domingo, 31 de julho de 2016

PERFIL EM FOCO - Série Quem somos nós por nós mesmos


Paula Mirhan: "A subjetividade é a maior arma política."

Em conversa de quase duas horas com o Ensaios em Foco, a atriz e cantora corumbaense Paula Mirhan conta sua trajetória atravessada pelo fazer artístico. Da infância em Corumbá (MS) brincando de cantar com as irmãs na fazenda da família, passando pelo ingresso no teatro, a ida para Campinas (SP) estudar Artes Cênicas, a fundação da Companhia Les Commediens Tropicales (LCT) até o estudo de canto e o envolvimento com a música através de trabalhos com Wagner Barbosa, Demetrius Lulo, Filarmônica de Pasárgada e outros artistas.

TEXTO E FOTOS POR TALITA GUIMARÃES

Tarde de terça-feira, 19 de abril de 2016. O clima está ameno em São Paulo. Ao que tudo indica, a frente fria alardeada para aquela semana se atrasara. Enquanto a Avenida Paulista pulsa frenética um quarteirão atrás de mim, atravesso uma paralela tranquila e paro na calçada. Contemplo os dois minutos que ainda tenho até as 16h e julgo razoável tocar a campanhia um minuto antes da hora combinada. O porteiro me atende pelo interfone e libera minha entrada. Já no elevador, uma moça simpática pergunta se é para o apartamento da Paula que estou subindo. Estranho seu poder de acerto, mas sorrio confirmando. Ela se apresenta: é Fernanda, irmã de Paula Mirhan. Um café da tarde de muita conversa depois entendo que o despojamento da minha recepção tem muito a ver com a trajetória da irmã de Fernanda. O caminho percorrido pela atriz e cantora Paula Mirhan traz a marca de um fazer artístico orgânico conduzido por encontros motivadores que reforçam o interesse em estar junto para falar sobre algum assunto que se considere especial.

Irmãs Mirhan (Fernanda serve a caçula Paula)
recebem Ensaios em Foco para café da tarde e muita prosa
 
Quando Paula Mirhan foi convidada para falar ao blog, respondeu com um convite para um café em sua casa, na Consolação em São Paulo. De passagem pela cidade, aproveitei a oportunidade para o encontro. Conheci-a através de seu trabalho com a banda paulistana Filarmônica de Pasárgada, onde interpreta as canções de Marcelo Segreto com quem também assina uma música no disco Rádio Lixão (2014) (já falamos bastante de Segreto e Filarmônica aqui e aqui). A performance de Paula no palco entrega uma experiência anterior com outros trabalhos artísticos, sobretudo o teatro. Daí o interesse do Ensaios em Foco em conversar com a artista para conhecer seus trabalhos paralelos à banda pasargadiana.

Convite aceito e café na mesa, peço a Paula que simplesmente me conte sua vida. "Você pode ficar a vontade para contar sua versão da sua própria história", proponho ao que ganho em resposta: "Tá bom! É bastante história". Risos.


Paula Mirhan

INFÂNCIA, SULA MIRANDA E FESTIVAIS

"Eu sou do Mato Grosso do Sul. Nós somos de uma cidade chamada Corumbá, que faz fronteira com a Bolívia. É uma cidade que tem um espírito muito musical, uma ligação com a música muito forte. Tinha uma tradição de festivais estudantis na cidade", conta Paula, que começou a cantar aos nove anos representando o colégio da irmã primogênita na categoria infantil de um desses festivais. "Eu, a Fernanda e a minha irmã mais velha sempre participávamos. Fora a gente, as minhas primas todas", e relembra que na fazenda da avó onde passavam as férias, gostavam de brincar de cantar. "E imitar. Tem um número clássico da gente cantando Roberta Miranda", conta entre risos enquanto a irmã Fernanda sentada à mesa sopra: "Sula Miranda!". 

“Sula Miranda!", Paula repete, corrigindo-se. "Botava a camiseta comprida, dobrava pra fazer um vestidinho, uma bota e a escova de cabelo na mão pra cantar lalilará. Era isso: a gente ficava brincando na varanda. Então a minha irmã já tinha visto eu cantar nessa ocasião e perguntou ‘cê não quer participar da categoria infantil e tudo mais? Ai eu falei 'ah, eu quero'. Ai eu fui. Foi assim que eu comecei, com nove anos cantando umas músicas de Sandy e Júnior. E aí todo ano eu participava. Isso foi até os meus 14, 15 anos. Dos nove aos quinze.", conta.

Quando passou para o ensino médio, Paula ganhou uma bolsa para estudar em uma escola particular que não participava de festivais. O que não significa que não houvesse um movimento musical comandado pelo diretor Fred e sua esposa Rose, que eram professores de química/física e literatura, respectivamente. O casal, muito ligado à música, recepcionava os alunos no começo do período letivo com cantoria e violão. Quando ele soube que eu cantava, grudou em mim e me ensinou músicas que eu nunca tinha ouvido. Sabe aquela música “O velho e a flor”? [e canta "Por céus e mares eu andei/ vi um poeta, vi um rei..." (Vinicius de Moraes, Toquinho, Luis Enrique Bacalov)]. Eu fui ouvir essa música muito tempo depois."

Cantora relembra infância: avó gostava que as netas
 cantassem pra ela música sertaneja de raiz.
Ao lembrar da transformação de seu gosto musical através do professor, Paula envereda pelas lembranças familiares que influenciavam no que ela ouvia até então. "A gente foi criada muito ouvindo música sertaneja. Minha avó gostava que a gente cantasse pra ela as músicas sertanejas bem de raiz. Meu avô ouvia muito polca paraguaia. Lembro muito bem dele ouvindo um instrumental. Depois acho que a Fernanda foi um pouco responsável por uma parte do meu gosto musical e essa escola, porque em casa a gente não ouvia música. Não tinha uma coisa de vamos ouvir música. Então a gente ouvia muita rádio. Estudava com o rádio ligado. Depois a Fernanda passou a ouvir Legião Urbana. Na época dos cassetes eu lembro de comprar alguns cassetes que eu gostava. Lembro de comprar um do Michael Jackson. Quando eu entrei nessa escola passei a conhecer essas coisas todas que eu gosto muito hoje. Chico Buarque, eu não sabia quem era Chico Buarque até os meus 16 anos. Então lá, o Fred e a Rose me levaram na casa deles e me mostraram todos os vinis do Chico que eles tinham." conta.

A oportunidade de cantar na escola vinha quando a época de vestibular se aproximava e os estudantes promoviam festas com a finalidade de arrecadar dinheiro para contratar transporte e hospedagem para os vestibulandos prestarem as provas nas universidades mais próximas, que ficavam em outras cidades. "O lugar mais próximo de Corumbá pra prestar a USP era Presidente Prudente. Você não conseguia prestar USP e Unicamp dentro do Mato Grosso do Sul naquela época. Então tinha que ir até Presidente Prudente.", explica Paula.

A festa, que se chamava ENAM Canta Brasil ("ENAM é o nome da escola", emenda Paula sobre a sigla para Escola Neuza Assad Malta), contava com apoio da escola que até ajudava com equipamentos e estabelecia um horário para os ensaios das apresentações musicais. "A banda de apoio era com alguns professores, os professores cantavam, os alunos, os pais dos alunos.", Paula lembra.  

Paralelamente ao envolvimento com as atividades musicais na escola, Paula Mirhan teve seu primeiro contato com o teatro no segundo ano do ensino médio. Uma amiga chamada Marcele convidou-a para fazer aulas porque não queria ir sozinha. "Fui lá fazer com ela. Fiz, amei e fiquei. Ela saiu, nunca mais fez teatro na vida dela!”. Recentemente, ao reencontrar essa amiga perguntou se ela sabia que era responsável por Paula ter se tornado atriz. "Ela falou ‘sério? Eu não sabia!’" conta Paula que entrou para o grupo de teatro amador da cidade e chegou a se apresentar em festivais durante os dois anos seguintes. "Montei uma peça antes de entrar na Unicamp e foi basicamente isso que aconteceu.", resume.

INCENTIVO PATERNO, UNICAMP, LES COMMEDIENS TROPICALES

Basicamente é uma palavra um tanto modesta para resumir o ingresso de Paula Mirhan nas artes cênicas. Em sua primeira peça, o clássico Pluft, o fantasminha da dramaturga Maria Clara Machado montado antes de Paula entrar na faculdade, a atriz estreou com a perna quebrada. Literalmente. Ou quase. "No ensaio geral eu cai do palco e quebrei o dedinho. Só que eu falo que eu quebrei a perna" e explica com bom humor que foi porque o enfermeiro enfaixou a perna inteira, dando margem para a referência à expressão usada no teatro para desejar sorte. “É ótimo: quebre a perna! Boa sorte! Foi uma boa estreia. As crianças achavam que o Pluft tinha morrido porque ele tinha quebrado a perna. ‘Ah, cê quebrou a perna e morreu?!’, lembra entre risos.

A transição do teatro amador para o profissional, contudo, não surgiu como opção primeira quando Paula foi prestar vestibular. Pelo contrário, Jornalismo e até mesmo Zootecnia passaram pela cabeça da vestibulanda, cujo plano era se formar em um curso que lhe desse uma "profissão" enquanto a experiência com o teatro ficaria para a vivência em algum grupo da cidade que ela fosse morar. Justamente nesse momento de tomada de decisão Paula se reaproximou do pai, que era divorciado de sua mãe e vivia fora. Acontece que tendo, coincidentemente, um pai ator, Paula não pode deixar de ouvir a voz da experiência. Quando soube que a filha não pretendia fazer faculdade de teatro, o pai sentenciou: "Então você nunca vai deixar de fazer teatro amador!"

A frase bateu forte na moça, que só então se deu conta de que havia uma possibilidade acadêmica e profissional real no campo das Artes Cênicas. Até então, o desconhecimento da formação superior na área e o medo da família não ver a carreira de atriz como profissão, impediam a jovem de se profissionalizar. Foi preciso levar um choque com a frase do pai e contar com seu incentivo para criar coragem e prestar vestibular para Artes Cênicas na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. "Meu pai me mandou vários livros pra eu ler. A primeira peça que eu li foi o meu pai que mandou. Depois do Pluft, o fantasminha, foi a Casa de Bonecas, depois eu li Galileu, Galilei do Brecht. Todos livros que ele comprou e foi me mandando. Tem uns que eu tenho até hoje.", fala Paula Mirhan cuja lembrança daqueles tempos em Corumbá reporta uma realidade de difícil acesso a livros e filmes. Dificuldade essa que, segundo a artista, ainda não foi totalmente superada pela cidade. "A cidade mal tinha uma biblioteca, mal tinha cinema. A cidade não tem cinema até hoje. A música salvou a cidade. Era o único respiro que a cidade tinha.”, desabafa.

Finalmente escolhido o curso, o ingresso na Unicamp proporcionou a descoberta de um universo que fascinou a universitária de Artes Cênicas. "Foi maravilhoso, eu não tinha ideia do que era a faculdade de artes cênicas. Foram quatro anos que eu vivi aquilo profundamente, profundamente. O curso é integral, 'cê tem aula de tudo. Imagina aula de circo, de dança de todos os tipos, aula de canto que é uma coisa que eu nunca tinha feito e eu vi o quanto eu melhorei, o quanto eu aprimorei. Eu jurava que tava tudo bem, que cantava, isso aí. Não pensava em fazer aula, nada pra mim era uma coisa profissional e mesmo dentro da faculdade, eu cantava porque nas cenas eu sempre dava jeito de ter uma música, a gente sempre colocava uma música e compunha umas músicas. Tive muita certeza de que eu me juntei com a turminha certa na faculdade assim. Isso foi fundamental pra mim”.

Inclusive os professores. "A minha turma teve muita sorte porque a gente pegou o melhor corpo docente dos últimos dez anos da Unicamp", considera Paula, que cursou Artes Cênicas entre 2001 e 2004. E aí cita um dos professores que mais marcaram sua trajetória: o encenador Márcio Aurélio Pires. "Foi fundamental na minha formação. A maneira como eu penso teatro. Eu dou aula também hoje em dia e o que eu falo pros meus alunos muito é do que ouvi dele. Ele me ensinou a ver teatro de um jeito que eu não imaginava. E foi ele que dirigiu minha peça de formatura. Ele apadrinhou totalmente a minha companhia."

A companhia, chamada Les Commediens Tropicales, derivou de um exercício de adaptação de romance para cena no terceiro ano da faculdade, quando a turma montou  a peça Galvez, Imperador do Acre do autor amazonense Márcio Souza sobre a guerra do Acre, na ocasião da disputa do estado entre o Brasil e a Bolívia. A peça contava com a turma toda em cena em um espetáculo de três horas cujo formato não agradou a maioria das pessoas envolvidas. Paula, contudo, adorou a experiência. "Foi ai que eu descobri que o teatro podia ser divertido". Mas afinal do que ela gostara tanto? "Aah, eu gostava da liberdade que a gente tinha em cena. Não existia cenário, praticamente. Éramos nós narrando muitas coisas e nos transformando em muitas coisas. Nesse exercício ainda tinha bastante parafernália", recorda.
Galvez, Imperador do Acre foi remontada como peça de formatura. Desta vez sem os objetos de cena, com um figurino reduzido para apenas peças íntimas e encurtada em uma hora de duração. "Metade da turma continuou o processo e outra metade foi fazer outro espetáculo. Éramos muitos atores de novo em cena narrando essa história. Eu gostava mais ainda do que o do terceiro ano porque tinha esse olhar da gente completamente nu em cena falando dos primórdios das questões políticas. Sobre todas as questões políticas que a gente tá vendo ainda hoje. O Márcio era um professor que falava muito do quanto a gente não tem memória política.", afirma Paula, que assim como o professor critica a repetição de erros na política nacional que parece não aprender com a história. "As pessoas não lembram, esquecem o que aconteceu nos primórdios da história do Brasil. Então era um espetáculo bastante político nesse aspecto, ele falava dessas questões do Acre de um jeito bem crítico, sobre como essa revolução foi feita, por quem ela foi feita." 

Vem dessa época a escolha do nome da companhia que Paula ajudou a fundar. "Le Commediens Tropicales era uma companhia francesa falida que veio pro Brasil, se apresentou no Teatro de Manaus e virou A Companhia. Essa coisa que a gente tem de abrir as pernas pro estrangeiro, né? Vira melhor do que qualquer coisa. Então a primeira dama passou a ser a grande primeira dama, só que esses artistas em Manaus se apresentaram, fizeram sucesso só que no fim eles terminam pegando em armas pra lutar na guerra. Vão todos presos. Então a gente gostava dessa história. Um dia a gente precisava dar um nome pra companhia, a gente pensou por que não essa companhia falida francesa? Somos nós! Então o nosso começo das coisas vem daí. Hoje em dia a gente assina LCT.”, conta.

Em 2015, a LCT completou dez anos com vasto repertório de espetáculos encenados. Da formação original ficou Paula e seu contemporâneo de Unicamp Carlos Canhameiro. Ao longo dessa década de existência, uniram-se a eles Rodrigo Bianchini, Michele Navarro, Daniel Gonzalez e Tetembua Dandara. O ingresso de novos integrantes se dá principalmente por questões de afinidade. Amigos que indicam pessoas afins, técnicos que foram trabalhar com a companhia e acabaram entrando em cena, entre outras situações não-convencionais de ingresso. 

Outro diferencial da companhia é a ausência de hierarquia. Todos atuam e se alternam entre as atividades de gerenciamento da produção. E isso vale também para a função de diretor. "Há um tempo que a gente optou por não trabalhar mais com diretor. A gente chama pessoas pra nos provocar, pessoas que a gente quer que assistam o ensaio e nos provoque, bata de frente.", coloca Paula, revelando que as pessoas convidadas são em sua maioria diretores de outras companhias com quem eles flertam artisticamente. 

Por esses e outros fatores, Paula Mirhan crê que a LCT tem se distanciado cada vez mais do fazer teatral aproximando-se muito mais da arte performática. "A gente anda cada vez menos teatral. Menos teatral é com mais vontade de misturar um pouco mais as artes. A gente gosta muito e hoje em dia a gente trabalha com À Deriva, um quarteto que toca músicas autorais de um jeito bem solto, bem improvisado. É muito bonito de ver”, elogia.

A caminho do segundo espetáculo com o quarteto, que também veio da Unicamp e tem a mesma idade da LCT, o processo de concepção do trabalho estabeleceu uma relação de criação coletiva onde os músicos entram em cena criando uma narrativa musical integrada à encenada. "Não são músicos em cena, são artistas criadores tanto quanto nós. Eles não fazem música pra cena, não tão fazendo a trilha sonora. São parte do espetáculo", demarca. No último espetáculo, por exemplo, a valorização da música como narrativa fica clara em uma cena cuja duração é delimitada por uma música de 15 minutos. 

Quarteto À Deriva em cena durante o espetáculo Mauser de garagem (2016)
(Foto: Divulgação LCT)
E aí o interesse em saber qual tipo de história a LCT conta afinal é inevitável, ao que Mirhan declara o exato desinteresse da companhia por narrativas tradicionais com início, meio e fim."A gente não conta muitas histórias. A gente inclusive vê nos dez anos de companhia o quanto a gente foi abandonando cada vez mais isso” e resume com certeira simplicidade: "A gente quer falar sobre um assunto.”.

Pergunto então qual narrativa interessa à LCT. E aí Paula começa "A gente tem se interessado por...", silencia, suspira e retoma num fôlego só: "A gente tem um olhar muito político. É difícil falar político porque eu acho que teatro por si só já é político. É um ato político. Estar em cena é um ato político. Fazer ainda mais da maneira que a gente faz. Tem uma coisa que a gente gosta muito e tem conversado muito que é a subjetividade. A subjetividade é a maior arma política. Então a gente tem vontade de propor. O último espetáculo que a gente fez era uma hora e quarenta de espetáculo em um andar inteiro do Centro Cultural São Paulo onde a gente se baseou na autobiografia do Heiner Müller, que é um dramaturgo contemporâneo alemão que viveu a segunda guerra, foi contemporâneo do [Bertold] Brecht, mas ele é mais novo que o Brecht. Morreu agora na década de  2000. Que falava um pouco sobre o momento político que ele tava vivendo. A gente traçou um paralelo direto com o momento político que a gente tá vivendo e por tudo que a gente tem passado e ai a gente fez um espetáculo que chama "Guerra sem batalha ou agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores neste mundo, apenas vencidos". A ideia era um pouco de instalação, então a gente tinha vontade que o público entrasse e ficasse a vontade pra assistir o que ele quisesse. Tava tendo uma cena aqui, ao mesmo tempo tava rolando um acontecimento ali atrás, uma projeção aqui e todo esse material que a gente colheu tinha em comum..." [silêncio] "... falar sobre o desejo de subjetividade, o desejo de humanidade, tanto que a gente montou dentro do Guerra sem batalha um dos espetáculos que era um espetáculo inteiro de uma peça do Heiner Müller chamada Mauser, onde o Mauser fala de um homem que sempre matou pela revolução e um dia ele matou por si só. Matou não em nome da revolução e foi julgado e condenado pela revolução. Então a gente falou muito sobre isso, sobre matar pela revolução e ai você perde. A revolução te torna essa pessoa que mata, mata sem pensar sobre o ato, legitima. Um dia você justamente por perder um pouco a noção né, por poder perder a noção do que é o ser humano e o ato de matar, você mata e não pela revolução e ai você é julgado. E ai era o Mauser, essa figura falando ‘mas eu fiz isso por vocês, foi por isso’ e a revolução falando ‘não, você precisa morrer porque senão a revolução deixa de fazer sentido’".

Nesse ponto, a fala de Paula revela o interesse pela reflexão que ronda os limites entre o coletivo e o individual. "Nosso desejo dentro do Mauser era muito falar sobre o quanto a gente era a favor da humanização. Como assim uma pessoa gritando 'eu não quero morrer, eu não quero morrer' a revolução mata?", questiona.

Seguindo essa linha, a próxima peça que LCT apresentará ainda em 2016 será Baal.material a partir do texto de Bertold Brecht. Para Paula Mirhan a crítica política segue contida no trabalho elaborado pela companhia sem exatamente se expressar pelo levantamento de bandeiras específicas. "A gente não levanta bandeiras. Se eu pudesse dizer a bandeira que a gente levanta em cena [diria que] é a bandeira da subjetividade ou da estética" e enfatiza o apreço da Les Commediens Tropicales pela estética no sentido de beleza mais pura. "Se uma pessoa for assistir o nosso espetáculo, olhar uma imagem e falar assim "que imagem linda!" ou se arrepiar por alguma coisa, pra gente isso já é suficiente, a sensibilização", afirma Paula, que critica o didatismo exagerado de alguns grupos teatrais de São Paulo ao levantarem bandeiras sem muita preocupação estética.

Pergunto se o alvo da crítica são as mensagens muito mastigadas. "É. Grita umas verdades em cena. E a gente assim não tem nenhuma verdade, a gente tem muita vontade de estar presente naquele momento com aquelas pessoas e a gente não tem personagens, a gente não veste personagem nenhum. Tem figurino? Tem. Representa personagens que estão na peça? Representa, mas somos nós fazendo. Sou eu Paula fazendo, falando aquele texto, dando voz àquele texto.”, esclarece.
A ficção que não dialoga com as identidades, realidades e discursos dos integrantes da LCT não interessa à companhia explorar. “Por isso que eu acho que a gente pega muito mais pra performance que pro teatro. A gente foi ficando cada vez menos teatral. E a gente não é muito amado. A nossa companhia não é muito amada por causa disso.”, ri-se, entre a ironia e a consciência de que as escolhas do grupo não são exatamente populares no meio.

Indago por que esse caminho os distancia conceitualmente do fazer teatral e então Paula me explica que para uma certa visão do teatro o fato deles não criarem personagens os torna "maus atores". "Como assim não ter personagem? Como a peça não tem personagem? Não tem. Tem traços, tem narrativas, a gente sabe, mas a gente não tem uma preocupação em se transformar em outras pessoas. O nosso desejo é tempo presente.", discorre. 

Tal posicionamento foi construído ao longo dos dez anos da carreira. "Essa pulga atrás da nossa orelha foi plantada pelo Márcio Aurélio, que dirigiu a nossa primeira peça que foi a Chalaça. No Chalaça ele dizia pra gente ‘não precisa fazer personagem, eu quero vocês narrando isso'. O ator não usa máscara nenhuma. Não tem máscara nenhuma."

Chalaça, a peça, foi encenada em 2006 e conta a história de Francisco Gomes da Silva, o mensageiro de Dom Pedro I que era seu braço direito para tudo, inclusive para providenciar o encontro do imperador com mulheres fora do casamento. Para a companhia, o texto segue muito atual uma vez que toca em um personagem ainda existente na política nacional: o sujeito que ganha poder político por bajular alguém. 

O espetáculo inaugura na companhia o trabalho com vídeo, tornando uma constante nas produções seguintes a presença de aparelhos televisores e telas exibindo imagens e vídeos durante as peças. 

O interesse em discutir o que é o sucesso deu o tom ao trabalho seguinte: A última quimera (2007), sobre a vida do poeta Augusto dos Anjos comparando o sucesso que ele não obteve em vida com o prestígio que ele passou a ter após a morte. O contrário do que supostamente houve com o também poeta Olavo Bilac, que foi muito reconhecido em vida e depois foi deixado de lado. 

Dois anos depois, a companhia experimentou um maior uso da tecnologia na montagem de Pato Selvagem (2009), transformando o drama em uma espécie de peça high tech, com o uso de vídeo mapping, que consiste em uma técnica de projeção de imagens em superfícies irregulares. Já em Concílio da Destruição (2012), a peça é filmada e exibida ao vivo em uma tela que traz um recorte de novela para as cenas. 
Paula Mirhan em cena durante espetáculo Concílio da Destruição (2012).(Foto: Divulgação LCT) 
O gosto por essas camadas de realidade, demonstrado no constante uso de televisões e tecnologias, se integrou totalmente ao trabalho da LCT.

Diante de tão intrigante fazer teatral, é inevitável tocar no assunto circulação para saber como têm sido recebidas as peças e por onde a companhia tem passado. É então que Paula Mirhan, que infelizmente nunca conseguiu levar nenhum espetáculo da LCT para sua cidade Corumbá, reclama da dificuldade de sair do estado ou pelo menos levar os espetáculos para um público maior em temporadas mais longas em São Paulo mesmo. 

Após receber um último fomento, ano passado, para realizar todo o repertório da companhia, as cinco primeiras peças do LCT foram abandonadas. Não serão mais encenadas devido a dificuldade de montar e circular com elas. "Primeiro porque é muito difícil circular teatro em São Paulo, muito difícil. Mesmo tempo que as leis permitam que a gente produza muito, a gente não circula. Não consegue ficar em cartaz por muito tempo ou porque não tem teatro, porque ninguém compra o espetáculo, não circula muito... A gente até circulou, mas é vergonhoso assim a quantidade de vezes que a gente circulou, muito pouco", e elenca Porto Alegre (RS), Londrina (PR) e Resende (RJ), além do interior de São Paulo como lugares por onde a companhia circulou com espetáculos.

A intervenção urbana  (ver [ ] ter) foi o espetáculo da LCT que mais circulou. Trata-se de um diálogo com a obra do artista de rua britânico Banksy, reconhecido por famosos grafites e estêncils e por manter sua identidade anônima. Nessa série de caminhos de rua, a LCT dialoga com as imagens criadas por Banksy, mas não só elas. Interessam também o pensamento e a forma como o britânico intervém. "O Banksy pega um cantinho assim e transforma aquilo num grafite. Então a gente tinha uma coisa de olhar pra cidade e construir imagens. Ir lá pegar um feixe de sol, por exemplo, e usar aquilo como iluminação, um enquadramento da cidade. A segunda cena é um escorregar na parede. Tinha a ver com um exercício que a gente fazia de dança. Escorregar bem lento, as pessoas derretendo assim. Tem um outro que sou eu cantando 'quem sabe eu ainda sou uma garotinha...' sabe? Malandragem. Enquanto uma mulher se veste - a gente chama de mulher Tóquio - seriam essas meninas mega high techs que usam várias coisas. E a outra uma mulher da mesma idade se vestindo de bomba com uma burca. A imagem da burca faz parte do Banksy. A última imagem da peça somos nós com a asa de anjo bebendo uma cerveja, ouvindo um som, fumando um cigarro que é uma imagem do Banksy, que é uma criança com uma bebida com um "x" assim, com um cigarro com asa de anjo. A gente pegou essa imagem e termina o espetáculo com ela, com anjos espalhados pela cidade."
(ver [ ] ter): intervenção urbana inspirada na obra de Banksy. 
Foto à esquerda: anjos espalham-se pelo Vale do Anhangabaú, em São Paulo.
Foto à direita: pessoas escorregam pela parede de vidro da parada de ônibus.
(Foto: Divulgação LCT)
Em junho de 2016, a LCT lançou, em publicação comemorativa contemplada pelo Programa de Fomento ao Teatro do Estado de São Paulo, o livro Les Commediens Tropicales 10 anos - arrancar a relva para que o verde permaneça e o disco O muro: rever o rumo, fruto da parceria com o quarteto À Deriva. A edição especial conta os dez anos de história da companhia através de registros fotográficos, trazendo ainda a íntegra da dramaturgia de Concílio da destruição. A distribuição da publicação, editada pelo Selo Lamparina Luminosa, é gratuita.

Além da Les Commediens Tropicales, Paula Mirhan integra ainda uma companhia de teatro infantil onde atua e faz a trilha sonora. 

AMANHECER, CAFÉ DA TARDE E FILARMÔNICA DE PASÁRGADA  

Quando a conversa passa ao trabalho musical paralelo ao teatro, Paula conta que
Capa do disco Amanhecer - Ao vivo (2009)
"o Amanhecer foi o começo de tudo". E nesse sentido fala literalmente. É que seu primeiro disco, apropriadamente intitulado Amanhecer (2005)nasceu da parceria com o compositor e preparador vocal Wagner Barbosa, que assina as doze faixas
 do disco. No repertório, um passeio autoral entre a bossa-nova, o samba-canção e o baião. Curiosamente, Paula e Wagner se reuniram com a intenção de tirar um repertório para apresentar em botecos de São Paulo só que as composições de Wagner chamaram a atenção de Paula, que imediatamente sugeriu outro caminho. "A gente tava precisando ganhar dinheiro. Bem isso. Mas ele chegou no primeiro dia de ensaio na minha casa e mostrou as músicas dele, aí eu falei 'vamos fazer isso! A gente nunca tocou num boteco' e aí a gente construiu o CD. Já foi assim: vamo ensaiar e fazer o CD!", lembra Paula que na época dividiu com Barbosa os custos do disco, que conta com dois volumes - um de estúdio e um ao vivo no estúdio com novos arranjos e a faixa bônus Valsinha (Chico Buarque/Vinícius de Moraes) - pelo selo Tratore

A parceria, que começou nesse disco, seguiu com Barbosa acompanhando Paula em sua preparação vocal para outros trabalhos. "O Wagner é meu parceiro até hoje. Ele me acompanhou em todos os discos da Filarmônica. Tá lá no estúdio comigo me ajudando a pensar a voz. Um parceiro irmão até hoje", fala com carinho.

O segundo trabalho resulta de nova parceria, desta vez com o cantor e compositor Demetrius Lulo, com quem Paula foi casada. Ao ser convidado para uma apresentação na França, onde já havia morado e estabelecido contatos, Lulo convidou Paula para acompanhá-lo. A ideia inicial era que cada um levasse seu trabalho autoral, até que um amigo em comum sugeriu que os dois gravassem algo juntos. Acatada a ideia, nasceu Café da tarde (2011), disco que reúne composições de Demetrius Lulo, Tó Brandileone, Giana Viscardi, Danilo Moraes, Fábio Barros, Wagner Barbosa, Dante Ozzetti, Celso Viáfora, Caê Rolfsen e Rafa Barreto. "Tenho maior orgulho de falar que a gente foi pra lá pra tocar a produção dessa geração paulistana", comemora.

Para isso, Paula e Demetrius precisaram correr contra o tempo. "Foi uma loucura. O disco chegou um dia antes da viagem! Tudo foi pensado pra viagem. Ele ser levinho assim [e mostra o disco na embalagem fina], pequenininho. A Dani Gurgel [fotógrafa] que fez. A Dani ajudou a gente pensar pro CD não pesar na mala, não quebrar. Não podia ser de acrílico. Se você reparar são os móveis aqui de casa, a xícara que 'cê tá tomando café, essa cadeira que eu tô sentada, esse sofá vermelho que você tá sentada. Foi tirado aqui, ó essa janela", revela mostrando que o cômodo onde estamos foi o cenário da sessão de fotos para o encarte do disco. 

Paula Mirhan e o disco Café da Tarde: música e café na sala de casa.
O show, que a princípio seria um só, se transformou em uma temporada de quarenta dias com 22 shows em várias cidades europeias, entre elas Porto, em Portugal e Lyon, na França. 

Antes de embarcarem, Paula agendou para a volta ao Brasil a apresentação do mesmo show na Casa de Francisca. "É um espaço fantástico aqui em São Paulo. Acho que é um lugar onde mais se respeita a música e o músico. É uma casa nos Jardins meio teatro de bolso, a coisa mais linda. É um restaurante. Tem uma comida maravilhosa, um atendimento maravilhoso que durante o show para tudo, fecha a cozinha e os garçons sentam pra assistir o show. É de um bom gosto do começo até o fim", elogia.

Ao fim justamente do show realizado nesse espaço, Vinícius Calderoni - artista múltiplo com trabalhos na música, no cinema e no teatro; integrante do coletivo 5 a seco- , que estava na plateia declarou a Paula e Demetrius que queria dirigir os dois, transformando o show em um espetáculo com cenário, participações especiais e direção musical. É que a apresentação que Vinícius assistiu já tinha forte teatralidade com a interpretação que Paula Mirhan e Demetrius Lulo, na época um casal na vida real, empregavam ao cantarem o encontro e o amor. "A gente sempre flertou com o teatro. E aí o Vini veio e valorizou todas as músicas do repertório. A maneira como ele pensou a sequência valorizou, por exemplo, o Café da tarde que é a música que dá nome ao disco", explicou. "Ele meio que encorajou a gente a fazer o que a gente já tinha muita vontade de fazer. E aí a gente fez o cenário. O Demetrius construiu o cenário com as próprias mãos, eu pintei, foi tudo a gente que fez bem lá em casa. Os móveis da nossa casa.", lembra. "A gente não fingia que a gente não era um casal. A gente era um casal em cena. O Vini escreveu um roteiro, tinha umas falas. Era uma peça de teatro cantada onde do começo até o fim tinha um roteiro", Paula conta lembrando que o formato não era comum na época, o que soou como novidade no meio. Impactando inclusive na relação da própria Paula com a interpretação musical. "Eu me libertei, o dia em que eu fiz isso. Mudei minha relação com a Filarmônica inclusive. A maneira de eu atuar" afirma Paula, que atualmente também dá aula de expressão vocal e canto em duas escolas profissionalizantes de Teatro em São Paulo. 

No vídeo a seguir é possível conferir trecho do show Café da Tarde já sob direção de Vinícius Calderoni com o duo interpretando Só o que falta (Caê Rolfsen/Fabio Barros).

Com o Café da tarde, o duo fez várias temporadas em São Paulo com apresentações no Tom Jazz e na Sala Crisantempo. E estiveram no Rio de Janeiro também, em show que contou com a participação de Luiza Sales e Vinícius Castro (vídeo abaixo). "A ideia do Café da tarde era sempre a gente receber dois convidados, um casal. Sempre um casal que a gente enfiava no meio do show, pensava em músicas que tinham a ver com o roteiro e eles também entravam nessa teatralidade, sempre tinham que fazer uma ceninha. Então muita gente passou pelo Café da tarde: Pedro Viáfora, Ana Trea, Vinícius [Calderoni], Bruna Caram, Giana [Viscardi], Tó [Brandileone], Celso Viáfora, Caê Rolfsen, o Wagner [Barbosa]... O único show que não tinha convidado foi o que a gente fez pelo Sesi no interior", diz Paula sobre a temporada de quatro shows nos Sesi's feitos em 2014.

Mesmo após a separação, Paula e Demetrius, que mantiveram a amizade, realizaram ainda algumas apresentações do projeto, que segundo a cantora não circula mais por falta de oportunidade. "Não deixou de ser verdade porque a gente se gosta muito. Da última vez que eu fiz o show com o Demi eu queria colocar algumas músicas novas, acho que faria sentido. Músicas que interessam pra gente musicalmente, pra gente cantar junto porque o Demi e eu cantando junto funciona muito, muito. É lindo assim. Eu gosto mesmo, acho bonito. Tenho muito orgulho desse projeto, acho especial. Uma pena não circular tanto, porque é fácil de circular. O cenário cabe em um carro. A gente já viajou de carro. Fazer o som é fácil, o show flui. É um show que dá vontade de fazer, é bonito. É demais!", derrete-se.

Ao que tudo indica, na trajetória de Paula Mirhan os encontros foram abrindo novos caminhos para parcerias e trabalhos que fluíam ao mesmo tempo tanto no teatro quanto na música. Paralelamente ao Café da tarde, Paula já cantava na banda Filarmônica de Pasárgada, cujo convite para fazer parte viera do compositor da banda, o também vocalista e violonista Marcelo Segreto em 2008. "Tudo aconteceu ao mesmo tempo. O Wagner virou parceiro do Demetrius. O Demetrius virou parceiro do Marcelo, convivendo muito, vivendo junto, foi assim", fala Paula cujo interesse por música autoral levou-a a fazer um show chamado "Quatro cantos" com quatro compositores, entre eles Guilherme Meyer. Quem abriu o show foi Marcelo Segreto cantando um chorinho com um humor tão peculiar que chamou atenção de Paula. "Falei 'que legal, a música desse cara!' Eu cheguei nele e falei ' gente, adorei as suas músicas, queria conhecer o seu trabalho, vai lá em casa' aí ele falou 'tá bom!'. Um dia ele me ligou e falou assim 'você quer entrar pra Filarmônica?' Aí ele já veio com uma pasta, uma pasta rosa que eu tenho até hoje, com todas as partituras e as letras. Ele queria que eu declamasse um poema do Bandeira, né? 'Vou-me embora pra Pasárgada...' E aí a gente começou a fazer show em boteco, show na USP, muito show na USP e aí foi crescendo", conta Paula que desde o início achou o trabalho da banda diferente. "Nunca tinha visto nada parecido, principalmente a forma como ele tava pensando arranjo, música. Pensando música popular a, b, refrão, improvisa, volta, sabe? Era bem diferente assim, gostei. Ah, tomei pra mim, tomei muito pra mim o trabalho. Virei parceira e tô até hoje", conta Paula Mirhan cuja primeira parceria com Segreto é Mil amigos, canção do segundo disco da banda, o álbum Rádio Lixão (2014). Em Algorritmos (2016), terceiro disco que será lançado em setembro deste ano, a dupla repete a parceria em Control C Control V

A título de exemplo, o clipe da música Seu Tipo (Marcelo Segreto), produzido pela Cuca da Onça, apresenta o humor típico da Filarmônica de Pasárgada que fisgou Paula.


Na banda, os discos são idealizados como projetos temáticos, assim Marcelo Segreto apresenta um tema e todo o repertório é construído em cima disso. Para o disco novo, o tema é internet. "Ele [diz] 'eu quero falar sobre internet' e não há quem destitua ele dessa ideia. Aí ele manda artigo sobre pra gente conversar, a gente chega a pensar sobre algumas coisas, eu cheguei a mandar algumas coisas também e a gente sabe que as composições vão vir em algum momento com esse tema. Ele propôs pra mim uma parceria, mandou a letra pra gente fazer a música, então é assim. Eu sou péssima compositora, não toco direito nenhum instrumento só que eu tenho umas ideias, umas ideias melódicas e daí eu apresentei pra ele uma ideia harmônica que é super simples, ridícula, tenho muita vergonha", confessa Paula entre risos, com um bom humor que já remonta ao clima da banda. "Mas o Marcelo é muito coração, ele aceita e faz um arranjo e eu viro parceira dele. É um negócio maluco", desconversa modesta.

Queira ou não queira, não é só Marcelo quem recebe bem as ideias de Paula. A cantora Vanessa Moreno, por exemplo, também já gravou uma composição da vocalista pasargadense, que além do teatro, do duo, das aulas e da banda também tem mais um projeto paralelo com Patrícia Lopes, com quem se apresentou em Nova York recentemente. 

Não bastasse, integra ainda o quinteto EXPERIMENTO5 #1 com repertório de músicas que ela e os amigos Daniel Muller (piano), André Bordinhon (guitarra), Rui Barossi (baixo) e Guilherme Marques (bateria) tem vontade de tocar. Entre elas duas músicas da Filarmônica, Mil Amigos e Trânsito, esta última inédita de Segreto. 

IDENTIDADE, MEMÓRIA, TEMPO E AFETO

Cai a tarde e a conversa vai se inclinando para a reflexão sobre a história compartilhada até ali. Quando a narrativa da vida de Paula Mirhan nos alcança no tempo presente, a luz do sol já se vai.

A voz amansa para aquele tom que reservamos às memórias afetivas. A identidade mato-grossense entra em pauta quando Paula recorda que em Saudadeando, canção de Marcelo Segreto que a Filarmônica de Pasárgada gravou para o disco O Hábito da Força (2013), o trecho "nesse nosso dia a dia/ quando em você eu se perdia/ o onde era agora/ o quando era aqui" se transforma em "nesse nosso dia ardiaem referência direta ao sotaque corumbaense. Há um carinho desmedido em sua voz, quando relata: "Eu me lembro de cantar 'dia ardia' de me emocionar assim".



Reparo no rosto de Tom Zé estampado na capa do vinil Tribunal do Feicebuqui (2013) atrás de Paula e pergunto pela parceria da Filarmônica de Pasárgada com o tropicalista no referido disco. Ela explica que o jornalista Marcus Preto convidou vários grupos, entre eles a Filarmônica, para gravar o EP com Tom, o que resultou em um processo que envolveu muita gente de modo que coube ao Segreto ter mais proximidade com o processo de criação, pois compôs música com Tom Zé. A participação da banda foi durante as gravações, quando Paula gravou coro e os músicos tocaram.

A menção breve a Tom Zé ativa uma memória antiga, leva Paula de volta aos tempos de ENAM em Corumbá, ao lembrar que Fred, o professor que lhe apresentou Chico Buarque, é fã de Tom Zé, o que a faz refletir sobre o quão inesperado foi estar com o músico que um dia ouvira seu professor falar.

Trocamos ideias sobre acessos e escolhas que conduzem caminhos e então Paula analisa a própria caminhada. "Eu escolhi coisas que eu gostava muito. Isso faz toda a diferença. Teve um dia numa época da minha vida que eu trabalhava muito e eu parei e falei assim 'não, eu preciso parar de fazer alguma coisa' e aí fui olhar tudo o que eu fazia e era tudo meu. Eu não tava fazendo nada que não fosse meu, sabe? Nada que eu não quisesse fazer. Nada, nada, nada, nenhum trabalho pra ganhar dinheiro. Era tudo coisa que eu acreditava e curtia."

Logicamente, houve um momento em que a artista se viu diante de situações que não correspondiam ao que ela queria para si. "Tive crise de fazer coisas para ganhar dinheiro. Tive crises morais.", afirma.

A relação com São Paulo é outro ponto que interessa à reflexão. A mudança na percepção de espaço e tempo foi o que mais marcou a transição de Corumbá para a capital paulista. "A coisa das distâncias foi um negócio muito louco. A mudança de paradigma. O que é longe e o que não é? Porque Corumbá tudo pertinho. O tempo também foi uma coisa que eu estranhei: as pessoas andavam muito rápido. Eu não conseguia acompanhar o passo da minha irmã. Não conseguia.", relata Paula, que já contava com parentes em São Paulo quando se mudou em 2000, entre eles sua irmã mais velha. "Cheguei em 15 de novembro de 2000, no feriado e a primeira coisa que eu fui ver foi um show da Rita Lee", sorri.

Embora a partida de Corumbá tenha sido definitiva, Paula nutre um carinho muito grande por sua cidade natal, para onde retorna frequentemente a fim de rever a família e revisitar lembranças. "A minha relação com a cidade é outra hoje completamente. É uma relação de amor. Do lugar que eu vou, que eu gosto de andar nas ruas, fazer os caminhos que eu fazia de casa pra escola. É uma relação afetiva, de memória. Tem pessoas muito queridas morando lá. Tem uma memória de paladar, de comida, festiva, que os carnavais de Corumbá são lindos, super legais. Eu acho que eu passaria uma temporada lá fácil de descanso, por exemplo, porque o tempo da cidade é real. O daqui não. O tempo daqui não é real. O tempo que a gente vive aqui é acelerado. O tempo não é real e passa a ser. Todas as vezes que eu voltei pra lá foram importantes pra eu lembrar de algumas coisas, de voltar pra São Paulo com esse olhar.", e conta que a relação de amor com a capital paulista, cidade que a acolheu, é recente.

"Eu não consigo viver em um lugar onde eu não tenha referência de arte de outros lugares. São Paulo proporciona muito isso. Por mais que seja uma cidade grande, classe musical é isso, classe teatral é isso, você conhece todo mundo, você acaba desenvolvendo, circula e conhece as pessoas", declara.

O posicionamento a respeito da realização profissional surge em função da acolhida cheia de oportunidades oferecidas pelo lugar onde Paula Mirhan escolheu viver. Em conversa com a família, a artista percebeu que a noção de sucesso ainda é alicerçada em uma referência midiática, sobretudo televisiva. Ao passar em revista por toda intensa produção de sua trajetória, contudo, não há como não se convencer de que estamos diante de uma profissional que obteve sucesso e que pelo entusiasmo com que segue produzindo, ainda percorrerá um longo caminho de realizações.

Há maturidade e serenidade na forma como Paula Mirhan narra a própria história. Sua voz mansa, em volume contido, é muito parecida com a que meus ouvidos conhecem dos discos da Filarmônica de Pasárgada. Os movimentos dos braços ao falar, ora econômicos ora expansivos, refletem as notas de seu discurso ora reflexivo ora entusiasmado. A longa conversa regada a pão de queijo com café - o dela quente, o meu frio porque gosto assim, o que aflige Paula de início - percorre a trajetória de uma vida narrada pela própria protagonista. Com suas escolhas narrativas, lembranças que opta por compartilhar, fatos cuja memória considera relevantes. É assim, através de um relato em primeira pessoa que conhecemos o que pensa a dona da história. 

E é com a história de Paula Mirhan, por ela mesma, que o Ensaios em Foco inaugura com muita honra a série de entrevistas Quem somos nós por nós mesmos. De agosto a dezembro, publicaremos conversas resultantes de encontros com pessoas que muito tem a nos contar sobre suas vidas e projetos. Sempre a partir de um relato pessoal fruto de um olhar afetivo sobre a própria trajetória.

terça-feira, 12 de julho de 2016

MÚSICA EM FOCO - Sobre "Cássia Eller, o musical"


Cássia Eller, o musical: uma experiência

POR TALITA GUIMARÃES


Começa com um por um dos músicos da banda surgindo das laterais do palco e acomodando-se aos seus instrumentos: violões, guitarra, baixo, bateria, piano, sanfona. Em seguida, acordes de guitarra soam a vinheta de abertura. O baixista à direita se levanta, ergue os braços e saúda a plateia com o emblemático símbolo rock and roll da mão chifrada. A música cresce e o elenco vai entrando em cena dançando e se cumprimentando. O instrumental de Do lado do avesso (Cássia Eller) chega ao seu ápice no momento em que as luzes são reduzidas e irrompe no palco uma figura esguia, de violão pendurado e um corte de cabelo moicano. Tudo acontece muito rápido: a artista caminha entre os músicos, toca interagindo com eles até que o som cessa quando ela para ao microfone e com as luzes fechadas só nela entoa os primeiros versos de Lanterna dos Afogados (Herbert Viana) à capela. A voz, o porte, as vestes. Nada deixa dúvidas: Cássia Eller está diante de nós.

Assim começa Cássia Eller, o musical apresentado em São Luís pela primeira vez entre os dias 08 e 10 de julho no Teatro Arthur Azevedo. O espetáculo de mais de duas horas de duração, que estreou nacionalmente no Rio de Janeiro em 2014, tem Direção de João Fonseca e Vinícius Arneiro com Texto de Patrícia Andrade, Direção Musical de Lan Lanh, Codireção Musical de Fernando Nunes, Design de Luz de Maneco Quinderé, Figurino de Marília Carneiro e Lydia Quintaes, Direção de Movimento de Márcia Rubim, Cenografia de Nello Marrese e Natália Lana, Visagismo de Beto Carramanhos e Produção de Elenco de Cibele Santa Cruz. Grande parte da equipe técnica formada por pessoas próximas à trajetória da artista homenageada.

Para contar a história de uma das vozes femininas mais importantes da música brasileira, o espetáculo passeia pela vida da cantora desde os tempos de adolescente tímida e introspectiva, que vivia trancada no quarto dedilhando os mesmos acordes ininterruptamente no violão recém-ganhado, passando por suas primeiras experiências amorosas, o espanto da família com sua orientação sexual, a mudança para Brasília, o ingresso no teatro até o envolvimento efetivo com o cenário musical na capital federal e a chegada ao mercado fonográfico através do primeiro contrato com a gravadora Polygram, em São Paulo. Na sequência, o musical deslancha por sua carreira fenomenal, embora curta, pois cessada pela morte precoce de Cássia com apenas 39 anos, em 2001.

Todas as experiências da artista, da menina solitária à mulher admirada e assediada, são contadas com delicadeza e humor. O texto de Patrícia Andrade privilegia um registro muito respeitoso dos acontecimentos marcantes da trajetória da artista. Com ágil dramaturgia, os diálogos e movimentos no palco são muito bem coreografados fazendo uso de pouquíssimos elementos cênicos para apoiar a atuação, que conta com nada menos que a execução ao vivo de trinta e oito canções, entre vinhetas e músicas completas. Os atores, afinados e afiados, se alternam entre personagens, chegando o mesmo ator a interpretar até cinco pessoas diferentes da vida de Cássia Eller.

E se o ótimo elenco escalado prepara muito bem o ambiente para a história a ser contada e cantada, não há como deixar de mencionar a arrebatadora atuação da curitibana Tacy de Campos no papel de Cássia Eller. Da primeira aparição à despedida do palco, Tacy transpira Cássia em timbre, comportamento e trejeitos idênticos ao da cantora. De imediato arrepia ouvi-la cantar, assim como emociona vê-la no palco caracterizada com um figurino que reproduz as vestimentas usadas pela artista ao longo da carreira. Da famosa camiseta cinza da capa do álbum Com você meu mundo ficaria completo (1999), à faixa vermelha nos cabelos, os bermudões e casacos xadrez. Tudo na preparação de Tacy honra o imaginário que ficou de Cássia Eller.

A decisão acertada para a escolha da intérprete está ligada à sua escalação envolta em um processo não-convencional de seleção, em que Tacy, que até então não trabalhara como atriz, mas cantora nos palcos curitibanos, chegara à produção através de um vídeo no youtube. Reconhecido seu potencial para o musical, a cantora que sequer se inscrevera, fora convidada a fazer o teste. Conta-se que logo na audição, a simples presença da candidata com sua timidez muito parecida à de Cássia já fora suficiente para emocionar a equipe técnica que encontrou nela um talento a ser revelado, tal qual o projeto intencionava além de homenagear Cássia. 

Dentre os momentos musicados mais marcantes do espetáculo, destacam-se os duetos entre mãe e filha, quando Cássia e sua mãe Nanci (vivida pela ótima Juliane Bodini) conversam sobre a capacidade do amor conduzir as decisões que as pessoas tomam ao longo da vida e cantam juntas Noite do meu bem (Dolores Duran); o belíssimo duo para Palavras Ao Vento (Moraes Moreira e Marisa Monte) feito por Cássia e sua companheira Maria Eugênia, interpretada com precisão pela afinadíssima Eline Porto; o solo de Cássia só voz, violão e luz para a clássica Por enquanto (Renato Russo); novamente Cássia e 'Geninha' desta vez numa das cenas mais bonitas do musical, em que o casal canta 1º de julho (Renato Russo) para embalar a gestação de Cássia, que não por acaso resulta em uma sequência de cenas delicadas com a cantora amamentando o filho Francisco, a quem carinhosamente chama Chicão. É possível, inclusive, que 1º de julho  somado à Todo Amor que Houver Nessa Vida (Cazuza/Frejat) cantado por Cássia, Maria Eugênia e Nanci representem os mais emocionantes encontros de forças femininas em cena, seja com o verso "Eu quero a sorte de um Chicão tranquilo..." que já de início transborda ternura numa interpretação suave como uma canção de ninar, quanto no manifesto "...sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher/ sou minha mãe/ minha filha/ minha irmã/ minha menina/ Mas sou minha, só minha/ e não de quem quiser", da canção-presente composta por Renato Russo para a família de Cássia.

Quando chega a vez de cantar Malandragem (Cazuza/Frejat), já no auge da carreira, Cássia desce do palco e divide o microfone com a plateia que canta a plenos pulmões um de seus maiores sucessos. E aqui cabe confessar que assisti duas sessões do musical (a das 21h do sábado 09 e a das 19h do domingo 10/07) e nas duas a plateia soltou a voz, ainda que com certa timidez quando o microfone se aproximava muito. (E sim, nas duas chorei mais de uma vez.)

Seguindo a narrativa, Cássia se desentende com o produtor que propunha espetacularizar a turnê com uma estrutura que não agradava a artista, adepta da simplicidade em um palco próximo ao público, de onde ela conseguisse olhar as pessoas nos olhos. Em resposta, a música interpretada na sequência é Nós, do maranhense Tião Carvalho, numa arrepiante formação com voz e três violões. E nesse sentido, vale muito louvar a competente banda que sustenta todo o musical, formada por Felipe Caneca (piano e sanfona), Diogo Viola (guitarra, violão e bandolim), Pedro Coelho (baixo), Mauricio Braga (bateria) e Fernando Caneca (violão). Os músicos tocam quase que ininterruptamente sem esmorecer, interagindo com o elenco de forma orgânica, integradíssimos ao espetáculo no palco. E se esse comentário pode parecer óbvio, fica aqui o alívio por não descobrir a banda escondida no fosso da orquestra, portanto distante da ação, como infelizmente poderia acontecer.

Após pouco mais da metade do musical conhecemos como se dá a chegada da percussionista baiana Lan Lanh, vivida por Thainá Gallo, à vida de Cássia. Convidada pela própria Cássia para integrar a banda numa turnê, Lan Lanh e a artista logo se identificam muito, cultivando grande amizade e amor dentro e fora dos palcos. Outro parceiro musical importantíssimo cuja relação com Cássia foi também a de um grande amor é o cantor e compositor Nando Reis, interpretado pelo versátil Emerson Espíndola, um dos atores que mais se alterna entre personagens em cena dando vida a Ronaldo, Marcelo Saback, Elder, um executivo da Polygram e Nando Reis. Esforço que deve ser levado em consideração antes de criticar a pouca semelhança de sua voz com a de Nando, o que não prejudica em nenhum momento a força de suas cenas com Tacy. Aliás, responsáveis por muitas lágrimas adicionais, sobretudo quando protagonizam a cena mais doce do espetáculo: após se conhecerem e cantarem belamente Relicário (Nando Reis), composição que Nando leva para Cássia pois crê ser a sua cara, Cássia dispara que quer gravar um disco só com músicas dele, ao que o rapaz, tão tímido quanto a nova amiga, alerta que não seria bom para a carreira dela afinal acabara de gravar um álbum só com composições de Cazuza no repertório. "Me produz!", Cássia insiste e então Nando considera melhor essa possibilidade pedindo que os dois se encontrem antes na casa dela e tirem umas músicas no violão para ver no que dá. Já visivelmente encantada com o novo parceiro, Cássia pergunta se ele irá mesmo lhe visitar. "Vou sim!". "Amanhã?". "Todo dia!", Nando sorri e ganha um coração desenhado no ar com as mãos da moleca Cássia Eller que sai correndo em seguida, deixando-o sozinho no palco com cara de apaixonado. "Estranho seria se eu não me apaixonasse por você..." é inevitavelmente a fala musicada que vem na sequência, com o retorno de Cássia para que os dois sentados a beira do palco troquem olhares, comparem seus famosos tênis e vivam um momento de afeto mútuo, com Cássia beijando furtivamente a bochecha do amigo enquanto ele canta All Star (Nando Reis) para ela.

Devido o longo tempo passado, já se prevê que o musical se aproxima do fim. Vemos então uma Cássia angustiada com a fama e o assédio, cansada com o exaustivo ano de 2001, em que fez quase uma centena de shows em poucos meses. Estafada, a artista demonstra inquietação e irritação para a companheira e os amigos. Lan Lanh pede para a que a banda maneire nos excessos a fim de ajudar Cássia a cuidar da saúde. Tenta inclusive impedir a amiga de sair tarde da noite para beber, alegando preocupação.

A sós com Maria Eugênia, Cássia desabafa sobre o cansaço, mas também sobre não querer deixar os músicos na mão suspendendo a agenda intensa, que incluiria uma turnê internacional no ano seguinte. E então as duas combinam de descansar com Chicão pelo menos após o show do réveillon no Rio. Cássia se levanta, caminha em direção à plateia e mirando o horizonte dirige-se ao filho. Pede que ele se comporte e obedeça à mainha Eugênia, que logo Cássia estará de volta. Lança um beijo no ar e sai de cena. 

Segundo Sol raia nas vozes do elenco, que pouco a pouco retorna ao palco com a expressão dura de quem vê um ciclo ser encerrado "sem explicação", como canta a letra da música de Nando Reis. Todas as luzes caem até unirem-se na cadeira vazia no centro do palco. É possível sentir, com nó na garganta e um aperto no peito, que Cássia partiu. Desfecho narrativo belíssimo e sensível sobre uma partida precoce que chocou o país e ainda hoje, passados 15 anos, é difícil de acreditar. Talvez porque a passagem de Cássia pela Terra tenha sido tão intensa e importante que não tenha simplesmente passado como coisa que finda. Sem premeditar, sua união estável com Maria Eugênia, por exemplo, garantiu após sua partida e com alta repercussão a pioneira decisão judicial de conceder a guarda de um filho à companheira, no caso de um casal do mesmo sexo. Avanço que abriu portas legais para muitas outras famílias brasileiras. Além, é claro, de toda relevância de seu trabalho musical plenamente alinhado com seu enorme talento e personalidade. No documentário Cássia (2014), dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, é possível acessar detalhes importantes sobre a trajetória da artista que por uma decisão artística, não caberiam ao musical retratar. Nesse contexto, o DOC funciona com um ótimo complemento informativo ao belíssimo musical. Afinal, Cássia Eller, o musical é mais que um espetáculo teatral musicalmente intenso (a decisão de não haver intervalo com um grande repertório sequenciado foi proposital por parte da Direção Musical assinada por Lan Lanh, cuja intenção era fazer parecer um show mesmo). Trata-se de uma experiência. A de - para muitos, que como eu lamentavelmente não tiveram a chance de ir a um show - viver a sensação de ser tocado ao vivo pelo som e o vigor de Cássia Eller.

Porque no fim das contas, tanto o musical e o documentário quanto as homenagens que de tempos em tempos se fazem a Cássia (a maior e mais recente delas na última edição do Rock in Rio, em 2015) reforçam o quanto sua energia vital ainda está entre nós. O que definitivamente me faz pensar que a vida, essa força pulsante que nos anima a seguir em frente, nunca vai embora de fato.
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EXTRA - Para entender mais sobre minha relação pessoal com a obra de Cássia Eller, leia a crônica Serginho, Cássia e eu, publicada na coluna semanal que escrevo e ilustro para o Armazém de Cultura, que a propósito está de aniversário em julho com um conteúdo especial e sorteio! 

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NOTA.: A Produção do musical não permitiu fotografar nem filmar o espetáculo, por isto o texto veio sem imagens.