terça-feira, 29 de abril de 2014

SOLREALISMO EM FOCO

Por uma vida mais solreal!

por Talita Guimarães

O céu cinza não intimida os solrealistas. Aliás, é justamente o tempo fechado que incita o desejo por luz e calor. E de tempo fechado – leia-se vida atravancada por descasos e violação de direitos - já estamos todos saturados. Tanto que não por acaso ardem entre nós continuamente as faíscas de um movimento que não espera pela sombra e não hesita em tomar chuva. Muito pelo contrário, evoca um sol que ilumina realidades escancarando-as para que todos a vejam e sintam na pele o ardor que dói a dor necessária à lucidez que transforma. É que quando o sol real falta, surge-nos o Solrealismo para lançar luz e aquecer.

Foi justamente como um raiozinho luminoso em um dia nublado que a turma do Éguas Coletivo Audiovisual, precursora do Solrealismo, baixou embaixo da ponte do São Francisco na tarde chuvosa do domingo (27/04) para promover um evento com atividades lúdicas e exibição de filmes para os moradores da área. Com o apoio da Associação Brasileira de Documentaristas – ABD, a equipe do Éguas reuniu artistas circenses, contadores de história, músicos, palhaços e voluntários para a realização de uma tarde diferente no local. Do alto da ponte do São Francisco, onde embaixo enfileiram-se precárias moradias, pendeu-se uma faixa amarela com dizeres bem legíveis: “Mostra Éguas”. 

Os tambores do grupo de percussão Maratuque soaram como convite para que os moradores se aproximassem enquanto os equipamentos de som eram montados em um cercado cedido por uma moradora de uma rua próxima. De um lado da rua, o reflexo do ativista Klaus Aires no espelho amparado por um voluntário se transformava aos poucos na face branca com nariz vermelho do Palhaço Brobow. Ali pertinho, atrás dos ramos de algumas árvores, a figura da acrobata Célia Ribeiro pairava no ar com seu balé aéreo executado em tecido acrobático firmemente amarrado à ponte. Ao chão, crianças de várias idades prestavam atenção à artista no ar, curiosas com o movimento. A intervenção contou também com a participação de Samuel Moreira.

Intervenção artística com Célia Ribeiro
Um menino em especial se aproximou de Célia quando a artista tocou novamente o chão para elogiar o que chamou de “espetáculo” e expressar suas impressões, demonstrando o desejo de aprender sobre balé aéreo. Ao me contar sobre o contato com o menino, Célia sorria como quem flutua sem o auxílio do tecido acrobático. “Quantos artistas, acrobatas não devem ter aqui?”, Célia reflete olhando ao redor. Sim Célia, só esperando uma oportunidade, concordo acompanhando seu olhar.

Crianças brincam com bolinhas de sabão
Pouco depois, um grupo afoito de crianças rodeava Keyci Martins do Éguas Coletivo Audiovisual e outros voluntários que distribuíam aros para fazer bolinhas de sabão e recipientes com água e sabão. Sobrou aro ensaboado até na minha mão. Uma garotinha morena de franjinha chamada Vitória se aproximou de mim sem tirar os olhos do copão cheio de espuma e dos aros que produziam bolhas coloridas nas mãos de duas outras menininhas. Em certo momento, Vitória reparou no aro na minha mão e soltou sem cerimônia “ah, só eu que não recebi!”, ao que estendi o meu imediatamente em sua direção, ajudando-a a fazer as primeiras bolhas. “Ainda vai ter a festinha?”, ela puxou assunto sorrindo banguelinha. Respondi que sim e informei que veríamos até um filme de animação. Então entre uma bolha e outra ela me disse que gostava muito de filmes. Perguntei sua idade e mais uma vez ganhei um sorriso travesso enquanto ela escolhia quatro dedinhos e os erguia no ar para me mostrar quantos anos tinha.

Logo uma grande lona havia sido estendida no chão do espaço cercado próximo aos equipamentos e ao telão onde seriam exibidos “Kiriku e a feiticeira” e “Luíses – Solrealismo Maranhense”. Os atores da Cia do Imaginário já estavam a postos convidando a criançada a sentar na lona para acompanhar a contação de histórias. “O sapo e a cobra”, conto africano que trata da amizade que surge na diferença, chamou a atenção das crianças que interagiram com palmas, sorrisos e toda uma algazarra infantil que enchia o ar a cada cena vivida pelos bonecos que os atores manipulavam. 


Contação de histórias com a Cia do Imaginário
"O sapo e a cobra"
Muita música e palmas depois, foi a vez do Palhaço Brobow (Klaus Aires) surgir entre a criançada fazendo perguntas atrapalhadas enquanto todos comiam pipoca. A Palhacinha Girassol, graciosamente vivida por Gisele Bossard, uniu-se ao Brobow para dar continuidade às brincadeiras. 

Brobow aguarda para entrar na brincadeira
Já ao fim da tarde, foram distribuídas pipas solrealistas e mingau de milho. A essa altura, muitos adultos já estavam por perto, alguns acompanhando os filhos, outros interessados em ver o movimento. 


Exibição de "Kiriku e a feiticeira".
No detalhe, pipa solrealista repousada no chão.
Quando o céu escureceu de vez, por volta das 18h, todos já estavam devidamente acomodados na lona para o início da exibição de “Kiriku e a feiticeira”, animação bonita sobre valentia. O herói Kiriku, pequenino somente no tamanho, esbanjava bravura na tela, despertando ora reações de espanto ora de admiração. Nem a chuva fina que caía desviava a atenção da história. Um menino moreno, sem blusa, virou para mim - quando prendi a respiração de modo audível em certo momento tenso do filme em que o protagonista parecia ter se afogado ao devolver água à aldeia - e me tranquilizou afirmando que Kiriku respirava ainda. Havia esperança em seu comentário espontâneo. Sorri agradecida.

Filme forte com passagens significativas, “Kiriku e a feiticeira” foi uma escolha absolutamente acertada para a Mostra Éguas. Além de celebrar a coragem para enfrentar o que há de errado através de uma animação bastante terna, o filme baseado em uma lenda africana fala diretamente ao nosso tempo e contexto. “Quanto mais medo eles tem, mais poderosa ela se torna”, ensina o sábio avô de Kiriku sobre a tirania da feiticeira. E imediatamente me vem a possibilidade de diálogo com uma cena do “Luíses – Solrealismo Maranhense”, em que a imagem congelada de um político surge acompanhada da pergunta sobre o que dizer dele. Sendo assim provoco a nós, luíses-maranhenses: o que dizer da passagem do avô de Kiriku? 

Mostra Éguas
Mais adiante, já próximo do desfecho do filme, a feiticeira comenta perplexa: “Como é estranho não sentir mais nenhuma dor!”, diante do alívio que se ergue à retirada de um espinho em suas costas. As cenas que seguem mostram que a experiência de liberdade pode causar estranheza a princípio, mas logo se revela transformadora. 

E por falar no movimento de transformação, na sequência os adultos foram contemplados com a exibição do longa-metragem “Luíses – Solrealismo Maranhense”, misto de documentário com ficção fortemente poético e crítico sobre a realidade política e social maranhense. Mesmo voltado para o público adulto, o filme, produzido pelos cineastas que formam o Éguas Coletivo Audiovisual, foi assistido também pelas crianças, atraídas em parte pela trilha sonora repleta de sons que lembram realejo e a fotografia cheia de cores quentes do filme.

O telão, cuja projeção atravessava o verso e era exibida ao contrário pelo outro lado, foi o centro de uma imagem particularmente bonita durante a exibição do filme solreal. Enquanto um grupo assistia sentado e em pé pelo lado voltado para a lona, outro se apinhava por trás da tela, assistindo ao reverso da projeção. Independente da posição ocupada, todos podiam assistir ao filme. 

Porque independente da posição ocupada, idade alcançada, experiência de vida ou lugar de morada, todos puderam participar das atividades, fazendo parte da mostra e dialogando entre si, em uma tarde solreal em que foi possível compartilhar experiências e impressões e perceber o quanto somos todos luíses. 

Afinal “Solrealismo é isso!”, como certeiramente me afirmou Lucian Rosa (diretor do filme), ao se aproximar de câmera em punho, cansado, mas absolutamente feliz e gesticular admirando o público que assistia ao Luíses...”. E olha que a essa altura já era noite em São Luís do Maranhão, terra fértil para experiências solreais a qualquer tempo.

Para saber mais sobre o Solrealismo, acesse www.solrealismo.com .