terça-feira, 29 de dezembro de 2015

FORMAÇÃO EM FOCO – Sobre as palestras do Conecta Música (Festival BR135) - DIA 1 / Parte 2


CONECTA MÚSICA


QUINTA-FEIRA (10.12.2015) – Cine Praia Grande
Palestra “Jornalismo Cultural” com ZEMA RIBEIRO e ROBERTA MARTINELLI. 
Mediação: Andrea Oliveira.


PARTE 2 - Jornalistas comentam observação da mediadora e respondem perguntas do público


Após os jornalistas Roberta Martinelli (TV Cultura) e Zema Ribeiro (Blog Homem de Vícios Antigos) comentarem sobre suas respectivas trajetórias e experiências no Jornalismo Cultural, a participação foi aberta ao público para que fizessem perguntas. A mediadora Andréa Oliveira aproveitou o trecho da fala de Martinelli sobre as estratégias criativas adotadas pela apresentadora e sua equipe para apresentar o piloto do programa Cultura Livre e comentou que esta situação é comum a todos os meios. 

"Isso acontece no impresso e na TV, ou seja, você apresentar o que tá acontecendo de fato é muito complicado. A mesma coisa que o realizador de um show de um artista, às vezes é muito difícil ele conseguir trazer um público porque ele ainda não é conhecido. Isso nos faz pensar o seguinte: a ideia do BR desde lá o circo de fazer isso de ir formando uma plateia para que as pessoas saibam quem faz essa cena, quem que tá fazendo música, quem que tá fazendo literatura. Os grandes jornais perderam esse timing de sempre querer a grande notícia e aí acha que não vai ter leitura, acha que não vai ter público para esse novo. Taí o grande papel desse formador de opinião que vem aí por caminhos enfim, mas que consegue ter espaço, consegue ter um público que vai crescendo e que tem uma voz, uma voz de prazer, que seja ouvida e diz 'olha isso é bom, isso é bacana'. Acho que isso legitima esse papel de vocês de estarem atuando nesses mercados, de descobrir o local dessas redes, o papel da internet de ocupar espaço e trazer esses artistas e fazer rede, mudar essa cena, descentralizar, criar vários centros”, analisa Andréa Oliveira. 

"Todas as pessoas que trabalham com música, que eu vejo, são pessoas muito teimosas", avalia Roberta Martinelli comentando como a presença de um repórter como Leonardo Lichote na equipe d'O Globo faz diferença na cobertura de cultura. "O Globo hoje em dia cobre música muito mais ativo nisso que a Folha já, porque tem esse cara lá, que é o cara que fica enchendo o saco pra convencer que vale a pena", diz Martinelli. 

A jornalista lembra ainda dos novos modos de produção pensados pelo setor musical para sustentar o cenário independente. "A música saiu na frente nesse sentido de inventar novos modos. As gravadoras já não tem tanta importância. Existem? Existem, mas não são mais nada do que eram. E os músicos inventaram modos de viver, gravar e de lançar, cada um do seu jeito.", afirma a apresentadora do Cultura Livre citando artistas independentes como o rapper Emicida, que fez e vendeu as próprias mixtapes e depois criou a gravadora independente Laboratório Fantasma, ou ainda Tiê, que apesar de ser artista da Warner, tem uma lojinha onde vende produtos relacionados a sua música. 

Para Roberta, os meios de comunicação tradicionais estão ficando para trás em relação aos novos modos de produção e circulação. "Quando eu vou divulgar o programa na televisão: 'gente, hoje onze e meia tem Cultura Livre na TV Cultura.' Por que as pessoas vão assistir o programa na hora que eu quero? Sendo que um minuto depois tá no youtube", questiona a jornalista que se interessa muito mais em acompanhar como se dá a interação com o público pela internet, acompanhando a programação postada e compartilhando os vídeos do que em se preocupar com os pontos de audiência que o programa obtém na TV.

Martinelli é também bastante crítica ao modo como o Jornalismo Cultural é posto a prova o tempo inteiro nos meios de comunicação, com a profissão de apresentadora ainda envolta em muito preconceito. "Você tem que provar o tempo inteiro que você tá falando sério", conta a jornalista, que fala a partir da experiência própria em precisar continuamente reconquistar o espaço do Cultura Livre na grade mantendo seu formato original, com ela a frente da curadoria e da apresentação. "Falaram ‘Não, esse ano você vai ser só apresentadora, vamos chamar um cara pra fazer a curadoria.’ E aí eu falei ‘É? Que ótimo, vai ser incrível, mas eu não vou ser a apresentadora disso. O programa é meu, a curadoria é minha e é minha condição pra ficar aqui senão eu vou embora.’ E é isso assim. Eu fico falando que eu falo isso, mas uma hora vai dar errado e eu vou embora", desabafa Martinelli que não vê sentido em se colocar em uma posição de obediência à imposição de um conteúdo que ela não acredita ser relevante. "Acho que tudo isso constrói o que o programa é no final das contas, que é um espaço de resistência", afirma com convicção.

Diante da recusa dos veículos em lidar com os novos tempos, Martinelli crê que uma hora não haverá mais jeito e todos terão de se reinventar. "A gente vai inventar novos meios de fazer, mas é importante que a gente faça isso e que a gente espalhe isso, porque quando eu lembro a primeira vez que a Tulipa foi no Cultura Livre em 2009, ela não tinha lançado nenhum disco e ela levou uma música que tinha gravado em casa. Era ‘Só sei dançar com você’ e aí ela mostrou a música e eu ‘noossa’ e hoje a Tulipa é o que ela é, entendeu e aí eu viro e falo ‘tá vendo gente?’ era isso, entendeu um pouco? Óbvio que muitos dos artistas que eu levei no Cultura Livre, já fiz sei lá quantos programas de rádio, 200 de televisão, muitos desses talvez não fiquem pra sempre fazendo isso e tudo bem também. Mas naquele momento eu acho que eram pessoas importantes lá, então estão lá. É um espaço de resistência. Eu acho que o Jornalismo Cultural é resistência. É fazer isso e brigar e brigar e brigar. Enche o saco, mas tem que brigar.”, defende Martinelli ao que Zema Ribeiro concorda.

"Tem um pouco a ver com uma equação de teimosia, liberdade e paixão. Fazer o Jornalismo Cultural onde quer que seja, a gente precisa bancar algumas ideias porque esses grandes veículos perderam o bonde da história no sentido que eles ficam presos ao que tá estabelecido. Muito fácil fazer uma resenha de um disco do Caetano, mas fazer uma resenha do primeiro disco da Tulipa, do primeiro disco da Tiê ou do quarto disco do Curumin, quando sair, já vai ser um pouco mais difícil", diz o jornalista. "O jornalismo precisa ter essa intuitividade pra fazer essas apostas, tentar colocar algo novo e nesse sentido você precisa estar ali enfronhado no que você tá fazendo. Você não pode simplesmente cumprir ordens de um chefe de redação ou mesmo dos diretores de uma gravadora que vão dar as ordens por meios que não os mais éticos, digamos assim, que venham de forma enviesada pelo jabá obrigando fulano ou beltrano a escrever sobre esse ou aquele disco porque precisa vender, porque foi uma aposta de gravadora tal, porque precisa, porque tá na trilha da novela. Então essa equação de teimosia, liberdade e paixão é importante demais pra quem faz ou quer fazer jornalismo cultural.", avalia Zema Ribeiro.

Em seguida, o público começou a fazer perguntas. 

- Uma jornalista na plateia comentou sobre a geração que cresce com a TV em segundo plano, já acessando conteúdo direto na web e perguntou como essa geração vai ver a comunicação, o jornalismo cultural e a comunicação das redes sociais.

Para Martinelli, a experiência de contato com o público revela que as pessoas produzem mesmo conteúdo e estão cada vez mais próximas do que consomem também. O próprio Cultura Livre recebe muita mensagem de crianças, como o caso do garoto de onze anos que conheceu o programa pelo youtube e há dois anos comparece com a avó para assistir a gravação. O garoto em questão estuda música e já mostrou uma composição para Chico Cesar em um dos bastidores do programa. 

“Posso deixar o Cultura Livre rolando ali numa janela e outra janela tem isso, tem aquilo, então é tudo muita coisa. Essa geração que vem eu acho que é mais ainda muito-muita-coisa. É celular, é ipad, é tudo. Eu acho que nisso o jornalismo vai ficar muito mais amplo e muito mais aberto, porque todo mundo é celebridade de si mesmo no final das contas. Todos nós aqui hoje postando uma foto somos jornalistas deste momento no final das contas. Então acho que vai ficar mais ainda aberto, mais jornalistas livres menos meios de comunicação. Eu acho que vai ser cada vez melhor.”, fala Martinelli, comentando ainda que contrariando a expectativa de que conteúdo para internet  tem que ser curto, são os vídeos maiores, com íntegras de entrevistas que obtém maior número de visualização e que as pessoas mais gostam de ver no canal do Cultura Livre.

Autor de entrevistas longas, Zema concorda. “Me preocupa um pouco essa coisa da redução, tudo tem que ser muito curto. Trabalhando em assessoria eu já escutei ‘não escreve mais de cinco linhas no facebook senão as pessoas não leem'. E eu disse olha, aí eu dou murro em ponta de faca mesmo, 'eu acho que se interessar pra pessoa, ela vai ler até o fim'."  E nesse ponto da palestra, uma senhora na plateia se manifestou agradecendo aos dois por publicarem entrevistas longas pois considera importante ter acesso ao material na íntegra. 

- Em seguida, uma profissional da área de Relações Públicas comentou a experiência de assessorar a banda Fúria Louca, única banda local escalada para o festival Metal Open Air em 2012. Diante do trabalho de divulgação da banda na imprensa e nas redes sociais, reflete sobre como alcançar uma audiência qualificada.

Para falar de público de interesse e audiência, Roberta Martinelli comenta a experiência relatada pela moça da plateia mencionando a repercussão do texto "Kiko Dinucci e o medo do pop" em que há o debate sobre os artistas independentes não acessarem um público massivo. Recorda que Kiko Dinucci declarou se considerar bem sucedido dentro do contexto em que produz porque seu público, ainda que insuficiente para lotar um estádio, é um público qualificado que prestigia sua agenda de shows em espaços menores, como os do SESC, e com quem ele consegue conversar ao fim do show, por exemplo. 

Trazendo para sua experiência com o Cultura Livre, Roberta comenta que o entendimento é semelhante. "No meu programa, por exemplo, eu adoraria ter 50 pontos de audiência. Adoraria que ficasse passando toda hora na televisão em todos os lugares, né? Você chega em qualquer lugar do mundo e tá ligado na globo lá, tá tudo passando, todo mundo sabe. Adoraria que o Cultura Livre tivesse essa audiência, de verdade, mas eu não vou fazer nada que vá contra o que eu acredito pra que isso aconteça", afirma a jornalista que não poupa críticas aos programas competitivos comuns na TV aberta em que as bandas se expõem tocando em cima de playback por um contrato com uma gravadora como prêmio. "Quem quer um contrato com uma gravadora? Desculpa, talvez eles queiram, por isso estão lá. Acho que as grandes emissoras comerciais que fazem isso acabam fazendo um desserviço pra um monte de gente. Não sei quanto importa se aparecer lá, quanto agrega. Falar com uma audiência pequena, falar com poucos ouvintes, com poucos telespectadores, mas que queiram realmente te ouvir talvez seja mais eficaz que falar com muita gente, mas se muita gente quiser te ouvir também seria incrível”, responde Martinelli.

Segundo Zema é preciso ter clareza que não vão surgir novamente fenômenos como Roberto Carlos ou Frank Sinatra. "Acho que essa coisa do medo de ser pop, a gente tem que ter clareza de que não vai surgir nunca mais, acho que eu tenho certeza de dizer, nunca mais vai surgir um novo Roberto Carlos que vai vender milhões de discos e se manter na ativa por 50, 60 anos. Nunca mais vai ter outro Frank Sinatra fazendo show no Maracanã com 170 mil pessoas, até porque nem cabe mais, né depois da reforma diminuiu", comenta bem-humorado para na sequência mencionar a entrevista recente que fez com a jornalista e ativista Nana Queiroz, autora do livro "Presos que menstruam" na qual a entrevistada afirma que ao editar a revista virtual AzMina, ela enquanto imprensa pode até ser o quarto poder, mas que funciona fiscalizado continuamente pelo quinto poder, que é representado pelos seus leitores. "Os leitores dela, embora poucos, estão lá dizendo ‘olha vocês não vão fazer merda!’ ", cita o jornalista.

"Nesse sentido eu fico contente com o depoimento da Helena em agradecer a gente por postar coisas compridas. Eu me lembro da experiência com a Chorografia do Maranhão, que eu e Ricarte [Almeida Santos] fizemos 52 entrevistas ao longo de mais de dois anos com instrumentistas de Choro que vivem em São Luís, e os que são daqui e estão radicados lá fora. A gente publicava duas páginas inteiras n’O Imparcial e depois botava a íntegra disso no blog, às vezes com extra porque o jornal às vezes cortava por um motivo ou por outro" e prossegue "Essa coisa do nicho, se é importante aparecer na televisão e no jornal sem fazer esse recorte de público, será que um porcento da audiência do jornal da Mirante de meio dia vai comprar o disco de vocês.... Eu acabo atuando dos dois lados da moeda. Faço blog, mas por outro lado eu faço assessoria também pra artistas, pra festivais, pra shows e tal e aí muitas vezes acontece de você, sei lá, cria uma fanpage prum projeto duma temporada de shows, mas aquilo não satisfaz um patrocinador por exemplo. Mil likes no facebook não vai... Eles querem ver o impresso, o recortezinho, a página do jornal, quantos centímetros aquilo gerou de mídia espontânea e coisa e tal. Muitos projetos nem aceitam colocar verba pra mídia e aí eu acho que nesse sentido é importante ocupar também esse espaço. Mas acho que é preciso a gente saber pra quem a gente tá falando, embora isso não seja tão fácil."


- Um estudante de Jornalismo elogia o olhar voltado para a cena local no blog do Zema, comenta sobre o trabalho musical de Papete e pergunta sobre a delicadeza/sensibilidade do jornalista que trabalha com cultura em não atrapalhar o trabalho do artista, mencionando o caso do desentendimento entre o repórter Douglas Pinto e um integrante do grupo Iluminara durante uma apresentação do Sonora Brasil, no Teatro Alcione Nazaré há alguns meses. 

"Eu acho que isso é interessante destacar nessas discussões que o BR 135 e o Conecta Música tem promovido ao longo desses anos de atividade. Acho que um não sobrevive sem o outro e aí a questão é  respeitar os limites", Zema Ribeiro responde à questão evocando ainda o trabalho da gravadora Marcus Pereira, tão importante para a música no Brasil quanto o trabalho de Fernando Faro. "E aí eu queria citar o exemplo, Faro é aquele big close no entrevistado. Ele não aparece fazendo as perguntas e é também uma referência pra o que eu faço por exemplo em termo de entrevista. Eu não faço vídeo, não mexo com tecnologia e tal, meu lance é texto", afirma.

Para Zema, Marcus Pereira foi um pesquisador importantíssimo. "Escrevia na contracapa, salvo engano do Fonte Nova, que era um disco do Chico Maranhão depois dos anos 80, que ele dizia o seguinte ‘a gente encontra nas prateleiras das lojas de discos 100 discos de um universo de 20 mil possíveis’. Quer dizer, eu acho que as coisas não mudaram. Você mudou o formato de comercializar e consumir música, mas as coisas nesse sentido não mudaram do ponto de vista dos grandes meios de comunicação que a gente sabe que ainda tem um alcance importante, então o papel do jornalista cultural seria esse de apontar caminhos, apontar tendências, sem ser pretensioso.", fala o jornalista, crítico de quem espetaculariza o ofício. "Tem muito jornalista cultural e muita gente que quer enveredar pelo jornalismo cultural que acredita muito no glamour. Ah, o jornalismo cultural é o cara ganhar ingresso pra ir no show, é o cara sair pra jantar com o artista depois do espetáculo e não é bem assim. Outros confundem a própria atividade jornalística com arte. Às vezes muito raramente se consegue chegar a esse status e aí a gente consegue citar uns poucos nomes a nível de planeta, mas tem gente que se acha a última bolacha do pacote, às vezes se acha mais importante que o próprio artista e não é. É o cara que vai na frente da picada com um facão abrindo os caminhos pra que mais gente possa conhecer aquele disco obscuro de Chico Maranhão ou algum nome novo que tá surgindo.”, argumenta.

Para Roberta Martinelli o respeito tem que vir em primeiro lugar na relação entre a imprensa e os artistas. “Eu comecei fazendo rádio, quando eu fui pra televisão eu fiquei muito assustada porque televisão, acho que é o lugar mais escroto que existe com artistas. É muito difícil. A televisão se acha muito importante. Os artistas precisam de você, eles tão lá, tipo você tá fazendo um favor pra eles e essa é um pouco a postura das pessoas que trabalham em televisão. Não sei se todas, mas muitas com as quais eu trabalhei esses anos sempre foi assim. No começo fiquei muito preocupada porque eu já fazia o Cultura Livre há dois anos na rádio e sempre tive muito cuidado com todos os artistas", conta recordando com indignação de um episódio em que um jovem artista do cenário paulista foi constrangido por um técnico que se recusou a preparar o som da forma como a banda precisava. Quando Roberta notou que o músico estava contrariado, perguntou o que havia acontecido e ele respondeu já com lágrimas nos olhos que o som não ia funcionar como a banda gostaria. No mesmo instante Roberta foi até o técnico esclarecer o que estava acontecendo e providenciar o som que a banda precisava. 

No repertório dos jornalistas não faltam exemplos de situações em que o respeito é o limite para evitar que o trabalho de um prejudique a atuação do outro. Roberta Martinelli, por exemplo, citou ainda a vez em que precisou entrevistar Gal Costa após um show e se sentiu muito mal em incomodar a artista, que apesar de conceder a entrevista sem reclamar, demonstrou bastante cansaço. "Saber que eu estava incomodando e que ela não queria tá lá, que ela já tinha dado entrevista e feito o show, realmente me deixou um pouco atormentada", confessou Martinelli, que recentemente passou por outra situação em que o respeito pelo artista falou mais alto na hora de produzir conteúdo. A ocasião em que a equipe do Cultura Livre foi agendada por um assessor para entrevistar Elza Soares em um horário que a artista estaria ensaiando com a banda. Ao chegar com a equipe no local, a artista, pega de surpresa, avisou que concederia a entrevista após o ensaio, ao que a equipe respeitou e aguardou.

Uma estudante de jornalismo e compositora falou do conflito existente em ser das duas áreas e perguntou como conciliar o gosto pessoal com o trabalho jornalístico. 

"É difícil, eu tô aprendendo também como é que faz.", Roberta respondeu. "Mas quando eu comecei a fazer o Cultura Livre eu não esperava que fosse ser o que ele é sendo que ele nem é tanta coisa, mas no mundinho que ele criou e as coisas que vem acontecendo, tudo isso pra mim é uma grande surpresa porque eu não achei que era pra ser assim, eu nunca pensei muito o que ia acontecer. Eu ainda me preocupo muito com as coisas e tenho muito cuidado com isso, mas eu me preocupo também em mostrar, eu acho que eu não tô fazendo nada disso, é obvio que é ótimo ganhar salário, mas eu não tô fazendo isso por dinheiro. Minha escolha foi bem clara. Eu aprendi depois de trabalhar em alguns lugares que eu não gostava, que eu preferia fazer as coisas que eu acreditava, que isso me trazia um retorno muito maior que qualquer coisa que pudesse acontecer.", afirma a jornalista, que estimulou a estudante a encontrar o seu caminho conciliando as duas áreas nas quais é interessada. "Acho que quando você faz uma coisa, por exemplo, com tanta paixão né, você investe tanto, você é tão teimoso que alguma coisa retorna. Não é possível! Porque tanta coisa, tanta entrega, tanta teimosia, tanto trabalho que eu acho que alguma hora, de alguma maneira isso volta. Pra algumas pessoas que não voltam, mas pra algumas volta. E é isso, tentar mostrar o que você tem e qual é a tua, o que você agrega a isso, como você pode falar desse conteúdo. Porque todo mundo pode fazer. Engraçado que eu falo que o Cultura Livre é um programa que poderia ser feito por qualquer pessoa, mas ele fui eu que fiz e eu acredito muito nele e banco muito. Insisto muito, mas é isso. É uma luta diária, você tem que começar a fazer o blog e mostrar o que 'cê quer e o jeito que 'cê escreve e como você vai dar o seu toque, o   que de você tem diferente pra que as pessoas comecem [a acompanhar]. É um trabalho de formiguinha que nem é o trabalho da música, que é uma conquista diária que vai aumentando, aumentando, demora.”

Para Zema, o caminho é de acreditar e arriscar. "Particularmente, em relação a assessoria por exemplo, é meio que ter algum tipo de afinidade. Cada um é livre pra fazer o que quiser, mas eu acho que se você não gosta da banda ou não gosta do artista, não assessore, porque você vai precisar vender, lógico que bastante entre aspas aí, aquele produto. Se você é jornalista e tá cumprindo papel de assessor, de fazer aquele grupo, aquele artista chegar nos meios de comunicação, você tá com um pé na publicidade, então eu acho que o jornalista tem que ter uma preocupação com a verdade, que a publicidade não tem tanto às vezes. Publicidade importa em vender. Ela vai dizer que determinado alimento não causa câncer, que a Vale tem responsabilidade social, enfim monte de abobrinha que a gente acha bonitinho na televisão e acaba acreditando. Acho que no campo artístico e no campo jornalístico tem que ter essa sintonia entre as partes e essa verdade, senão não é jornalismo. É publicidade", conclui o jornalista e blogueiro.



Com agradecimentos especiais às irmãs Beatriz e Meiri Farias 
(Blog Armazém de Cultura - SP) por toda gentileza e apoio 
na decupagem dos áudios da cobertura do Conecta Música.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

FORMAÇÃO EM FOCO – Sobre as palestras do Conecta Música (Festival BR135) - DIA 1


Música e conhecimento 

A segunda edição do Festival BR 135, que aconteceu no bairro da Praia Grande entre os dias 10 e 12 de dezembro, promoveu o fórum Conecta Música trazendo mais uma vez uma programação formativa paralela aos shows com painéis, workshop, mesas e palestras sobre a cadeia produtiva da música com especialistas, pesquisadores, jornalistas, ativistas e agentes culturais de vários estados brasileiros. 

Na oportunidade, acompanhei as palestras “Jornalismo Cultural” com Zema Ribeiro (Blog Homem de Vícios Antigos) e Roberta Martinelli (TV Cultura) mediados pela jornalista Andréa Oliveira na quinta-feira (10); “Arte e ativismo urbano” com os urbanistas Baixo Ribeiro e Mariana Martins do Instituto Choque Cultural (SP) na sexta (11/12); e a mesa "Festivais: desafios e oportunidades" com os gestores culturais Paulo André (Abril Pró Rock), Melina Hickson (Porto Musical), Marcelo Damaso (Festival SeRasgum) e  Anderson Foca (Festival do Sol) no sábado (12/12). As três atividades foram realizadas no Cine Praia Grande. 

Na pequena série de postagens a seguir, o blog reproduz um pouco do conhecimento compartilhado por estes profissionais nas atividades mencionadas. 

CONECTA MÚSICA

QUINTA-FEIRA (10.12.2015) – Cine Praia Grande
Palestra “Jornalismo Cultural” com ZEMA RIBEIRO e ROBERTA MARTINELLI. 
Mediação: Andréa Oliveira.

Palestra Jornalismo Cultural (da esquerda para direita):
 Andréa Oliveira, Roberta Martinelli e Zema Ribeiro.
PARTE 1 - Jornalistas comentam trajetória e experiência no Jornalismo Cultural

Teimosia, liberdade e paixão. Equacionados, estes três elementos resultam na resistência necessária para atuar na área de Jornalismo Cultural, segundo o jornalista e blogueiro Zema Ribeiro. Nesse sentido, a equação tem sido posta há prova há pelo menos uma década por Zema em seu blog Homem de Vícios Antigos e há sete anos por Roberta Martinelli, apresentadora e curadora do programa Cultura Livre com edições na Rádio Cultura Brasil e na TV Cultura. 

Em palestra, que reuniu os dois comunicadores mediados pela jornalista Andréa Oliveira, o assunto girou em torno da atuação na área do Jornalismo Cultural a frente de trabalhos que priorizam olhares sobre o cenário da produção musical nova, no caso do Cultura Livre e em um blog pessoal no caso do Zema, que escreve sobre cultura, direitos humanos e afins. 

Roberta Martinelli iniciou a conversa comentando sua trajetória do Direito até a Comunicação Social, passando ainda por uma experiência como atriz. Após abandonar o Direito por incompatibilidade com seus anseios profissionais, Martinelli retornou à área pela via da arte. É que um professor seu de teatro convidou-a para ser assistente dele nas aulas para uma turma de Direito, contando com os conhecimentos jurídicos de Martinelli e sua boa comunicação. Após essa experiência, a moça foi convidada a dar aula na mesma faculdade e como ainda não tinha formação suficiente para lecionar, ganhou uma bolsa e se formou em Rádio/TV. A partir daí, obteve conhecimentos, contatos e foi estagiar na Rádio Cultura, participando da equipe que idealizou o Cultura Livre. “Gostava muito da programação da Rádio Cultura, achava que era uma rádio que tocava música brasileira. Uma rádio de qualidade, uma rádio ótima, mas que tocava sempre as mesmas músicas, até que com uma variedade enorme, mas era Djavan, Caetano, Gil.”, conta Roberta Martinelli, que notando a ausência de um programa que desse conta da nova produção musical, juntou-se a mais dois colegas e pensaram em um programa que cobrisse exatamente essa lacuna. Para emplacar o Cultura Livre, contudo, precisaram argumentar bastante porque mesmo diante de um piloto que agradou a direção, a equipe ainda foi questionada se um programa cobrindo música nova passaria da edição 87. Como resposta, o Cultura Livre não só passou como extrapolou as ondas do rádio ganhando uma versão televisiva e muitas íntegras de shows e faixas bônus para internet em uma existência que já dura sete anos. 

Mas para quem pensa que essa jornada foi tranquila, o relato de Roberta Martinelli definitivamente mostra que não. Uma semana antes do programa estrear, os dois colegas da equipe que idealizou o Cultura Livre foram desligados da rádio, deixando Roberta sozinha para tocar o programa. Para dar conta da seleção musical, que antes era feita por Ronaldo Evangelista, e da apresentação do programa, Roberta Martinelli teve que se desdobrar, ouvindo muito mais música e ficando atenta a toda a produção contemporânea. Passou a assistir muitos shows e entrevistar artistas nos eventos. “Os músicos até me chamavam na época de 'a louca do microfone' porque eu chegava e não tinha espaço, então a gente ia gravar no banheiro ou em algum lugar que desse. Fiz entrevistas nos lugares mais estranhos do mundo” e recorda a vez em que entrevistou o músico Rômulo Fróes em um banheiro porque era o único lugar em que era possível gravar o áudio. "Eu gravava, montava e levava pra rádio e aí o que acontecia é que eu achava que o Cultura Livre era um programa que eu contava como tudo era tão legal, mas ele de fato não era tão legal porque eu tava só contando como tinha sido muito legal conversar com o Rômulo no banheiro, mas as pessoas não tinham acompanhado a conversa naquele momento", lembra Roberta, que a partir desse incômodo teve a ideia de levar entrevistados ao estúdio da Cultura Brasil na Rádio AM.

A primeira artista a ir ao programa foi a cantora Tiê, cuja participação rendeu uma edição particularmente memorável. "Eu pensava 'Quem tá me ouvindo? Será que tem alguém me ouvindo na rádio AM? Será que tá fazendo algum sentido isso que eu tô fazendo? Levei o meu computador, montei e fiz uma twitcam com a Tiê e foi muito divertido, as pessoas participavam, foi outra coisa assim. Isso sim foi legal. No dia até a rádio caiu do ar na hora do programa por um tempo e foi a única transmissão de rádio muda da história da humanidade. Fui eu que fiz. As pessoas ficaram vendo eu e a Tiê assim [gesticula com a boca sem sair som] e aí eu falei 'façam perguntas que a gente responde por plaquinhas' e aí a gente começou a escrever respondendo. Dei um batom, ela beijava a folha e eu mostrava pras pessoas", fala Roberta Martinelli. A experiência deu tão certo que a Rádio Cultura topou levar uma câmera para o estúdio dando início às transmissões do programa. 

A versão televisiva do Cultura Livre surgiu pouco depois, mas a partir de um outro contexto. O setor comercial soube dos vídeos criativos que Roberta fazia com o iphone para divulgar o programa e pediu que ela participasse de um vídeo promocional para vender uma marca, que acabou não rolando, mas rendeu um vídeo bacana que acendeu a lâmpada para a possibilidade de fazer programetes de dez minutos gravados com o iphone para a TV. Até chegaram a começar, mas o trabalho operacional para editar ficou muito dispendioso, chegando a seis horas de ilha só para linkar áudio e vídeo. A experiência, contudo abriu caminho para que o programa ganhasse um estúdio de TV estilizado até ser transferido para um teatro, onde atualmente é gravado com transmissão direta pelo youtube, que depois vai para televisão em uma edição de meia hora. "A gente grava uma hora e a segunda parte vai só pra internet", informa Martinelli, que faz questão de não se afastar da curadoria do programa. "Todo ano me perguntam por que eu não levo bandas grandes e eu falo que eu levo. Eu levei Bixiga 70 e Trupe Chá de Boldo que são gigantes, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana que é bem grande...", rebate, passando a palavra em seguida para Zema Ribeiro que emendou com a declaração: "Jornalismo cultural é um sacerdócio!".

O jornalista e blogueiro conta que foi abduzido pelo jornalismo cultural através do próprio jornalismo cultural, ainda muito jovem lendo revistas como a Bizz. "Essa coisa de ler a Bizz e outras publicações da época acabaram me empurrando pra um jornalismo e ai depois pro jornalismo cultural. Eu sempre gostei de escrever. Em um determinado momento eu pensei que era aquilo que eu queria pra minha vida embora eu tenha tido outros empregos tão chatos", afirma o jornalista que já trabalhou em banco e na parte administrativa de uma faculdade. "Voltando a questão do sacerdócio do jornalismo cultural, meu blog dá dinheiro eventualmente. Não é uma coisa assim que eu viva do blog, então pra me sustentar, pra pagar as fraldas do neném, a cerveja do papai, eu preciso fazer assessorias", conta Zema cuja atuação está bastante ligada à área de Direitos Humanos, tendo prestado assessoria a movimentos sociais e presidido a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos - SMDH até o momento atual, em que trabalha na Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular do Estado. 

"Quando eu comecei em 2004, blog era uma tecnologia que tava surgindo ou nem tanto, quer dizer, eu descobri naquela época e tinha um certo movimento aqui em São Luís de blogueiros, de uma turma que nem tá mais por aqui, mas que pode contar a história: Reuben, Janaína, Jane Maciel, Carolina Libério, que hoje tão dando aula na UFMA. Era uma tradição de blogs que acabaram substituindo aqueles zines de papel, que era uma coisa mais voltada pra poesia e aí quando eu inaugurei o meu já queria fazer essa coisa da resenha, da crítica, de querer compartilhar com aquela turma que me lia alguma coisa que eu achasse bacana", afirma Zema, que escreve em blog há 11 anos. Quanto ao conteúdo, Zema Ribeiro considera como uma opção crítica escrever preferencialmente sobre o que gosta. "Já que o tempo é curto, prefiro não perder tempo escrevendo sobre alguma coisa que eu não tenha gostado, embora eu eventualmente faça, mas eu prefiro compartilhar aquilo que me agrada porque o tempo de quem lê também é curto então a própria pessoa já vai fazer seu filtro dentro daquela indicação pra ir aquele show ou comprar aquele disco ou ler aquele livro”, acredita.

Para quem acompanhou nos últimos dois anos a série de entrevistas "Chorografia do Maranhão" produzida por Zema em parceria com Ricarte e Rivânio Almeida Santos e publicada aos domingos no jornal O Imparcial, cabe destacar que a relação do blogueiro com a mídia impressa é mais antiga. "Eu já escrevia pra jornal antes de entrar na faculdade de jornalismo e já tinha essa prática de compartilhar, de negociar espaço no jornal. Durante muito tempo enquanto estudante foi bacana ocupar aquela coluna, ocupar determinados espaços pra fazer um nome, né? Inclusive durante muito tempo o blog funcionou praticamente como uma espécie de clipping aberto, tudo que saía escrito por mim em qualquer jornal da cidade eu acabava reproduzindo no blog e tinha até uma preocupação de achar que o jornal era mais importante que o blog e acho que do ponto de vista do número de leitores talvez ainda seja, mas assim eu segurava as vezes um texto ali um tempo enquanto saía no papel pra depois jogar na internet e aí depois eu desisti", relata criticando ainda o fato de em São Luís os jornais não pagarem por textos de colaboradores, publicando muitas vezes de graça as resenhas e os artigos dos jornalistas freelancers.


Apesar de conhecer os percalços do mercado maranhense, Zema Ribeiro não desestimula os estudantes de comunicação a trilharem um caminho pelo Jornalismo Cultural. "Eu costumo também sempre incentivar estudantes a abrirem blogs, a ter seus canais livres de comunicação porque acaba funcionando também como portifólio, né? Então muitas vezes eu já fui convidado pra mesas como essa e pra fazer trabalhos freelancers por conta dessa experiência com o blog super bacana. É um reconhecimento. A partir do blog também fui convidado a colaborar em alguns veículos", e enumera suas colaborações ao site Overmundo, que era um coletivo sob curadoria de Hermano Viana com um jornalista correspondente em cada estado mapeando a cultura produzida no Brasil e à Brazuca, uma revista francesa bilíngue, para a qual escreveu a convite de Daniel Carielo, que o conheceu no Overmundo. "Jornalismo é bem isso né? É rede assim, é contato, é você estar inserido no meio e a partir daí ser convidado para outras experiências e outros momentos, seja na Piauí seja no blog do Zema”, conclui o jornalista.


NOTA: A Parte 2, em que a mediadora Andréa Oliveira comenta as falas dos jornalistas Zema Ribeiro e Roberta Martinelli e abre para participação do público, será publicada na próxima postagem. O debate foi bastante interessante e contemplou vários tópicos que não podem ficar de fora. 

Com agradecimentos especiais às irmãs Beatriz e Meiri Farias 

(Blog Armazém de Cultura - SP) por toda gentileza 
e apoio na decupagem dos áudios da cobertura do Conecta Música.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

TEATRO EM FOCO - Entrevista com Júlia Emília (Grupo Teatrodança)


Quis o destino que eu e Júlia Emília nos conhecêssemos. Mas penso que quis com afinco porque colocou-nos nos mesmos espaços em vários momentos da última década, como que só à espreita do momento em que nossas linhas da vida se tocariam. 

Quando em dezembro de 2006 participei do meu primeiro evento no mundo das letras por ocasião da festa de anúncio dos resultados do XXX Concurso Literário e Artístico em que Vila Tulipa foi premiado na categoria Contos, Júlia Emília estava lá, já veterana, sendo premiada na categoria Teatro pelo texto da peça O Baile das Lavandeiras

Com Júlia Emília na #9FeliS (out/2015)
Nos últimos dois anos nos esbarramos várias vezes nas portas de teatros e auditórios durante a FeliS, ambas com suas programações nas mãos, chegando a trocar comentários rápidos sobre quais palestras iríamos assistir para após um aceno rápido tomarmos rumos diferentes. 

Em setembro deste 2015, partilhamos da curiosidade pelo Encontro de Blogueiros promovido pelo Clube do Livro e lá fomos nós duas parar no mesmo espaço de novo. Até o mesmo Clube do Livro surgir nas nossas vidas com um convite em comum: participarmos com nossos livros de uma mesa no Encontro de Autores Contemporâneos na Feira do Livro do Shopping da Ilha. Encontro este que finalmente nos apresentou uma a outra, semeando uma amizade nova com ar de velhos conhecidos. 

Desta vez combinadas, participamos juntas de vários momentos da #9ªFeliS e foi graças à mediação de Júlia Emília que  Vila Tulipa foi parar em um dos estandes de livreiros onde a primeira edição do livro finalmente esgotou. Sim, o mesmo Vila Tulipa que lá atrás me pusera certamente pela primeira vez no mesmo ambiente festivo que a experiente dramaturga.

Júlia Emília é um ser dançante e inspirado que baila pela nossa cidade com um profundo respeito pela tradição e pela cultura popular. Seu trabalho árduo, mas espiritualmente elevado, junto ao Grupo TeatroDança, pode ser conferido no livro Vivendo TEATRODANÇA: Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade (Halley, 2015), cuja temporada 2015 de lançamento se encerra no próximo dia 18 de dezembro (sexta-feira) às 19 horas, na Livraria Leitura São Luís Shopping. 

Lançamento do livro + intervenção
no Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho
(nov/2015)
Na ocasião, o Grupo Teatrodança fundado por Júlia Emília há três décadas apresentará a intervenção Prece para corações cansados.

Na breve entrevista a seguir, a dramaturga Júlia Emília fala sobre a fundação do Grupo Teatrodança e os trabalhos que resultaram no livro e convida todos os corações cansados a unirem-se ao Grupo na sexta-feira 18/12.

TRÊS PERGUNTAS PARA JÚLIA EMÍLIA (GRUPO TEATRODANÇA)


1) A trajetória do Grupo Teatrodança está fundada em processos de investigação do corpo e do movimento a partir de elementos das áreas teatrais e dançantes. Conte-nos mais sobre a fundação do Grupo e como é o método de trabalho com os atores, considerados sujeitos criadores.

R: Constituído inicialmente por algumas pessoas que gostariam de apresentar ao público maranhense uma proposta diferenciada em dança que incluísse o corpo, a cena, a literatura, a música, o Grupo só conseguiu se fortalecer em 1985 com a constituição do Núcleo de Dança Oficina do Corpo com seus alunos fazendo parte e apoiando financeiramente as pesquisas da época, como “Sete saias e muitos caminhos” dança para crianças, “Poema” falando das poéticas de Bandeira Tribuzzi, “Embarcações” bianas em movimento. O trabalho com os dançarinos-atores-criadores se caracteriza pela experiência continuada e progressiva que passa pelas memórias, consciências, trânsitos e experimentações em determinados momentos das vidas de cada um ou do coletivo artístico do qual somos parte. Praticamos e estudamos em trabalho exigente porque nos colocamos à disposição da criação. 

2) O livro Vivendo TEATRODANÇA: Investigações de uma artista maranhense para crianças de qualquer idade (Halley, 2015) reúne os estudos e experimentações que resultaram nos espetáculos “Bicho Solto Buriti Bravo”, “O Baile das Lavandeiras” e “Meninos em Terras Impuras”. Como foi escrever os ensaios analíticos da dramaturgia do Grupo contidos nesta edição? E diante da possibilidade de revisitar três décadas de trabalho, por que estes três espetáculos se destacam?

R: Porque o livro “Vivendo Teatrodança” é um pequeno recorte sobre nossas experiências para o universo infantil, uma de nossas preocupações principais. Como fundadora e coordenadora do Grupo minhas trajetórias terminaram influenciando as temáticas, e como me profissionalizei no Rio de Janeiro, no final dos anos 1970, trabalhando com o Teatro Ventoforte dirigido pelo múltiplo artista Ilo Krugli, e comecei minha pedagogia com as crianças da Escola de Ballet do Clube das Mães em aulas do que chamávamos de expressão corporal, dedico para este público a sensível atenção que ele merece para reconhecer a cultura em está inserido. Nem consigo explicar como foi sofrido remexer nos baús das minhas histórias pois existem trânsitos que gostaríamos que não tivessem existido, mas consegui sobreviver aos mergulhos profundos que inclusive me fizeram repensar as nossas atuações enquanto artistas, o que nos gerou novas trilhas de experiências.  

3) A temporada de lançamento do livro foi acompanhada de intervenções que apresentavam trechos dos espetáculos registrados em conversas sobre a história do Grupo. Temporada esta que se encerra com uma nova intervenção intitulada “Prece para corações cansados”. Conte-nos como será esta intervenção em especial.

R: Quando completamos trajetórias longas ficamos cheias de histórias para contar, daí nos tornarmos dramaturgas. Embora a teoria e prática da cena não referencie mulheres na profissão estou no conjunto que briga para que seja reconhecido este nosso papel significativo para a história das artes contemporâneas. Os lançamentos, com as intervenções que os acompanham, são meios para que este reconhecimento aconteça e segue os objetivos do Grupo para inclusão de público. Iniciamos no Centro de Pesquisa de Arqueologia, passando pela Conexão Dança, Movimento Sebo no Chão, livrarias e produções artísticas retornando agora para a Livraria Leitura pelo período dos sentimentos solidários. Só que sabemos os obscuros e violentos períodos que nos atravessam. E lembrei do meado dos anos 1990 quando fizemos uma apresentação natalina em que propomos, e foi aceito, simplesmente instantes de solidariedade. Atualizamos e estamos experimentando o estar junto com alegria, sentimento que tem se tornado cada vez mais superficial. Por isso convidamos os corações cansados para estarem conosco. Porque eles estão na busca de algo mais essencial.





domingo, 6 de dezembro de 2015

CARTA AOS LEITORES



O blog Ensaios em Foco nasceu em 2008 com a missão de publicar os textos que eu produzia na faculdade de Jornalismo. A ideia era ensaiar os primeiros passos na profissão.

Com o passar dos anos, o blog ganhou vida para além da minha agenda de atividades curriculares motivando a produção de material exclusivo e se afastando do fazer jornalístico convencional.

Nesse sentido, além das matérias, reportagens e entrevistas, o Ensaios em Foco publicou textos escritos em parcerias com amigos e colunas de autores convidados. Incorporou crônicas, contos, breves narrativas e opinião.

Página do blog no Facebook:www.facebook.com/blogensaiosemfoco
Após sete anos de existência, pode-se afirmar que algo em sua essência, alinhada ao meu modo de produzir, nunca permitiu que o blog incorporasse pautas patrocinadas ou anúncios, tampouco se transformasse em um ambiente noticioso. É que o modus operandi do Ensaios em Foco reflete meu interesse por um lugar de desenvolvimento da apreensão sensorial do mundo a partir de uma observação constante da realidade, que não raro nasce de um interesse pessoal e afetivo.

Por isso, no blog só consigo escrever sobre algo que de fato me impregna, instiga, interessa. E sobre o qual consigo organizar e elaborar em palavras.

Mantenho o blog com o mesmo nome da aparente fase foca recém-formada porque ainda hoje creio que olhar para o mundo e se arriscar a reportá-lo não resultará em mais que um ensaio sobre a realidade.

Por tudo isso e mais pelo que é indizível, o blog se manterá como um laboratório de organização de experiências resultantes do interesse em comunicação, educação e cultura.

E agora, com uma página de compartilhamento dessa produção com os usuários do Facebook.

Sejam todos bem vindos e uma ótima experiência de leitura!

Talita Guimarães

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

MÚSICA EM FOCO - Entrevista com a banda Dolores 602


NOTA: Diante da tragédia recente que devastou o distrito de Bento Rodrigues e região em Mariana-MG, fica difícil não pensar imediatamente no desastre ambiental e em todas as suas implicações à simples menção do estado de Minas Gerais. Pouco antes do estado mineiro ser levado aos jornais por tão triste e terrível notícia, escrevi a matéria abaixo na qual entrevistei uma banda desse estado tão bonito e inspirador. Escolho manter o texto original não por desconexão com a realidade, mas por desejar firmemente que ao pensarmos em Minas Gerais sua riqueza cultural e sua gente criativa possam voltar a nos vir  à mente em primeiro lugar. Por ora, nossos pensamentos clamam por justiça, força e esperança. Aos nossos sentidos, um pouco de música.
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Menos dor, mais Dolores!

Quando penso em Minas Gerais não costumo titubear. É que me vem logo à mente a poesia e musicalidade do Clube da Esquina, a perspicácia do Pato Fu, a lembrança do queijo maravilhoso e o desejo imenso de trocar um cadim da brisa litorânea por ares de montanha. Isso para citar de supetão só as referências mais óbvias. Aquelas que me ocorrem à simples menção do estado mineiro.  

Eis que agora, posso tirar uma carta da manga quando suspirarem Minas Gerais perto de mim. “Dolores 602!”, direi triunfante. E no instante seguinte meu interlocutor será convidado a ouvir do que se trata nos meus fones de ouvido. Ou num link do Youtube.

Banda formada em 2010 pelas compositoras e instrumentistas Débora Ventura (voz e violão), Camila Menezes (baixo), Táskia Ferraz (guitarra) e Isabella Figueira (bateria), a Dolores 602 tem sotaque mineiro, mas sopra seu canto para além das montanhas do sudeste brasileiro. Tanto que seu som me alcançou cá no nordeste, na ilha de São Luís-MA. E nesse sentido, é preciso admitir: que som contagiante, uai!

Da direita para a esquerda:
Dolores 602 é 
Camila Menezes, Táskia Ferraz, Débora Ventura e Isabella Figueira.
(Foto: Felipe Messias)
Para começo de conversa, você precisa saber que as moças da Dolores 602 transitam da guitarra e bateria pulsante do rock à suavidade de um ukulele com desenvoltura. A vocalista Débora Ventura tem voz de abraço, que pode até evocar em certos momentos Fernanda Takai, em outros Estrela Ruiz e até mesmo Vanessa Krongold da ótima Ludov. Mas não se enganem, nobres ouvintes, Ventura tem uma voz própria que se sobressai com ótima afinação e um timbre muito bonito. Na companhia de três instrumentistas competentes, que tem parte importante na formação do repertório, pois são também compositoras, tem-se uma banda completa. 

Na entrevista abaixo, Dolores 602 fala de sua formação musical, influências, inspirações e proposta poética, manifestada no clipe da canção Petit a Petit (lançado no segundo semestre deste ano) que convida a repensar o tempo dedicado a cada coisa na vida.

Capa do EP Dolores 602 (2014)
1. No EP Dolores 602 lançado em 2014 o repertório passeia com delicadeza por temas como o amor, as relações humanas e as interações com o mundo exterior. Fica perceptível que vocês se interessam por sensações, associações com cores e observações do cotidiano. Como nasce essa inspiração e como funciona a criação na banda?

Táskia: Bem, ainda não descobri como nasce a inspiração, rsrs, cada uma tem uma forma diferente de compor na banda. Eu consigo compor melhor em dupla, costumo compor com um amigo. Já a criação na banda é feita de formas variadas. Em geral, a gente tenta fazer os arranjos juntas.

Débora: Para mim, a inspiração pode estar em toda parte, mas é preciso estar atento e no modo sensível para fazer as coisas virarem música. Na banda, até então, uma de nós chega com uma letra + melodia e fazemos todos os arranjos juntas.

Camila: No meu modo de ver, o artista é capaz de criar a partir de sua construção pessoal na vida. São temas, imagens, valores e até posicionamentos políticos que o interessam que vão, de um jeito ou de outro, aparecer na sua criação artística. Para a banda, já compus de forma direcionada (“vou compor um rock mais yeah yeah yeah” ou “quero compor uma música que fale da noite como personagem principal e que a Dolores 602 seja a trilha sonora pra esse passeio da personagem ‘noite’”). Em outros momentos, compus porque estava muito feliz e a música veio, como em “Deusa do Som”. Em outro ainda, foi uma imagem da lua cheia nascendo, vista pela janela que me fez pegar o violão e deixar as ideias fluírem para nascer “AzulAmarelo”. 

2. Gostaria que comentassem sobre a formação da Dolores 602, a escolha do nome da banda e sobre o momento atual, de lançamento do Petit a Petit, que é uma canção-convite a repensar nossa percepção de tempo e apreciação de cada momento. 


Débora: A banda foi formada no final de 2010. Eu e Taskinha já tocávamos juntas pelos bares de BH. Camila e Bella buscavam uma vocalista para um novo projeto. Por força do destino fomos apresentadas por uma amiga em comum. Tivemos uma sintonia musical muito forte logo de cara.

Camila: O nome da banda foi muito difícil de escolher, como sempre é, imagino. Nunca revelamos o significado do nome, mas inventamos versões para ele (risos). Dolores já foi artista circense, cantora de boleia de caminhão, pesquisadora, nome de rua... Interessante perceber que Dolores, nas nossas narrativas, sempre se refere a uma grande mulher, porém anônima, como tantas outras mulheres na história da humanidade masculinista. 

Débora: O momento atual da banda casa com o convite de Petit a Petit, de perceber o tempo em que estamos, viver o hoje devagar. Estamos buscando entender melhor os nossos processos e seguimos traçando planos para o próximo disco e para cair nessa “longa estrada” em busca de novas experiências e maior divulgação do nosso trabalho.

3. Ao atuar dentro do campo que as interessam pelos meios em que acreditam vocês representam um gesto de empoderamento feminino. A baixista Camila Menezes estuda as questões de gênero sob a luz da Psicologia, enquanto a baterista Isabella Figueira convive com um ambiente masculino na escola de música em que frequenta, sendo a única mulher em sua turma. Todas vocês tem alguma experiência marcante relacionada à inserção da mulher em um cenário convencionado aos homens? Comentem sobre o assunto.

Débora: Já participei de outros dois grupos antes da Dolores. Coincidentemente ambos eram formados apenas por mulheres. Entretanto, acho que o meio musical ainda está bastante convencionado aos homens. Instrumentistas, operadores de som, produtores musicais... Ainda é discrepante a quantidade de homens X mulheres. Ficamos na torcida e incentivo para que cada vez mais mulheres possam fazer parte desse cenário.

Camila: Vemos atualmente um número um pouco maior de bandas compostas apenas por mulheres. Isso quer dizer que levará um tempo para que haja uma quantidade expressiva de produtoras musicais no cenário pop. Gostaria de chamar a atenção para o campo da produção musical porque ele envolve criação e liderança, posições tradicionalmente incentivadas aos homens. Na música erudita vemos algumas mulheres dirigindo espetáculos, peças... Dirigindo palcos e espetáculos temos algumas mulheres maravilhosas, como a carioca Bia Paes Leme e as mineiras Neide Ziviane, Bia Nogueira e Marina Viana. Mas a música ainda é um campo que precisa investir nas mulheres desde meninas, para que elas possam se imaginar artistas como uma possibilidade de futuro profissional, ou seja, para que haja uma formação artística para além da intérprete, mas também no sentido da criação e da liderança de forma natural, como ocorre com os meninos. 

Táskia: A única experiência desse tipo que tenho é com a banda mesmo. É diferente quando a banda é toda de mulher. Muitos técnicos de som não dão moral, às vezes até fica difícil trabalhar, porque você pede para regular a voz, ou o retorno de som e eles praticamente te ignoram, por achar que mulher não deveria ocupar esse lugar.

4. Ainda no contexto da questão anterior, gostaria que vocês comentassem sobre o posicionamento da banda em relação às mensagens e reflexões que a imagem e o som produzido por vocês podem suscitar. Há uma busca em comunicar algum posicionamento específico ou depende do momento criativo, do que as motivam a compor? 

(Divulgação)
Débora: As músicas tem sido fruto de sensações e experiências individuais que são trazidas ao grupo. Até então não houve um posicionamento específico, mas nas letras e sonoridade buscamos por leveza, otimismo, cores, humor, enfim... Coisas boas para serem compartilhadas :) 

Através da nossa imagem (4 mulheres no palco), apostamos na reflexão e incentivo para que mais mulheres ocupem esse espaço musical, compondo, tocando, produzindo.

Táskia: Não busco nenhum posicionamento, nem passar nenhuma mensagem específica. O que me motiva compor é o momento vivido, muito particular, mas que quando vira música pode ser interpretado de várias formas. Cada um escolhe aquela com a qual mais se identifica.

Camila: Quando componho, é porque estou tomada de uma sensação, de certo modo, extasiante. Pode ser que queira passar uma mensagem, sim. Em outros momentos, apenas descrever essa sensação de beleza. A Dolores 602 tem feito um som que busca produzir uma sensação boa, tanto em nós quanto no público, e, para que isso aconteça, não há como falar de coisas negativas e sem solução, sobre um mundo sombrio. Gostamos de algo que nos dê energia.

5. Dolores 602 conquistou o 2º lugar no Prêmio de Música das Minas Gerais em 2014. Como é o cenário mineiro para a música independente? Há fomento, festivais e espaços? E como tem sido a trajetória de ocupação desses espaços pela banda?

Isabella: Para bandas independentes que estão começando a entrar no circuito agora, é muita ralação. A gente se inscreve em muitos editais, muitas tentativas para conseguir vez ou outra alguma coisa. Na nossa trajetória participamos de alguns festivais e prêmios de música, e a receptividade do público tem sido muito boa. Conseguimos alguns prêmios que ajudaram bastante na realização de nossos projetos musicais. Mas percebemos que quem movimenta a cena mesmo por aqui são os coletivos de artistas que se juntam para conseguir somar esforços e construir projetos maiores. Não conseguimos integrar um coletivo ainda, mas a cada trabalho que fazemos vamos agregando pessoas super talentosas que toparam arriscar com a gente, mesmo com pouca grana, como foi o caso do clipe. O processo foi muito colaborativo. Para começar a grana foi levantada numa festa junina que organizamos com esse fim...todos os artistas toparam tocar de graça, nossas famílias se envolveram...fizemos corres com várias amizades..até palco conseguimos emprestado..haha. tipo isso, na raça.

(Divulgação)

6. Por fim, quais são suas principais referências artísticas? Podem citar também parceiros e artistas que vocês admiram no cenário local e nacional.

Cada membro da banda tem suas referências, o que diversifica as possibilidades sonoras de criação, tanto de letra e melodia, quanto de arranjo. Além das referências musicais, como Rita Lee, Caetano, Radiohead, Coldplay, Jorge Drexler, Pepeu Gomes, nos inspiramos em filmes, cores, sensações e até mesmo um nascer da lua visto de forma inesperada. 

Aqui em Belo Horizonte muitos artistas vêm produzindo um som muito interessante. Dentre eles, curtimos muito os contemporâneos “Graveola e o Lixo Polifônico”, “Di Souza”, “Gustavito” e os stars “Pato Fu” e “Skank”.

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Próximos shows:
12/12 – Dolores 602 + Carmen Fem 
Local: A Obra/ BH-MG

Contato: 
www.dolores602.com.br
dolores602@gmail.com
facebook.com/dolores602
(31) 98794-3940