sábado, 4 de abril de 2015

SÃO PAULO EM FOCO - ENTREVISTA COM A ESCRITORA GABRIELA ABREU


O mundo pela moça do caderno azul 

por Talita Guimarães

"Eu guardo tudo
Todos os escritos
Todos os inscritos
Todos os malvistos
Todos os bonitos
Todas as mágoas
Todas as lágrimas
Tudo que aperta
Tudo que liberta
Aquilo que dói
Aquilo que destrói
Aquilo que corrói
O que me fez sofrer
O que me faz renascer
Eu guardo tudo, sim
E uma hora explodo
Por eu não caber mais em mim"

Com os versos de "Guardado" ("Meu Caderno Azul", p.20) a aura da poesia de Gabriela Abreu ganha contornos nítidos. O poema, que abre esta última postagem da série sobre as mentes criativas de São Paulo,  diz - senão tudo - muito sobre o primeiro livro da autora lançado no começo de março na Brazileria, Pompéia (SP).

O livro
A poetisa, contemporânea de Paulo Novaes, percorreu um caminho de bastante privacidade com as letras antes de tornar seus escritos públicos. Foi sentindo a vida nota por nota, nuance por nuance que se deparou com a necessidade de transbordar. Se o mundo por Paulo Novaes fala através da música, via Gabriela Abreu jorra poesia. Primeiro em um caderno de folhas azuis muito pessoal. Depois no blog Meu Caderno Azul, onde a jovem paulista passou a compartilhar o que escrevia. Até chegar às mãos do público leitor na forma de um livro homônimo, publicado em março deste ano graças a um financiamento coletivo bem sucedido, para não escapar à tendência atual de promover projetos culturais com o apoio do público.

"Meu Caderno Azul" (Scortecci, 2015) apresenta 56 poemas divididos em quatro partes - "Aqui dentro", "Por aí", "Lá fora" e "Depois daqui" - que compõem um panorama lúcido, poético e comovente sobre o nosso tempo sob as lentes da autora, de apenas 21 anos. A poesia de Gabriela Abreu encontra força na intensidade com que a moça se permite viver-sentir. Ao não caber mais em si, Gabriela se liga ao outro por uma das vias mais bonitas que há: a da poesia. Seus versos produzem carinho e transcendem: abordam com sensibilidade e firmeza temas que vão da mais singela busca por amor ao noticiário indigesto dos nossos dias. Nas suas modestas 79 páginas, "Meu Caderno Azul" esmiúça belezas miúdas, reflete sobre processo criativo, recusa a mediocridade, louva a alma sensível, poetiza a tomada de Brasília por manifestantes, chora pitangas, permite-se ser e sentir sem fechar os olhos para realidade dura da violência urbana ou do momento político no país. Com uma linguagem concisa e certeira, Gabriela expurga angústias, apalpa anseios, dialoga com seu mundo interno e toda a exterioridade que apreende, do alto das suas duas décadas de vida. Estudante de Jornalismo, consegue com inteligência manter sua poesia atenta ao mundo ao seu redor em um exercício cotidiano de interagir com a realidade para aprender mais sobre tudo. 

Para uma estreante no cenário das letras, Gabriela Abreu dá à luz um livro vigoroso, que surge discreto, mas merece toda a atenção.

Na entrevista abaixo, a autora fala sobre sua relação com a palavra escrita, comenta como transita entre a poesia e o jornalismo, expõe seu posicionamento sobre questões sociais da atualidade e se revela sensivelmente comprometida com o mundo e as pessoas. 


Gabriela Abreu (Divulgação Partio)
Ensaios em Foco: Teu primeiro livro, "Meu Caderno Azul", resulta de um hábito que te acompanha há algum tempo, que é o de escrever sobre as tuas experiências, percepções e impressões acerca da vida sentida a todo instante. Gostaria que você contasse sobre o caminho que resultou no livro: um caderno de folhas azuis, depois um blog homônimo e agora o livro. 
Gabriela Abreu: Eu não me lembro de quando comecei a escrever. Sempre escrevi alguma coisa aqui, outra ali. Mas ficava tudo perdido. Quando fiz 18 anos fui morar fora e para suprir a saudade escrevia diariamente. Ao voltar para o Brasil continuei com o hábito, porém não escrevia todos os dias. Ia escrevendo, escrevendo e tudo saia em forma de poesia. Quando percebi tinha um caderno todo pronto, reuni 56 poemas que mais se encaixavam naquilo e fui atrás da realização desse projeto.

EemF: Você se expressa através da poesia, mas também trabalha com texto jornalístico, área na qual vai se graduar. Como você percebe a influência das linguagens poética e jornalística na tua forma de apreender a realidade e lidar com o mundo? 
G.A: Isso é muito difícil. Acho que só terei essa resposta depois de anos e anos e anos e anos como jornalista e escritora. Quando eu puder analisar o que escrevo hoje com um certo distanciamento. São linguagens diferentes e públicos diferentes. Mas um me possibilita muito o outro. Os fatos me dão a emoção para escrever uma poesia. E a poesia me dá delicadeza para escrever uma realidade que não seja 'boa'. Eu gosto disso. Gosto de histórias e esses dois caminhos me possibilitam isso.

EemF: Você acredita que a sensibilidade do olhar poético pode contribuir para um jornalismo mais humano e profundo? 
G.A: Com certeza, totalmente. A alma do jornalismo é a reportagem. E a reportagem nada mais é do que contar uma boa história. Não confio em jornalistas com discurso de ódio. Aliás, não confio em seres humanos com discursos de ódio. Estamos num momento histórico que o ódio está muito presente. É um contra o outro. E isso não pode ser assim. O jornalista tem que dar a noticia com seriedade e responsabilidade. 

EemF: Você ainda alimenta cadernos a mão? 
G.A: Tenho vários cadernos. Só escrevo a mão. É um momento muito comigo, e o caderno é mais íntimo. O computador é muito grande, parece que ele é quem me domina. O caderno não, nós vamos construindo aquilo juntos. Adoro o barulho do lápis no caderno. É engraçado, às vezes, quando percebo, foi o barulho do lápis quem deu a melodia para os poemas. É um momento de muita troca e de muito autoconhecimento. O caderno me revela coisas lindas que não sabia sobre eu mesma.

EemF: No livro, os poemas falam de temas caros e íntimos como amor, saudade, a busca por compreensão da própria identidade, além de refletir sobre o mundo exterior com poemas que atravessam questões sociais recentes, como o contundente "Para Claudia, com carinho" [sobre Cláudia Silva Ferreira, vítima fatal de um tiroteio entre PMS's e criminosos no RJ e arrastada pela viatura policial em uma trágica suposta tentativa de socorro]. Pelo conjunto de assuntos abordados no livro é possível notar que a tua poesia não se alimenta só de coisas leves. Antônio Carlos Secchin afirmou certa vez que "toda a matéria do mundo alimenta o poeta". Teu livro reforça essa ideia. Nesse sentido, você consegue dizer o que tem potencial para te inspirar e perceber o momento exato em que pôr no papel se transforma em necessidade? 
G.A: Nesse livro tem poesia de quando eu tinha 15 anos, até os 20. É inevitável que eu fale sobre temas como a busca por me conhecer, minhas dúvidas, minhas crenças e os amores que perdi e que sonho em ter. Mas eu sinto tanto por tantas coisas nesse mundo. Me dói mesmo. Coisas cotidianas me alimentam muito e eu extravaso dessa forma. Eu nunca vou me conformar com uma polícia que mata. Não me interessa se é bandido ou não. Polícia não mata! A polícia tem que fazer o seu trabalho que é prender, averiguar, investigar, etc. Não matar. Não matar sem saber. Não matar porque é preto e pobre. Eu nunca fui parada pela polícia. Não tenho um amigo que foi morto pelo Estado. Mas vai na favela, essa não é a realidade deles. E tantas outras pequenas coisas. Eu gostaria de espalhar amor por aí. Claro que tenho minhas limitações e momentos que só o instinto fala. Mas o mundo está carente de gente que se preocupa com gente. 
"Assim como Carlos e Adélia,
Quando nasci também tive visita.
Quando nasci,
Uma anja linda
Negra e de véu azul
Me disse:
- Vai Gabriela, ser o que quiser na vida.
Mas você vai ter o coração mole.
Boa sorte!"

("Também", p.13)
EemF: Um outro poema legal do livro que expõe um pouco desse processo é o "Sem rima e sem métrica" em que um verso diz que para escrever "sensível demais não serve...". Comente também um pouco desse momento de criação frente a frente com o papel, sobre o espírito necessário para dar vazão ao momento da escrita. 
G.A: Eu sou drama puro! Escorre drama de mim. Hahahaha! Meus amigos se divertem porque a minha vida, se contada por mim, é uma tragédia. Hahahahah! Ainda bem que tenho bons amigos que me tiram boas risadas de mim mesma. Porque eu sei que sou. E é isso aí, eu sou mesmo e assumo. Por isso, sou bem sensível. Eu sinto tudo até o fim. Se estou triste, é uma tristeza que dói eternamente. Mas no outro dia passa. Eu me entrego aos sentimentos mesmo. E isso respinga no papel. Eu não penso 'ah, vou sentar e escrever sobre o que estou sentindo'. Isso simplesmente acontece. É assim. 

EemF: O que representa para você a experiência com a palavra escrita que te coloca em contato consigo mesma ao mesmo tempo em que ao ser compartilhada se transforma em um diálogo com os sentidos e percepções dos seus leitores? 
G.A: Eu ainda estou entendendo o que está acontecendo. Não sei. Não sei como vai ser. Estou gostando das pessoas virem falar comigo sobre o livro. Sobre o poema que falou tudo que ela queria dizer, mas não sabia como. Sobre a posse de algum poema, "Não, Gabi, esse poema agora é meu". Isso é maravilhoso! A mãe de um amigo meu adorou tanto que pediu um caderno de capa azul para ela escrever o que ela quiser. Tem recompensa melhor do que essa? É entender que o que eu queria, que é chegar no coração das pessoas, está acontecendo. E quando digo chegar no coração pode soar clichê, aliás, tudo com a palavra coração é meio clichê, mas é verdade. Eu quero que a pessoa sinta o que eu senti. Que a pessoa se reconheça naquilo. E que ao ser tocada dê um novo rumo ao que lhe faz mal. Ou dê um novo rumo ao que lhe faz bem. Mas que o livro proporcione uma reflexão e que algo seja mudado depois disso.