietantes “Se eu desandar, descontrolar/ Será que há algo errado ou será tudo parte do que sou/ Não posso ver, não posso crer em mim/ Mas se então esclarecer/ E eu me mostrar convicto do que sou e quero ser/ Eu vou viver distribuindo gentileza” da catártica “O que eu quero”, música gravada por Dani Gurgel com Bárbara Rodrix e Paulo Novaes para o projeto Novos Compositores da produtora Da Pá Virada e publicada no Youtube.

O nome em comum entre todas estas músicas é Paulo Novaes. Sim, o último intérprete citado. Compositor desde os 11 anos, o menino que cresceu em uma grande família artística com tios, primos e avó músicos se transformou em um rapaz talentoso, que aos 21 anos já foi gravado por um número interessante de artistas notáveis e agora vem a público responder a uma dúvida geral: Paulinho, por que você não tem um cd? 

Paulo Novaes (Foto: Patrícia Black)
É que além da sensibilidade para compor, Paulo Novaes também canta e toca desde muito cedo. Começou ainda criança cantando com os Trovadores Mirins e se interessou por violão, seu instrumento primeiro, aos 11 anos. Já aos 17 anos, estudou guitarra no Conservatório Tom Lee em Vancouver, Canadá. E aos 18, foi aluno do violonista Ulisses Rocha. Pelo conjunto, dá para entender o consenso quanto ao fato de Paulo merecer ter um disco para chamar de seu. 

Embalado pela campanha “Paulinho, por favor grave o seu cd!” que vem mobilizando vários artistas do naipe de Dani Black, Bárbara Rodrix, Paulo Monarco, João Guarizo entre tantos outros, Paulo Novaes lançou em meados de agosto deste ano a página de financiamento coletivo do seu primeiro disco, chamado “Esfera”. Hospedado no site de crownfunding Partio, o financiamento entra agora na reta final – o prazo para captação termina na próxima sexta-feira, 10 de outubro de 2014 – ainda contando com o apoio de novos incentivadores para bater a meta que possibilitará cumprir o projeto. As doações vão de R$ 25,00 a valores superiores a R$ 5 mil, variando recompensas que vão de agradecimento no encarte, download antecipado de algumas faixas, CD físico e pôsteres exclusivos autografados a convites para audição, ingressos para show de lançamento além da possibilidade de divulgação de marcas patrocinadoras e show exclusivo de Paulo Novaes. 

Ensaios em Foco conversou com Paulo Novaes sobre esse momento de mobilização para produção do disco. Entre outros assuntos, o músico comentou sobre sua formação musical oriunda do ambiente familiar, as influências dos amigos músicos e respondeu a tão insistente pergunta que impulsionou a gestação do "Esfera".

ENTREVISTA – Paulo Novaes

1) Afinal, Paulinho: por que você não tem um cd? 
Paulo Novaes: Quando essa pergunta se tornou uma rotina no meu dia-dia, resolvi que era a hora de gravar. É claro que eu sempre quis gravar um CD, mas não tive oportunidade nem capacidade financeira de realizar isso antes. Quando o pessoal do Oritá [trio de música instrumental formado por Bruno Piazza (piano), Filipe Maróstica (baixo) e Gabriel Altério (bateria)] me contou que iriam fazer pelo Partio, logo agendei uma reunião e comecei a agilizar o processo. Afinal, eu não tenho um CD ainda, simplesmente pela questão financeira, porque se não dependesse disso já teria gravado vários!

2) O que te motivou, lá atrás no início, a compor a primeira canção? E o que te alimenta a continuar compondo?
P.N.: Acho que o fato de a minha família ser inteira de músicos me influenciou diretamente na minha sina como compositor. Eu cresci vendo meu pai, meu tio e minhas tias compondo, e quando percebi já estava compondo. Coincidência ou não, a minha primeira composição foi em homenagem ao meu avô (Paulo Novaes), que faleceu em 2007. Acho que tudo que construí até agora, apesar da pouca idade, me alimenta a continuar seguindo. 

3) Suas composições já foram gravadas por vários artistas respeitados, que agora apoiam a gravação de um disco seu, com tuas letras cantadas na tua voz ao som do teu violão. Um bonito movimento de reconhecimento dos intérpretes à figura do compositor. O que esse momento representa para você?
P.N.: Representa tudo. Para mim, é a maior recompensa para um compositor. É uma homenagem que me emociona muito, independente de quem é o artista. Qualquer reconhecimento dessa linha, é grandioso para o compositor. Mas agora é a minha hora de cantar minhas próprias canções, e de mostrar como elas vieram ao mundo. Uma coisa não anula a outra... quero continuar sendo gravado por outros artistas, mas quero mostrar também a minha interpretação das minhas próprias músicas. Como me disse a Natalie do Partio: Agora é minha hora de partir!

4) Você vem de um ambiente familiar musical que conta com artistas como a tua prima Bruna Caram e  teus tios Lucila Novaes e Juca Novaes. Isso sem contar que você é neto da cantora Maria Piedade, Rainha do IV Centenário da Rádio Nacional em 1954. Apesar de parecer óbvio que esse clima seria propício para as artes, como você avalia a influência da família na tua formação musical como instrumentista e principalmente como compositor? E posteriormente, como fluem as parcerias e influências na amizade com artistas como Pedro Altério, Bárbara Rodrix, entre outros artistas que te inspiram?
P.N.: A influência da família é gigantesca. Acho que se tivesse nascido em outra família, jamais seria compositor. E os meus amigos músicos vieram pra completar esse processo da busca pela identidade. Acima de tudo são grandes amigos (Pedro Altério, Barbara Rodrix, Pedro Viáfora, Dani Black etc..) e a influencia é mútua. Um admira o outro e naturalmente nos influenciamos musicalmente. 

5) Agora é com você: Paulinho, por que as pessoas devem incentivar o disco “Esfera”?

P.N.: Desde muito cedo escrevo a minha vida através das canções. Situações vividas foram se tornando inspirações para criar e compor. Vim amadurecendo ao longo do tempo, aprendendo e sendo influenciado pela família musical e pelos amigos músicos e compositores que ganhei ao longo da vida.

Muitas canções foram esquecidas, diversas estão apenas na memória. Algumas, para o meu orgulho maior, foram gravadas por artistas que eu admiro muito. Outras eu toco em shows que faço vez ou outra, e ainda tem algumas que circulam pela internet em vídeos que gravei em algum projeto que fui convidado. Às vezes sou convidado para participar de shows de amigos queridos, ou até mesmo em projetos envolvendo novos compositores.

Nessa estrada, apesar de ainda ser muito novo, já realizei muitos sonhos. Coisas que eu jamais poderia imaginar quando fiz minha primeira música aos 11 anos. Muito menos quando fiz minhas primeiras serenatas pelos Trovadores Mirins ou quando formei minha primeira banda aos 10 anos. Coisas que me deram força pra seguir acreditando no que eu mais amo fazer.

Agora chegou a hora de registrar essa história e é por isso que eu venho te pedir ajuda para realizar meu sonho de gravar o meu disco. Como um escritor eterniza sua obra através do livro, o compositor conta sua história através do disco. E eu quero poder escrever a minha história!



LINKS - #paulinhoporfavorgraveoseucd

Para ouvir: Soundcloud - Paulo Novaes

Para ver, ouvir e baixar: Música de Graça - "Esfera" com Paulo Novaes e Bárbara Rodrix

Para ver, ouvir e se emocionar: Da Pá Virada - "O que eu quero" com Paulo Novaes, Bárbara Rodrix e Dani Gurgel

Para saber mais sobre o financiamento e apoiar o "Esfera": Partio – Esfera, o primeiro disco de Paulo Novaes

terça-feira, 19 de agosto de 2014

MÚSICA EM FOCO


#VempraPasárgada!

A cidade-poema de Manuel Bandeira inspirou o nome de uma iniciativa musical que elabora o cotidiano com perspicácia, fazendo dialogar irreverência e sensibilidade com raro primor. Diante de trabalho musical assim, mal dá para resistir ao universo sonoro criado pela Filarmônica de Pasárgada. Os dois excelentes discos da banda convidam para uma criativa viagem. Vamos nessa?

Por Talita Guimarães

A banda tem toda a aura de quem emergiu de um universo paralelo musicalmente muito mais interessante, desses gestados por mentes inventivas e sentidos atentos. Não é por acaso que seu som cunhado pela imprensa como “experimental” e “vanguardista” soa inusitado para o ambiente de onde vem. Originalmente concebida nos idos de 2008 por então estudantes do curso de Música da Escola de Comunicação e Artes – ECA da USP, onde a formação musical é erudita, a Filarmônica de Pasárgada floresce popular.


Influências
Foto: Bruno Naoki Okubo

A cara de Pasárgada
Montagem: Inês Bonduki e Marcelo Segreto
Formada atualmente pelos músicos Fernando Henna, Gabriel Altério, Ivan Ferreira, Marcelo Segreto, Maria Beraldo Bastos, Migue Antar, Paula Mirhan e Sérgio Abdalla, a banda produz um som bastante peculiar, das composições ao resultado sonoro, que bebe nas fontes da vanguarda paulistana de Luiz Tatit e Ná Ozzeti e do tropicalismo de Tom Zé, entre outros. Desde o disco de estreia “O Hábito da Força” (Coaxo do Sapo, 2013) que Marcelo Segreto e Cia esculpem o rosto particular da banda com canções que fisgam da contemporaneidade – predominantemente urbana – histórias, olhares, situações e sentimentos. Para vestir versos que vão de um cínico “eu posso ser o plano b/ que você pensa sem saber/ eu sou facim” (“Plano b” - M. Segreto) ao refinamento de “nossa sombra abraçada em si/dança no silêncio/valsa pelo asfalto/desatenta ao tempo” (“Saudadeando” – M. Segreto), passando pelo ótimo funk “Conceição”, cuja letra - com o perdão do trocadilho - é toda boa (“De repente um pé na porta/pé de cabra cadabra/ me tirou da cama me tirou da barriga/do nada/Despertador/Cesariana (...) Tropeço pelo apartamento/sem cordão desacordado/ vou de elevador escada abaixo ou no vento/ Parto/ Despertador/Cesariana (...)Destino com destino/espremido entalado enlatado na lotação/ Morrenasce lá no Terminal Conceição/ No ventre do metrô/De estação em estação/ O aborto da população” M. Segreto), a banda se vale do conhecimento obtido na academia e de suas respeitáveis influências para dar um corpo extremamente rico às suas composições críticas, divertidas, inteligentes e acessíveis. É realmente como se a cidade-poema de Bandeira tivesse ganhado uma banda para completar o cenário ideal.

1º disco
Se em “O Hábito da Força” somos apresentados a doce sagacidade das letras de Segreto - responsável por fundar o grupo e compor boa parte das canções, além de tocar e cantar – interpretadas com precisão por Paula Mirhan, cuja voz por sua vez é acompanhada por instrumentistas competentes, com espaço até mesmo para a presença de um fagote na formação original da banda, no novíssimo “Rádio Lixão” (Coaxo do Sapo, 2014) tudo o que agrada, diverte e faz pensar no primeiro disco é preservado e vai além. Novamente sob produção musical de Alê Siqueira, o segundo disco da Filarmônica, que chega ao público este mês, fornece toda a graça do começo com uma dose renovada de ousadia. O modus operandi do Segreto compositor está todo lá, em sua melhor forma: poético e sagaz para cantar obsessivamente e de vários ângulos possíveis o amor não-correspondido, como em “Blá blá blá” (“Tudo que eu te canto não te toca/Tudo o que eu te toco não te encanta”) que conta com a espirituosa participação de Tom Zé ou em “Naquele sonho” (“Vou dançar, sim, todo o salão/E o céu solto a girar/Vai que assim tão longe do chão/Você seja meu par”) em parceria com Guilherme Meyer. As citações e os tributos também marcam presença: depois do grave “Enfartando Tinhorão” (“Tudo tudo o que me vem no ouvido/Mas eu não uso fantasia de bamba/ Só porque o samba tá sapucaído/ Ok, aceito o argumento/ Mas a rapaziada quer voltar pra Lapa/ Botar chapéu de palha e paletó de linho/ Eu vou tirar meu bloco da avenida/Cansei de tocar surdo e gente endurecida”) do primeiro disco, Segreto nos sai com um lindo “Estudando Tom Zé” (“Foi o leite de Maninha?/ Foi a coca? A bile negra?/Foi cachaça? Foi veneno?/ Ninguém sabe com certeza/ O diabo do segredo/ Só quem sabe é Deus e Neusa”).

As gratas surpresas do disco se dividem entre o declarado interesse de Segreto pelo funk carioca e as ótimas colagens intertextuais que dialogam com o cancioneiro brasileiro. Do flerte com o funk resultam pelo menos duas faixas com tamborzão no disco: a desbocada e crítica “Fiu fiu” (“Quando eu passo você olha/ assovia faz fiu fiu/ Todo dia, toda hora/ Vai pra puta que o pariu/ (...) Na muvuca do metrô/ no abuso do busão/ lá no bonde minha vó/ tira o olho/ tira a mão M. Segreto) e o passeio sonoro pela “Muro muro Morumbi” (“Tem chorume e lagrimá/ tem salário minimú/ Pinheirinho Africá/ Tem cartão de creditú”), dedicada para Chico Buarque no encarte do disco, que informa ainda que a música foi composta por Julinho Addlady, no que parece ser uma brincadeira com o heterônimo de Chico Buarque chamado Julinho de Adelaide. Em entrevista ao Programa Cultura Livre, Marcelo Segreto contou que em janeiro de 2013 ele conheceu um designer chamado Júlio Soares (que assina Julinho Addlady) em Cajaíba, uma praia em Paraty-RJ. Conversa vai, conversa vem, após o retorno de Segreto para São Paulo, Julinho enviou a letra recitada para a turma de Pasárgada e nasceu a parceria que resultou no funk "Muro muro Morumbi".


2º disco
Estreando uma composição em parceria com Paula Mirhan, Segreto divide com ela ainda o vocal na bela e intertextual “Mil amigos”, dedicada para Caetano e Gal em uma amostra do que a sensibilidade da dupla pasargadense é capaz: Você/ Eu sei/ Precisa se lembrar/ Precisa saber/ De quem?/ O que?/ (...) Cidade medo mais de mil amigos/ E um refrão a palpitar/ Na minha camisa/ No vento, no anular/ No fone de ouvido/ Na foto, no toque do seu celular”.

Para encerrar a sessão cantoria comentada – porque se deixar enveredo pelas três dezenas de músicas fornecidas pelos dois discos da banda juntos – vale destacar ainda duas faixas de “Rádio Lixão”: “Amor e Carnaval” (“E tira o pé do chão/ E põe o pé no pufe/ Afunda no sofá/ que o pijama é abadá” – M. Segreto) e “Ela é dela” (Todo mundo quer saber/ O que é que a fulana tem?/ Nunca foi Teresa/ Nunca foi da praia/ Não é de ninguém/ Ela é dela”). Na primeira temos um axé digno de injetar alegria no bloco dos empijamados, aqueles seres tipo eu que durante o carnaval ficam zanzando entediados dentro de casa. Já em “Ela é dela” destaque especial para a sonoridade criada em torno da interpretação de Mirhan, que reproduz na voz os trejeitos das cantoras antigas de rádio e nos faz crer ouví-la no embalo de um bondinho. Uma delícia.

Em comum, “O Hábito da Força” (2013) e “Rádio Lixão” (2014) tem ainda a mesma quantidade de faixas (15), o selo do estúdio Coaxo do Sapo de ninguém menos que Guilherme Arantes e o projeto gráfico assinado por Guto Lacaz, cuja arte produzida para os dois discos dialoga em detalhes com a música pasargadense, sejam pelas fotos bem-humoradas ou a inversão de letras e números no encarte do primeiro disco como pelas montagens que brincam com o rosto da banda no segundo recém-lançado.
Foto: Edson Kumasaka


Para sacar o som da Filarmônica de Pasárgada é possível adquirir os discos físicos na lojinha no site da banda ou ainda baixar gratuitamente  “O Hábito da Força” (2013) na Musicoteca. Vale também assistir a apresentação na íntegra do grupo no Estúdio Showlivre, disponível no Youtube (vídeo abaixo).


Para quem vai estar em São Paulo no sábado 23/08/2014, fica a preciosa dica: lançamento do segundo CD da Filarmônica de Pasárgada, “Rádio Lixão”, com participações de Luiz Tatit, Ná Ozzetti e Guilherme Arantes às 21h, no Auditório Ibirapuera.


Atualizada em 02/09/2014, às 17h40.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

CINEMA EM FOCO

9º Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões inscreve longas e curtas até 31 de Julho

Faltam poucos dias para que os interessados em participar do 9º Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões realizem suas inscrições, que estão abertas desde o dia 10 de junho e poderão ser realizados até 31 de julho de 2014. Devido ao grande número de inscrições já recebidas não haverá prorrogação do prazo.

Podem se inscrever no Encontro, filmes de longas e curtas-metragens (ficção, documentário e animação) que tenham sido finalizados a partir de janeiro de 2013 e que ainda não foram exibidos no Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões.

O Encontro irá oferecer R$ 22.500,00 vinte e dois mil e quinhentos reais em prêmios para os filmes selecionados nas categorias de longas e curtas-metragens de produtoras independentes de todo o Brasil. Os filmes de longa-metragem selecionados receberão por sua exibição um prêmio de R$ 1.000,00 (um mil reais) cada, já os filmes de curta-metragem receberão por sua exibição um prêmio de R$ 500,00 (quinhentos reais).

A iniciativa visa valorizar o cinema nacional produzido por produtoras independentes, estimulando desta forma a sétima arte no País. Além de realizar exibições, o evento vai reunir personalidades  ligadas ao cinema regional e nacional, promovendo oficinas, palestras e debates.

O 9º ENCONTRO NACIONAL DE CINEMA E VÍDEO DOS SERTÕES, que acontece de 05 a 09 de novembro de 2014 nas cidades de Floriano/PI e Barão de Grajaú/MA, é um projeto selecionado pelo Programa Petrobras Cultural, promoção da ESCALET Produções Cinematográficas, apoio do Ministério da Cultura e Governo Federal.

Informação:
e-mail – escaletproducoes@yahoo.com.br 
(89) 9984 5455 (TIM)
(89) 9419 1808 (claro)
(89) 3522 0804 (fixo)

(Com informações do release)

FLIPORTO EM FOCO

http://fliporto.net/


terça-feira, 3 de junho de 2014

CRÔNICA EM FOCO


Logradouro 475

por Talita Guimarães

A cada viagem, uma viagem. Ao cortar o país por alguns abraços, sorrisos e flores pode-se ganhar para além da experiência de deslocamento no espaço-tempo. Viajar não só pela geografia de um país, mas pela própria história de vida. Assim foi minha última ida ao Rio de Janeiro. Uma cruzada pelo meu mapa familiar e afetivo.

A viagem começa pelos sentidos. Fecho os olhos e escuto nos fones de ouvido “Logradouro”, canção de Kléber Albuquerque e Rafael Altério, na sensível interpretação de Pedro Altério (voz) e Bruno Piazza (piano). E então me vem a cena completa: os primeiros raios de sol da manhã penetram solenemente pelas venezianas da janela de madeira pintada com tinta cor de creme. Pequenina, sinto o cheiro do carpete marrom bem próximo a mim, que estou deitada em um fino colchonete. A melodia cresce com a chegada de mais luz e calor à medida que o sol preenche o sobrado. Amanhece no Estácio (Rio de Janeiro – RJ). E eu acordo na casa de minha avó materna. Tenho as idades de cada visita guardada na memória. 5, 9, 14 anos.

Enquanto a música dura, sigo de olhos fechados, apreendendo por todos os poros a sensação de estar ali. Por algum motivo desconhecido a música me transporta para dentro das minhas memórias de infância. Posso levantar devagar e andar de meia pelo quarto. Um pisar macio que não evita o ranger das tábuas sob o carpete. Ganho o corredor e avisto lá no final a luz do sol banhar a cozinha. Há um rádio ligado e algum movimento ali. Um cheirinho de café com leite me alcança. Atravesso a casa, passando pelas portas de mais dois quartos onde tia e prima dormem ainda. Chego à sala e percebo uma luz escapulir pela porta entreaberta à minha esquerda. Vem do altar onde minha avó pôs os santos e as santas de sua devoção. A vela sempre acesa aquece a fé da família.

Derramo o olhar ao redor. Vejo porta-retratos com tios e primos sorrindo na estante. Reconheço meu próprio sorriso em um quadro na parede, onde estou acompanhada de minha irmã caçula e meus pais. Sinto-me parte daquele lugar. Então sigo em frente.

De repente o chão muda. Da maciez quente do carpete para a rigidez fria do piso gasto da copa-cozinha. Não me incomodo. Dou mais alguns passos e chego ao coração da casa. É na cozinha que alimentamos toda a nossa fome. De comida e afeto. Afinal é ali que me sento para observar o preparo de cada refeição e é onde ouço longas histórias de família, atualizando-me das notícias de todos, sopradas aos meus ouvidos misturadas ao vapor do feijão.

Tenho 23 anos recém-completados agora. E estou naquela cozinha pela primeira vez em oito anos. O rádio está em silêncio. Não há panela no fogo. Uma sensação de ausência me invade. Sentada de costas para o fogão olho para os lados inquieta. É, pela primeira vez, estranho estar ali. Estranho estar em um lugar em que ela não mais está. É a primeira vez que piso no sobrado 475 após a partida da dona da casa, minha avó. E não preciso descalçar os sapatos para sentir a temperatura do chão. Já nem há mais chão. Então choro.

A música acaba. Abro os olhos. Estou na casa em que moro com meus pais e minha irmã em São Luís-MA. O ano é 2014. Tenho 24 anos e sete meses. E estou às vésperas de reembarcar para o Rio.

Coloco Pedro Altério para cantar novamente. Torno a fechar os olhos. Respiro fundo e é o cheiro do carpete que me vem. Vou cerrando a vista míope para o borrão cor de creme à minha volta. Minha coluna está repousada em um colchão amparado pela gaveta baixa de uma bicama. Estou coberta por um lençol amarelinho. Abro totalmente os olhos e avisto, no que parece ser uma prateleira presa na parede, uma luz que se destaca. Encaro o teto e posso vê-los: raiozinhos tímidos banham o pequeno quarto. Entendo tudo. Amanhece no Estácio. O sol escorre pela veneziana e se mistura à luz da vela permanente que um dia minha avó acendeu naquele que um dia fora o seu quarto.

Tateio o chão à procura de meus óculos. Reponho-os no rosto e enxergo tudo. Acordo no quartinho da minha avó. Já é maio. Estou no Rio. “Logradouro” ainda toca na minha cabeça. Experiência viva.

Levanto e caminho até a cozinha, onde o rádio ligado informa que é minha tia quem já acordou. Há café com leite na garrafa laranja sob a mesa. Passo direto para o banheiro, o último cômodo da casa. E quando volto abraço minha tia.

Ocupo um lugar à mesa enquanto trocamos palavras. Gosto tanto de estar ali. Já não estranho o novo lugar no qual a casa da minha avó se transforma. Cuidada respeitosamente pela minha tia, a casa agora ganha aos poucos o jeitinho da tia Denise Guimarães, mulher organizada, limpa e caprichosa. Sinto a presença de Yolanda Guimarães ali como nunca antes. Reencontro-a honrada pelos gestos respeitosos e cuidadosos de minha tia, enquanto percebo pequenos monumentos em memória de vovó espalhados pela casa. Em um porta-retrato especialmente bonito de vovó, há pendurada a medalhinha que ela costumava usar.

E a viagem vai se completando, enquanto ensina sobre a vida. E a morte. Cinco anos após fazer a passagem, Vovó me surge como quem nunca partiu realmente. Pelo contrário, veio para dentro de mim. De nós. Quando minha tia-madrinha Dayse sorri, encontro vovó em seu sorriso. Em outro momento, capto Yolanda sendo transmitida pelas palavras sensatas da tia Denise, ouvidas atentamente por minha mãe. Se visito meus tios-avós então, posso abraçar vovó em cada irmão seu. E quando os netinhos mais novos correm pelo sobrado, descubro a mim mesma anos antes revisitada em sua algazarra. Basta me distrair um segundo para com assombro rever vovó viva em cada irmão, filho e neto.

Cinco anos após uma aparente despedida, percebo o quanto ela ainda está entre nós. A aparente ausência física finalmente me é superada, substituída por uma presença espiritual forte, habitante de gestos, sorrisos, crenças. Cada um de seus filhos e netos abriga dentro de si, um pouco da partícula que lhes deu origem. E permanecerá entre nós enquanto formos capazes de honrá-la.

Quando anoitece e vou me deitar, ouço pela enésima vez a música que embala e aquece minha saudade da família carioca. Não sei explicar o que motiva a associação que faço entre o amanhecer no sobrado 475 e a música desde a primeira vez que ouvi “Logradouro”. Chego a escrever aos intérpretes contando minha ligação afetiva com a canção ao que recebo uma resposta um tanto quanto emocionada de Pedro e Bruno. Emocionante. Mas também, penso que sequer precisamos entender. A conexão para a viagem me basta. Esteja eu no endereço que estiver. Meu coração estará no lugar que eu sentir como meu no mundo.
                                                                                  
Muito do que somos hoje nasceu de pontinhos que brotaram em cantos espalhados do país há décadas. E traçaram linhas – nem sempre retas – até se tocarem. Qual a menor distância entre dois pontos? Afeto.

* Crônica especialmente dedicada a minha família espalhada por esse país.Muito do que sou hoje vem dali, de um sobrado no Estácio, Rio. Assim como de algum recôndito da Bahia, do sertão de Pernambuco, de um cantinho no Piauí. Até vir bater aqui dentro, em um coração maranhense.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

MEMÓRIA LITERÁRIA EM FOCO


"[...] porque o silêncio é em si mesmo/ a pura harmonia da vida [...]”.
(José Chagas, "Alcântara - Negociação do Azul ou A Castração dos Anjos")

O dia era 28 de dezembro de 2006. Uma quinta-feira. Era noite e lá estava eu, aos 17 anos, flanando curiosa entre as exposições de artes visuais instaladas na Fábrica das Artes, na Madre Deus. O evento em questão era a noite de premiação da trigésima edição do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura – FUNC.

Era a primeira vez que eu participava de uma noite como aquela que reunia inúmeros nomes das artes do estado do Maranhão entre poetas, escritores, jornalistas e artistas plásticos. Mal podia conter a alegria de experimentar aquele clima e ver de perto toda aquela gente adulta, dona de uma produção madura e consagrada. Minha tímida presença ali se devia ao meu ingresso no universo literário: naquela noite em especial, tudo parecia bastante surreal, afinal eu concorria com meu primeiro livro “Vila Tulipa”, que acabou recebendo o segundo lugar no Prêmio Odylo Costa, Filho naquela edição. A literatura que já me fascinava como leitora me transformara aos poucos em uma aprendiz de contadora de histórias infanto-juvenis.

Entre um grupo e outro que circulava pelo local, meu pai ia soprando no meu ouvido os nomes dos literatos ali presentes e me contando sobre suas obras. Foi assim que lá pela metade da noite, após o anúncio da premiação, nos aproximamos de um senhor de cabelos brancos e face serena que conversava com algumas pessoas, acompanhado de sua sobrinha. “Este é o poeta José Chagas, filha”. E nos aproximamos para cumprimentá-lo. Naquela noite a biografia “Chagas em pessoa”, excelente livro reportagem de Félix Alberto Lima e Manoel Santos Neto, era lançada. O livro fora contemplado com o Prêmio Bandeira Tribuzi de Jornalismo no ano anterior. Simpático, Chagas aceitou nossa aproximação e trocou algumas palavras gentis conosco. Naquela mesma noite, vi Nauro Machado de perto pela primeira vez também.

Nunca esqueci o encontro com Chagas. Dali adiante, passei a acompanhar com atenção suas crônicas no jornal O Estado do Maranhão e criei enorme simpatia por sua figura. Mas só fui ler um livro seu quando minha amiga Saara me deu de aniversário um exemplar de “Da arte de falar bem – Crônicas de Saudade e Bem querer”, livro de crônicas apaixonante. 

E foi graças a esse livro que me encontrei pela segunda vez com José Chagas, desta vez em um café literário de uma das primeiras edições da Feira do Livro de São Luís em que me aproximei timidamente para pedir uma dedicatória no "Da arte de falar bem" e presentear o poeta com um exemplar de meu “Vila Tulipa”, publicado em 2007. Quando lhe entreguei os livros e informei meu nome para a dedicatória, Chagas sorriu e perguntou se eu não era aquela menina que ganhara um prêmio da FUNC. Surpresa, respondi que sim e que havíamos nos conhecido na noite da premiação em 2006. Mais alguns sorrisos e um aperto de mão depois, lá ganhava eu a rua com o coração enternecido pela cordialidade do poeta.

Nos anos seguintes minha admiração por José Chagas cresceu vertiginosamente a cada livro seu que li. Impressionava a capacidade do paraibano de Piancó, maranhense de alma e coração, pôr impressões elaboradas da vida em palavras, fosse em prosa ou em versos. Cheguei a pedir sua biografia como presente de amigo invisível no trabalho e não canso de presentear pessoas com o meu preferido, "Alcântara - Negociação do Azul ou A Castração dos Anjos", poema espetacular com versos certeiros sobre matérias caras como a vida, o tempo, o silêncio e a história de uma cidade. A última pessoa a quem dei o livro de presente foi a poetisa Alice Ruiz, pessoa de alma muito bonita que tive a imensa alegria de conversar durante uma caminhada pela Praia Grande na edição do ano passado da Feira do Livro de São Luís - FeliS. Na ocasião falamos sobre música e literatura – como não? – e trocamos indicações. Quando chegamos aos estandes de livreiros, não pude resistir à ideia de presenteá-la com meu Chagas favorito. 

Com José Chagas após Café Literário do Odylo,
em maio de 2011
Quando em maio de 2011 Chagas anunciou em um Café Literário no Odylo que aos 86 anos a versificação não o interessava mais, soube que o poeta transformara-se por completo em um poema vivo. A cada declaração sua, observações sobre o mundo jorravam poesia pura de sua boca. Era a tal palavra acesa que continuava a pulsar poesia em suas veias.

Se por um lado suas aparições públicas em eventos literários diminuíram devido a sua saúde já frágil, por outro muitas homenagens lhe abraçaram. Em 2011, quando foi escolhido patrono da FeliS, tive um dos encontros mais emocionantes com ele. Por coincidência eu estava na feira no momento em que ele chegou, de cadeira de rodas, para visitar o espaço que o homenageava. Não pude deixar de me aproximar para mais uma vez expressar meu carinho e fazer um comentário. Conheci Alcântara através dos versos de Chagas em "Alcântara - Negociação do Azul ou A castração dos anjos" e não pude deixar de me emocionar com a coincidência que se ergueu diante de nós: eu visitaria Alcântara no dia seguinte ao encontro com Chagas na feira. 

Ao contar isso ao poeta que me fitava com olhinhos atentos, entre livreiros no corredor do Espaço Cultural, me emocionei bastante e acabei beijando sua testa, gesto que repeti nas outras vezes em que nos encontramos. Gentil como sempre, José Chagas apertou minhas mãos e comentou que ninguém havia comentado isso com ele antes e que ficava feliz por mim.

Ao visitar a cidade após a leitura – e o encontro! - descobri que a Alcântara histórica pela qual eu andava era na verdade o grande, belo e comovente poema de Chagas. Com os versos na cabeça, a cidade que se erguia diante dos olhos era uma experiência de poesia viva, dessas que a gente apreende com todos os sentidos. 

Com Chagas e André Bandeira,
que recita versos do poeta no documentário "Palavrador"
dirigido por Beto Matuck sobre a vida e obra de José Chagas
.
Em 2013, estive com Chagas pela última vez na noite de lançamento do disco “A Palavra Acesa” que produzido por Zeca Baleiro e Celso Borges reúne versos lindamente musicados por grandes nomes da música brasileira e surge como uma belíssima homenagem à poesia forte de Chagas.

Na última terça-feira (13/05), a notícia da partida do poeta – que se considerava mais um versejador – aos 89 anos me alcançou longe, aqui no Rio de Janeiro e doeu fininho, aquela dor que aplaca a gente diante da perda de alguém querido, significativo para a nossa vida. Como bem observou Celso Borges, o poeta partiu deixando-nos em silêncio, silêncio que não por acaso sempre foi matéria de seus preci[o]sos versos. 

Triste, pus-me a contemplar em silêncio o efeito que a notícia causava em mim. De onde estava no momento era possível admirar a exuberância da geografia carioca. Longe da São Luís intensamente retratada por Chagas, derramei pela orla carioca a vista meio embaçada por lágrimas inevitáveis até visualizar ilhazinhas rochosas ao longe. O pensamento em Chagas foi da despedida que eu não viveria em São Luís ao sentimento de conformação de que eu estava onde podia/devia estar. O silêncio já se adensava ao meu redor quando me veio a sensação de que a vida é inalcançável ao mesmo tempo em que está aqui, transbordando das nossas mãos. Estando intrinsecamente ligada à vida, o que é a morte se não uma espécie de passagem de um estado a outro? De um estar a não mais estar sim, mas nunca de um ser para deixar de ser. 

E para que despedida de um corpo se agora o poeta habita o universo? Ao piscar e reabrir os olhos para o mundo, versos de Chagas me vem para muito do que vejo e sinto. Ao encarar o mar percebi que o meu poeta preferido, um dos maiores que a nossa poesia já viu, poderia estar aqui comigo, no silêncio da contemplação. Ele que em verso já me ensinara que “o silêncio é em si mesmo/ a pura harmonia da vida”.

Ao silenciar permanentemente, José Chagas transformou-se ele próprio em harmonia. O poeta que desde sempre viveu a poesia completou-se em paz.

Para ler o bonito obituário escrito por Zema Ribeiro, acesse aqui.

terça-feira, 29 de abril de 2014

SOLREALISMO EM FOCO

Por uma vida mais solreal!

por Talita Guimarães

O céu cinza não intimida os solrealistas. Aliás, é justamente o tempo fechado que incita o desejo por luz e calor. E de tempo fechado – leia-se vida atravancada por descasos e violação de direitos - já estamos todos saturados. Tanto que não por acaso ardem entre nós continuamente as faíscas de um movimento que não espera pela sombra e não hesita em tomar chuva. Muito pelo contrário, evoca um sol que ilumina realidades escancarando-as para que todos a vejam e sintam na pele o ardor que dói a dor necessária à lucidez que transforma. É que quando o sol real falta, surge-nos o Solrealismo para lançar luz e aquecer.

Foi justamente como um raiozinho luminoso em um dia nublado que a turma do Éguas Coletivo Audiovisual, precursora do Solrealismo, baixou embaixo da ponte do São Francisco na tarde chuvosa do domingo (27/04) para promover um evento com atividades lúdicas e exibição de filmes para os moradores da área. Com o apoio da Associação Brasileira de Documentaristas – ABD, a equipe do Éguas reuniu artistas circenses, contadores de história, músicos, palhaços e voluntários para a realização de uma tarde diferente no local. Do alto da ponte do São Francisco, onde embaixo enfileiram-se precárias moradias, pendeu-se uma faixa amarela com dizeres bem legíveis: “Mostra Éguas”. 

Os tambores do grupo de percussão Maratuque soaram como convite para que os moradores se aproximassem enquanto os equipamentos de som eram montados em um cercado cedido por uma moradora de uma rua próxima. De um lado da rua, o reflexo do ativista Klaus Aires no espelho amparado por um voluntário se transformava aos poucos na face branca com nariz vermelho do Palhaço Brobow. Ali pertinho, atrás dos ramos de algumas árvores, a figura da acrobata Célia Ribeiro pairava no ar com seu balé aéreo executado em tecido acrobático firmemente amarrado à ponte. Ao chão, crianças de várias idades prestavam atenção à artista no ar, curiosas com o movimento. A intervenção contou também com a participação de Samuel Moreira.

Intervenção artística com Célia Ribeiro
Um menino em especial se aproximou de Célia quando a artista tocou novamente o chão para elogiar o que chamou de “espetáculo” e expressar suas impressões, demonstrando o desejo de aprender sobre balé aéreo. Ao me contar sobre o contato com o menino, Célia sorria como quem flutua sem o auxílio do tecido acrobático. “Quantos artistas, acrobatas não devem ter aqui?”, Célia reflete olhando ao redor. Sim Célia, só esperando uma oportunidade, concordo acompanhando seu olhar.

Crianças brincam com bolinhas de sabão
Pouco depois, um grupo afoito de crianças rodeava Keyci Martins do Éguas Coletivo Audiovisual e outros voluntários que distribuíam aros para fazer bolinhas de sabão e recipientes com água e sabão. Sobrou aro ensaboado até na minha mão. Uma garotinha morena de franjinha chamada Vitória se aproximou de mim sem tirar os olhos do copão cheio de espuma e dos aros que produziam bolhas coloridas nas mãos de duas outras menininhas. Em certo momento, Vitória reparou no aro na minha mão e soltou sem cerimônia “ah, só eu que não recebi!”, ao que estendi o meu imediatamente em sua direção, ajudando-a a fazer as primeiras bolhas. “Ainda vai ter a festinha?”, ela puxou assunto sorrindo banguelinha. Respondi que sim e informei que veríamos até um filme de animação. Então entre uma bolha e outra ela me disse que gostava muito de filmes. Perguntei sua idade e mais uma vez ganhei um sorriso travesso enquanto ela escolhia quatro dedinhos e os erguia no ar para me mostrar quantos anos tinha.

Logo uma grande lona havia sido estendida no chão do espaço cercado próximo aos equipamentos e ao telão onde seriam exibidos “Kiriku e a feiticeira” e “Luíses – Solrealismo Maranhense”. Os atores da Cia do Imaginário já estavam a postos convidando a criançada a sentar na lona para acompanhar a contação de histórias. “O sapo e a cobra”, conto africano que trata da amizade que surge na diferença, chamou a atenção das crianças que interagiram com palmas, sorrisos e toda uma algazarra infantil que enchia o ar a cada cena vivida pelos bonecos que os atores manipulavam. 


Contação de histórias com a Cia do Imaginário
"O sapo e a cobra"
Muita música e palmas depois, foi a vez do Palhaço Brobow (Klaus Aires) surgir entre a criançada fazendo perguntas atrapalhadas enquanto todos comiam pipoca. A Palhacinha Girassol, graciosamente vivida por Gisele Bossard, uniu-se ao Brobow para dar continuidade às brincadeiras. 

Brobow aguarda para entrar na brincadeira
Já ao fim da tarde, foram distribuídas pipas solrealistas e mingau de milho. A essa altura, muitos adultos já estavam por perto, alguns acompanhando os filhos, outros interessados em ver o movimento. 


Exibição de "Kiriku e a feiticeira".
No detalhe, pipa solrealista repousada no chão.
Quando o céu escureceu de vez, por volta das 18h, todos já estavam devidamente acomodados na lona para o início da exibição de “Kiriku e a feiticeira”, animação bonita sobre valentia. O herói Kiriku, pequenino somente no tamanho, esbanjava bravura na tela, despertando ora reações de espanto ora de admiração. Nem a chuva fina que caía desviava a atenção da história. Um menino moreno, sem blusa, virou para mim - quando prendi a respiração de modo audível em certo momento tenso do filme em que o protagonista parecia ter se afogado ao devolver água à aldeia - e me tranquilizou afirmando que Kiriku respirava ainda. Havia esperança em seu comentário espontâneo. Sorri agradecida.

Filme forte com passagens significativas, “Kiriku e a feiticeira” foi uma escolha absolutamente acertada para a Mostra Éguas. Além de celebrar a coragem para enfrentar o que há de errado através de uma animação bastante terna, o filme baseado em uma lenda africana fala diretamente ao nosso tempo e contexto. “Quanto mais medo eles tem, mais poderosa ela se torna”, ensina o sábio avô de Kiriku sobre a tirania da feiticeira. E imediatamente me vem a possibilidade de diálogo com uma cena do “Luíses – Solrealismo Maranhense”, em que a imagem congelada de um político surge acompanhada da pergunta sobre o que dizer dele. Sendo assim provoco a nós, luíses-maranhenses: o que dizer da passagem do avô de Kiriku? 

Mostra Éguas
Mais adiante, já próximo do desfecho do filme, a feiticeira comenta perplexa: “Como é estranho não sentir mais nenhuma dor!”, diante do alívio que se ergue à retirada de um espinho em suas costas. As cenas que seguem mostram que a experiência de liberdade pode causar estranheza a princípio, mas logo se revela transformadora. 

E por falar no movimento de transformação, na sequência os adultos foram contemplados com a exibição do longa-metragem “Luíses – Solrealismo Maranhense”, misto de documentário com ficção fortemente poético e crítico sobre a realidade política e social maranhense. Mesmo voltado para o público adulto, o filme, produzido pelos cineastas que formam o Éguas Coletivo Audiovisual, foi assistido também pelas crianças, atraídas em parte pela trilha sonora repleta de sons que lembram realejo e a fotografia cheia de cores quentes do filme.

O telão, cuja projeção atravessava o verso e era exibida ao contrário pelo outro lado, foi o centro de uma imagem particularmente bonita durante a exibição do filme solreal. Enquanto um grupo assistia sentado e em pé pelo lado voltado para a lona, outro se apinhava por trás da tela, assistindo ao reverso da projeção. Independente da posição ocupada, todos podiam assistir ao filme. 

Porque independente da posição ocupada, idade alcançada, experiência de vida ou lugar de morada, todos puderam participar das atividades, fazendo parte da mostra e dialogando entre si, em uma tarde solreal em que foi possível compartilhar experiências e impressões e perceber o quanto somos todos luíses. 

Afinal “Solrealismo é isso!”, como certeiramente me afirmou Lucian Rosa (diretor do filme), ao se aproximar de câmera em punho, cansado, mas absolutamente feliz e gesticular admirando o público que assistia ao Luíses...”. E olha que a essa altura já era noite em São Luís do Maranhão, terra fértil para experiências solreais a qualquer tempo.

Para saber mais sobre o Solrealismo, acesse www.solrealismo.com .

sexta-feira, 21 de março de 2014

CARNAVAL EM FOCO

O reencontro afetivo de um estreante no carnaval com seu próprio ninho*

A primeira vez do cantor e compositor Jô Santos como um dos intérpretes do bloco tradicional Os Diplomáticos no carnaval maranhense.

Texto e fotos por Talita Guimarães

“É como se eu pudesse me ver menino correndo por essas ruas”, fala o homem maduro de barba farta, ao caminhar gingando pelas ruas do bairro João Paulo com um violão nas costas. É noite do chamado sábado magro, aquele que antecede o carnaval, e o homem em questão retorna ao bairro onde nasceu e viveu até a adolescência para uma estreia. O violão nas costas fala sobre o homem que o carrega: o barbudo de olhar emocionado é artista. Cantor e compositor, a propósito, da seara da bossa nova e da música popular brasileira. Acostumado a shows em bares e teatros. Profissional. 

Acontece que profissionais também estreiam. E sentem o frio na espinha dos iniciantes. Sobretudo quando o palco da estreia é cenário revisitado por memórias afetivas. Naquela noite, o cantor Jô Santos retornou ao João Paulo após anos para um reencontro afetivo que daria início a uma sucessão de primeiras vezes. Seria seu primeiro ensaio com um bloco tradicional. A primeira vez como cantor no carnaval maranhense. E sua estreia no carnaval de passarela, dali a exata uma semana. 

O convite para integrar o bloco tradicional Os Diplomáticos veio do intérprete e compositor do bloco Luiz Barreto, radialista que Jô conheceu ao frequentar o estúdio da Rádio Timbira para divulgar seu trabalho. Ao ser convidado para cantar no bloco com Barreto, meses antes do carnaval, Jô recuou. Não era bem a sua praia. Mas a curiosidade pela possibilidade inusitada não o abandonou. Como Barreto insistiu, interessado em incorporar o vocal de Jô à interpretação do tema 2014 “Uirapuru – Canto e Encanto da Amazônia”, o cantor aceitou o desafio. 

Quando Jô confirmou sua participação no bloco, tratou de envolver a família toda no aprendizado em tempo recorde do tema. Tinha pouco menos de 15 dias até o desfile para aprender a letra que defenderia com Barreto e os ritmistas na passarela do samba, instalada pela Prefeitura de São Luís no Anel Viário. A força-tarefa atuou da seguinte forma: a filha primogênita cuidou de acessar os arquivos – letra da música e áudio - enviados por Barreto para o e-mail, imprimir cópias da letra e salvar a música no pen drive do pai enquanto a esposa aprendia a cantar também para passar voz com o marido. Letras impressas em papel A4 amarelo, uma das cores do bloco junto com o azul e o branco, foram espalhadas pela casa. E o que se ouviu naquele lar costumeiramente embalado por Jobins nada mais foi do que a batida tradicional de um bloco carnavalesco. 

A uma semana do desfile, Jô finalmente participaria de seu primeiro ensaio com o grupo. Foi ao ouvir a letra exaustivamente que se deu conta de quais bairros o bloco representava. A voz afinada de Barreto saudava o João Paulo, além do bairro de origem do bloco, Ivar Saldanha. O ensaio marcado para aquele sábado (23/02/2014) seria no coração do João Paulo, na sede da escola de samba Turma de Mangueira. 

Jô caminha pelas ruas do João Paulo,
 bairro onde nasceu e viveu até a adolescência.
  No sábado à noite, o menino Joãozinho que oscilava entre o medo e o fascínio quando via a casinha da roça flutuar pelas ruas largas de seu bairro no carnaval foi revisto por seu eu adulto de voz firme, passos largos e olhar emocionado. “Nasci ali, onde hoje é aquela loja”, Jô Santos apontou para a loja de tecidos na Avenida São Marçal, como quem conta a própria história do começo literalmente. Ao virar à esquina, mais lembranças se ergueram do asfalto, ganharam calçadas, coloriram muros. A oficina mecânica onde o pai trabalhou consertando carros do 24º Batalhão de Infantaria Leve (antigo Batalhão de Caçadores), as casas onde viveu com a mãe e os irmãos, a escola onde as irmãs estudaram, as ruas onde a bola rolava, o alto da ladeira de onde Joãozinho testemunhou um moleque mais levado lançar uma tampa de lata de goiabada e atingir um menino menor que ia passando inocente lá embaixo... Incontáveis histórias de um tempo púbere jorraram da boca emoldurada por uma barba espessa. 
Adiantado em relação ao horário do ensaio, Jô caminhou sem pressa pelo bairro. Quando alcançou o coração do João Paulo, onde antes passavam os trilhos do trem e hoje é um calçadão colorido promovido à praça, reconheceu lares de amigos de infância. Parou em frente ao palco onde uma programação de carnaval organizada pelo governo estadual acontecia e cantarolou os versos entoados por Gerude, que acenou para ele do palco. A alguns passos dali já havia apertado a mão de Nosly e cumprimentado o responsável pelo som. Carnaval até poderia não ser exatamente sua praia, mas sendo artista em uma ilha, estaria sempre cercado de músicos conhecidos por todos os lados.

Na roda de samba: "A música é universal!"
Quando o horário marcado por Luiz se aproximou e ninguém conhecido apareceu na porta da sede da Turma de Mangueira, Jô decidiu dar mais uma volta na quadra. Talvez encontrasse o pessoal do bloco nas imediações. A essa altura já estava contagiado pela alegria do carnaval e a expectativa de cantar em um local que fazia parte de sua história. Aos poucos, falava mais de suas ligações com o samba nascidas no Rio de Janeiro, onde foi morar na juventude e conheceu a obra de mestres como Roberto Ribeiro e João Nogueira, de quem é grande fã. A duas ruas dali, parou em uma esquina ao ouvir uma música conhecida. Em uma calçada, um grupo animado reunido em volta de várias mesas brancas de plástico cantava e tocava um Emílio Santiago em ritmo de samba. “O Luiz gosta do Emílio, vamos ver se é ele que tá ali!”, Jô retrocedeu entrando na rua a fim de espiar se o amigo estaria na roda de samba. Mas ao se aproximar não reconheceu as pessoas e ia passar direto como quem não quer nada quando alguém da mesa gritou: “Ei, do violão! Volta aqui!”. Meio desconfiado, Jô acenou de volta e se aproximou hesitante. “Toca umas com a gente!”, “Senta aí!”, “Toma uma cerveja!”, os convites se sucederam. Tentou explicar que estava só de passagem, mas o rapaz careca de voz rouca lançou-lhe um argumento incontestável: “A música é universal!”. Depois dessa, Jô não pode resistir à tamanha hospitalidade. Sentou ao lado de uma pequena caixa de som, tirou o violão da capa, plugou os cabos e o microfone e sorriu para o coro de “paparaparapá” puxado pelo mesmo rapaz, que agora batucava um tantã a sua frente. “João Nogueira!”, Jô exclamou sorridente para o grupo e emendou um “Nó na Madeira” animadíssimo, acompanhado por tamborim, pandeiro, flauta e tantã. Nessa brincadeira, conduziu seu violão por quatro ou cinco sambas cantados em coro e regados a cerveja e animação. Só interrompeu sua participação na roda quando o celular tocou. Era Barreto avisando que o local do ensaio mudara, mas que ele aguardaria Jô na sede da Mangueira. O músico despediu-se então dos companheiros da roda de samba e em êxtase seguiu caminho de volta ao calçadão, onde encontrou Barreto e os ritmistas do bloco. O ensaio teria de ser realizado mais adiante no calçadão, pois o palco armado para a programação oficial de carnaval era próximo demais da sede da agremiação.

Alguns minutos depois, após apresentar Jô ao presidente do Bloco Luiz Chagas e ao mestre de bateria Pipão, Barreto apresentou Jô aos ritmistas, que agora já dispostos com os seus instrumentos fizeram os tambores rugirem em saudação ao novato. Barreto lançou a tradicional pergunta e os ritmistas responderam em coro.
- “Aos Diplomáticos?”
- “Nada!” 
- “Ao Jô Santos?”
- “Tudo!” 
- “Aos Diplomáticos?”
- “Nada!” 
- “Ao Jô Santos?”
- “Tudo!” 

Após receber as boas vindas dos ritmistas, Jô agradece a acolhida.
Apresentações feitas e som passado, deu-se início ao ensaio, que acabou sendo rápido devido ao avançar da hora e só possível graças ao consentimento da vizinhança, gesto que Barreto não deixou de agradecer imensamente ao microfone. 

Ao fim do ensaio, Jô não cabia em si. A noite havia reservado bem mais do que ele esperava. Sentado na calçada junto aos integrantes do bloco, enquanto todos renovavam as energias com um consistente caldo de ovos, Jô conversava animadamente tentando pôr em palavras uma versão resumida da experiência de retornar àquele bairro. Jô tomou uns quatro copos do caldo fumegante enquanto tentava dar conta de elaborar a noite em palavras. Estava para lá de aquecido para aquele seu primeiro carnaval como integrante de bloco.

Ensaio no calçadão em frente à sede da Turma de Mangueira
Na segunda-feira (24/02/2014) houve novo ensaio, desta vez na pracinha em frente à sede da Turma de Mangueira, que sem programação àquela noite estava tranquila o suficiente para o ensaio, com espaço suficiente também para os ritmistas fazerem uma fogueira para afinar os tambores. Mais à vontade, Jô se concentrou no ensaio alternando-se entre voz e violão para acompanhar Luiz Barreto e os músicos da harmonia, composta por um violão sete cordas, um bandolim e um cavaquinho.

Na sexta-feira, o bloco se apresentaria no Colégio São Vicente, ali no bairro mesmo. Seria mais uma espécie de reencontro para Jô, que fora aluno do colégio assim como as irmãs, que ainda retornaram ao São Vicente como professoras. Contudo, no dia, um temporal impediu que o músico conseguisse chegar a tempo ao local. E a experiência ficou no plano das ideias que comovem pelo simples sentido que carregam, ganhem corpo no plano real ou não. Passem de uma ilusão ou não. Tal como sugere o espírito do carnaval.

NO NINHO DO UIRAPURU

“A gente trabalha o ano inteiro/ por um momento de sonho”. Os versos de Tom e Vinícius costumam fazer todo o sentido para quem vive a própria arte, mas talvez este exato trecho da música “A Felicidade” caiba como epílogo perfeito para a noite em que o bloco todo paramentado flutua sob a avenida branca e iluminada da Passarela do Samba ao som ritmado de seu samba. Todo o esforço de meses dedicados à preparação do bloco – que vai da escolha do tema à confecção das fantasias, passando pela composição do samba e muitos ensaios - para uma apresentação de quinze minutos que abre o período de folia que se estende pelos dias seguintes até a terça gorda de carnaval. 

Passarela do Samba
No sábado (01/03/2014) da grande estreia na avenida, Jô chega por volta das 19h30 com a família à Passarela do Samba. Enquanto sua vez não chega, o músico se acomoda com a esposa e as filhas nas cadeiras de pista e assiste ao desfile dos demais blocos do grupo A. Dali a pouco, Luiz Barreto se aproxima para cumprimentar Jô e dar algumas instruções sobre o momento da concentração. Os Diplomáticos estavam previstos para desfilar às 23h20, mas devido a alguns atrasos na programação entram na avenida quase meia noite.

Quando a hora finalmente se aproxima, Jô se despede da família e se dirige à concentração dos blocos do lado de fora da passarela. A esposa e as filhas se imprensam junto à grade e alguns minutos depois o avistam no comecinho da avenida, já em companhia dos músicos da harmonia do bloco, os ritmistas fantasiados se agrupam mais atrás na entrada da avenida, aguardando o sinal para entrar na passarela. 

Em minutos, o locutor Frank Matos anuncia o bloco no sistema de som informando dados sobre a história d’Os Diplomáticos e comentando o tema escolhido pelo bloco para defender àquela noite na avenida. Quando diz “Em julgamento”, o sinal verde é dado e o cronômetro começa a rodar. Barreto assume o microfone saudando a todos e convocando em seguida o bloco para o espetáculo. A harmonia puxa o samba e em segundos a marcação entra firme. Cada instrumento vai encontrando lugar na música e logo o bloco inteiro está na avenida fazendo seu show. De longe, a família de Jô vibra ao vê-lo aparecer e desaparecer entre os foliões. As balizas vem à frente dançando com um gingado que parece pulsar em câmera lenta. “A batida do bloco tradicional maranhense é como a do reggae. Bate na junta da gente. Quando você menos espera, tá dançando no ritmo”, Jô já havia comentado dias antes ao ouvir o tema do bloco em casa. A resposta do público ao redor não contraria a observação do músico, agora completamente à vontade no ninho do Uirapuru. 

Músicos da Harmonia
Depois de participar do desfile competitivo na noite do sábado (01/03/2014) pelo grupo A, em que os integrantes do bloco vestidos de Uirapuru cantam e dançam enquanto tocam seus contratempos, agogôs, cabaças, ganzás e retintas, o bloco parte na segunda-feira para o circuito de rua se apresentando nos palcos do bairro Madre Deus, caldeirão cultural local. Na terça de carnaval, Os Diplomáticos tocam na sede do Boi da Lua, localizada em frente ao calçadão do João Paulo e depois seguem para o circuito de rua. 

TODO CARNAVAL TEM SEU FIM

Findado o período oficial do reinado de Momo, a folia some das ruas, praças e avenidas da cidade. A Passarela do Samba é desmontada depois da quarta-feira de cinzas e volta a ser avenida que serve de passagem para veículos de todos os portes.

Jô Santos sente como nunca antes que todo carnaval tem seu fim, como cantaram um dia os Los Hermanos.

O que permanece, no entanto, é a marca da experiência revigorante de voltar ao ninho para cantar um afeto adormecido pelo tempo, mas desperto como que por encanto, mais ou menos como cantam os versos do samba de Luiz Barreto.

“No dia em que o divino amor pintou o céu de azul
Eu preparei meu coração inteiro pra lhe dar
Mas o leviano destino quis nos separar
Você é de outro alguém, não pode me amar
Cansado da vida vazia e triste sem você
Pedi a tupã em segredo um desejo meu
Então adormeci guerreiro e acordei trovador
Um pássaro aflito entoando um canto de dor
E quando o meu canto desata faz silenciar toda a mata
Pois meu canto é o encanto deste lugar

Diplomáticos eu sou, trago essa canção de amor
A cada novo anoitecer, na esperança de você reconhecer o seu amor
E me beijar pra este encanto então se desfazer”.

(“Uirapuru, canto e encanto da Amazônia” – Tema 2014 do bloco tradicional Os Diplomáticos)

*Texto escrito especialmente para o meu pai João Batista Santos Sousa, o Jô Santos, que compartilhou comigo seu reencontro, sua música, suas histórias e emoções. 
Pois aqui está, pai, o texto que eu disse ao senhor que escreveria com a alma.
Com agradecimentos especiais ao Luiz Barreto, ao Luiz Chagas, ao Pipão e toda a turma de ritmistas d'Os Diplomáticos. Pelo convite, a acolhida e por fazer do nosso primeiro carnaval, uma bonita folia em família.