quarta-feira, 20 de maio de 2015

LITERATURA EM FOCO


As batalhas de Jean Wyllys

“Nascer, vir a este mundo, é ser convidado para uma guerra perene”. Com esta afirmação Jean Wyllys abre seu Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos (Editora Paralela, 2014), livro de crônicas e ensaios em que discorre com desenvoltura sobre a trajetória de lutas, conflitos e batalhas nas quais se desdobram uma vida, em especial a sua: da infância em Alagoinhas-BA na década de 1970, passando pela formação escolar, política e religiosa, a juventude em Salvador-BA até sua atual atuação parlamentar em Brasília-DF.

Jean Wyllys (Divulgação)
Em Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos é possível conhecer quem é, o que pensa e como atua Jean Wyllys. Professor doutorando em Antropologia do Consumo pela Universidade Federal Fluminense – UFF, Wyllys é formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, onde também obteve o título de Mestre em Literatura e Linguística. Eleito deputado federal pelo PSOL-RJ em 2010 e reeleito em 2014, não foi por acaso que acumulou prêmios desde que ingressou na Câmara dos Deputados. Jean Wyllys foi considerado o deputado federal que melhor representou a população brasileira naquele ano. E a julgar pelo seu histórico de combatividade e luta na área dos direitos humanos, anterior até às suas legislaturas, deve seguir representando.

Para quem não lembra ou guarda uma imagem turva do Wyllys ganhador da 5ª edição de um dos programas de televisão que mais dividem opinião, o reality show Big Brother Brasil exibido pela Rede Globo, o livro funciona como uma ótima e merecida apresentação. Tempo bom, tempo ruim reúne 42 textos que, divididos em duas partes, apresentam a história e o posicionamento político consistente de um raro parlamentar que discorre com propriedade sobre justiça, cidadania, direitos humanos e representação política, entre outros assuntos.

Capa
Na primeira parte, através dos 17 textos de Tempos de Vida, o autor visita seu período formativo – familiar, escolar, religioso e político - desde a infância na periferia rural de Alagoinhas, no interior da Bahia. Fala com franqueza sobre as dificuldades financeiras de sua família, que fizeram com que Jean começasse a trabalhar aos dez anos, vendendo algodão doce com um irmão após as aulas; compartilha suas primeiras lembranças e memórias afetivas, como na bela crônica “Ventre da mãe” em que recupera a importância dos instantes de devaneio para suportar a realidade lembrando-se de quando sua mãe se emocionou ao ouvi-lo cantarolar uma canção que a remetia ao tempo em que estava grávida de Jean; avalia como sua ligação com a Igreja Católica, através dos movimentos eclesiais de base fortemente ligados à esquerda política e à Teologia da Libertação, contribuiu para sua formação cidadã; conta com sinceridade sobre a descoberta e aceitação de sua orientação sexual.

Em Tempos de luta, 25 textos conduzem o leitor pelo pensamento aprofundado do deputado sobre o cenário político em que trava diariamente sua luta em defesa dos direitos humanos, especialmente ao lado dos movimentos LGBT, negro e das mulheres. Em textos curtos, mas certeiros, Wyllys ilumina conceitos, desconstrói argumentos preconceituosos e contextualiza fatos com políticas públicas. Apresenta um trabalho sério cujo interesse não se restringe a um grupo específico, mas a toda a população brasileira. Seu estilo de escrita clara e objetiva ganha leveza com a escolha em relacionar versos, letras de músicas, trechos de filmes e pensamentos aos argumentos em seus artigos. O texto fluente está recheado de boas citações e referências a nomes como Foucault, Levy, Jacques Le Goff, Susan Sontag, Caetano Veloso, Chico Buarque, Beto Guedes, entre tantos outros. Didático sem subestimar a inteligência do leitor, Jean Wyllys entrega um livro que informa e esclarece produzindo um saber acessível, urgente e necessário. 

Tempo bom, tempo ruim: identidades, políticas e afetos comprova a existência de parlamentares  capazes de tornar o fazer político interessante, representativo e combativo. Com sua trajetória peculiar, que não se furta ao combate e à inserção inteligente nos meios mais espinhosos que há, Jean Wyllys abre caminhos na mata fechada que não raro isola a população das decisões políticas e surge de flor na mão, convocando à resistência. 

sábado, 2 de maio de 2015

MÚSICA EM FOCO


Alice Ainda, a Nathalia de agora

por Talita Guimarães

Quando comecei a ouvir Marcos Magah há uns dois anos, alguma coisa me pegou naquele som e me prendeu na frequência daquilo que eu ouvia. Magah fisgava. O som batia. Até hoje não sei explicar.

Ou melhor, não sabia.

Capa: Alice Ainda (2015)Fotografia: Laila Razzo
Arte: Laila Razzo/João Almeida
Ao ouvir Alice Ainda (2015), segundo disco de Nathalia Ferro recém-disponibilizado para download gratuito, percebi que o mesmo fenômeno voltou a ocorrer comigo. Alice Ainda dá onda. E nem é só porque tenha forte pegada no reggae, mas porque apresenta uma Nathalia Ferro, sob a produção musical caprichosa de Adnon Soares, bastante afinada na entrega entre voz, composição e interpretação. Tudo em Alice Ainda me faz visualizar a artista, com quem estive pessoalmente raras vezes e pouco conheço fora dos palcos. É que faixa após faixa, Nathalia não só desponta mais madura e interessante musicalmente, como também se reafirma como intérprete vigorosa e compositora criativa. Sua voz, que me causou estranhamento quando a ouvi pela primeira vez há alguns anos, hoje me chega como uma agradável e inconfundível marca registrada. Muito bem empregada junto ao instrumental dançante e rico de Alice Ainda, a voz de Nathalia Ferro é o elemento responsável pela sensação boa de flutuação que me vem ao ouvir seu mais novo trabalho.

Composto por doze faixas, entre inéditas, releituras e regravações, Alice Ainda agrupa um conjunto temático interessante por sua rara sensibilidade. Consegue falar de temas inescapáveis como amor e desejo sem cair no terreno minado das obviedades; toca em feridas como a exclusão social e a pobreza sem soar panfletário; regrava com doçura e respeito sucessos de compositores regionais; e ainda lança ao mundo gravações inéditas das safras mais recentes de artistas locais.

“Vila Esperança” (Nathalia Ferro) abre o disco já convidando para o embalo. A letra forte, contudo, merece atenção para as entrelinhas. Fala de reafirmação diante de uma sociedade preconceituosa e da necessidade de combater o que insiste em nos acuar dia após dia em cada canto da cidade. O eu lírico da canção, segundo Nathalia uma travesti, canta de dentro de um ônibus, por exemplo. Na sequência, Nathalia empresta a voz a um eu lírico masculino para cantar uma desilusão amorosa na lânguida “Neguinha” (Nathalia Ferro).

Fotografia: Laila Razzo
“Como qualquer chiclete” do maranhense Phill Veras ganha uma radiofônica versão na voz de Nathalia. Conhecida de alguns shows do próprio Phill, a canção ainda não tinha sido gravada em disco. Na sequência, Nathalia Ferro regrava “Ana e a lua” (Betto Pereira) com doçura. Já “Maria de Jesus” (Beto Ehongue) desponta trazendo em seu arranjo toda a gravidade da denúncia de sua letra, de cunho social. A levada aparentemente animada não encobre o sofrimento da personagem que precisa catar comida no lixo para alimentar sua família, cantada com uma voz carregada de dor em uma ótima interpretação de Nathalia. “O que não é de mim” (Marcos Lamy/Hermes Castro) segue como mais uma acertada regravação em Alice Ainda. Não relê com grandes alterações a versão original na voz de Lamy registrada em Eu tô é tu (2013), mas faz bonito em um arranjo preciso que cresce nos momentos certos e imprime atitude à mensagem da nova geração de músicos ludovicenses. 

Caindo mais para dentro do disco, somos alcançados pela inédita “Música do sereno” que traz a inteligente poesia (“transcende ao tocar o chão”) de Paulo César Linhares da já saudosa Pedeginja para o disco e é uma forte candidata ao repeat pela levada gostosa casada com a voz suavizada de Nathalia no encontro com o vocal masculino de Lucas Maciel. 

Dentre as faixas mais mornas, “Sem pressa” (Marceleza) convida para desacelerar enquanto “Porcelana” (Laila Razzo/Nathalia Ferro) dá voz a uma gana sedutora.

“Te deixando aos poucos” (Adnon Soares/Leo Del Nery), uma das poucas faixas lentas de Alice Ainda, canta um ensaio de despedida. Já em “Estranho Seu” (Adnon Soares/Nathalia Ferro), versão em português de “Strange of Mine” da banda maranhense Soulvenir, Nathalia canta com Adnon numa das faixas mais oníricas do disco. 

Fechando Alice Ainda, “A queda” (Rommel Ribeiro/Nathalia Ferro) retoma a levada de reggae que sustenta a maior parte do disco para cantar uma ode ao processo criativo e ao espírito de desprendimento que a arte requer. 

Fotografia: Laila Razzo
Ao divulgar este que é seu segundo trabalho – em 2013, Nathalia Ferro lançou o EP Instante, também com direito a download gratuito – a cantora considera que Alice Ainda comunica sua persistência em trilhar o caminho artístico. E vai mais fundo: entrega um disco com acabamento profissional – ainda que o disco físico ainda não esteja disponível - como resposta a todos que desacreditaram de sua capacidade ou da viabilidade do fazer artístico no cenário local. 

Enquanto gesto de persistência, Alice Ainda (2015) chega em boa hora: sopra frescor ao cenário da música atual e convoca à resistência. Pois não é pela beleza que resiste pelo mundo e transcende frivolidades que suportamos a realidade? Não seria graças a nossa capacidade de sonhar e fabular que conseguimos seguir em frente muitas vezes? Não tem lá sua parcela de mérito na nossa salvação diária, a arte com todo seu arsenal de sonhos e desejos muito humanos?

Se sonhadora, Nathalia Ferro já concebe um álbum com tanto há dizer, não há mais o que questionar, tampouco criticar. Resta-nos somente fazer um pedido: acorde não, Alice, que é de sonhos lúcidos como os teus que nossa gente precisa.

E meio que em resposta, Nathalia Ferro nos tranquiliza amarrando seu modus operandi em um só verso, cantado é claro: “ter que me atirar ao vento é ato de respeito à minha própria natureza”

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FICHA TÉCNICA:

Alice Ainda - Nathalia Ferro
Produção Musical: Adnon - CasaLoca
Produção: Nathalia Ferro
Fotografia: Laila Razzo
Arte: Laila Razzo, João Almeida
Mixagem: Memel Nogueira - Estúdio Andar de Cima
Masterização: Felipe Tichauer - Red Traxx Music
Início das gravações: maio/2014
Lançamento: abril/2015

Músicos: 
Adnon: Guitarra, violão, teclado, sintetizador, vocalizes
Sandoval Filho: Bateria
Marlon Silva: Baixo
João Simas: Guitarras em Ana e a Lua, Maria de Jesus e O que não é de mim
André Grolli: Baterias em Ana e a Lua, Maria de Jesus e O que não é de mim
Memel Nogueira: Participação Guitarra Música do Sereno