terça-feira, 13 de outubro de 2015

#9FeliS EM FOCO - Um agradecimento

A 9ª edição da Feira do Livro de São Luís foi encerrada no último domingo (11/10) após uma semana de intensa programação cultural. Sem dúvida, a cidade ganhou mais uma bela edição dessa festa literária que ano que vem completará uma década.

Como destaques pessoais, posso mencionar os produtivos encontros com autores e palestrantes, o retorno da feira ao espaço da Praia Grande ocupando ruas, praças e equipamentos culturais do Centro Histórico e claro, a ótima acolhida ao meu livro Vila Tulipa nos estandes Casa do Autor Maranhão e Sebo no Chão

A primeira edição do meu livro, publicada em 2007, chegou ao fim na #9FeliS graças aos esforços carinhosos de várias pessoas. Por isso, quero fazer alguns agradecimentos especiais: 
  • À Fernanda Araújo, Kleris Ribeiro, Emyle May e todo pessoal do Clube do Livro MA por me trazer de volta ao circuito literário;
  • Ao Diego Pires por abrir espaço para o livro em seu estande Sebo no Chão com direito a tarde de leituras, abraços e encontros com leitores; 
  • À Júlia Emília por mediar meu contato com meu mais novo amigo cearense, o cordelista Paulo de Tarso, responsável pelo estande Casa do Autor MA; 
  • Ao Paulo de Tarso e todo pessoal de seu estande Casa do Autor MA (Andrea, Lucarocas e Chico Neto), por todo cuidado comigo, Paulo e Tatinha e pelo espaço no estande e no programa Cordel, Sanfona e Viola da Web Rádio Confiança;
  • Aos colegas da imprensa Josimar Melo e equipe (SECOM/Prefeitura de São Luís), Marcus Saldanha (Rádio Timbira) e João Ricardo (Mirante AM) pelo apoio na divulgação e pelas conversas legais sobre literatura infanto-juvenil;
  • Aos colegas do meu trabalho (que só descobriram agora, depois de oito anos de convívio, que escrevi um livro. Sim, sou reservada nesse nível). Em especial a minha chefa Silvana Estrela que me "obrigou" carinhosamente a divulgar na intranet pra todo mundo ir lá me prestigiar e abraçar e aos colegas Marângela Vale, José Ruy, Stella Karine, Brasil, Nadiene Duarte e todos que se interessaram e foram me visitar no estande;
  • E por fim a todos os amigos, família e novos leitores que me honraram com sua atenção nos últimos dias. 
Se há algo que é preciso deixar registrado é que a concepção de Vila Tulipa sempre esteve envolvida por cuidados amigáveis. A estória de Paulo e Tatiana é uma narrativa da amizade que só ganhou corpo no mundo por conta do olhar de afeto dos amigos que fiz pelo caminho. Da inspiração à publicação. 

Nesse sentido, quero lembrar aqui da pessoa responsável pela existência da primeira edição de Vila Tulipa, sem a qual essa quase uma década de Paulo e Tatinha em um corpo impresso talvez não tivesse existido. Meu professor de física no então CEFET (atual IFMA) Fábio Henrique Silva Sales, à época coordenador do ensino médio responsável por articular eventos e projetos de iniciação científica. O professor Fábio foi a pessoa que pegou meu manuscrito, recém-premiado pela Fundação Municipal de Cultura em dezembro de 2006, colocou embaixo do braço e só sossegou quando em dezembro do ano seguinte me devolveu meus travessos personagens vestidos para a festa da leitura em uma mesa de lançamento na II Jornada Nacional de Produção Científica em Educação Profissional e Tecnológica. Não há como esquecer isso.

Muito mais gente foi carinhosa com Vila Tulipa desde então e só tenho a agradecer. Sintam-se todos abraçados e felizes por fazerem parte do grande começo dessa grande aventura.

Recadinho do Sr. Filatelfe

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NOTA: Na quinta (08/10) e na sexta-feira (09/10) ainda acompanhei duas mesas da programação oficial da #9FeliS, antes de me dedicar totalmente às atividades com Vila Tulipa nos estandes de livreiros na sexta e no fim de semana. Tomei nota do que assisti para trazer para cá dando continuidade ao Diário da Feira e devo publicar com calma nos próximos dias, junto com uma avaliação do evento (o texto acima não conta, pois foi mais um agradecimento bastante afetivo aos responsáveis pelos melhores momentos).

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

#9FeliS EM FOCO - Diário da Feira do Livro 2015


A 9ª Feira do Livro de São Luís chega ao sétimo dia com uma programação que não para! Confira o que temos para indicar hoje:

POESIA NO BECO
Beco Catarina Mina
18h- Leitura Poética com Josoaldo Rego
19h- Recital com Demetrius Galvão (Teresina PI)
20h- Recital com Katia Dias

CAFÉ LITERÁRIO
Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho
18h30 – TEMA: “Lourdes Lacroix e o mito da fundação francesa de São Luís”
DEBATEDORES: Flavio Reis e Flávio Soares
MEDIADOR: Henrique Borralho

AUDITÓRIO MULTIMÍDIA
Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho
20h – PALESTRA: "As formas escriturais da contemporaneidade: o autor, o livro, o
leitor". PALESTRANTE: Rosane da Silva Borges

PALESTRA
Teatro João do Vale
20h – TEMA: “Prosa urbana brasileira: tendências” 
DEBATEDORES: Clara Averbuck (SP) / Michel Laub (SP) MEDIADOR: Eduardo Júlio

No sexto dia da #9ªFeliS, acompanhei a instigante mesa "Nova literatura brasileira: olhares femininos" com as escritoras Simone Campos (RJ), Micheliny Verunschk (PE) e Jorgeana Braga (MA), sob mediação da jornalista Andréa Oliveira. 

Leia no texto abaixo como foi.

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#9FeliS - 07.OUT.2015 (Quarta-feira)

Da direita para esquerda:
 Andréa Oliveira, Jorgeana Braga,
Micheliny Verunschk e Simone Campos.
A desconstrução do pensamento de que existe uma literatura feminina marcou o Café Literário da noite de quarta-feira (07/10) no Odylo. Com o tema "Nova literatura brasileira: olhares femininos" as escritoras Simone Campos (RJ), Micheliny Verunschk (PE) e Jorgeana Braga (MA), sob mediação da jornalista Andréa Oliveira, dissertaram longamente sobre seus olhares literários recusando-se a categorizá-los como "femininos". Nesse sentido, "Eu não acredito em literatura feminina" foi uma frase dita em consenso pelas três autoras.

A mediadora Andréa Oliveira foi a responsável por lançar a provocação, convidando todos a repensarem a validade de classificar a literatura em gênero feminino/masculino. E nesse sentido considerou uma transgressão propor que o tema em discussão se concentrasse na "nova literatura brasileira", eliminando o "olhares femininos". "As autoras convidadas não escrevem porque são mulheres", declarou Andréa para em seguida olhar para as escritoras e lançar à mesa a questão: "Por que vocês escrevem?".

Jorgeana Braga
A escritora maranhense Jorgeana Braga foi a primeira a responder, rebatendo a afirmação da mediadora com bom humor ao declarar que sim, escreve também por ser mulher. "Escrevo com minha corporalidade. Escrever é como respirar. Faz parte. E é um ato confessional", disparou Jorgeana. "É porque eu existo. É uma forma de existir. De intermediar minha subjetividade com o outro", prosseguiu com uma fala muito firme. Quanto à existência da literatura como atividade humana, Jorgeana Braga avaliou como "uma forma de construir algo que a gente não percebe no mundo, mas quer que exista". Já sobre comentar a própria obra, a escritora se esquivou da missão afirmando ser mais confortável ouvir os comentários de outras pessoas. "É mais fácil ouvir o outro falar da nossa literatura", comentou descontraída e acrescentou que a literatura funciona como um esconderijo às avessas para quem prefere se expressar através da palavra escrita. "Eu me revelo escrevendo", disse a autora e demonstrou isso abrindo um exemplar de seu A casa do sentido vermelho (PITOMBA, 2013) e lendo um trecho.

Micheliny Verunschk
Na sequência foi a vez da pernambucana Micheliny Verunschk responder à questão lançada pela mediadora. "Escrevo porque não sei fazer outra coisa", Micheliny foi direto ao ponto. "Tudo o que faço é capenga", soltou contando que já tentou bordar, cozinhar, pintar e nenhuma atividade funcionou tão bem quanto a escrita. "Eu sei escrever. Ou acho que sei. Escrevo também porque escuto e vejo. Tudo o que escrevo é a partir de uma vivência do olhar" e explicou que sua literatura é muito visual, se interessa pelas "coisas que vejo e meu olhar transtorna". 

Assim como Jorgeana, Micheliny leu um trecho de seu romance de estreia, Nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida (PATUÁ, 2014). 

Simone Campos
Fechando a rodada inicial de respostas, a carioca Simone Campos explicou o porquê de sua literatura. "Escrevo pra promover empatia. Para se colocar no lugar do outro" e retomou a questão de gênero comentando sobre ser mulher. "A gente não faz as coisas pensando 'ah sou mulher'. A gente faz as coisas de acordo com as nossas experiências. Como estamos em um corpo de mulher as pessoas te veem como mulher", analisou. "Minha experiência se reflete no que escrevo e agora eu tô com essa proposta de fazer vestirem a pele", revelou avaliando o contraponto aos seus dois primeiros livros, que são de prosa poética. Simone também aproveitou para fechar lendo um trecho de seu livro, o romance A vez de morrer (COMPANHIA DAS LETRAS, 2014).

Em seguida, o assunto se voltou para o cenário da nova literatura. A mediadora Andréa Oliveira perguntou como as autoras se colocam no cenário editorial e como elas enxergam a produção nova. 

Jorgeana Braga mais uma vez foi a primeira a responder. Para Jorgeana, falar em nova literatura é falar no que é novo para ela em termos de leituras que a alcançam. Nesse sentido, citou seu encanto recente com a obra de Carolina Maria de Jesus, escritora mineira da década de 1950 autora de Quarto de despejo, livro que Jorgeana Braga fez questão de levar para a mesa e indicar, pois crê que o momento da feira é também propício para recomendar leituras e trocar dicas.

A escritora, que publica pela editora independente Pitomba! e costuma escrever em meios virtuais, não se vê como uma boa vendedora dos próprios livros. "À medida que eu escrevo, não sei vender livro. É preciso ter um tino pra isso. Se não seu livro vai acabar debaixo da cama. Tenho muitos livros embaixo da cama", conta. No canto da mesa, Simone murmurou um "eu também" sorrindo.

Já Micheliny entendeu a pergunta como uma avaliação do cenário atual de publicação e aproveitou para indicar autores contemporâneos e ler "Poema para se ler em pé" da escritora baiana Kátia Borges. 

Micheliny Verunschk lê poema de Kátia Borges
Micheliny fez ainda uma observação sobre o tema da mesa. "A gente nunca vai encontrar numa feira do livro ou festa literária uma mesa de homens discutindo o olhar masculino na literatura".

Sobre as leituras e o cenário atual, Simone Campos afirmou ler muitos autores e mencionou a tendência recente de jovens autores urbanos como ela de publicarem romances sobre personagens que se refugiam fora da cidade, como em Biofobia de Santiago Nazarian e Barba ensopada de sangue de Daniel Galera. 

Ao término desta rodada de comentários, a palavra foi aberta ao público. A atriz Júlia Emília, presente na plateia, deu sua contribuição sobre a questão de gênero compartilhando seu incômodo com a denominação "Espaço do Dramaturgo", local da FeliS destinado às artes cênicas, que segundo ela não privilegia a dramaturgia, tampouco as mulheres que escrevem e produzem para o teatro. 

Uma jovem leitora de Jorgeana Braga pediu para ler um poema da autora, que ficou emocionada com o gesto gentil e carinhoso. 

Aproveitando o gancho em torno da polêmica sobre o olhar feminino, o poeta Celso Borges fez um provocação colocando que entende haver uma linha unindo algo em comum na literatura feita por mulheres. Perguntou então à mesa se esta seria uma leitura torta. 

Simone Campos brincou que adoraria ver o teste cego, comum na degustação de vinhos, aplicado à leitura, quando o leitor desconhece se o autor é mulher ou homem. E devolveu a provocação questionando se Celso seria capaz de enxergar essa ligação caso não soubesse o sexo do autor. Complementando a fala de Simone, Micheliny crê haver uma leitura condicionada nesse caso e propôs que os leitores deixem de lado quem é o autor e se debrucem na discussão em torno do conteúdo do livro, no mal estar do tempo atual e não se quem escreveu tem um olhar masculino ou feminino. 

Jorgeana Braga fez coro louvando a leitura interessada no pensamento e comparou às leituras filosóficas que se debruçam sobre o conhecimento sem distinção sobre o gênero do pensador. Dentro desse contexto, comentou que não há interesse em questionar se quem escreveu foi Hannah Arendt ou Aristóteles, pois quem se interessa por filosofia está em busca do conhecimento acerca do pensamento do autor. Voltando ao campo da literatura, lembrou de Hilda Hilst, que queria ser lida com seriedade. 

A última rodada de perguntas para as escritoras partiu da participação do poeta e músico da banda Validuaté Tiago E, que pediu que as escritoras falassem sobre seus novos projetos. 

Simone Campos falou sobre seu interesse em video games e HQ's e antecipou que está preparando uma graphic novel em parceria com uma desenhista oriental. Já Micheliny revelou estar escrevendo um livro sobre serial killers que a tem mantido envolvida em pesquisas sobre assassinatos em série, vodu e música. "Se a CIA rastrear meu histórico de pesquisa vou presa", brincou a pernambucana. Já Jorgeana Braga prepara atualmente o lançamento do livro Cemitério de Espumas pela Pitomba! e conta de seu trabalho atual dando aulas para jovens encarcerados por homicídio, com os quais pretende desenvolver uma caixinha poética com a intenção de trabalhar a ressignificação das mãos desses jovens.

Por fim, as autoras agradeceram ao convite para participar do Café Literário na #9FeliS e ficaram a disposição do público para fotos, abraços e dedicatórias nos livros. 

CONVITE EM FOCO


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

#9FeliS EM FOCO - Diário da Feira do Livro 2015


E a 9ª Feira do Livro segue a todo vapor com uma intensa programação

Como destaque desta quarta-feira (07/10), indico a sequência abaixo de conversas interessantes:

17h – CAFÉ LITERÁRIO (ODYLO): “Retrato da leitura e cadeia produtiva do livro” com Mary Ferreira e Francilene Cardoso sob mediação de Rita Oliveira;

18h30 – CAFÉ LITERÁRIO (ODYLO): “Nova literatura brasileira: olhares
femininos” com Simone Campos (RJ), Jorgeana Braga (MA) e Micheliny Verunschk
(PE) sob mediação de Andréa Oliveira;

20h – PALESTRA (TEATRO JOÃO DO VALE): “Beat Generation: a influência para além do mito” com Cláudio Willer (SP) sob mediação de Josoaldo Rêgo;

Confira agora como foi a noite de terça-feira (06/10) na #9FeliS.

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#9FeliS - 06.OUT.2015 (TERÇA-FEIRA)

Da relevante discussão sobre reforma política ao exercício da palavra em transe. Foi como quem atravessa uma ponte que liga a realidade à fantasia que transitei da mesa "O nobre deputado e a reforma política" com o escritor Márlon Reis e o jornalista Marcus Saldanha mediados por Hélio Ricardo para a palestra "As cidades como inspiração literária" com o escritor gaúcho João Gilberto Noll, sob mediação de Geraldo Iensen.

As duas mesas-redondas absolutamente distintas, mas indiscutivelmente interessantes foram realizadas na noite de terça-feira (06/10) na 9ª Feira do Livro de São Luís. 

Da direita para esquerda:
Márlon Reis, Hélio Ricardo e Marcus Saldanha
Comecei os trabalhos às 18h30 assistindo ao Café Literário no Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho, que além de discutir profundamente o sentido de uma reforma política no Brasil, lançou o livro O nobre deputado de autoria do juiz de Direito Márlon Reis. Para abrir a mesa, o Presidente da FUNC Marlon Botão fez questão de destacar a importância de trazer o assunto para o espaço da feira, considerando o momento oportuno e de muito significado para a participação de todos na política nacional. 

O mediador Hélio Ricardo prosseguiu apresentando os debatedores e recuperou o contexto político das manifestações de 2013, que segundo ele demarcaram um novo momento para a expressão de posicionamentos políticos no país. Em seguida, passou a palavra a Márlon Reis, que comentou o processo de apuração e pesquisa que deram origem ao livro O nobre deputado - Relato chocante (e verdadeiro) de como nasce, cresce e se perpetua um corrupto na política brasileira (LEYA, 2014). 

Márlon Reis
Reis lançou luz sobre a relação entre crimes cometidos em anos eleitorais (como assaltos a bancos) e o financiamento de campanhas. Explicou como os esquemas de corrupção e compra de votos influenciam no processo eleitoral e do quanto é importante, na sua opinião, promover primeiro uma reforma eleitoral antes de uma reforma política.

O escritor explicou que o livro nasceu com a proposta de chamar atenção da sociedade para os casos de corrupção e que mesmo sendo uma narrativa ficcional que não identifica nomes políticos, seu conteúdo é totalmente baseado em fatos reais. 

Marcus Saldanha
Quando a palavra foi passada ao jornalista Marcus Saldanha, o tom de análise jornalística do cenário político local e nacional ganhou força com o olhar de historiador, uma vez que Saldanha é formado em História também. Nesse sentido, o debatedor fez um recorte dos três meses de 2013 em que o país viveu intensas manifestações. 

Com a abertura para os comentários do público, a discussão recebeu novas contribuições levantando questões relacionadas ao gênero, ao papel da mídia na cobertura política, a aplicação das leis e da constituição, entre outros.

Geraldo Iensen apresenta Noll
Na sequência, às 20h, acompanhei a palestra "As cidades como inspiração literária" com o escritor gaúcho João Gilberto Noll, sob mediação de Geraldo Iensen no Teatro João do Vale. E aqui cabe destacar tal encontro como um dos mais impactantes assistidos por mim até agora nesta edição da feira do livro. 

Ao tomar assento no Teatro João do Vale enquanto ouvia o início da apresentação sobre a obra do autor convidado, feita pelo mediador Geraldo Iensen, nada antecipava o clima onírico e de profunda imersão no fazer literário a que seríamos submetidos com Noll. O escritor gaúcho, um distinto senhor de 69 anos, observava calmamente a deferência de Iensen ao comentar a delicadeza de seu trabalho, sem sequer levantar suspeitas sobre a conferência que conduziria a seguir.


Escritor João Gilberto Noll (RS)
Até que o microfone lhe foi passado, Iensen se ausentou do palco para acompanhar da plateia e o extraordinário se fez. João Gilberto Noll começou falando bem devagar, inserindo silêncios entre uma palavra e outra enquanto desfiava pensamentos sobre seu modo de conceber seus textos literários. "Eu sou um escritor que fabula a realidade. É quase como uma entidade", sua voz mansa e pausada se propagou pelo espaço do teatro. "Não escrevo sob programação", prosseguiu como quem vai formulando os pensamentos escolhendo a dedo as palavras mais certeiras para explicar sobre si mesmo. 

Após comentar que gosta de andar a esmo pela cidade, Noll partiu para exemplificar a presença forte das cidades em sua obra. Pegou um livro seu sobre a mesa, disse "Quero repartir com vocês um pouco do meu trabalho" e começou a lê-lo.


Escritor lê trechos de seus livros
E leu por longos minutos com uma voz totalmente diferente, lamurienta, quase chorosa, cheia de uma musicalidade. Como se pusesse para fora linha após linha lida um personagem que lhe brotava das entranhas. A princípio estranhei sua escolha em ler tantas páginas e cheguei a cogitar que ele estivesse planejando ler o livro todo, mas aos pouquinhos, Noll foi me envolvendo em sua espiral de mansidão e silêncios até que não precisei me esforçar mais para não me perder de sua voz. Já estava sob efeito daquela "cerimônia literária", como bem definiu o jornalista Eduardo Júlio em  post no Facebook. Lamentavelmente, muitas pessoas deixaram o auditório durante a leitura diferente do convencional. 


Noll sopra sua voz mansa de olhos fechados
Após ler longos trechos de três livros, Noll retornou ao tom de voz do começo e prosseguiu, desta vez de olhos fechados (!), falando ao público sobre sua experiência de vida com a literatura. "Eu escrevo porque vou morrer como todo mundo. Porque a vida é insuficiente", declarou acrescentando sobre sua disponibilidade para a palavra em transe. "Para mim, a palavra literária é convulsão". 

E quando o assunto é a construção de seus personagens, o escritor sequer hesita. "Escrevo sobre o mesmo homem em todos os livros. Não que haja uma continuidade nos livros. Em um o personagem é ator, no outro um escritor, todos com um traço forte de vagabundo", soltou revelando em seguida que gosta muito de seu personagem, o considera um alter ego muito forte. "Crio ele com muito sacrifício, mas também com gozo. Se não fosse ele, eu certamente estaria morto. Ele me dá o turbilhão", afirmou.

Quando o poeta Celso Borges, presente na plateia, comentou ao microfone do impacto que lhe causou a musicalidade contida na leitura de Noll, o escritor gaúcho falou que a intenção com a leitura em tom de lamento é seguir "uma linha só, sem grandes altos e baixos, porque esse é o esforço que eu faço no fundo. Eu escrevo assim".

Já próximo do fim, para arrematar (e arrebatar), Noll refletiu sobre o sentido de escrever. "Porque tudo podia ser diferente. Tudo podia ser melhor. Escrevo pra mostrar isso. Tudo podia ser mais humano", conclui João Gilberto Noll, fechando um encontro histórico entre escritor, literatura viva e leitores. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

#9FeliS EM FOCO - Diário da Feira do Livro 2015


Vila Tulipa será relançado aqui!
A terça-feira raia com eletrizantes novidades para os senhores leitores. Meu livro Vila Tulipa, já disponível no estande do Sebo no Chão, ganha a partir de hoje mais um espaço de distribuição na 9ª Feira do Livro de São Luís: o estande Casa do Autor Maranhense, no espaço de livreiros. O exemplar custa R$ 20.

E tem mais: sexta-feira (09/10) às 18h, estarei no estande Casa do Autor Maranhense relançando o livro e batendo um papo animado com os leitores que estiverem interessados em conhecer Paulo, Tatiana e toda a turminha da Vila Tulipa. Apareçam!

Prosseguindo com dicas para aproveitar a #9FeliS, confira abaixo três destaques interessantes da programação de hoje:

15h: Espetáculo "O mundo imaginário de Juju Carrapeta", com o Grupo TeatroDança no Teatro FeliS (Teatro do Odylo);

18h30: Café Literário “O nobre deputado e a reforma política”com Marlon Reis (DF) e Marcus Saldanha mediados por Hélio Ricardo. (Odylo);

20h: Palestra “As cidades como inspiração literária”com o escritor João Gilberto Noll (RS) sob mediação de Geraldo Iensen no Teatro João do Vale.

A seguir, confira no diário da #9FeliS como foi o Café Literário com Karina Buhr e Celso Borges ontem a noite (05/10) no Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho. 

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#9FeliS - 05.OUT.2015 (Segunda-feira)

Devido aos compromissos de trabalho, durante semana não dá para passar o dia inteiro flanando pela #FeliS como no sábado e no domingo, mas quando cai a noite e o expediente termina, atravesso a rua (tenho a sorte de trabalhar no mesmo bairro em que a feira do livro é realizada) rumo às atividades noturnas na feira (cafés, palestras, intervenções poéticas), que funciona até as 22h. (Isso mesmo, não tem desculpa, sai do trabalho e #VemPraFeliS!)


Poesia e canção popular em conversa
Ontem (05/10), acompanhei o Café Literário das 18h30 com Karina Buhr (PE) e Celso Borges falando sobre o tema "Poesia e Canção Popular no Brasil" sob mediação do jornalista Pedro Sobrinho. O poeta Fausto Nilo (CE), previsto para participar da mesa, não pode estar presente na ocasião. 


Poeta maranhense Celso Borges
Celso Borges deu início a conversa revisitando a música popular das décadas de 1970 e 1980 no Maranhão. Comentou as obras dos compositores Chico Maranhão, César Teixeira, Sérgio Habibe e Josias Sobrinho contextualizando com o cenário regional de produção musical. Falou sobre a experiência do Laborarte e de como a cidade era na década de 70.

Provocativo, Borges exaltou a obra de César Teixeira com o seguinte comentário: "Nada que a Academia de Letras produziu é tão importante quanto a obra de César Teixeira". 

Em seguida comentou sobre a diferença entre letra de música e poesia, considerando que a musicalidade da primeira fica mais rica com a melodia. 

Na oportunidade, Celso Borges aproveitou ainda para render uma homenagem ao rádio, veículo responsável por formar sua percepção de música popular. 


A artista baiana Karina Buhr
Em seguida, foi a vez da multiartista Karina Buhr falar ao público. Com seu irresistível sotaque nordestino (Karina é baiana, mas se mudou na infância para Pernambuco, onde ingressou na música), a cantora, compositora, atriz e percussionista falou sobre o início de seu envolvimento com as artes nos maracatus de baque solto no começo dos anos 90 em Recife e sobre a aproximação com a poesia do repente e a musicalidade de instrumentos como o pandeiro e a viola. Karina citou Mestre Ambrósio e Siba como artistas que mantém a poesia do maracatu rural diante da diminuição de manifestações do gênero com a urbanização das cidades. 

Em seguida, compartilhou o processo de escrita e criação de seu primeiro livro de poemas intitulado Desperdiçando Rima (ROCCO, 2015), transformando a leitura dos poemas em um breve sarau ao cantá-los acompanhada de um pandeiro. "O que você escreve vai pro ritmo da música que você faz. Nem sei mais ler esse poema se não for com música. Depois que botou música lascou!", comentou em tom descontraído. 

É que após publicar o livro, a artista ressignificou seu conteúdo e acabou musicando os poemas. "Tinha um disco na cabeça que acabou virando outro por causa do livro", contou. 

Karina Buhr canta poema musicado
E quando o assunto se voltou para os cantores que Karina Buhr ouvia na rádio, a artista não pode deixar de citar Alceu Valença e Ednardo. Já quanto aos autores que a menina Karina lia com afinco, Clarice Lispector foi o primeiro nome que lhe veio. Foram lembrados ainda Patativa do Assaré, Cecília Meireles, Euclides da Cunha, cordéis e muitos romances policiais da famosa Coleção Vagalume.

Já próximo do final do Café Literário, Buhr comentou sobre a transição da percussão para o vocal, quando se viu cantora porque gostava de cantar também. Explicou que não chegou a obter uma formação musical em canto e que sequer se considera cantora. Nesse sentido criticou que em alguns casos a voz seja mais avaliada do que o conteúdo de uma apresentação. E demonstrou incômodo com o fato de a encerrarem em um "balaio de cantoras", porque se sente instigada a desenvolver várias atividades nas artes e não só exercer um papel. "Desenho, escrevo, toco, faço tudo ao mesmo tempo", declarou resumindo em poucas e modestas palavras seu amplo leque de atividades. 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

#9FeliS EM FOCO - Diário da Feira do Livro 2015


A #9FeliS teve início na última sexta-feira (02/10) e já contou com um movimentado fim de semana de atividades. 

Minha dica para esta segunda-feira (05/10) é o imperdível Café Literário "Poesia e canção popular no Brasil" com Karina Buhr (PE), Fausto Nilo (CE) e Celso Borges (MA) mediados pelo jornalista Pedro Sobrinho. É logo mais às 18h30 no Espaço Café Literário "Lourdinha Lauande Lacroix" (Centro de Criatividade Odylo Costa, Filho)

Como sempre aproveito ao máximo a programação de todos os dias da feira, farei um esforço durante toda essa semana para trazer para cá um diário da 9ª edição da Feira do Livro de São Luís, que acontece na Praia Grande até domingo (11/10) com vasta programação cultural. Confira a programação completa aqui.

A seguir, conto como foi o meu fim de semana na #9FeliS


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#9ªFeliS - 03.OUT.2015 (Sábado)

O primeiro dia de programação oficial da 9ª Feira do Livro de São Luís contou com uma conferência de abertura de peso ministrada pelo imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Secchin, que analisou com brilhantismo a descoberta da poesia nas obras de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Secchin forneceu ao público cópias dos poemas "Infância" (Drummond), cuja leitura nos foi brindada com o áudio na voz do poeta, e "Descoberta da literatura" (Cabral). 

Antonio Carlos Secchin observado
pelo curador da FeliS
Fernando Abreu
O mérito da análise profunda feita pelo conferencista reside em sua sensibilidade em passear pelas entrelinhas dos poemas sem esvaziar a poesia de seu encanto. Pelo contrário, ao comentar em profundidade as camadas de sentido de verso por verso, Secchin desvela uma leitura muito mais ampla e bela. Traz à tona toda a carga afetiva e psicológica do poeta posta nos versos. 

Secchin: "O poema sabe mais que o poeta"
Sem dúvida, a conferência de abertura com Antonio Carlos Secchin foi uma escolha acertada para substituir o encontro com o teólogo Leonardo Boff, que precisou cancelar sua vinda à FeliS por questões de saúde. Em seu lugar e falando de outro território do saber, Secchin promoveu uma aula de leitura profunda abrindo em grande estilo a nona edição dessa feira que deveria se chamar Festa Literária, tal é a amplitude do portal do conhecimento que se abre com sua vasta programação. 

Nesse sentido, vale destacar que a #FeliS é muito mais que um espaço para comércio de livros, que na minha modesta opinião é só mais um detalhe conveniente em um universo cultural muito maior. A Feira do Livro de São Luís é acima de tudo um território de saber compartilhado de forma gratuita e livre com intensa atividade cultural.

Sebo e Pitomba!
Uma caminhada atenta pela Praia Grande, bairro mais que adequado para a ocupação da feira literária, revela muito para fazer e é bom enfatizar mais uma vez gratuitamente: cafés literários, Cine FeliS, intervenções poéticas, espaços de leitura, mesas-redondas, seminários sobre livro e leitura além de lançamentos de livros. A programação completa merece uma lida com atenção, pois oferece uma infinidade de atividades diárias para toda a família.

No caminho da Vila dos Livros para o Teatro João do Vale, topei com os artistas da Tapete Criações Cênicas na Rua Portugal. Nesta edição, a Companhia apresenta a intervenção poética "Palavras Viajantes". 

Além de assistir à conferência de abertura, visitei no sábado o estande do Sebo no Chão na Vila dos Livros (espaço dos livreiros), onde meu livro Vila Tulipa está disponível para venda. O espaço desse estande está sendo compartilhado com o catálogo da ótima Pitomba! Livros e Discos. Impossível para mim passar pelos livros cuidadosamente editados por Bruno Azevêdo e não sair de lá abraçada com algum. Assim como não dá para garimpar as estantes de Diego Pires e deixar passar a chance de levar algum livro para casa por um acessível preço de sebo. 


#9FeliS - 04.OUT.2015 (Domingo)

O domingo na feira começou cedo para mim, que estava a fim de emendar várias atividades da programação. Às 14h30 eu já estava a postos no Canto do Tonico, espaço da Rede Amiga da Criança, para assistir à exibição do documentário A viagem de Yoani sobre a vinda da blogueira cubana Yoani Sanchez ao Brasil em 2013. 

Cine debate
O documentário de 75min de duração, dirigido por Peppe Siffredi e Raphael Bottino, aposta na narrativa da apresentação de quem é Yoani a partir dos vários olhares que se debruçam sobre sua figura pública, desde que seu blog Generacion Y ficou conhecido no mundo todo por relatar a vida em Cuba com profundas críticas ao sistema político do país. Após a exibição do filme houve um debate sobre liberdade de expressão e política.

Trailer

Na sequência, às 16h30 acompanhei o lançamento do livro Vivendo Teatro Dança - Investigações de uma artista maranhense para crianças de todas as idades da Júlia Emília no Espaço Mary Ferreira (Auditório da Faculdade de História da UEMA na Rua da Estrela). Na oportunidade, a autora falou sobre o trabalho da Companhia Teatro Dança que este ano completa três décadas de existência e leu trechos de seus livros, enquanto a dançarina Luciana Santos fazia uma intervenção artística interpretando a estória. 

Júlia Emília e Luciana Santos
Luciana, eu e Júlia
Na saída do lançamento, tive o prazer de caminhar pela feira na companhia da Júlia Emília a fim de visitarmos os estandes de livreiros e dar uma volta pelo espaço. No estande do Autor Maranhense, onde Júlia pôs seu livro à disposição do público para venda além de disponibilizá-lo no estande da Pitomba!, conhecemos o cordelista cearense Paulo de Tarso, que me presentou com um cordel sobre a lenda de Ana Jansen. 

Júlia Emília, Paulo de Tarso e eu
No fim da tarde, às 18h30 no Odylo, foi a vez de acompanharmos o Café Literário de lançamento de Um Livro de Crítica (Pitomba!) de Frederico José Correa, reeditado 137 anos após a publicação original. A reedição inédita conta com ensaios e fortuna crítica de Ricardo Leão, Sebastião Moreira Duarte e Henrique Borralho, presentes na mesa-redonda mediada por Bruno Azevêdo. 

Café literário de lançamento de "Um Livro de Crítica" com Ricardo Leão, Sebastião Moreira Duarte e Henique Borralho mediados por Bruno Azevêdo
A mesa discutiu em profundidade a historiografia em torno do título de Atenas Brasileira conferido à São Luís, a formação literária maranhense e o exercício da crítica literária no estado. 

Antonio Cícero palestra observado por Andrea Oliveira
Fechando a noite e a programação do domingo, vi ainda a palestra do filósofo e poeta Antonio Cícero (RJ) com mediação da jornalista Andrea Oliveira no Teatro João do Vale às 20h. Cícero percorreu um denso e interessante estudo sobre a relação de inspiração e pertença entre a cidade e os homens ao longo da história. Declamou poemas próprios e de Baudelaire, Bandeira, John Keats, Drummond, Maria Rilke, Vinícius de Moraes, Hokusai e Gullar que ilustram a fusão do sujeito com a cidade. 

Cícero declama poema de Hokusai
Sobre o tema "A cidade e os livros - um percurso de pertencimento", Cícero falou sobre o fenômeno de desenraizamento que transforma a cidade particular em universal. Abordou também como se dá a apreensão instrumental do mundo e discorreu sobre a linguagem como um instrumento que faculta ao ser humano aprender sobre o espaço onde vive.

Mais uma conferência instrutiva e interessante sobre a presença dos livros e da literatura na vida humana em sociedade.