quinta-feira, 15 de maio de 2014

MEMÓRIA LITERÁRIA EM FOCO


"[...] porque o silêncio é em si mesmo/ a pura harmonia da vida [...]”.
(José Chagas, "Alcântara - Negociação do Azul ou A Castração dos Anjos")

O dia era 28 de dezembro de 2006. Uma quinta-feira. Era noite e lá estava eu, aos 17 anos, flanando curiosa entre as exposições de artes visuais instaladas na Fábrica das Artes, na Madre Deus. O evento em questão era a noite de premiação da trigésima edição do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís, promovido anualmente pela Fundação Municipal de Cultura – FUNC.

Era a primeira vez que eu participava de uma noite como aquela que reunia inúmeros nomes das artes do estado do Maranhão entre poetas, escritores, jornalistas e artistas plásticos. Mal podia conter a alegria de experimentar aquele clima e ver de perto toda aquela gente adulta, dona de uma produção madura e consagrada. Minha tímida presença ali se devia ao meu ingresso no universo literário: naquela noite em especial, tudo parecia bastante surreal, afinal eu concorria com meu primeiro livro “Vila Tulipa”, que acabou recebendo o segundo lugar no Prêmio Odylo Costa, Filho naquela edição. A literatura que já me fascinava como leitora me transformara aos poucos em uma aprendiz de contadora de histórias infanto-juvenis.

Entre um grupo e outro que circulava pelo local, meu pai ia soprando no meu ouvido os nomes dos literatos ali presentes e me contando sobre suas obras. Foi assim que lá pela metade da noite, após o anúncio da premiação, nos aproximamos de um senhor de cabelos brancos e face serena que conversava com algumas pessoas, acompanhado de sua sobrinha. “Este é o poeta José Chagas, filha”. E nos aproximamos para cumprimentá-lo. Naquela noite a biografia “Chagas em pessoa”, excelente livro reportagem de Félix Alberto Lima e Manoel Santos Neto, era lançada. O livro fora contemplado com o Prêmio Bandeira Tribuzi de Jornalismo no ano anterior. Simpático, Chagas aceitou nossa aproximação e trocou algumas palavras gentis conosco. Naquela mesma noite, vi Nauro Machado de perto pela primeira vez também.

Nunca esqueci o encontro com Chagas. Dali adiante, passei a acompanhar com atenção suas crônicas no jornal O Estado do Maranhão e criei enorme simpatia por sua figura. Mas só fui ler um livro seu quando minha amiga Saara me deu de aniversário um exemplar de “Da arte de falar bem – Crônicas de Saudade e Bem querer”, livro de crônicas apaixonante. 

E foi graças a esse livro que me encontrei pela segunda vez com José Chagas, desta vez em um café literário de uma das primeiras edições da Feira do Livro de São Luís em que me aproximei timidamente para pedir uma dedicatória no "Da arte de falar bem" e presentear o poeta com um exemplar de meu “Vila Tulipa”, publicado em 2007. Quando lhe entreguei os livros e informei meu nome para a dedicatória, Chagas sorriu e perguntou se eu não era aquela menina que ganhara um prêmio da FUNC. Surpresa, respondi que sim e que havíamos nos conhecido na noite da premiação em 2006. Mais alguns sorrisos e um aperto de mão depois, lá ganhava eu a rua com o coração enternecido pela cordialidade do poeta.

Nos anos seguintes minha admiração por José Chagas cresceu vertiginosamente a cada livro seu que li. Impressionava a capacidade do paraibano de Piancó, maranhense de alma e coração, pôr impressões elaboradas da vida em palavras, fosse em prosa ou em versos. Cheguei a pedir sua biografia como presente de amigo invisível no trabalho e não canso de presentear pessoas com o meu preferido, "Alcântara - Negociação do Azul ou A Castração dos Anjos", poema espetacular com versos certeiros sobre matérias caras como a vida, o tempo, o silêncio e a história de uma cidade. A última pessoa a quem dei o livro de presente foi a poetisa Alice Ruiz, pessoa de alma muito bonita que tive a imensa alegria de conversar durante uma caminhada pela Praia Grande na edição do ano passado da Feira do Livro de São Luís - FeliS. Na ocasião falamos sobre música e literatura – como não? – e trocamos indicações. Quando chegamos aos estandes de livreiros, não pude resistir à ideia de presenteá-la com meu Chagas favorito. 

Com José Chagas após Café Literário do Odylo,
em maio de 2011
Quando em maio de 2011 Chagas anunciou em um Café Literário no Odylo que aos 86 anos a versificação não o interessava mais, soube que o poeta transformara-se por completo em um poema vivo. A cada declaração sua, observações sobre o mundo jorravam poesia pura de sua boca. Era a tal palavra acesa que continuava a pulsar poesia em suas veias.

Se por um lado suas aparições públicas em eventos literários diminuíram devido a sua saúde já frágil, por outro muitas homenagens lhe abraçaram. Em 2011, quando foi escolhido patrono da FeliS, tive um dos encontros mais emocionantes com ele. Por coincidência eu estava na feira no momento em que ele chegou, de cadeira de rodas, para visitar o espaço que o homenageava. Não pude deixar de me aproximar para mais uma vez expressar meu carinho e fazer um comentário. Conheci Alcântara através dos versos de Chagas em "Alcântara - Negociação do Azul ou A castração dos anjos" e não pude deixar de me emocionar com a coincidência que se ergueu diante de nós: eu visitaria Alcântara no dia seguinte ao encontro com Chagas na feira. 

Ao contar isso ao poeta que me fitava com olhinhos atentos, entre livreiros no corredor do Espaço Cultural, me emocionei bastante e acabei beijando sua testa, gesto que repeti nas outras vezes em que nos encontramos. Gentil como sempre, José Chagas apertou minhas mãos e comentou que ninguém havia comentado isso com ele antes e que ficava feliz por mim.

Ao visitar a cidade após a leitura – e o encontro! - descobri que a Alcântara histórica pela qual eu andava era na verdade o grande, belo e comovente poema de Chagas. Com os versos na cabeça, a cidade que se erguia diante dos olhos era uma experiência de poesia viva, dessas que a gente apreende com todos os sentidos. 

Com Chagas e André Bandeira,
que recita versos do poeta no documentário "Palavrador"
dirigido por Beto Matuck sobre a vida e obra de José Chagas
.
Em 2013, estive com Chagas pela última vez na noite de lançamento do disco “A Palavra Acesa” que produzido por Zeca Baleiro e Celso Borges reúne versos lindamente musicados por grandes nomes da música brasileira e surge como uma belíssima homenagem à poesia forte de Chagas.

Na última terça-feira (13/05), a notícia da partida do poeta – que se considerava mais um versejador – aos 89 anos me alcançou longe, aqui no Rio de Janeiro e doeu fininho, aquela dor que aplaca a gente diante da perda de alguém querido, significativo para a nossa vida. Como bem observou Celso Borges, o poeta partiu deixando-nos em silêncio, silêncio que não por acaso sempre foi matéria de seus preci[o]sos versos. 

Triste, pus-me a contemplar em silêncio o efeito que a notícia causava em mim. De onde estava no momento era possível admirar a exuberância da geografia carioca. Longe da São Luís intensamente retratada por Chagas, derramei pela orla carioca a vista meio embaçada por lágrimas inevitáveis até visualizar ilhazinhas rochosas ao longe. O pensamento em Chagas foi da despedida que eu não viveria em São Luís ao sentimento de conformação de que eu estava onde podia/devia estar. O silêncio já se adensava ao meu redor quando me veio a sensação de que a vida é inalcançável ao mesmo tempo em que está aqui, transbordando das nossas mãos. Estando intrinsecamente ligada à vida, o que é a morte se não uma espécie de passagem de um estado a outro? De um estar a não mais estar sim, mas nunca de um ser para deixar de ser. 

E para que despedida de um corpo se agora o poeta habita o universo? Ao piscar e reabrir os olhos para o mundo, versos de Chagas me vem para muito do que vejo e sinto. Ao encarar o mar percebi que o meu poeta preferido, um dos maiores que a nossa poesia já viu, poderia estar aqui comigo, no silêncio da contemplação. Ele que em verso já me ensinara que “o silêncio é em si mesmo/ a pura harmonia da vida”.

Ao silenciar permanentemente, José Chagas transformou-se ele próprio em harmonia. O poeta que desde sempre viveu a poesia completou-se em paz.

Para ler o bonito obituário escrito por Zema Ribeiro, acesse aqui.

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