quarta-feira, 11 de maio de 2016

MÚSICA EM FOCO - Entrevista com Paulão sobre o disco "Faz escuro, mas eu canto"


Não tem de ter drama não, Paulão está de volta!

por Talita Guimarães

Paulo César Linhares, o Paulão, compositor que já muito ensolarou a cena musical através da festiva Pedeginja, ressurge em disco solo dizendo-se mais sóbrio. Faz escuro, mas eu canto (2016) acaba de ser disponibilizado no soundcloud e reflete olhares íntimos do músico, que aproveitou o hiato da banda que o tinha a frente como guitarrista e principal compositor, para lançar seu primeiro trabalho individual.

Capa de Faz escuro, mas eu canto (2016)
Arte gráfica e fotografia: Laila Razzo
O resultado é um trabalho solo particular, que se não se distancia totalmente do Paulo César Linhares que conhecemos em Contos Cotidianos (2013) - primeiro disco de estúdio da Pedeginja-, revela um Paulão que ainda não tínhamos acessado plenamente, sobretudo pela oportunidade de extravasar sua musicalidade negra. O gingado e a poesia estão todos lá, revigorados pela via soul, o interesse pelo samba, afoxé e afrobeat.

Em Faz escuro, mas eu canto Paulão interpreta a si mesmo com acurado primor, imprimindo suavidade aos versos que soam como sussurros em melodias que ainda assim conseguem ser dançantes. Há em Paulão um talento para lapidar potenciais hits com graça e inteligência. Afinal não há como não tirar “a mente do lugar” ao “embarcar no refrão”, como propõe em “Faz teu nome”; ou não despir de si “os medos que inventou” (“Música do Sereno”) após “saber se havia reciprocidade” (Sete dias de janeiro).

Na conversa a seguir, Paulão comenta a experiência com seu primeiro disco solo e compartilha um pouco de sua visão sobre o processo, analisando como Faz escuro, mas eu canto reflete uma nova fase da vida e demarca seu posicionamento diante do momento atual.

1. “Faz escuro, mas eu canto” é um verso do poeta Thiago de Mello, que intitula um livro publicado em 1965, já tendo o poema inclusive sido musicado. De que forma esse verso veio dar nome para teu disco e por que ele dialoga com esse trabalho, embora o poema não esteja literalmente no repertório?

PAULÃO: Eu tive uma vivência na Assessoria Jurídica Popular e o Thiago de Mello é um poeta muito querido e citado pelo movimento. Eu tenho, inclusive, uma edição bem antiga desse livro, garimpada num sebo há um tempo.
Apesar de eu ter dado um novo contexto pra mensagem do Thiago de Mello, o verso continua inspirando a esperança de dias melhores, que é também o que esse disco significa pra mim.
Achei um casamento oportuno porque citar Thiago de Mello me situa politicamente num momento muito conturbado da nossa história e também exprime esses conflitos íntimos que marcam o disco.
Com certeza não é um disco militante, na linguagem que tradicionalmente se espera. Mas eu sempre enxergo um fazer político nas opções estéticas do disco, os timbres e ritmos que estão inscritos no álbum têm uma mensagem.

2. O que mudou no Paulo compositor que inspirou um registro mais sóbrio nas canções? Ou: por que este repertório, que é também dançante embora mais introspectivo, se distingue do que você destinaria à Pedeginja?

P: Tanto esse disco quanto o da Pedeginja contam a história da minha vida. Mas as experiências e expectativas que eu tinha àquela época já são muito diferentes das de hoje. Não consigo fugir dessa escrita no meu trabalho, ele só flui com essa honestidade.
Então hoje eu tenho um emprego, um filho, uma vida adulta que me coloca noutro universo e isso influencia diretamente na música. Antes eu não dirigia carro e dirigir foi algo que mudou muito minha vida pra pior, rsrs.
Ainda assim, acho que a Pedeginja suportaria essa mudança e, no fim, a principal diferença acaba sendo a intenção. Como as músicas que estão no meu álbum solo, eu posso me identificar de forma mais direta, é uma comunicação menos ruidosa com o público.

3. Durante o processo de produção do disco você contou com o trabalho do produtor Adnon Soares (CasaLoca) e o acompanhamento de músicos como Sandoval Filho (bateria), Darkliwson Brandão (percussão) e Núbia (backing vocal). Conte-nos como foi a experiência de compartilhar a produção do disco com estes músicos.

PNa verdade, o disco todo foi produzido pelo Adnon, num intenso diálogo comigo. Nesse processo gravamos o disco duas vezes: uma pré-produção em que fizemos todos os arranjos, sem preocupação com a qualidade da captação; e só depois a gravação real, com todo o cuidado necessário para atingir um bom resultado final.
Sandoval, Darkliwson e Núbia, são músicos maravilhosos e deixaram esse disco mais bonito, mas só participaram da última fase, quando Adnon e eu já havíamos definido os arranjos. Então foi com Adnon que tive uma vivência intensa.
Adnon já é uma referência em gravação há muitos anos nessa cena, foi meu primeiro e único professor de guitarra, mas nunca havíamos trabalhado juntos.
Quando eu finquei o pé que queria fazer um disco solo, no contexto em que eu estava, sozinho mesmo, sabia que só valeria a pena se ele embarcasse nessa comigo. Eu dei sorte de ele não estar comprometido com mil outros discos e aí ele veio de cabeça. Só o meu disco e o da Soulvenir por meses.
Apesar de muitas vezes Adnon ser associado a elementos eletrônicos, por conta da Soulvenir, ele tem conhecimento rítmico muito vasto, que me ajudou a canalizar a influência de música negra que já pulsava nas composições.

4. A seu ver o que há na CasaLoca no Cohatrac, que para além de um estúdio, a configura como referência em sonoridade e produção, atraindo a nova geração de músicos local?

PEu sempre digo que a Casa Louca é um lugar onde qualquer pessoa que chegue na paz vai ser bem recebida, sem distinção. É um espaço onde as pessoas se encontram, conversam sobre a vida e se ajudam na correria de fazer música. Acaba sendo o refúgio e alento de muita gente que fica por ali aprendendo e maturando suas ideias.
Mas pra mim, a Casa Louca não deixa de ser a Casa do Adnon. Mesmo quando ele não está fisicamente presente, a casa reproduz uma (des)ordem que emana dele, principalmente.
Adnon possui uma qualidade musical indiscutível, uma sabedoria muito aguçada e uma generosidade ímpar. Então a casa acolhe, as pessoas se ajudam. E todo mundo faz questão de estar por ali.
Ninguém fala desse jeito, mas ele é um guru. Não à toa que o apelido de “Dread Chefe” colou, assim como suas variações, como Dread Certo, rsrs.
A casa tem uma dinâmica muito peculiar e, apesar de eu conhecê-la desde quando era só uma casa comum, na época das aulas de guitarra, ainda estou aprendendo. Nesse último ano passei a ter uma convivência mais perene, no entanto, sei que a casa já teve várias temporadas, rsrs.

5. “Música do Sereno” e “Grilos”, que já eram conhecidas do público na voz da Nathalia Ferro, finalmente ganharam uma versão sua. Como é vestir com a própria voz canções suas que ganharam os ouvidos do público primeiro em versões com outros artistas? 

PCom Música do Sereno foi mais simples porque, acredito eu, o público não tenha feito uma associação tão grande com a Nathalia. O “Alice Ainda” é um disco longo e ela é só a sétima música. Não acho também que ela seja uma das preferidas do álbum.
Desde quando eu ouvia a versão de Nathalia eu já sabia como iria fazer a minha, já tinha pensado alguns arranjos e depois fluiu bem com Adnon.  
Já Grilos é uma composição que tem uma marca muito forte de Nathalia. Essa música era um rabisco no meu caderno que uma vez, por um acaso gigantesco, eu cantei e ela me pediu pra gravar no “Instante”, seu primeiro álbum. Ou seja, se não fosse por Nathalia possivelmente ninguém conheceria Grilos, porque à época a Pedeginja não teve nenhum interesse e eu mesmo não pensava em gravá-la.
Sou muito grato a Nathalia por ter dado vida a essa música e a versão dela é maravilhosa, mas a harmonia foi gravada um pouco diferente do que eu tinha composto, mesmo eu tendo palpitado na produção daquele álbum. A música ficou mais “alegre” na versão dela, mais aberta.
Quando veio o projeto de fazer o “Faz escuro, mas eu canto” não tive dúvidas de que Grilos era uma composição antiga que encaixava muito bem no espírito do álbum. Contudo pra esse trabalho achei adequado preservar a atmosfera pensada quando a compus e manter os acordes melancólicos, que têm a ver com o meu disco.
O resultado entre as músicas é bem diferente. Já ouvi vários relatos de pessoas que “estranharam” a apresentação de Grilos em “Faz escuro, mas eu canto”. Recebo essas colocações com muita humildade, porque sei que a comparação com Nathalia não é sequer justa: a interpretação dela é fantástica.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

LITERATURA EM FOCO - Sobre o livro "A Centelha de Eros" de Felipe Castro


Da fagulha que acende belezas no coração de quem lê

Por Talita Guimarães

Há diálogo e poesia na forma como o escritor maranhense Felipe Sampaio Castro da Costa (Caxias-MA, 1991) se comunica através dos versos de seu livro de estreia A Centelha de Eros (2016). Diálogo pela forma como o poeta nos acerta em cheio com o que nos diz, suscitando que nos comuniquemos, seja ao fazer notas nas bordas das páginas ou procurando o autor para trocar ideias presenciais.

A incontestável poesia que transborda de suas linhas está contida no olhar cuidadoso e atento lançado ao mundo, tanto o exterior que o rodeia quanto o interior que o preenche.

Convicto de sua missão como poeta, Felipe declara de cara logo nas primeiras páginas de seu livro que a “única função do Poeta é acender a fagulha da percepção, de modo que brilhe, em todos, a centelha da Criação.”. Afirmação carregada de responsabilidade que pode injetar certa desconfiança em quem o lê pela primeira vez, ainda desconhecedor de seu potencial.

        Qualquer pé atrás com o autor estreante, contudo, começa a desvanecer páginas depois com a epígrafe “eu sou a véspera do sentido”, que antecipa de modo singelo e certeiro o que vem a seguir: um soprar de fagulhas que acendem belezas sobre a luz da criação, a admiração filosófica com o mundo, o interesse pela experiência de amar, o diálogo com o tempo presente e real, o encontro com a inspiração em comum à sua geração (vide “Ciranda Telúrica”, p.27) e a busca por tudo que encante e alimente a alma desperta do poeta, que vale ressaltar não é tão estreante assim, compositor já conhecido nosso de versos perspicazes como os da canção “Tevê” (Giovanne Chaves/Felipe Sampaio/Hugo Rodríguez) lá do disco dos Telúricos.

A escrita do jovem Felipe é de um rebuscamento incomum para os pares de sua geração literária, porém guarda um refinamento da tradição com as letras que felizmente não prioriza palavras difíceis em detrimento do sentido. Pelo contrário, sofistica o sentir ao vesti-lo com requinte. O resultado é belo e aceitável do ponto de vista da acessibilidade do texto. Porque há em Felipe Castro um desejo sincero em tocar o outro com efeito, cuja sua poesia de ourives cumpre com louvor.

Destaque para os versos de “Amanhã será um novo dia” (p.47-54) quando o poeta sentencia “... perdoar é apenas assoprar de lado” (p.50) ou anuncia “Aquele que crê dar o passo preciso/ É quem mais precisa de ouvidos” (p. 51). Há mais bem-querer pelo estar no mundo em “Preciso tocar antes de transcender: A realidade abre portas para a fantasia” (“Ofício”, p.58) ou nítida sensibilidade sobre o fazer poético quando afirma “Estou poeta, porque passageiro/ Intermitente/ porque sou rio e preciso de água da chuva/ Sou tudo o que posso ser e sentir agora,/ Por isso, estou” (“Recado dado”, p. 69). Na bordinha, cantarolo à lápis em resposta versos do Pitanga em Pé de Amora que me vem para a ocasião: “És rio enquanto eu folha seca a deslizar por ti” e muito bem se adequam à relação do leitor com a obra.

Aliás, meu exemplar, adquirido via escambo literário com o autor que tive o prazer de conhecer na Noite Recorte! realizada pelo Sebo no Chão em abril, está tomado de notas e marcações. Curiosamente, muito do que é dito em A Centelha de Eros dialoga com o que digo em Recorte! (2015), encontrando meu livro um irmão literário no livro de poemas de meu contemporâneo. Quando Felipe diz “A luz me atravessa” em “Caçada” (p.65), por exemplo, escrevo à lápis ao lado “As marcas todas vazadas”, trecho de meu “As coisas pequeninas são tão belas” presente em Recorte!. Prova irrefutável de um saudável “encontro feliz de intencionalidades”, como o teórico Ciro Marcondes Filho teria definido comunicação.



Para todos que se interessarem em deslizar pela poética de Felipe Castro, basta saber que A Centelha de Eros (2016) chega oficialmente ao público no sábado, 14 de maio, às 17h, na Livraria Themis (Shopping Monumental, Renascença). Ótima oportunidade para abrir a “janela que incita a comunicação entre os seres humanos”, como diria o próprio poeta.