terça-feira, 31 de março de 2015

SÃO PAULO EM FOCO - BATE-PAPO COM PAULO NOVAES E BÁRBARA RODRIX


Na esfera de Paulo Novae

Em bate-papo com o blog em uma noite de muita música e poesia em São Paulo, Paulo Novaes e Bárbara Rodrix, expoentes de uma geração de cantores e compositores paulistanos que trazem a música no sangue, comentaram o processo de produção do “Esfera”, primeiro disco do Paulo que sai este ano graças a um projeto de financiamento coletivo bem sucedido em 2014. 

por Talita Guimarães

Pocket show na Brazileria
Paulo Novaes tem um jeito particular de elaborar a vida. As experiências passam por seus poros sensíveis e ele as devolve para o mundo em forma de música. “Paulo é daquele que quando acontece alguma coisa, ele faz uma música sobre isso”, brinca Bárbara Rodrix sentada à mesa do simpático bar Brazileria, na Pompéia em São Paulo. É uma noite chuvosa de sábado e o lugar acabou de sediar o lançamento do livro “Meu Caderno Azul” da escritora Gabriela Abreu com direito a show voz e guitarra de Paulo Novaes. Sentado ao lado da amiga e parceira musical Bárbara, o próprio Paulo Novaes sorri entre um gole e outro de Stella Artois e exemplifica: “Fico apaixonado, faço uma música. Tomo um pé na bunda, faço uma música”. E Bárbara prossegue: “Você faz aniversário, faz uma música”. Os dois sorriem. A chuva cai. 

Declaradamente saudosista, do tipo que não se desfaz nem dos cadernos de escola, Paulo explica que compõe para registrar momentos da vida que não deseja que se desvaneçam na memória. “Sou muito apegado ao passado. Não posso deixar os momentos passarem sem eu ter que registrar aquilo em música. Então as minhas músicas de certa maneira, nada mais são do que um registro dos sentimentos pra eu nunca mais esquecer. Tipo daqui a trinta anos, quando eu ouvir uma música que ninguém conhece, que tá lá guardada, que eu nunca vou gravar, eu vou lembrar que aquela música eu fiz porque eu senti aquela coisa naquele dia...”, conta.

Desde que começou a compor, por volta dos 13 anos, o jovem paulistano em questão já cantou muito sobre si mesmo, produzindo um vasto repertório autoral que curiosamente chegou ao público bem antes de suas canções ganharem registro em sua voz e guitarra. Músicas como “Paz interior” e “Bem vindo” foram eternizadas nas interpretações primorosas de parceiros como Pedro Altério/Bruno Piazza e Bruna Caram, respectivamente. Gravações que orgulham o Paulo compositor e abriram caminho para que sua música chegasse às pessoas antes mesmo de seu primeiro disco, que em fase avançada de produção tem previsão de lançamento para agosto deste ano. 

“Esfera”, o primeiro disco de Paulo Novaes, trará 12 faixas entre inéditas e conhecidas do público, sendo nove canções autorais e três parcerias. O repertório do disco foi pensado cuidadosamente para apresentar ao público a história do prolífico músico de apenas 21 anos, com as músicas em ordem cronológica de composição. “A ideia do disco é contar uma história mesmo, a história da minha vida. Eu falo muito sobre mim nas minhas músicas. O disco foi sendo feito ao longo da minha vida, assim. Então, a ordem do CD, por exemplo, é em ordem cronológica das composições exceto duas músicas. Então o disco conta uma história mesmo”Produzido por Pedro Altério com coprodução de Igor Pimenta, Gabriel Altério e o próprio Paulo, “Esfera” conta com as participações especiais de Dani Black (em “Pequenas Coisas”, composta pela dupla), Bruna Caram (em “De repente”, parceria de Paulo com os primos Bruna e Lucas Caram) e ainda uma participação para lá de afetiva: um coro formado pela família Novaes, berço de músicos onde Paulo nasceu e se criou. 

Bárbara Rodrix e Paulo Novaes em bate papo com o blog
após o show na Brazileria. (Março/2015)
Enquanto o músico revela as doze faixas do disco (“Esfera”, “A gente chega lá”, “Alma”, “Perdoa”, “Pequenas Coisas”, “De repente”, “O que eu quero”, “Marca no peito”, “Cor de sol”, “Ferida aberta”, “Eu mesmo” e uma que não tem nome ainda feita em parceria com Pedro Altério), uma chuva fina incessante cai – “garoa” para paulistas como eles, “sereno” para uma maranhense como eu. Então pergunto ao Paulo por “Semi-lágrima”, música que canta a chuva (“Vem ser milagre pros que prezam por acreditar que seu destino lava a alma/ Vem ser tragédia pros que vivem sem poder olhar pro céu fechando e lá vem água”) e que se tornou conhecida do público através de um clipe no youtube. “Ih, essa ficou pra trás mesmo!”, sorri e Bárbara pergunta “Qual? A chuva?”. Confirmamos. A ausência da canção no repertório é a chave para Paulo desvelar preciosidades sobre sua experiência como compositor. Explica que cada canção pertence a um momento específico da vida e que algumas fecham ciclos, assim como outras iniciam novas fases. “‘Semi-lágrima’ representa um momento que foi um ciclo que se fechou e esse ciclo se reabriu quando eu fui pro Canadá e fiz ‘Esfera’. Aí eu fiz todas as outras músicas a partir disso”. Paulo conta mais sobre a composição de “Esfera” no vídeo em que canta a música com Bárbara Rodrix para o canal Música de Graça. 

Para Paulo, o processo de produção do disco foi totalmente natural e coerente com a ideia de percorrer uma linha satisfatória por sua trajetória de composição. Um exemplo disso foi que a penúltima faixa, intitulada “Eu mesmo”, marca esse entendimento quanto a um ciclo que caberia delimitar dentro do disco, começando em “Esfera” e se fechando em sua composição mais recente, fruto de uma parceria com Pedro Altério. “Quando fiz o ‘Eu mesmo’ eu falei: agora preciso gravar o CD. Aí vi que tinha fechado um ciclo. Tanto que muita gente fala ‘ah você não gravou tal música e tal música e tal’ e eu gravei músicas bem antigas, né? Eu gravei músicas que eu fiz com 17, 18 anos, 16 até e é isso, é um disco que conta a história da minha vida”, explica.

Bárbara comenta sobre a identificação
com as letras do amigo Paulo Novaes.
Para entender essa história de vida cantada, é preciso percorrer versos de música por música (ouça aqui). E perceber que Paulo Novaes conta sua história de vida sim, mas vai além. Toca com delicadeza em feridas e marcas que constituem uma esfera de afetos concernentes à existência humana. Quando canta sobre si mesmo com apurada franqueza, Paulo Novaes fala por muito mais gente do que só por si mesmo. E tem consciência disso. “Tem músicas que as pessoas se identificam em certos momentos. Tem uma música que chama ‘Marca no Peito’ que fala do fim de um relacionamento grande e tem muita gente que passa despercebido com essa música. As pessoas que ‘tão terminando relacionamento, que ‘tão tentando se conformar acham essa música, então isso é muito engraçado”, conta. Comento que eu mesma recorro a “O que eu quero” quando preciso me consolar de que a vida é uma jornada que vale a pena se nos esforçamos em entender quem somos e qual nosso lugar no mundo. E então Bárbara Rodrix concorda que não é difícil se encontrar nos versos do amigo. “Eu já tive várias músicas preferidas do Paulinho. Em cada momento da vida é uma, assim. E é um negócio muito louco que a gente tem por rever e revisitar nossas canções. Eu também componho desde muito nova. Quando você revisita suas canções, elas te trazem outros significados”reflete Bárbara, cujo sobrenome não deixa dúvida: trata-se da filha do grande Zé Rodrix. Paulo assente com a cabeça exclamando um sonoro “Exato!” enquanto Bárbara continua “Elas não ficam velhas, né? Elas se ressignificam”, afirma para o amigo concluir: “O tempo inteiro”.

Paulo conversa com o blog acompanhado de perto pela amiga Bárbara Rodrix, que participa do bate-papo enriquecendo ainda mais a nossa conversa.
A concretização do disco se deu graças a um financiamento coletivo bem sucedido pelo site de crowdfunding Partio. Pergunto como Paulo encara o processo de ser incentivado a gravar um disco com o apoio de pessoas que ele nem conhece ou sequer poderia imaginar que se interessariam em contribuir financeiramente. “Isso é a coisa mais maravilhosa que existe. Ter dado certo e exatamente o que você falou: muitas pessoas que eu não imaginava, que eu não conheço e pessoas que eu não imaginava que me ajudariam e me ajudaram e é isso, é uma puta responsa, né? Eu fico o tempo inteiro querendo retribuir da melhor maneira”, afirma. Para Bárbara Rodrix o processo de financiamento coletivo do “Esfera” guarda certa particularidade quanto ao apoio do público para um primeiro disco. “Quando você vai gravar um disco ‘cê tem que se concentrar muito pra fazer o que você acha que tem que fazer e assim as pessoas vão gostar ou vão desgostar, mas enfim, o público e a obra vão se encontrar em algum momento. No caso do Paulinho antes dele gravar nem precisou se preocupar nisso e nem se preocupar em não se preocupar. As pessoas já gostaram antes, já apoiaram antes de saber o que ia ser”, acredita Bárbara ao que Paulo lembra que o mote da campanha foi justamente uma mobilização pedindo que ele finalmente gravasse seu CD. 

Uma vez que a campanha foi bem sucedida, o processo de gravação começou do zero no estúdio Gargolândia em Alambari-SP e seguiu com as gravações dos cellos no Rio de Janeiro e algumas guitarras no estúdio do Tó Brandileone (5 a Seco) em São Paulo-SP. "Não tinha nada, mas tinha tudo, porque a minha banda, os caras que tão comigo desde que eu fiz o meu primeiro show autoral são os mesmos caras que tão gravando comigo. O primeiro show que eu fiz na minha vida eu tinha 14 anos e foi em Itapetininga. Tinha até uma gravação desse show e era eu, o Gabriel [Altério] e o Igor [Pimenta]. O Pedro [Altério] participou, a Bárbara [Rodrix] tava lá, entendeu? Então as pessoas que 'tavam comigo quanto eu tinha 14 anos, 'tão comigo até hoje. Então não foi uma coisa que eu tive que pensar", conta. Para Paulo e Bárbara, já era óbvio que o ambiente de gravação do "Esfera" seria rodeado por pessoas significativas nessa trajetória musical. "É lógico que o Pedro vai ser o produtor, é lógico que a Bruna vai participar, que é minha prima, puta parceira, é lógico que o Dani [Black] vai participar, que é outro puta parceiro que me apoia pra caralho e é um puta cara que eu admiro pra caralho, é lógico que eu ia gravar na Gargolândia, é lógico que minha família ia participar, que afinal de contas eu devo tudo a eles. A musicalidade que eu tenho eu devo a eles, então é uma coisa que é até óbvio demais assim, tudo sempre esteve desenhado, o repertório... Se você pegar o primeiro rascunho de repertório, mudou umas quatro músicas, isso em 2011, que eu fiz o primeiro rascunho, 2012. Então pouca coisa mudou, né? Tudo muito óbvio, né?". 

Quando fala então sobre poder contar com a batuta profissional e afetiva de Pedro Altério, Paulo não mede palavras. “Pedro é um cara que acompanhou minha trajetória desde o começo, me viu evoluir, fazer as primeiras músicas. Ele entende exatamente o que eu quero. A gente... É até engraçado... A gente tá produzindo o disco junto com a gravação, então sempre surgem ideias testando coisas. Não é uma coisa 'ah vamo gravar isso aqui' e cabô. Não. Vou testar isso aqui, então o disco tá ficando bem rústico assim". E nesse processo cada detalhe tem sido saboreado. "A gente 'tá achando muito legal, 'tá se divertindo muito, se emocionando. É uma coisa muito legal. Já vi discos serem feitos de outra maneira, então eu acho que tá sendo feito do exato jeito que eu sempre sonhei assim. Com um cara que eu sempre quis fazer junto, que é o Pedro, que é o cara que mais consegue me enxergar, a minha sonoridade, num lugar que eu sempre quis fazer, com os músicos que eu sempre quis fazer, com as participações que eu sempre quis, então eu diria que eu não mudaria uma vírgula do disco assim. Pode ser que as pessoas não gostem, mas eu tô amando. Tô gostando muito", o músico não esconde sua satisfação.

Desde o início da campanha no Partio em agosto de 2014, Paulo vem conciliando a atenção dada ao disco com a graduação em Jornalismo e o estágio no setor de comunicação do Corinthians - não por acaso seu time do coração - em um ritmo intenso que só deve desacelerar um pouco com sua viagem à Europa, para onde parte após a finalização do "Esfera", a fim de descansar um pouco e se apresentar em shows já agendados na França e na Alemanha. 

Enquanto o lançamento oficial do "Esfera" não rola por aqui, vale conferir os shows voz e guitarra que o músico tem apresentado em São Paulo. O próximo está marcado para as 22h do sábado 04 de abril no Manali Bistrô (Rua Vizeu, 20).

MAIS PAULO NOVAES E BÁRBARA RODRIX:








segunda-feira, 23 de março de 2015

SÃO PAULO EM FOCO


À primeira vista

“Vista assim do alto mais parece um céu no chão” 
(Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho)

Paz celestial
Sempre valorizei o primeiro contato com um lugar. Sobretudo se ele começa do céu, de preferência à luz do dia. Primeiro porque voar fascina a nós humanos, experiência preciosa que só temos vez em quando, no meu caso a bordo de um pássaro forjado pela inteligência que se inspira na natureza. Enquanto o avião ganha altitude subindo acima das nuvens, mais admirada com mundo vou ficando em preparação para a chegada a um novo chão. A visão do céu ao contrário, com o branco fofo das nuvens amparando a imensidão azul me toca profundamente. Sinto paz durante esse breve estar num mundo celestial, que a qualquer momento vai me revelar a chegada a um novo lugar. E então vem o segundo motivo que me faz gostar tanto de chegar a uma cidade pelo céu: o primeiro sobrevoo por um lugar nos concede uma vista rara sobre o que é aquele recorte em terra. Permite apreciar suas cores, formas e texturas. Contemplar suas dimensões a perder de vista. Avistar luzes e breus. Somente à medida que o avião vai se aproximando do chão, de preferência em círculos largos que vão espiralando, que se torna possível ver habitantes. Como partes de um todo maior que precisam de microscópio, pois não podem ser vistas a olho nu, tão minúsculas são as gentes em terra vistas do alto.

Bem antes do sábado (07/03) anoitecer, o dia já acinzentara. Não me surpreendi. Dizem que São Paulo é assim mesmo. “Hoje o sol não vai se pôr/ porque não quis nascer”, os paulistanos de O Terno já teriam dado a dica em “O cinza”, canção do segundo disco do power trio sobre a atmosfera nublada do lugar. Atmosfera essa que já me havia sido apresentada alguns dias antes, quando numa conexão a caminho do Rio ganhei meu primeiro sobrevoo à luz do dia por Guarulhos, na região metropolitana da capital paulista. 

Se por um lado à primeira vista São Paulo não me surpreende, por outro lado não deixa de me fisgar a atenção. O sem número de prédios de todos os tamanhos brotando do chão, como incontáveis colunas de concreto. Um plano que visto do alto me lembram gráficos em três dimensões. Uma cidade de muitas estatísticas, capturo a mensagem.

Rua da Consolação (SP)
Mas este texto não vai falar de estatísticas. Este texto também não vai se alongar sobre a São Paulo cinza, nublada e chuvosa que me recebeu no sábado (07/03). Porque este texto é só um preâmbulo sobre as próximas postagens que vão falar da São Paulo colorida, florida e afetuosa que me acolheu rapidamente, entre as 13h do sábado (07) e as 8h do domingo (08). Uma estadia breve, mas suficiente para saber que há um quê de céu a brilhar no chão paulista. Aquele amor que existe sim em São Paulo, ô Criolo. 

Porque sabe aquelas gentes microscópicas vistas do alto? Antes pequeninas vistas de longe, vão crescendo à medida que nos aproximamos até confirmar os versos de Jeneci de que “cada um de nós não é senão uma estrela/ a brilhar no céu do chão”. É sobre essas gentes que irradiam luz em terra que as próximas postagens do blog vão falar. 

Aguardem!

quinta-feira, 5 de março de 2015

CINEMA EM FOCO


Há alguns meses, escolhi um filme para assistir sem muita expectativa e qual não foi minha surpresa ao descobrir ali uma trama engenhosa, comovente e de uma verdade singular. Pus para repetir e ainda assisti por mais duas vezes sem me cansar. Em seguida escrevi o texto abaixo, totalmente embalada pela história. Impressões sobre a profusão de sentimentos pulsantes em "Ruby Sparks - A namorada perfeita" (2012). Somente agora reencontro-o e trago para cá, como indicação de um filme que vale muito a pena conhecer e se permitir tocar por sua valiosa mensagem ao nosso tempo.


Acabei de assistir "Ruby Sparks - A namorada perfeita". Embora o título horrível possa sugerir uma comédia romântica de roteiro bobo, o longa é dentre os filmes que mais me fascinaram, um dos de maior delicadeza com o fino trato do fio condutor. Ao saber que Zoe Kazan, a ótima intérprete da Ruby Sparks, é também a roteirista, considerei-a imediatamente genial. Talvez mais tarde reconsidere minha opinião, mas fato é que escrevo agora totalmente sob efeito do filme. Conheci-a recentemente no insosso "Será que?" protagonizado pela mesma Zoe e pelo eterno Potter Daniel Radcliffe (apesar do esforço de Radcliffe em contar outra história na pele de outro personagem, senti tê-lo acompanhado pelo filme como se o Harry ele ainda fosse), mas o que interessa dizer é que fui sinceramente supreendida pelo talento duplo de Zoe Kazan em atuar e roteirizar um longa tão tocante. 

Nesse sentido, não é só Zoe Kazan quem merece elogios. Paul Dano (o maravilhoso Dwayne de "Pequena Miss Sunshine") foi a escolha mais acertada para viver o escritor contemplativo Calvin. Tudo nele cai bem para a construção de seu personagem: seu rosto incomum, suas expressões, seu porte. Acho-o impecável. Um perfeito Calvin, para combinar com a namorada perfeita do título, que aos poucos se reconstrói em nosso imaginário como uma figura complexa e extremamente instigante. Como pode um escritor deprimido por uma recente rejeição amorosa materializar um ser humano de carne e osso que não somente atende a todos os seus mais íntimos, embora exprimíveis, desejos, mas ainda é real aos olhos alheios? Ruby Sparks poderia ser um mero personagem criado pelos anseios mais profundos de Calvin, para lhe fazer companhia durante o processo de escrita, dizer exatamente o que ele queria ouvir, agir como ele quisesse, ser quem ele desejava ter. A namorada de papel perfeita, que ele poderia sim crer ver. Afinal sempre podemos criar coisas e vê-las. Mesmo que somente na nossa imaginação. Mas a solar ruiva Ruby Sparks transcendeu a amiga imaginária. Materializou-se por completo na realidade. Primeiro através de peças de roupa e objetos seus espalhados pela casa. Segundo em carne e osso, de pijama na cozinha, preparando um café da manhã para o escritor. 

Os acontecimentos que seguem levam Calvin ao limiar entre loucura e lucidez para lidar com a situação. Quando se convence de que Ruby simplesmente existe e é tudo o que ele sonhou encontrar em vida, Calvin aceita-a e num gesto de amor decide não mais escrever os passos, gestos, falas e decisões de sua amada. Crê-a completa. Obra acabada. Perfeita. Acredita que ela nunca irá contrariá-lo. Jamais o decepcionará. Em hipótese alguma correrá o risco de fazer algo que o desagrade, algo que ele não espere dela. 

Mas mesmo assim, a despeito de todo surrealismo da situação, a realidade imprevisível vence mostrando a Calvin que Ruby tem vida própria e age conforme os próprios mandamentos configurados sim de fábrica, mas mutáveis conforme a experiência de viver a vida ao lado de Calvin e os poucos outros seres de seu convívio. 

Aos poucos, Ruby vai se distanciando do roteiro inicial, aquele que Calvin não mais edita e começa a escapulir da redoma da qual Calvin achava que jamais seria da natureza dela sair. 

Quando Calvin finalmente sente-se ameaçado pelas contrariedades,  toma a egoísta atitude de voltar aos seus manuscritos datilografados e retomar o controle da história. Então constata, para sua satisfação, que a Ruby real atende inteiramente aos seus comandos no papel. E a relação volta a ser perfeita como ele gosta. 

Apesar de seu sombrio traço controlador e egoísta, Calvin me cativa. Porque a sutileza com que essas características se manifestam na trama me mostram um Calvin de uma melancólica carência afetiva. Carência essa que justifica a  surreal experiência e quase lhe confere o direito de, uma vez responsável pela criação de Ruby, poder fazer dela o que quiser. Seu egoísmo é discreto, embora perigoso, mas seu controle diante de seu poder é compreensível. Calvin não entra na pilha de uma "DR". Simplesmente dá as costas ao que lhe desagrada, senta-se à máquina de escrever e batuca a sinfonia que quer ouvir. Quem em seu lugar não cederia a tamanha tentação? O que Calvin ignora é que as notas que vão preenchendo a página, contudo, dão corpo a uma tortuosa e desafinada melodia. Quando livre, Ruby age de um modo que se contraria Calvin, o escritor toma as rédeas de seus passos e põe em sua boca as palavras que ele quer, ainda que sejam o exato oposto do que ela acabou de dizer. Intimamente satisfeito com a cria no trilho novamente, Calvin apenas observa, o rosto impassível. E nesse sentido o olhar desprovido de brilho de Paul Dano é precioso. Porque embora Calvin aproveite a chance de viver tudo aquilo, no fundo se pergunta a todo instante como pode ser real. Talvez porque teme que tudo acabe, mesmo que ele tenha consciência de que pela primeira vez é ele quem está no controle. E assim como tudo só começou porque ele escreveu as primeiras linhas, imagina que só possa acabar caso ele, e somente ele, ponha um ponto final.

Para resolver essa questão, o filme nos traz na devida hora uma das cenas mais tocantes, ápice de um desenrolar vagaroso, à medida que Calvin vai vivenciando a experiência de escrever e desfrutar da Ruby que tem diante de si. Sabemos que Calvin a ama e se preocupa com ela. Tanto que após vê-la ir de um estado de infelicidade a uma alegria exagerada ele retorna à máquina e escreve "Ruby era apenas Ruby. Feliz ou triste, do jeito que ela se sentia". Mas os efeitos desses comandos já não dão conta da complexidade da natureza humana e Ruby vai se transformando numa marionete que de deprimida até exultante, desgasta-se. Pouco a pouco, a moça vai sendo consumida pelas incoerências das linhas de sua vida, escritas arbitrariamente por Calvin. Como alguém que se perde de si e passa a se desconhecer, Ruby percebe que está confusa. "Como se a minha bússola interna tivesse sumido", desabafa com Calvin, que senta ao seu lado no sofá e a ouve com um mescla de espanto e remorso. 

Até que chega ao ponto em que algo dentro dela, algo que a liga às linhas traçadas por Calvin, se rompe. Ruby confronta as expectativas de Calvin e quando ameaça deixá-lo, ele retruca tranquilo que ela não pode fazer isso. E então ele lhe revela seu berço, mostrando-lhe o calhamaço que é o roteiro de sua vida concebido por Calvin, o escritor. Para provar, senta-se diante do teclado e escreve o que Ruby irá fazer. Ela faz, mas logo em seguida questiona e entra em desespero numa sequência alucinante em que Calvin digita freneticamente tudo o que quer que ela diga e faça, até que Ruby se debata em prantos no chão, tentando lutar contra as ordens de seu criador, que sofre junto com ela ao projetar no papel tudo o que ele mais deseja e já nem pode ter, porque nunca foi uma coisa sobre a qual se pode ter de fato controle. 

Finalmente Calvin reconhece o fim da história de Ruby Sparks, que é antes de tudo o fim de uma história sua também, afinal ambos misturam-se entre projeções, expectativas, frustrações e amor. Como na cena em que Ruby comenta que precisa conversar com alguém assim como Calvin quando fazia terapia. Então confundindo-se inconscientemente com ele, ela diz que ele deveria voltar ao terapeuta e Calvin indaga confuso se eles estão falando dela ou dele.

O gesto derradeiro de amor de Calvin nos chega quando após revelar a Ruby sua condição e perder o controle sobre ela, decide escrever o final que deve a sua personagem: "Assim que Ruby saiu da casa, ela libertou-se do passado. Ela não era mais uma criação do Calvin. Ela era livre.". Ao pôr o ponto final, Calvin oferta a salvação a sua preciosa personagem. Mesmo que isso signifique despedir-se dela para sempre, o que acontece porque Ruby e tudo o que fazia menção a sua existência se desfazem em paz. 

O que permanece contudo é a experiência psíquica e sensorial  para Calvin, que tenta se ocupar para não pensar mais no fim de sua relação com Ruby, mas sente enorme dificuldade. É aí que seu irmão o aconselha a voltar a escrever e transformar sua experiência em algo compartilhável literariamente através do diálogo abaixo:

- Quando foi a última vez que escreveu, Calvin? - pergunta Harry.
- Não consigo.
- Consegue sim. Essa é a sua vantagem sobre os pobres desconsolados. Você pode escrever sobre isso. 
- E quem é que vai querer ler?
- Muita gente. Por que não? 'Cê tem uma história bem bacana.
- Todo mundo vai achar que eu tô maluco.
- Não. Só vão achar que é ficção.

Então é assim que Calvin Weir-Fields encontra uma forma de se redimir e honrar a memória de Ruby e todas as suas lições: escrevendo sobre a experiência em um novo e comovente livro, dando vida desta vez ao seu aguardado segundo livro: "A namorada". 

O mérito de "Ruby Sparks - A namorada perfeita", filme dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (os mesmos criadores do adorável "Pequena Miss Sunshine"), está na metalinguagem empregada para falar das expectativas que as pessoas não raro injetam em seus relacionamentos, sejam amorosos, familiares, entre amigos ou colegas de trabalho. Cercado por gente ansiosa em extrair dele alguma lição de sabedoria, Calvin personifica o gênio em crise criativa que não aguenta mais os olhares curiosos em sua direção. Porque o que Calvin mais deseja é uma companhia que goste de conversar e com quem ele possa se sentir à vontade para ser ele mesmo, sem pressões. Mas ao conceber Ruby para uma relação forjada nas surpresas positivas que levam um apaixonado a crer seu objeto de desejo perfeito, Calvin experimenta a fuga total do controle sobre o qual o cotidiano ao lado de alguém sempre estará sujeito, a despeito de todo amor - ou seria  da vontade de ser amado? - envolvido. 

Após toda a intensa experiência de projetar alguém cujos contornos desejados vão se desfazendo gradualmente, a lição que fica para Calvin sobre o amor é um exercício de desprendimento e libertação. Porque sempre será preciso lembrar que o outro não é somente quem achamos ver. É muito além. E amar é também saber deixar partir. Como já teria cantado a banda gaúcha Apanhador Só: "um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre". Porque ao que tudo indica o amor só reinará em nós se pensarmos assim, tão diferente.