quinta-feira, 5 de março de 2015

CINEMA EM FOCO


Há alguns meses, escolhi um filme para assistir sem muita expectativa e qual não foi minha surpresa ao descobrir ali uma trama engenhosa, comovente e de uma verdade singular. Pus para repetir e ainda assisti por mais duas vezes sem me cansar. Em seguida escrevi o texto abaixo, totalmente embalada pela história. Impressões sobre a profusão de sentimentos pulsantes em "Ruby Sparks - A namorada perfeita" (2012). Somente agora reencontro-o e trago para cá, como indicação de um filme que vale muito a pena conhecer e se permitir tocar por sua valiosa mensagem ao nosso tempo.


Acabei de assistir "Ruby Sparks - A namorada perfeita". Embora o título horrível possa sugerir uma comédia romântica de roteiro bobo, o longa é dentre os filmes que mais me fascinaram, um dos de maior delicadeza com o fino trato do fio condutor. Ao saber que Zoe Kazan, a ótima intérprete da Ruby Sparks, é também a roteirista, considerei-a imediatamente genial. Talvez mais tarde reconsidere minha opinião, mas fato é que escrevo agora totalmente sob efeito do filme. Conheci-a recentemente no insosso "Será que?" protagonizado pela mesma Zoe e pelo eterno Potter Daniel Radcliffe (apesar do esforço de Radcliffe em contar outra história na pele de outro personagem, senti tê-lo acompanhado pelo filme como se o Harry ele ainda fosse), mas o que interessa dizer é que fui sinceramente supreendida pelo talento duplo de Zoe Kazan em atuar e roteirizar um longa tão tocante. 

Nesse sentido, não é só Zoe Kazan quem merece elogios. Paul Dano (o maravilhoso Dwayne de "Pequena Miss Sunshine") foi a escolha mais acertada para viver o escritor contemplativo Calvin. Tudo nele cai bem para a construção de seu personagem: seu rosto incomum, suas expressões, seu porte. Acho-o impecável. Um perfeito Calvin, para combinar com a namorada perfeita do título, que aos poucos se reconstrói em nosso imaginário como uma figura complexa e extremamente instigante. Como pode um escritor deprimido por uma recente rejeição amorosa materializar um ser humano de carne e osso que não somente atende a todos os seus mais íntimos, embora exprimíveis, desejos, mas ainda é real aos olhos alheios? Ruby Sparks poderia ser um mero personagem criado pelos anseios mais profundos de Calvin, para lhe fazer companhia durante o processo de escrita, dizer exatamente o que ele queria ouvir, agir como ele quisesse, ser quem ele desejava ter. A namorada de papel perfeita, que ele poderia sim crer ver. Afinal sempre podemos criar coisas e vê-las. Mesmo que somente na nossa imaginação. Mas a solar ruiva Ruby Sparks transcendeu a amiga imaginária. Materializou-se por completo na realidade. Primeiro através de peças de roupa e objetos seus espalhados pela casa. Segundo em carne e osso, de pijama na cozinha, preparando um café da manhã para o escritor. 

Os acontecimentos que seguem levam Calvin ao limiar entre loucura e lucidez para lidar com a situação. Quando se convence de que Ruby simplesmente existe e é tudo o que ele sonhou encontrar em vida, Calvin aceita-a e num gesto de amor decide não mais escrever os passos, gestos, falas e decisões de sua amada. Crê-a completa. Obra acabada. Perfeita. Acredita que ela nunca irá contrariá-lo. Jamais o decepcionará. Em hipótese alguma correrá o risco de fazer algo que o desagrade, algo que ele não espere dela. 

Mas mesmo assim, a despeito de todo surrealismo da situação, a realidade imprevisível vence mostrando a Calvin que Ruby tem vida própria e age conforme os próprios mandamentos configurados sim de fábrica, mas mutáveis conforme a experiência de viver a vida ao lado de Calvin e os poucos outros seres de seu convívio. 

Aos poucos, Ruby vai se distanciando do roteiro inicial, aquele que Calvin não mais edita e começa a escapulir da redoma da qual Calvin achava que jamais seria da natureza dela sair. 

Quando Calvin finalmente sente-se ameaçado pelas contrariedades,  toma a egoísta atitude de voltar aos seus manuscritos datilografados e retomar o controle da história. Então constata, para sua satisfação, que a Ruby real atende inteiramente aos seus comandos no papel. E a relação volta a ser perfeita como ele gosta. 

Apesar de seu sombrio traço controlador e egoísta, Calvin me cativa. Porque a sutileza com que essas características se manifestam na trama me mostram um Calvin de uma melancólica carência afetiva. Carência essa que justifica a  surreal experiência e quase lhe confere o direito de, uma vez responsável pela criação de Ruby, poder fazer dela o que quiser. Seu egoísmo é discreto, embora perigoso, mas seu controle diante de seu poder é compreensível. Calvin não entra na pilha de uma "DR". Simplesmente dá as costas ao que lhe desagrada, senta-se à máquina de escrever e batuca a sinfonia que quer ouvir. Quem em seu lugar não cederia a tamanha tentação? O que Calvin ignora é que as notas que vão preenchendo a página, contudo, dão corpo a uma tortuosa e desafinada melodia. Quando livre, Ruby age de um modo que se contraria Calvin, o escritor toma as rédeas de seus passos e põe em sua boca as palavras que ele quer, ainda que sejam o exato oposto do que ela acabou de dizer. Intimamente satisfeito com a cria no trilho novamente, Calvin apenas observa, o rosto impassível. E nesse sentido o olhar desprovido de brilho de Paul Dano é precioso. Porque embora Calvin aproveite a chance de viver tudo aquilo, no fundo se pergunta a todo instante como pode ser real. Talvez porque teme que tudo acabe, mesmo que ele tenha consciência de que pela primeira vez é ele quem está no controle. E assim como tudo só começou porque ele escreveu as primeiras linhas, imagina que só possa acabar caso ele, e somente ele, ponha um ponto final.

Para resolver essa questão, o filme nos traz na devida hora uma das cenas mais tocantes, ápice de um desenrolar vagaroso, à medida que Calvin vai vivenciando a experiência de escrever e desfrutar da Ruby que tem diante de si. Sabemos que Calvin a ama e se preocupa com ela. Tanto que após vê-la ir de um estado de infelicidade a uma alegria exagerada ele retorna à máquina e escreve "Ruby era apenas Ruby. Feliz ou triste, do jeito que ela se sentia". Mas os efeitos desses comandos já não dão conta da complexidade da natureza humana e Ruby vai se transformando numa marionete que de deprimida até exultante, desgasta-se. Pouco a pouco, a moça vai sendo consumida pelas incoerências das linhas de sua vida, escritas arbitrariamente por Calvin. Como alguém que se perde de si e passa a se desconhecer, Ruby percebe que está confusa. "Como se a minha bússola interna tivesse sumido", desabafa com Calvin, que senta ao seu lado no sofá e a ouve com um mescla de espanto e remorso. 

Até que chega ao ponto em que algo dentro dela, algo que a liga às linhas traçadas por Calvin, se rompe. Ruby confronta as expectativas de Calvin e quando ameaça deixá-lo, ele retruca tranquilo que ela não pode fazer isso. E então ele lhe revela seu berço, mostrando-lhe o calhamaço que é o roteiro de sua vida concebido por Calvin, o escritor. Para provar, senta-se diante do teclado e escreve o que Ruby irá fazer. Ela faz, mas logo em seguida questiona e entra em desespero numa sequência alucinante em que Calvin digita freneticamente tudo o que quer que ela diga e faça, até que Ruby se debata em prantos no chão, tentando lutar contra as ordens de seu criador, que sofre junto com ela ao projetar no papel tudo o que ele mais deseja e já nem pode ter, porque nunca foi uma coisa sobre a qual se pode ter de fato controle. 

Finalmente Calvin reconhece o fim da história de Ruby Sparks, que é antes de tudo o fim de uma história sua também, afinal ambos misturam-se entre projeções, expectativas, frustrações e amor. Como na cena em que Ruby comenta que precisa conversar com alguém assim como Calvin quando fazia terapia. Então confundindo-se inconscientemente com ele, ela diz que ele deveria voltar ao terapeuta e Calvin indaga confuso se eles estão falando dela ou dele.

O gesto derradeiro de amor de Calvin nos chega quando após revelar a Ruby sua condição e perder o controle sobre ela, decide escrever o final que deve a sua personagem: "Assim que Ruby saiu da casa, ela libertou-se do passado. Ela não era mais uma criação do Calvin. Ela era livre.". Ao pôr o ponto final, Calvin oferta a salvação a sua preciosa personagem. Mesmo que isso signifique despedir-se dela para sempre, o que acontece porque Ruby e tudo o que fazia menção a sua existência se desfazem em paz. 

O que permanece contudo é a experiência psíquica e sensorial  para Calvin, que tenta se ocupar para não pensar mais no fim de sua relação com Ruby, mas sente enorme dificuldade. É aí que seu irmão o aconselha a voltar a escrever e transformar sua experiência em algo compartilhável literariamente através do diálogo abaixo:

- Quando foi a última vez que escreveu, Calvin? - pergunta Harry.
- Não consigo.
- Consegue sim. Essa é a sua vantagem sobre os pobres desconsolados. Você pode escrever sobre isso. 
- E quem é que vai querer ler?
- Muita gente. Por que não? 'Cê tem uma história bem bacana.
- Todo mundo vai achar que eu tô maluco.
- Não. Só vão achar que é ficção.

Então é assim que Calvin Weir-Fields encontra uma forma de se redimir e honrar a memória de Ruby e todas as suas lições: escrevendo sobre a experiência em um novo e comovente livro, dando vida desta vez ao seu aguardado segundo livro: "A namorada". 

O mérito de "Ruby Sparks - A namorada perfeita", filme dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (os mesmos criadores do adorável "Pequena Miss Sunshine"), está na metalinguagem empregada para falar das expectativas que as pessoas não raro injetam em seus relacionamentos, sejam amorosos, familiares, entre amigos ou colegas de trabalho. Cercado por gente ansiosa em extrair dele alguma lição de sabedoria, Calvin personifica o gênio em crise criativa que não aguenta mais os olhares curiosos em sua direção. Porque o que Calvin mais deseja é uma companhia que goste de conversar e com quem ele possa se sentir à vontade para ser ele mesmo, sem pressões. Mas ao conceber Ruby para uma relação forjada nas surpresas positivas que levam um apaixonado a crer seu objeto de desejo perfeito, Calvin experimenta a fuga total do controle sobre o qual o cotidiano ao lado de alguém sempre estará sujeito, a despeito de todo amor - ou seria  da vontade de ser amado? - envolvido. 

Após toda a intensa experiência de projetar alguém cujos contornos desejados vão se desfazendo gradualmente, a lição que fica para Calvin sobre o amor é um exercício de desprendimento e libertação. Porque sempre será preciso lembrar que o outro não é somente quem achamos ver. É muito além. E amar é também saber deixar partir. Como já teria cantado a banda gaúcha Apanhador Só: "um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre". Porque ao que tudo indica o amor só reinará em nós se pensarmos assim, tão diferente.  



Nenhum comentário: