terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

CRÔNICA EM FOCO


Aos colegas de escola, com carinho*

Há exatos dez anos, cerca de quarenta meninos e meninas na faixa etária dos 14 anos ingressavam no ensino médio. Um mundo novo de experiências e aprendizados se descortinava a frente de cada um, trazendo pelos três anos seguintes bem mais do que uma vivência escolar regada por aulas, notas, trabalhos em grupo, coleguismos e por que não dizer algum bullying também. Entre 2004 e 2006, o que se viveu nas salas de aula, corredores, pátios, biblioteca, ginásio e cada cantinho do então CEFET-MA foi uma experiência de adolescência compartilhada. Com tudo o que uma adolescência abarca para além do aprendizado escolar, motivo primeiro – e da maior importância - que reunia diariamente na escola uma turminha em formação. 

A vida que pulsou durante aqueles três anos foi alimentada fartamente. Do nascimento de amizades, amores, alegrias, descobertas, tristezas, desentendimentos, conciliações, surpresas, dúvidas, companheirismo, implicâncias, imaturidade, generosidade, inimizades, novas amizades até uma infinidade de sentimentos e experiências que moldaram pessoas e construíram histórias. Durante o ensino médio, grupinhos foram formados/desfeitos/refeitos, embates foram travados, amizades e amores nasceram/ruíram/renasceram, professores foram amados e odiados, cada adolescente se sentiu compreendido e incompreendido, compartilhou dores e alegrias, anseios e medos, vitórias e derrotas. Depositou um pouco de si no muito que forma o nós.

Ao término da escola, os meninos e meninas já à beira da maior idade souberam olhar para trás e reconhecer aqueles três importantes anos, celebrando a conclusão de uma fase com festa. E já com saudade, acenaram aos colegas permitindo-se cada qual – alguns juntos – partir em busca de novos sonhos e desafios. 

Os anos que seguiram trouxeram novas responsabilidades, cobranças, escolhas e decisões. A adolescência ficou para trás, mas não as lembranças ternas do tempo que ajudou a formar cada um. Nosso ensino médio foi transformado – com o passar dos anos – em um belo recorte para o álbum das vivências inefáveis, adjetivo que aprendi com Andressa lá pelo terceiro ano.

Por tudo isso, quando 2014 deu os primeiros suspiros nesse mundo, um dos meninos não hesitou. Acessou o facebook – que não existia àquela época - e criou um grupo especial – forjado há anos em bancos escolares. Aos poucos, várias pessoas foram sendo adicionadas. Rostos e sorrisos familiares pipocaram no alto da tela, juntos novamente em um único painel. Um foi chamando o outro e muitos foram acolhendo a ideia proposta: um reencontro que regado a feijoada aconteceria no primeiro dia de fevereiro e celebraria os dez anos do ingresso da turma no CEFET.

Na manhã do sábado (01), fui para a estrada de Ribamar aguardar por uma carona. Marcinho, um dos colegas com quem eu menos tinha proximidade – e com quem eu não mantinha contato há oito anos – se dispôs gentilmente a me levar. Quando o carro se aproximou, logo reconheci também Diego, sentado ao lado do motorista. Porque sorrisos raramente mudam, com ou sem aparelho.

O almoço que entrou pela tarde me comoveu pela franqueza das pessoas que ali se apresentaram tão desarmadas. Os abraços sinceros, os sorrisos abertos, as histórias relembradas. Qualquer conflito adolescente superado pela maturidade e pelo desejo sincero de rever pessoas e saber como elas estavam. 

Andressa, amiga querida, comenta que ainda hoje vê cada um de nós do jeito que éramos. Penso que é seu jeito afetuoso de manter viva a lembrança dos adolescentes que fomos. Observação que ganha força com o fato de reconhecermos uns aos outros pelos apelidos da época: Rato, G, Harry e tantos outros. Contudo, arrisco ir além: o bonito do reencontro é notar como as pessoas amadurecem, constroem suas vidas e nos ofertam pequenas ternuras que ressignificam nossas lembranças. E nesse sentido foi uma belezura reencontrar em cada adulto ali sua alma adolescente, presente no jeito de olhar, falar, ouvir, abraçar, silenciar.

O que de mais precioso essa deliciosa tarde de afetos fortalecidos me trouxe foi a oportunidade de enxergar doçura onde antes eu não reparava, reencontrar o bom humor de quem eu sentia falta, conhecer a beleza nascida do ventre de quem já é mãe, ter notícias de quem há muito eu nada sabia, como quem se formou em que, trabalha onde, se mudou pra que país, casou, teve filhos... E ressignificar com novas informações, os afetos.

Aos que foram à reunião, minha sincera felicidade em revê-los. Aos que não puderam comparecer, saibam que foram lembrados pela ausência, esse jeito de não estar que marca presença puxada por alguma memória. 

Aviso no grupo da turma no facebook que escrevi uma crônica sobre o reencontro e logo surgem comentários engraçadinhos me pedindo para falar de cada colega. Com isso, me vem à mente uma enxurrada de lembranças e frases e gírias ("que onda!", teria dito Rato-Antonio Rafael) e me bate uma saudade danada de viver aquilo tudo de novo só pra notar o que por algum motivo deixei passar ou a memória não guardou. É tentador trazer para cá umas tantas cenas, de aulas, trabalhos, conversas paralelas, pizzas feitas por Elder na casa de Dudu e Lyssandra, partidas de futebol com Handell, Antonio e Harry-Rafael Morgado depois de tirar todas as dúvidas do mundo sobre geometria analítica com Harry na biblioteca, do chute que eu e Denyse demos na parede do pombal, do cachorro-quente da calçada do Wellington, daquele bibliotecário brabo, do Silas, do porteiro Sidney ("Tchau Sidney!", "Tchau, fia!"), Marcinho com a roupinha vermelha de mascote na gincana, Ãdyara comandando as meninas na dança do ventre na gincana, Jorge Leão, Elaine e tantos mestres, além do nosso saudoso Bruno Matos... 

Ah, seria lindo poder ainda dedicar um parágrafo a cada colega, mas penso que é melhor não dar tão árdua tarefa à minha mente cansada, sujeita a não encontrar em palavras o correspondente à altura das impressões que tenho de cada colega e amigo. Fiquem, pois, com o texto completo, dedicado à todos e à cada um. 

O reencontro para celebrar os dez anos da turma 105/CEFET-MA foi bonito, leve – salvo a feijoada e os quilinhos a mais de alguns rapazes - e divertido. Lega a mim o respeito que eu já tinha por cada colega, acalentado agora por um carinho na memória, que foi a tarde do dia 01/02/2014.

Talita Guimarães

*Texto dedicado aos colegas que foram a minha turma (105/205/305) no CEFET-MA entre 2004 e 2006, os melhores anos da minha adolescência. Nossa turma formou médicos, engenheiros, enfermeiros, administradores, contadores, advogados, farmacêuticos, entre tantos outros profissionais atuantes no mercado atual. A mim, a única jornalista do grupo, coube não deixar passar o momento, registrado nesta afetuosa crônica.

Um comentário:

Andressa Fontinele disse...

amiga, me sinto muito honrada de fazer parte das tuas boas lembranças e também pelo texto tão lindo (da vontade de ficar relendo por horas, imprimir, mostrar pra todo mundo, colar na agenda - isso eu vou fazer mesmo!, enfim...). Você também é doce lembrança e amizade construida sobre a rocha (o vento não leva). Muito obrigada pelo texto!